Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



sábado, 29 de julho de 2017

Saber a verdade (não) gerará confiança!


Nos mais diversos campos de atividade podemos constatar que a melhor forma de servir a confiança passa por falar e por viver a verdade, seja no modo verbal, seja na forma mais comprometedora que é a de ser verdadeiro, tanto na forma como no conteúdo.

Ora o que temos visto nos tempos mais recentes pode ser interpretado como o antagónico de tudo isso: imensos sinais nos levam a suspeitar que não nos dizem a verdade, ou que, antes, nos escondem factos e situações, numa espécie de simbiose entre a mentira e a manipulação… nos incêndios, nas notícias, etc.

Enquanto quem ocupa os postos de poder pretender sentir-se dono da verdade, poderemos viver na ingrata consideração de que alguém usa os lugares em que se encontra para ganhar ascendente sobre quem está fora desse âmbito privilegiado e, por isso, suscetível de ter benefícios sobre os outros…

Enquanto formos vendo que os afastados da cátedra do mando invetivam quem tal posto ocupa como se fosse um intento de sobreposição em vez de ser uma oportunidade de serviço… veremos que, mudados os ocupantes, a manjedoura continuará a atrair quem dela se aproxima mais ou menos ávido de tratar os demais como por agora são considerados…  

= No contexto social nacional temos vindo a viver episódios diversos onde quem está acima negligencia quem está em baixo…embora ainda recentemente tenha estado por cima. Decorrido o tempo de nojo da passagem pelo poder foi-se gerando nova apetência para voltar a ser dominante. Pena é que os tiques agora acusados não tenham sido vistos anteriormente, pois isso serviria de lição para entender quem subtrai informação ou quem apresenta laivos de ver de soslaio quem reclama com maior ou menor ruído…

Parece que se paga com idêntica moeda – embora se esteja em diferente lugar do espaço de negócio – o que antes foi feito e por agora se reverte sem nexo ou qualquer pejo de contradição.

Efetivamente a muitos dos atores destas ações – políticas, sociais, económicas e afins – falta memória e até alguma vergonha, pois, o que agora se pretende exigir, antes não foi atendido e o que agora é feito já foi contestado mesmo sem resultado… 

= No complexo espetro do nosso mapa psicológico nacional vemos, recorrentemente, surgirem uns tantos ‘salvadores’ duma pátria ensimesmada sobre o seu passado. Mesmo quando nos apresentam leituras otimistas do nosso presente coletivo, há como que, em cada um de nós, um ‘velho do restelo’ mais profundo que desconfia de tudo e de todos e que lança suficientes anátemas sobre algum sucesso realizado… Isto é ainda mais acicatado pelo clima de crispação recente e recorrente em que vamos vivendo. Deste modo a pretensa verdade não conseguirá manifestar-se em confiança, mas talvez em ceticismo tácito ou mesmo pírrico. Em boa parte das situações vivemos como que em desconfiança para com os outros, senão mesmo para com a própria sombra… Somos, por natureza, bastante pessimistas e acreditamos pouco nas nossas potencialidades… 

= Agora que dizem que o desemprego desceu a menos de dez por cento. Agora que dizem que a credibilidade económica subiu a níveis de há dezassete anos. Agora que tudo parece mais pacífico em matéria de contestação social e sindical. Agora que o sucesso parece que se antepôs, temporária e artificialmente, a trabalho, vamos tentar dizer a verdade uns aos outros para que se possa gerar a confiança uns nos outros e todos em que manda e em que contesta, mas pouco.

Antes que o país vá para saldos, alegremo-nos! Até breve, se ainda não pagarmos impostos por pensar e para podermos dizer o que queremos!   

 

António Sílvio Couto



segunda-feira, 24 de julho de 2017

Controlo da informação: porquê, para quê ou por quem?


Um dos tiques mais comuns das chamadas forças totalitárias é o do controlo da informação, condicionando, deste modo, o direito a ser livremente informado, a ver/escutar a versão que não somente a oficial, a antes de mais dar critérios de escolha e não somente uma visão única, a criar a componente de pluralidade e, sobretudo, a que não haja uma leitura uniforme da diversidade de perspetivas…dos acontecimentos.

De facto, no estertor da capitulação dalgum regime ou na composição dalgum sistema que faça com que a maioria pense o que quem manda desejar, o controlo da informação é um dos adjetivos que mais recorrentemente favorece quem manda, seja lá a instância que for… em que, quanto mais elevada possa parece, mais se podem ver tais fenómenos, por muito subtis ou mais disfarçados que nos apareçam ou sejam servidos.  

* Portugal apresenta um longo historial sobre esta matéria, desde o ‘lápis azul’ do regime anterior até às comissões sindicais mais ou menos zeladoras das publicações…em democracia, passando pelos condicionamentos com que tantas vezes a comunicação social – anteriormente a escrita, mas também a radiofónica e a televisiva – tem precisado de lutar para possa ser o mais livre e independente possível…  

* Poder-se-á dizer que quanto mais controlador for o regime ou o sistema de governação mais se tornará plausível entender que os tiques de ditador emergem nas opiniões formuladas ou encomendadas, nas fugas a prestar esclarecimentos, nas declarações sem direito a perguntas, nos comunicados de certos gabinetes de informação, no centralismo informativo, nos espaços publicitários ou nas demandas ao abrigo do direito de resposta…sem resposta.  

* Mais uma vez dizemos que ser a voz-do-dono pode trazer regalias, mas, por certo, não nos trará (maior e melhor) qualidade informativa e esta tem de ser procurada e não meramente limitar-se a reproduzir as frases exaltadas (e exaltadoras) dos gabinetes que cozinham as notícias, não podendo (ou devendo) fazer dos profissionais da área meros tambores de ressonância de quem manda…  

* Nos tempos mais recentes temos visto e sentido que muito daquilo que é a (dita) informação positiva sobre o país sofre deste complexo de branquear as dificuldades e fazer crer que tudo corre bem quando se encomenda tal promoção…E não aceito que chamem epítetos de sabor antinacionalista a quem não alinha nesta feira de vaidades e de mentiras… A prova de que algo não é sério nem credível é a de concentrar nas mãos duns poucos aquilo que pode interessar a todos, mesmo que isso possa ser a contragosto…de quem exerce o poder, hoje como ontem.  

* Não será por se estender um manto colorido por sobre todos os cidadãos deste país que viveremos muito mais do que uma paz que não seja podre e que teremos uma convivência mais ou menos tolhida pelo medo de destoar da maioria, mesmo que esta possa estar intoxicada pela informação que lhe servem… O nivelamento social tem caído mais e mais até à vulgaridade dos intervenientes e intérpretes anónimos ou mais relevantes.  

* Agora que vivemos uma espécie de jornalismo popular – onde cada cidadão se acha no direito de filmar, de gravar, de reproduzir ou de difundir – o que vê, assiste ou ouve…mesmo que possa atingir o foro particular mais pessoal de outrem…torna-se ainda mais importante que os profissionais da comunicação não se convertam em utilizadores acríticos dessa espécie de face-book mais ou menos tolerado e sem rede…desde que bajuladora do poder. 

= Quem tem tanto medo de que não falem de si senão for só bem? Quem tem andado a semear ventos, fazendo de conta que apazigua tempestades? Porquê, para quê ou por quem somos, afinal, controlados?

 

António Sílvio Couto



sexta-feira, 21 de julho de 2017

Ter apreço ou estar sob apreciação?


Do contacto que vou vendo com várias pessoas, em diversos lugares e até sob a designação de profissões diferentes nota-se que, em certos casos, as pessoas estão mais sob apreciação do que são, correta, honesta e sinceramente, apreciadas.

Talvez deva, desde já, fazer uma declaração de interesse – o mais desinteressadamente possível – sob quem vou centrar a atenção: os padres. Outrora muito apreciados e, nalgumas situações, mais ou menos adulados, parece que hoje se lhes não dá tão grande apreço como em antanho. Aquilo que era considerado como motivo de honraria – repare-se no destaque social do próprio e por vezes da família – talvez muitas coisas tenham sido revertidas em desfavor, senão explícito ao menos tácito. Em certos momentos isso como que fez criar um certo ambiente anticlerical…até por algum excesso de protagonismo e de posição dominante dos clérigos…ao menos no círculo mais próximo, aproximado ou em aproximação.

Relegados para uma certa penumbra social, os padres, atualmente, têm de ter uma vocação forte e fortalecida em questões muito para além do meramente natural. Hoje as sombras que pairam sobre as cabeças de tantos dos ministros da Igreja como que levam uma razoável maioria a tentar vulgarizá-los como se eles fossem homens do culto – preferencialmente no espaço do templo ou em tarefas adstritas ao social – e não tanto de cultura.  

* Nota-se, por parte duma razoável porção dos leigos, que andam pela Igreja, algum afastamento na apreciação que fazem dos padres que têm a responsabilidade mais direta do seu cuidado. Em muitas circunstâncias só notam a sua falta quando não têm os serviços pretendidos. Temos visto, nalgumas terras, que quem mais exige é quem menos dá, isto é, pretende-se receber e quase nunca se dá…nem o mínimo.

Quantas vezes quem mais parece estar na onda de quem é chamado a conduzir a comunidade dos irmãos como que se vai distanciando no entendimento das questões e mesmo na prossecução dos objetivos comunitários mais elementares… Pequenas divergências podem originar suficientes atritos e desentendimentos a roçar um certo neopaganismo de ideias e de práxis.   

* Acredito numa Igreja que viva a marca dos ministérios, tanto dos laicais mais simples como dos eclesiásticos mais elaborados. Não há que temer a complementaridade de todos e de cada um, pois será quando nos sentirmos e vivermos em sintonia de ideais que poderemos crescer e ajudar-nos a progredir na fé em comunhão e pelo perdão para a paz. Nunca por nunca um leigo deverá eclesiasticar-se nem um padre laicizar-se (no sentido pejorativo do termo), pois se tal acontecer corremos o risco de andarmos em funções trocadas senão mesmo concorrenciais…dentro ou fora do espaço eclesial.

Na medida em que formos refletindo sobre a Igreja que somos e qual é aquela que precisamos de ser…neste tempo e nesta terra, assim seremos capazes de viver no esforço de compreensão mútua, sem nos deixarmos ficar tropeçados nos erros pessoais e alheios. Na medida em que cada um saiba ocupar o seu espaço único e singular, assim teremos capacidade de fazer os outros crescer na maturidade espiritual cristã. 

* Deixamos agora algumas questões que poderão servir-nos para que possamos ser os cristãos – seja qual for a vocação, a missão ou o ministério – que vivem com vontade de construir uma Igreja que seja imagem e sinal da presença de Deus no mundo:

- Como nos aceitamos na diferença complementar e na complementaridade diferenciada?

- Teremos padres que o são por (total) vocação de serviço ou como chefia à maneira do mundo?

- A capacidade de evangelização dos leigos assenta na integração ousada ou na fuga medrosa do mundo?  

- A família sente-se como ‘escola de fé’ ou arrasta-se como refúgio descomprometido e sem sal?

- Pelo aconchego que se possa conceder aos padres, temos sabido ampará-los ou estamos mais em atitude de escorraçá-los pela indiferença?

- Somos bons na crítica ou vivemos na conversão à dimensão comunitária?

Do apreço à apreciação haveremos de crescer em Igreja, como Igreja e para a Igreja.

 

António Sílvio Couto



terça-feira, 18 de julho de 2017

Porque não dei para o peditório…


Decorrido cerca dum mês sobre os graves acontecimentos na zona do Pinhal interior e mais recentemente na região de Vila Real e de Viseu, em matéria de incêndios e das suas consequências, emergiu uma espécie contestação à forma como tem decorrido a distribuição das campanhas entretanto realizadas...tendo em conta os milhões angariados e ainda não disponibilizados a quem precisa.

Nota-se nalgumas mentes e por parte doutros mentores a proposta de que a coordenação e a entrega das ajudas deve ser acometida aos órgãos de governo (autárquico e central), não deixando o devido espaço nem a correta intervenção da iniciativa privada.

Ora, é por causa desta estatização e da exagerada concentração de ações de caráter solidário nas mãos e no poder de quem pode usufruir de benefícios com aquilo que foi a participação desinteressada, que me leva a considerar que não me sinto incentivado em contribuir para tais peditórios...

Por entre certas anomalias podemos perceber que nem sempre a solidariedade que tão dignamente carateriza o povo português – com o coração sobrepujando-se tantas vezes à inteligência – tem correspondente dignificação por parte daqueles que se arrojam distribuidores de benesses aos seus apaniguados, fazendo crer que a torneira das regalias melindra quem se sinta necessitado de ajuda... 

= Há, no entanto, um manto de silêncio – será propositado ou cúmplice – sobre tantas e tão benéficas iniciativas onde a Igreja católica participa, seja porque se empenhou nas campanhas, seja porque estando mais próxima das pessoas – o que é muito para além da entidade abstrata das populações – e conhecedora das suas prioridades, mas que é quase acintosamente esquecida e/ou menosprezada. De quando em vez fomos vendo alguns jovens escuteiros a participar, mas as ações organizadas por tantas e tão diversificadas associações sócio-caritativas passam ao lado das informações noticiosas...

Os milhares de euros recolhidos nos peditórios das missas de 1 e 2 de julho passado, em todo o país, não podem, por uma questão de justiça, ser entregues às autoridades civis, pois estas têm critérios nem sempre claros e tão poucos dignificadores dos que precisam de ajuda...

Não reconheço qualquer autoridade aos governantes que se apropriem dos dinheiros recolhidos para fazer deles uso para a (possível) conquista de votos para as próximas eleições autárquicas. Não reconheço nenhuma presunção de inocência a quem noutras ocasiões fez tão mau serviço àqueles que foram vítimas de acidentes, incidentes ou tragédias... Com efeito, já foi há décadas que decorreu a tal ‘operação pirâmide’ (em 1978 e que rendeu cem mil contos), onde foram recolhidas milhares de peças de roupa, de alimentos...de ajuda vária, mas que nunca chegou aos destinatários... Depois disso outras campanhas foram desenvolvidas e os resultados redundaram em imensas suspeitas, tendências de corrupção, aproveitamentos em desfavor dos que não receberam o que deviam e precisavam... Parece que não aprendemos com o passado e os acontecimentos do presente mais não fazem do que continuarmos a tentar ludibriarmo-nos complacentemente...  

= Fique claro: as ajudas devem ser canalizadas por entidades que não possam ter benefício algum – eleitoral ou de promoção social – daquilo que é recolhido ou para quem possa usufruir dessas ajudas. Torna-se, cada vez mais urgente, que as ajudas cheguem condignamente àqueles a quem se dirigem e não sejam dadas a conta-gotas como que os recetores fossem menores ou menorizados.

Afinal, estes acontecimentos trágicos vieram, mais uma vez revelar, quem somos como povo, tanto no melhor como no mais abjeto...

Que as próximas eleições autárquicas possam aferir da maturidade de votantes e eleitos!

 

António Sílvio Couto



segunda-feira, 17 de julho de 2017

Como caixa-de-ressonância…da voz do chefe


Os mais recentes episódios da vida política, dos casos sociais e até mesmo das intervenções (entrevistas, comentários, silêncios e cumplicidades) de muitos dos agentes da comunicação social – estatal, estatizada ou suportada pelo erário público – refletem uma situação clássica: são a voz do chefe e repercutem-na na informação e nas indicações de quem lhes paga…

Só assim se compreende que lapsos, falhas, lacunas, inconveniências, erros, falhanços, percalços, inverdades, insinuações, etc. nunca perdoados a outros, agora sejam rápida e subtilmente esquecidos por quem os pratica, desde que ocupe a área do poder da geringonça em ato e faça declarações altissonantes que permitam confundir quem esteve menos atento ou talvez distraído…

Já noutra observação chamamos a este comportamento a atitude do ‘surfista bem penteado’, que vai sublimando a tempestade de modo incólume, mas agora como que poderemos considerar que há um clima de impunidade – também já escrevemos sobre este ambiente – que abrange quem está a mandar, deixando transparecer que há imensos tentáculos que estão em funções e até áreas (pretensamente insuspeitas), como as da Igreja católica, já conheçam a estar nesse raio da ação, senão de forma explícita ao menos de forma tácita, revestindo como que elogios a clérigos (dos vários graus) e com momentos de presença em atos públicos onde seria escusado que tais ‘autoridades’ se apresentassem… tão ostensivamente.

Há órgãos de comunicação – antes tão adversos ao hálito do poder – que agora fazem desfilar à porfia os mentores e os benjamins de quem dá cobertura a tudo quanto começa a assemelhar-se a um certo regime de caudilhismo latino-americano agonizante, onde uns são ressonância do chefe e onde quem discorda é incluído na lista com a dum terra-tenente ideológico à semelhança do ‘democrata’ turco… Claro que não digo os nomes, mas tenho-os detetado de forma progressiva e numa vergonha assunção de quem não se esconde, pois parecem ter alguma salvaguarda das chefias editoriais e mesmo comerciais! 

= O que temos visto nos dias mais recentes tem muito a ver com a ressuscitação de várias figuras do (dito) socratismo, agora na versão de secretário de estado. Aquilo que alguns classificaram de ‘tralha socrática’ parece estar de volta ao espaço do poder investido…pois o outro, o de influência, tem andado à deriva, mas nunca foi extinto totalmente. Quem não tenha andado distraído ou tenha feito ‘zapping’ por já estar enfastiado com as notícias de enrolar nos vários canais e até órgãos de imprensa, poderá ter percebido que alguns dos que voltaram já nos criaram condições – de facto ou de modo implícito – para termos vivido anos de austeridade e de sacrifícios. Ora, quem conheça, minimamente, a filosofia da história saberá concluir que factos idênticos dão consequências semelhantes… Sempre assim foi e talvez assim será, em breve!

Deste modo não será de bom augúrio que tenhamos ao comando dos destinos do país quem foi formado – ou talvez formatado – para esbanjar o que foi com tanto sacrifício amealhado ou quem faz do seu umbigo o âmbito prioritário das decisões que outros terão de pagar a médio prazo. 

= Agora que estamos a viver a romaria de apresentação dos múltiplos candidatos autárquicos é um ver quem mais pronuncia dislates sobre os adversários, como se isso fosse uma boa recomendação para ocuparem os lugares pretendidos. Ei-los a ver quem toma a dianteira sobre matérias que escaparam aos concorrentes e logo, em forma de remoque, uns respondem e outros tentam inventar fait-divers para que se não perceba a insuficiência intelectual e/ou o vazio de ideias…atuais e para o futuro.

Como dizia alguém, recentemente, é preciso que não deixemos que os mais incompetentes ocupem os lugares de governação nem que os paus-mandados sejam promovidos ao exercício do poder. Com tal crise de atenção ao bem comum, torna-se imperioso dar credibilidade a quem se candidata, escolhendo os melhores e não os menos maus…

Honestidade e lealdade, a quanto obrigas!    

 

António Sílvio




sexta-feira, 14 de julho de 2017

Surfista bem penteado…depois da tormenta


Há tempos atrás alguém falava de situações duma certa personagem e concluía: fulano é como o surfista, vê vir a onda, prepara a prancha, põe-se a jeito e, metendo a cabeça como convém, lança-se na direção da onda e sai todo penteado do outro lado da dificuldade, ultrapassando a tormenta sem ser minimamente chamuscado pelo fogo que o podia ter atingido…

Eis como poderemos tipificar algumas figuras da nossa política, da sociedade em geral e envolvendo alguns dos lugares mais conturbados – pela exposição pública e ainda pela capacidade de tornear as controvérsias – da nossa vida pública… Incêndios florestais no triângulo Pedrógão Grande – Figueiró dos Vinhos – Castanheira de Pera; assalto (desvio, roubo, ação de mercenários ou rede de terrorismo) às armas em Tancos; recauchutagens de governantes de segunda e novas opções a pedido… E o chefe sai – depois duns dias de férias e tantos outros de silêncio de conveniência – bem penteado e quase ileso, naquilo que, noutras circunstâncias, teria sido um burburinho atroz e com consequências imediatas.

De facto, como razoável surfista o chefe até se pode dar ao luxo de se pronunciar contra uma operadora de telecomunicações sobre a qual tem suspeitas – talvez devido a informações privilegiadas pelo posto que ocupa – e anunciando outras preferências que não as da empresa que contestava… abusivamente. Também aqui sai sem qualquer beliscão dos comentadores…tão implacáveis em casos menos explícitos do passado recente!  

= Qual foi a bruxa que endeusou/enfeitiçou o tal surfista? A que dotes se deve tão boa prestação? Porque nada parece atingir a sua mediana – senão mesmo miserável – prestação? Não andaremos a brincar com um certo fogo, pela razão de tudo parecer correto e muito pouco chamuscar quem com ele se diverte? Não andaremos mais ou menos todos a ser usados para enfeitarmos a feira de tantas vaidades e de subtis artimanhas?  

= Quais bobos duma certa coorte medieval – dessas que pululam em tantas terras, sabe-se lá a troco do quê e com que finalidade! – vemos surgirem muitos ‘artesãos’ (isto é, militantes à procura de emprego estável e mais ou menos bem remunerado) fabricarem indumentárias que encaixam lindamente nos atores e figurantes. Agora, a tal época medieval, já não é considerada como uma era de obscurantismo, só porque eles/elas – os da campanha em curso – fazem parte do espetáculo, preparado para entreter turistas e veraneantes e para dar visibilidade a terreolas um tanto recônditas, esconsas e quase esquecidas. 

= Somos, efetivamente, um país de fácil manipulação: bastará que nos acenem com ‘pão e jogos’ e estaremos a comer da mão dos mais bem-falantes, mesmo que disfarçados de charlatães, um pouco de engodo e quase estaremos, como o passarinho enfeitiçado, a entrar de contentamento pela boca da serpente encantadora. Com que ardilosa condução nos fizeram crer que estamos melhores economicamente, só porque temos uns cobres mais no início do mês, mas não nos deixam pensar sobre os resultados ao final do mesmo. Gerou-se a necessidade de mais consumo, mas a capacidade de o alimentar não tem os mesmos critérios de produção. Fazem-nos acreditar que as mais-valias revertem em favor do trabalhador, mas nas costas fixam umas tantas cativações, que mais não são do que austeridade não declarada nem assumida… e os setores são os do costume: saúde, segurança (social e pública), educação… 

= Em breve vamos perceber que o surfista de serviço vai sair despenteado dalguma prova contra as ondas. Em breve saberemos que nos têm vindo a enganar e com que meios. Em breve teremos de nos pronunciar, votando contra os lacaios do faz-de-conta… Assim haja coragem e intrépida decisão!   

 

António Sílvio Couto




segunda-feira, 10 de julho de 2017

‘Missa tradicional’: porquê e para quê?


Há cerca de três ou quatro dias recebi um email intitulado: ‘na santa Missa encontrar Deus’, onde se fazia a descrição apologética da missa tradicional, diga-se, em latim. Era escrito:

«Há 10 anos o Papa Bento XVI deu à Igreja uma grande graça ao tornar a possibilidade de celebração da Santa Missa Tradicional de uma forma livre e com naturalidade junto com a celebração da Santa Missa promulgada pelo Beato Papa Paulo VI. Esta graça está conforme o pedido do Concílio Vaticano II: "O sagrado Concílio, guarda fiel da tradição, declara que a santa mãe Igreja considera iguais em direito e honra todos os ritos legitimamente reconhecidos, quer que se mantenham e sejam por todos os meios promovidos" (SC4).

Aquilo que para as gerações anteriores era sagrado, permanece sagrado e grande também para nós, e não pode ser de improviso totalmente proibido ou mesmo prejudicial. Faz-nos bem a todos conservar as riquezas que foram crescendo na fé e na oração da Igreja, dando-lhes o justo lugar.

Abri o vosso coração à Santa Missa Tradicional, enriquecei o vosso ser cristão, o sabor do sal e o brilho da luz ao conhecerdes e ao celebrar a Santa Missa Tradicional. Proporcionai aos fiéis a possibilidade do encontro com Deus e que a partir de vós que na Santa Missa atuais na pessoa de Cristo possam ver Cristo na vossa humilde e silenciosa oração.

A Santa Missa tradicional foi construída sobre a rocha que é Cristo e o Seu Sacrifício no Altar oferecido a Deus, por isso esta Santa Missa não desaparece, não é abandonada e volta a surgir naturalmente pela vontade daqueles que têm sede da água viva. Em todo o mundo, jovens e diversas pessoas que nunca tinham crescido com esta forma encontram nela a expressão da Fé e o lugar onde encontram Deus». 

= Perante tais argumentos – com vídeos dalgumas das celebrações em latim – respondi secamente:

«A quem interessa fixar-se no imobilismo? Porque temos de ler coisas contra o espírito do Concílio Vaticano II? No Céu, a missa será tradicional? Por amor de Deus, gastem as energias da graça de Deus em coisas mesmo sérias! Bênção e discernimento». 

= Ripostando quem antes tinha enviado a mensagem escreveu:

«Muito obrigado por comentar, compreendo o que indica, também gostaria que não fosse necessário fazer esta reflexão e fosse possível seguir um caminho sempre a direito. Mas infelizmente os problemas existem, as pessoas estão afastadas da Fé, não veem importância em ir à missa, não conhecem o que a Igreja ensina e vivem como se Deus não existisse, são almas afastadas do seu Criador. Estas são coisas sérias, cuidar das almas dos nossos irmãos e chamá-los para a Fé é uma tarefa importante.

(…) A Santa Missa no Céu não sei como será, mas na missa tradicional se nos abrirmos a conhecê-la vemos que tenta colocar-nos a celebrar em união com a liturgia celeste». 

= Dá a impressão que neste grande areópago de diversidades, que é a Igreja católica, podemos defender posições que possam ser a contento mais ou menos individual – raramente uso este termo, pois tem mais sentindo dizer ‘pessoal’, mas aqui reporta-nos a um certo rito de individualismo – de interesses e mais de devoções… mesmo que usando o que há de mais sagrado na vida eclesial, que é a eucaristia.

De facto, não deixa de soar a oco e de tresandar a irreverência que se use a autoridade do Papa Bento XVI para alicerçar esta vaga de tradicionalismo em certos setores da Igreja católica. Os argumentos aduzidos deixam muito a desejar, a não ser que tenhamos de proporcionar a todos, até aos pré-cismáticos, as possibilidades de sermos uma Igreja que não se fecha nem aos rebeldes.

Será com o recurso à missa tradicional que iremos responder às questões de fé de tantos dos nossos contemporâneos? A quem se quer impressionar com tais posições tridentinas – este termo não é ofensivo, mas tem de ser lido no contexto histórico e eclesial, que não meramente eclesiástico – e de recuos de doutrina e de prática saídas do II Concilio do Vaticano?

Há tanta coisa bonita e útil em que nos devíamos empenhar, criando condições para que os nossos cristãos possam apreciar melhor a eucaristia. Inclusive é redutora a insistência em designar este sacramento de ‘santa missa’, em vez de usarmos o termo mais abrangente e comprometido que é o de ‘eucaristia’, pois ‘missa’ é o ato de envio – ‘ite, missa est’, isto é, ‘ide, sois enviados’, enquanto ‘eucaristia’ abrange a ação de graças, o sacrifício/ofertório (que é muito mais do que a apresentação dos dons), a oração litúrgica, a comunhão… tendo por fundamento a escuta da Palavra de Deus, tornada proclamação e vida…

Onde está e como se exprime a presença dos vários ministérios na eucaristia, se a reduzirmos à ‘santa missa tradicional’? Voltaremos a essa espécie de cerimónia, onde o padre é mais o centro, ofuscando os dois altares, o da Palavra e o da comunhão? Preparemos a eterna liturgia do Céu, vivendo a eucaristia na Terra!

 

António Sílvio Couto