Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



sexta-feira, 14 de julho de 2017

Surfista bem penteado…depois da tormenta


Há tempos atrás alguém falava de situações duma certa personagem e concluía: fulano é como o surfista, vê vir a onda, prepara a prancha, põe-se a jeito e, metendo a cabeça como convém, lança-se na direção da onda e sai todo penteado do outro lado da dificuldade, ultrapassando a tormenta sem ser minimamente chamuscado pelo fogo que o podia ter atingido…

Eis como poderemos tipificar algumas figuras da nossa política, da sociedade em geral e envolvendo alguns dos lugares mais conturbados – pela exposição pública e ainda pela capacidade de tornear as controvérsias – da nossa vida pública… Incêndios florestais no triângulo Pedrógão Grande – Figueiró dos Vinhos – Castanheira de Pera; assalto (desvio, roubo, ação de mercenários ou rede de terrorismo) às armas em Tancos; recauchutagens de governantes de segunda e novas opções a pedido… E o chefe sai – depois duns dias de férias e tantos outros de silêncio de conveniência – bem penteado e quase ileso, naquilo que, noutras circunstâncias, teria sido um burburinho atroz e com consequências imediatas.

De facto, como razoável surfista o chefe até se pode dar ao luxo de se pronunciar contra uma operadora de telecomunicações sobre a qual tem suspeitas – talvez devido a informações privilegiadas pelo posto que ocupa – e anunciando outras preferências que não as da empresa que contestava… abusivamente. Também aqui sai sem qualquer beliscão dos comentadores…tão implacáveis em casos menos explícitos do passado recente!  

= Qual foi a bruxa que endeusou/enfeitiçou o tal surfista? A que dotes se deve tão boa prestação? Porque nada parece atingir a sua mediana – senão mesmo miserável – prestação? Não andaremos a brincar com um certo fogo, pela razão de tudo parecer correto e muito pouco chamuscar quem com ele se diverte? Não andaremos mais ou menos todos a ser usados para enfeitarmos a feira de tantas vaidades e de subtis artimanhas?  

= Quais bobos duma certa coorte medieval – dessas que pululam em tantas terras, sabe-se lá a troco do quê e com que finalidade! – vemos surgirem muitos ‘artesãos’ (isto é, militantes à procura de emprego estável e mais ou menos bem remunerado) fabricarem indumentárias que encaixam lindamente nos atores e figurantes. Agora, a tal época medieval, já não é considerada como uma era de obscurantismo, só porque eles/elas – os da campanha em curso – fazem parte do espetáculo, preparado para entreter turistas e veraneantes e para dar visibilidade a terreolas um tanto recônditas, esconsas e quase esquecidas. 

= Somos, efetivamente, um país de fácil manipulação: bastará que nos acenem com ‘pão e jogos’ e estaremos a comer da mão dos mais bem-falantes, mesmo que disfarçados de charlatães, um pouco de engodo e quase estaremos, como o passarinho enfeitiçado, a entrar de contentamento pela boca da serpente encantadora. Com que ardilosa condução nos fizeram crer que estamos melhores economicamente, só porque temos uns cobres mais no início do mês, mas não nos deixam pensar sobre os resultados ao final do mesmo. Gerou-se a necessidade de mais consumo, mas a capacidade de o alimentar não tem os mesmos critérios de produção. Fazem-nos acreditar que as mais-valias revertem em favor do trabalhador, mas nas costas fixam umas tantas cativações, que mais não são do que austeridade não declarada nem assumida… e os setores são os do costume: saúde, segurança (social e pública), educação… 

= Em breve vamos perceber que o surfista de serviço vai sair despenteado dalguma prova contra as ondas. Em breve saberemos que nos têm vindo a enganar e com que meios. Em breve teremos de nos pronunciar, votando contra os lacaios do faz-de-conta… Assim haja coragem e intrépida decisão!   

 

António Sílvio Couto




segunda-feira, 10 de julho de 2017

‘Missa tradicional’: porquê e para quê?


Há cerca de três ou quatro dias recebi um email intitulado: ‘na santa Missa encontrar Deus’, onde se fazia a descrição apologética da missa tradicional, diga-se, em latim. Era escrito:

«Há 10 anos o Papa Bento XVI deu à Igreja uma grande graça ao tornar a possibilidade de celebração da Santa Missa Tradicional de uma forma livre e com naturalidade junto com a celebração da Santa Missa promulgada pelo Beato Papa Paulo VI. Esta graça está conforme o pedido do Concílio Vaticano II: "O sagrado Concílio, guarda fiel da tradição, declara que a santa mãe Igreja considera iguais em direito e honra todos os ritos legitimamente reconhecidos, quer que se mantenham e sejam por todos os meios promovidos" (SC4).

Aquilo que para as gerações anteriores era sagrado, permanece sagrado e grande também para nós, e não pode ser de improviso totalmente proibido ou mesmo prejudicial. Faz-nos bem a todos conservar as riquezas que foram crescendo na fé e na oração da Igreja, dando-lhes o justo lugar.

Abri o vosso coração à Santa Missa Tradicional, enriquecei o vosso ser cristão, o sabor do sal e o brilho da luz ao conhecerdes e ao celebrar a Santa Missa Tradicional. Proporcionai aos fiéis a possibilidade do encontro com Deus e que a partir de vós que na Santa Missa atuais na pessoa de Cristo possam ver Cristo na vossa humilde e silenciosa oração.

A Santa Missa tradicional foi construída sobre a rocha que é Cristo e o Seu Sacrifício no Altar oferecido a Deus, por isso esta Santa Missa não desaparece, não é abandonada e volta a surgir naturalmente pela vontade daqueles que têm sede da água viva. Em todo o mundo, jovens e diversas pessoas que nunca tinham crescido com esta forma encontram nela a expressão da Fé e o lugar onde encontram Deus». 

= Perante tais argumentos – com vídeos dalgumas das celebrações em latim – respondi secamente:

«A quem interessa fixar-se no imobilismo? Porque temos de ler coisas contra o espírito do Concílio Vaticano II? No Céu, a missa será tradicional? Por amor de Deus, gastem as energias da graça de Deus em coisas mesmo sérias! Bênção e discernimento». 

= Ripostando quem antes tinha enviado a mensagem escreveu:

«Muito obrigado por comentar, compreendo o que indica, também gostaria que não fosse necessário fazer esta reflexão e fosse possível seguir um caminho sempre a direito. Mas infelizmente os problemas existem, as pessoas estão afastadas da Fé, não veem importância em ir à missa, não conhecem o que a Igreja ensina e vivem como se Deus não existisse, são almas afastadas do seu Criador. Estas são coisas sérias, cuidar das almas dos nossos irmãos e chamá-los para a Fé é uma tarefa importante.

(…) A Santa Missa no Céu não sei como será, mas na missa tradicional se nos abrirmos a conhecê-la vemos que tenta colocar-nos a celebrar em união com a liturgia celeste». 

= Dá a impressão que neste grande areópago de diversidades, que é a Igreja católica, podemos defender posições que possam ser a contento mais ou menos individual – raramente uso este termo, pois tem mais sentindo dizer ‘pessoal’, mas aqui reporta-nos a um certo rito de individualismo – de interesses e mais de devoções… mesmo que usando o que há de mais sagrado na vida eclesial, que é a eucaristia.

De facto, não deixa de soar a oco e de tresandar a irreverência que se use a autoridade do Papa Bento XVI para alicerçar esta vaga de tradicionalismo em certos setores da Igreja católica. Os argumentos aduzidos deixam muito a desejar, a não ser que tenhamos de proporcionar a todos, até aos pré-cismáticos, as possibilidades de sermos uma Igreja que não se fecha nem aos rebeldes.

Será com o recurso à missa tradicional que iremos responder às questões de fé de tantos dos nossos contemporâneos? A quem se quer impressionar com tais posições tridentinas – este termo não é ofensivo, mas tem de ser lido no contexto histórico e eclesial, que não meramente eclesiástico – e de recuos de doutrina e de prática saídas do II Concilio do Vaticano?

Há tanta coisa bonita e útil em que nos devíamos empenhar, criando condições para que os nossos cristãos possam apreciar melhor a eucaristia. Inclusive é redutora a insistência em designar este sacramento de ‘santa missa’, em vez de usarmos o termo mais abrangente e comprometido que é o de ‘eucaristia’, pois ‘missa’ é o ato de envio – ‘ite, missa est’, isto é, ‘ide, sois enviados’, enquanto ‘eucaristia’ abrange a ação de graças, o sacrifício/ofertório (que é muito mais do que a apresentação dos dons), a oração litúrgica, a comunhão… tendo por fundamento a escuta da Palavra de Deus, tornada proclamação e vida…

Onde está e como se exprime a presença dos vários ministérios na eucaristia, se a reduzirmos à ‘santa missa tradicional’? Voltaremos a essa espécie de cerimónia, onde o padre é mais o centro, ofuscando os dois altares, o da Palavra e o da comunhão? Preparemos a eterna liturgia do Céu, vivendo a eucaristia na Terra!

 

António Sílvio Couto





sexta-feira, 7 de julho de 2017

Coisas sobre o ‘género’ humano…


«Nojo e aberração foram duas palavras constantes nos comentários nas redes sociais» – foi assim desta forma um tanto simplista que a responsável da revista ‘cristina’ – num noticiário em hora principal, no canal onde se pavoneia diariamente – caraterizou as mais recentes reações às ‘capas’ (duas para que o público escolha uma) dessa publicação, onde tecnicamente se beijam atores masculino-masculina, feminina-feminino…

O tema anda à volta da homossexualidade, desde a sua origem/manifestação, à assunção/vivência, passando pela publicitação/encobrimento, com referência/participação… e tudo o mais que possa ser dito, escrito, mostrado… com respeito – por si mesmo e pelos outros – ou até na imensa feira de folclores com que o assunto tantas vezes emerge…noticiosamente! 

= Talvez valha a pena centrarmos a nossa atenção na parte substantiva da matéria, obnubilando algumas adjetivações um tanto indecorosas, ofensivas e pouco respeitadoras da diferença dos outros, sejam homo ou heterossexuais.

Sem qualquer presunção doutrinária deixamos a citação e posterior comentário daquilo que diz o Catecismo da Igreja Católica sobre esta questão:

«Um número considerável de homens e de mulheres apresenta tendências homossexuais profundamente radicadas. Esta propensão objetivamente desordenada constitui, para a maior parte deles, uma provação. Devem ser acolhidos com respeito, compaixão e delicadeza. Evitar-se-á em relações a eles qualquer sinal de discriminação injusta. Estas pessoas são chamadas a realizar na sua vida a vontade de Deus e, se forem cristãs, a unir ao sacrifício da cruz do Senhor as dificuldades que podem encontrar por causa de sua condição» (n.º 2358).  

Vejamos, então, alguns aspetos contidos nesta proposta de acolhimento, de diálogo e de acompanhamento deste assunto, por vezes, tão desejado quanto controverso, mas, em tantas outras ocasiões, como que sofrido e a necessitar de paz interior e exterior.

* Número considerável de homens e de mulheres apresenta tendências homossexuais profundamente radicadas – Já no início da década de noventa do século passado, na Igreja, havia a consciência de várias pessoas com tendências declaradas de homossexualidade. Por isso, será uma acusação para além falsa um tanto ignorante do diagnóstico que fora feito pela Igreja católica. Com efeito, uma coisa é contestar, outra bem diversa será a de ignorar os casos… até pelo conhecimento das pessoas e das suas mazelas, reais, presumidas ou induzidas! Conhecer as pessoas a partir do seu mais íntimo dá propriedade e compreensão dos outros, sem acusação!

* Devem ser acolhidos com respeito, compaixão e delicadeza – estas caraterísticas não manifestam homofobia – com que alguns pretendem rotular a posição da Igreja católica sobre este tema – mas antes nos propõe uma grande capacidade de distinguir entre o pecado e o pecador…tal como viveu o Mestre Jesus e alguns textos bíblicos nos fazem refletir. Cada vez mais será urgente que não se faça duma exceção a regra nem se fará com que esta possa ter de ser meramente tolerada por quem anteriormente era excluído. Em muitos casos a ‘discriminação injusta’ está a ser imposta a quem não entra ou não participa em certos ritos sociais de maior amplificação noticiosa. 

= Efetivamente não se pode confundir modas e tendências com normalidades mais ou menos bem aceites e/ou que funcionam como lóbi social e cultural. Nos tempos que correm temos de ser muito tolerantes para com os outros (mas não com os seus erros e valores errados) e exigentes connosco mesmos, por forma a vivermos em sadia convivência entre todos e onde não haja excluídos, seja por que razão for…nem sexual.

Não será com publicações como aquela, que nos levou a tecer estes considerandos, nem com atitudes de maior impacto público com sabor a manipulação que daremos dignidade a quem viva tais momentos ocasionais ou permanentes da sua existência. Com efeito, a seriedade dos problemas não precisa de certos adereços (mais ou menos) ridículos com que temos visto ser tratado este assunto, nos tempos mais recentes.

 

António Sílvio Couto



quarta-feira, 5 de julho de 2017

Rezar pelos que se afastaram da fé


«Peçamos pelos nossos irmãos que se afastaram da fé para que, através da nossa oração e testemunho evangélico, possam redescobrir a beleza da vida cristã».

Foi desta forma simples, mas comprometedora que o Papa Francisco desafiou os católicos de todo o mundo e fê-lo através dum vídeo disponível no youtube, onde mensal nos deixa uma mensagem, divulgada em Portugal pelos jesuítas ligados ao apostolado da oração.

Na perspetiva do Papa, quando um cristão está triste, isso significa que se afastou de Jesus. «Nesses momentos não devemos ficar sozinhos. Devemos oferecer a esperança cristã com a nossa palavra, o nosso testemunho, com a nossa liberdade e a nossa alegria. Nunca esqueçamos que a nossa alegria é Jesus Cristo, seu amor fiel e inesgotável». 

= Esta solicitude pastoral do Papa Francisco revela o seu coração paterno, que sofre com todos quantos se afastaram da fé, da sua celebração em Igreja e, em última análise, do reconhecimento de Deus na vida. Com efeito, na linha do que já nos disse o Papa emérito Bento XVI, o mais grave é o crescimento do relativismo com que tantos/as dos nossos contemporâneos vivem como se Deus não existisse nem que tal lhes faça qualquer problema existencial.

Veja-se como tantas pessoas deixam desenrolar a sua vida ao ritmo dum razoável ateísmo prático e sem qualquer problema de consciência. Nada nem ninguém lhes parece condicionar ou orientar as questões mais básicas. Não que Deus seja ou possa ser entendido com controlador das consciências, mas o problema é o fechamento ao divino – seja ele qual for – de tão mergulhados que estão nas coisas materialistas, usando os outros como degraus duma ascensão em descida, isto é, parecendo que estamos a evoluir humanamente, mas antes vamo-nos animalizando e instrumentalizando os outros para o nosso favor e proveito.  

= ‘Ide, primeiramente, às ovelhas perdidas da casa de Israel’ – disse-nos Jesus nos evangelhos. Não sei se temos levado a sério esta ordem de Jesus, pois, muitas vezes, limitamo-nos a ver partir, quem antes estava connosco. Talvez precisemos de fazer um diagnóstico sério sobre as razões daqueles/as que se foram afastando, dando-lhes oportunidade de se explicarem, criando condições para que não nos limitemos a constatar a saída, mas tentando ver as ‘suas’ razões de ausência passiva ou ativa.

É certo que muitas das ‘razões’ podem, antes de mais, ser desculpas. Possivelmente até será mais proveitoso – veja-se o conteúdo deste substantivo…em tantas das relações humanas correntes – não estar, pois, desse modo poderão viver sem engulhos na consciência e, embora seja uma mentira, talvez possa dar mais agrado ou satisfação…

Num tempo onde se vai vivendo mais à luz da exaltação da emoção, torna-se urgente dar mais sabor a uma certa religião racionalista, seca e quase fria. Torna-se, por isso, de grande utilidade – sem ser mero utilitarismo – criar condições para que o cristianismo inclua maior afetividade e emotividade nas suas celebrações. Não é fácil nem se faz sem riscos, mas teremos de saber gerir as respostas para homens/mulheres deste tempo, por vezes carentes de gestos, de palavras e de sinais de afetividade equilibrada, sadia e serena.  

= O Papa, na sua visão mais abrangente das coisas e das situações, deixou-nos um aviso/desafio, que teremos de levar a sério, em ordem a continuarmos a ação evangelizadora da Igreja, sabendo corresponder às necessidades desta época. Mesmo em tempo de férias – quando tantos fazem uma paragem de presença/participação nos atos de culto – deveremos questionarmos sobre a não-assiduidade, tentando entrar nas razões/desculpas, nas explicações/dúvidas, nas faltas/circunstâncias… reais ou presumidas.

O problema de fundo continua a ser o mesmo de sempre: falta evangelização, catequese, compromisso com Deus e uma vivência em dimensão comunitária. O individualismo – mesmo religioso – tem hoje mais adeptos do que se possa imaginar. À boa maneira do modernismo do início do século passado, continuamos a conjugar essa forma de viver: Cristo sim, Igreja não!... Até quando tal disparate?   

 

António Sílvio Couto




segunda-feira, 3 de julho de 2017

Augusto, adeus. Até sempre!


Nas lides da paroquialidade há estórias que nos ficam, mesmo que o tempo passe. Numa sugestão que estava a decorrer – a de reunir com os pais das crianças e dos adolescentes que iam fazer a primeira comunhão ou a profissão de fé – um dia entraram-me pela porta de atendimento dois casais e uma só adolescente. Percebi que dum lado estava o pai com a esposa ao tempo e do outro lado estava a mãe com o que era marido na circunstância… e os quatro se sentiam, tanto quanto pude perceber, em consonância para acompanhar aquela que se preparava para fazer a profissão de fé.

Foi assim o meu primeiro contacto com o Augusto, na ocasião acompanhando a mãe da adolescente.

Decorreram os anos e fomo-nos encontrando nas tarefas públicas, umas vezes como vereador e mais tarde como presidente da autarquia… Até que saí de Sesimbra, em 2010, e fui acompanhando as lides nesta terra.

Quando me falavam do Augusto fui apreendendo que foi formado na sua área de atividade numa aposta de quem o patrocinou e, daí, fui captando alguém sensível à valorização e em gratidão a quem tal lhe facultou… dados os poucos recursos familiares.

Pois é desta faceta de gratidão que desejo realçar a personalidade do Augusto, podendo eu próprio inserir-me – naquilo que a mim mesmo se refere – na vertente que à Igreja católica me toca e com todo o respeito.

Pela minha parte o refiro sem qualquer vergonha: fui ajudado pela diocese de Braga, logo que faleceu meu pai, tinha dezassete anos e estava naquilo que hoje corresponde ao décimo ano de escolaridade…

Num tempo em que as pessoas são, tendencialmente, ingratas para com quem as ajudou a valorizar-se, quero deixar o meu mais singelo preito de homenagem a quem serviu – mesmo que não me reveja na opção ideológica – os outros, tanto quanto se pode perceber com dedicação e altruísmo… Isto criou em mim uma grande e salutar admiração pelo Augusto e por tudo quanto tentou fazer pela sua terra! Admiro quem assume e não renega as suas raízes…por muito modestas que possam ter sido!

Não sei se tinha fé. Nunca falamos sobre isso… A não ser no ‘nosso’ clube de preferência. Mas duma coisa estou convicto: o Augusto vivia a procissão do Senhor das Chagas com devoção e isso percebia-se até no olhar.

Nestes tempos derradeiros fui-lhe manifestando – sempre por mensagem e não por palavras faladas – breves incentivos…sem nunca esquecer a dimensão da fé cristã. Espero que Deus lhe possa ter ajudado a fazer uma caminhada de crente…

Numa observação final: quantas vezes me vinha à memória a célebre vivência rocambolesca do cinema de Peppone e de D. Camilo – duas figuras do imaginário italiano, que retratam o relacionamento, no final da segunda guerra mundial, entre um presidente da câmara comunista e um padre pitoresco… onde as peripécias se conjugam para viverem uma espécie de amor-ódio – mas onde nem eu era (ou fui) o tal D. Camilo (embatinado e defensor duma certa ortodoxia) nem o Augusto representava o Peppone, pois a sua subtileza era bem mais arguta do que aquela figura transalpina…

A todos quantos conheceram, admiraram e trabalharam com Augusto Pólvora espero que estas minhas palavras possam acalentar a perda – sobretudo à sua família mais direta – e dar ressonância ao desejo de merecermos ter sido seus amigos…

Augusto: até sempre!  

Notas

- Augusto Pólvora foi presidente da CMSesimbra. Contava 58 anos.

- Este texto não é um elogio fúnebre nem pretende trazer para o público questões de índole privada.

Antes de mais será dado a conhecer à família, procurando que seja divulgado como testemunho, sobretudo, no espaço da comunicação social daquela localidade…onde procurei servir durante quase treze anos, aprendendo mais do que possa ter ensinado!

- Neste texto que reputo de despretensioso auguro homenagear tantos autarcas – dos mais diversos quadrantes partidários e ideológicos – que vivem a política de forma audaz, simples e comprometida com os mais desfavorecidos, sempre, unidos aos homens e mulheres de boa vontade, que povoam este mundo…

 

António Sílvio Couto




quinta-feira, 29 de junho de 2017

De regresso ao tempo do quasi-quase?


Depois duns tempos de sucesso em várias áreas – sobretudo no segundo semestre do ano passado e no primeiro semestre deste – parece que estamos a regressar ao tempo do quasi-quase: ficamos à porta da vitória, mas outros se anteciparam; outros conseguiram e nós fracassámos; outros subiram bastante e nós só andámos uns degraus... há os que fazem a festa e nós limitamo-nos a lacrimejar!

Se tem havido sucessos que representam serem resultado de trabalho, outros há que denotam mais habilidade – alguns dirão esperteza – e uma certa capacidade de superação, mesmo que à custa do bom desenrascanço tão típico português.

Esta vaga de (novos) insucessos e de desastres não pode ser entendida como a outra faceta daquilo que já foram momentos de júbilo nacional ou sectorial. Talvez o problema é que não estejamos preparados para uma e outra das situações: nas vitórias achamo-nos os maiores e nas derrotas consideramo-nos os mais desafortunados. É um facto: falta-nos equilíbrio emocional e psicológico tanto para gerir aquilo que corre bem como para digerir o que corre mal. 

= O que é mais aflitivo em tantos destes momentos é a ausência de pessoas (líderes) que sejam capazes de guiar o resto do povo, que, muitas vezes, se mostra sem capacidade de discernir o que de mais significativo comportam as vitórias coletivas e/ou associativas, tal como de perscrutar o alcance mais profundo das situações de provação...na medida em que os insucessos revelem mais do que as circunstâncias em que se dão e as conquistas muito mais do que o bom desempenho de superação...

Tudo isto é ainda mais agravado quando vemos desaparecerem do convívio dos vivos figuras marcantes do nosso ‘eu coletivo’, como por exemplo Helmut Kohl, o pai da unificação alemã e um dos pilares da construção da União Europeia nos após-queda do muro de Berlim. Outros da sua época têm vindo a desaparecer sem que, nos respetivos países, surjam novos intérpretes da história na Europa e no mundo. Com efeito, a crise de liderança é cada vez mais visível e de atroz complexidade, pois o que vemos surgir são pequenos ditadores aureolados – para já! – de democratas, como na situação francesa, onde um tal Macron destruiu tudo à sua volta, tentando fazer da sua personalidade uma espécie de partido à base dos cacos doutros que, entretanto, foram reduzidos à insignificância eleitoral... o que não quer dizer social! 

= Na nossa condição nacional o que temos tido, até agora, são uns meninos feitos nas jotas partidárias que vão suplantando outros com idênticas intenções, mas de medíocre qualidade intelectual, emocional, psicológica e até moral, que se vão ancorando noutros de idêntica jaez, que para ter emprego adulam o chefe e tentam fazer carreira à custa da ignorância do povo.

De novo a teoria do ‘quasi-quase’ é servida à saciedade, a começar pelos poderes autárquicos, pasando pelos postos intermédios de confiança política e atingindo os patamares mais elevados do estado e da nação. Quantos se esqueceram com rapidez da sua procedência popular e agora parecem os tribunos dum estatuto superior, embora se saiba que o seu reinado é efémero e o poder facilmente destronável...  Mesmo nestas circunstâncias não deixa de ser um tanto admirável que haja que aspire a tais postos e se coloque a jeito para que a sua vida seja devassada sem-dó-nem-piedade. Por vezes torna-se quase heróico que ainda se encontre quem se submeta a tal sistema e se dê mais ou menos bem com as artimanhas pessoais e alheias. 

= Fique claro que não deixamos de sentir que algo de muito idêntico se passa em estruturas humano-religiosas, com grande escândalo dos mais crédulos e suscetíveis de deixarem impressionar por tais conluios, onde se esperava outro valor ético/moral. Também aqui se vive o comportamento do ‘quasi-quase’, na medida em que pouco faltou para não ser descoberto nem manifesto. Novamente aqui sentimos que faltam personalidades com valor humano e de craveira superior. Com efeito, temos heróis e santos, mas muitos são já dum passado ínclito e com algum tempo... Não serão as ferramentas digitais nem o floreado de power-points que irão convencer as gentes, será sim, a vida de entrega a Deus e aos outros que se tornará testemunho de vida...simples, sincera e sábia.

   

António Sílvio Couto



quarta-feira, 28 de junho de 2017

Sob um manto de impunidade



Quem não se lembra ainda dos acontecimentos da queda da ponte de Entre-os-Rios – ocorrida a 4 de março de 2001 – e não recordará também que, poucas horas depois, o titular da pasta do equipamento social pediu a demissão. Ao tempo pereceram 59 pessoas, muitas delas da mesma família, não esquecendo a longa e tortuosa procura dalguns dos falecidos durante dias e semanas… O espetáculo mediático foi então montado, escalpelizando as razões e as consequências a tirar de tudo aquilo!



Agora, por ocasião dos incêndios de 17 a 20 de junho do passado recente, na área do Pinhal Interior norte, porque não se colhem idênticas lições, antes parece que um longo e tenebroso manto cobre muitas mentes, condiciona tantas vontades aferradas à ideologia e alguns se vão entretendo com esse ‘osso do poder’, silenciando protestos, contestações e até reivindicações.

Até agora ninguém se demitiu nem foi demitido. Até agora vemos que uns tantos vão deambulando por entre fagulhas crepitantes como se fossem pingos de chuva de não-punição!

* Por onde andam tantas vozes outrora tão protestantes em situações idênticas, mas que por agora se mantêm tão silenciadas?

* Será que – como se dizia eufemisticamente – os beijos sobre o ‘dói-dói’ infetaram em narcotização geral e generalizada o tecido social e político?

* A quem serve a ofuscação de factos e de acontecimentos com que alguma comunicação social – escrita, televisiva ou em internet – vai andando a flutuar numa espécie de informação-espetáculo, onde os atores são elevados à categoria de mentores de opinião?

* Na medida em que a fratura entre visões do país deixa mais clivagens do que a promoção do todo nacional, até onde irá tanto amorfismo encapotado sobre muitas das desgraças alheias?

* Na medida em que a diluição da maioria das ideologias veio trazer maior confusão e criar alguns rácios de populismo, não estaremos a agravar o (não) diálogo cultural por entre clichés de forças transversais e subterrâneas 

= As iniciativas desenvolvidas para atenuar perdas dos incêndios na zona do Pinhal interior norte foram surgindo e ganhando significado até económico. Assim o concerto solidário ‘Juntos por todos’ – no dia 27 de junho e com mais de vinte artistas participantes – rendeu 1,153 milhões de euros… sendo uma ação conjunta de todas as televisões em canal aberto e de mais de cem rádios nacionais.

Dá, no entanto, a impressão que muitas das pessoas, que vemos a reagir a tudo isto, vão tentando criar desculpas – umas nota-se logo de forma mais assumida, outras de modo mais presumido – para o significado mais profundo que esta tragédia, com tantas perdas emocionais, materiais e afetivas bem como outros aspetos sócio/culturais, podem envolver.

Há de verdade questões que necessitam de algum distanciamento para conseguirmos pronunciar-nos sobre isso, mas tantos outros aspetos revelam o que de mais genuíno há no povo português: a capacidade de sofrimento com a dor alheia, chamem-lhe solidariedade ou continuemos a considera-la na sua essência como caridade cristã. Com que abnegação vemos as pessoas despojarem-se de tantas coisas para que os outros recomecem com um mínimo de dignidade… Com que espírito fraterno vemos emergirem sinais de que temos um lado humano muito cristão, mesmo que, por vezes, se envergonhe das suas raízes e dos sinais exteriores de expressão dessa comunhão…

Por entre tantas e tão benéficas manifestações da grandeza de alma do povo português continuo a interrogar-me sobre a ausência clara e distinta da leitura cristã dos sinais, pois raramente Deus é metido em tudo isto, como se fossemos boas pessoas por natureza, quando temos visto logo surgirem oportunistas e larápios a aproveitarem-se da desgraça alheia.

Em tantos destes momentos publicitados não temos visto a Igreja católica de forma assumida e sem medo. Por onde andam os responsáveis cimeiros das dioceses nas notícias? Será que bastará uma nota de rodapé para dignificar o trabalho desenvolvido? É preciso que brilhe a luz diante dos homens para que glorifiquem o Pai dos Céus. Que essa luz apareça…bem acesa!  

 

António Sílvio Couto