Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



sexta-feira, 7 de julho de 2017

Coisas sobre o ‘género’ humano…


«Nojo e aberração foram duas palavras constantes nos comentários nas redes sociais» – foi assim desta forma um tanto simplista que a responsável da revista ‘cristina’ – num noticiário em hora principal, no canal onde se pavoneia diariamente – caraterizou as mais recentes reações às ‘capas’ (duas para que o público escolha uma) dessa publicação, onde tecnicamente se beijam atores masculino-masculina, feminina-feminino…

O tema anda à volta da homossexualidade, desde a sua origem/manifestação, à assunção/vivência, passando pela publicitação/encobrimento, com referência/participação… e tudo o mais que possa ser dito, escrito, mostrado… com respeito – por si mesmo e pelos outros – ou até na imensa feira de folclores com que o assunto tantas vezes emerge…noticiosamente! 

= Talvez valha a pena centrarmos a nossa atenção na parte substantiva da matéria, obnubilando algumas adjetivações um tanto indecorosas, ofensivas e pouco respeitadoras da diferença dos outros, sejam homo ou heterossexuais.

Sem qualquer presunção doutrinária deixamos a citação e posterior comentário daquilo que diz o Catecismo da Igreja Católica sobre esta questão:

«Um número considerável de homens e de mulheres apresenta tendências homossexuais profundamente radicadas. Esta propensão objetivamente desordenada constitui, para a maior parte deles, uma provação. Devem ser acolhidos com respeito, compaixão e delicadeza. Evitar-se-á em relações a eles qualquer sinal de discriminação injusta. Estas pessoas são chamadas a realizar na sua vida a vontade de Deus e, se forem cristãs, a unir ao sacrifício da cruz do Senhor as dificuldades que podem encontrar por causa de sua condição» (n.º 2358).  

Vejamos, então, alguns aspetos contidos nesta proposta de acolhimento, de diálogo e de acompanhamento deste assunto, por vezes, tão desejado quanto controverso, mas, em tantas outras ocasiões, como que sofrido e a necessitar de paz interior e exterior.

* Número considerável de homens e de mulheres apresenta tendências homossexuais profundamente radicadas – Já no início da década de noventa do século passado, na Igreja, havia a consciência de várias pessoas com tendências declaradas de homossexualidade. Por isso, será uma acusação para além falsa um tanto ignorante do diagnóstico que fora feito pela Igreja católica. Com efeito, uma coisa é contestar, outra bem diversa será a de ignorar os casos… até pelo conhecimento das pessoas e das suas mazelas, reais, presumidas ou induzidas! Conhecer as pessoas a partir do seu mais íntimo dá propriedade e compreensão dos outros, sem acusação!

* Devem ser acolhidos com respeito, compaixão e delicadeza – estas caraterísticas não manifestam homofobia – com que alguns pretendem rotular a posição da Igreja católica sobre este tema – mas antes nos propõe uma grande capacidade de distinguir entre o pecado e o pecador…tal como viveu o Mestre Jesus e alguns textos bíblicos nos fazem refletir. Cada vez mais será urgente que não se faça duma exceção a regra nem se fará com que esta possa ter de ser meramente tolerada por quem anteriormente era excluído. Em muitos casos a ‘discriminação injusta’ está a ser imposta a quem não entra ou não participa em certos ritos sociais de maior amplificação noticiosa. 

= Efetivamente não se pode confundir modas e tendências com normalidades mais ou menos bem aceites e/ou que funcionam como lóbi social e cultural. Nos tempos que correm temos de ser muito tolerantes para com os outros (mas não com os seus erros e valores errados) e exigentes connosco mesmos, por forma a vivermos em sadia convivência entre todos e onde não haja excluídos, seja por que razão for…nem sexual.

Não será com publicações como aquela, que nos levou a tecer estes considerandos, nem com atitudes de maior impacto público com sabor a manipulação que daremos dignidade a quem viva tais momentos ocasionais ou permanentes da sua existência. Com efeito, a seriedade dos problemas não precisa de certos adereços (mais ou menos) ridículos com que temos visto ser tratado este assunto, nos tempos mais recentes.

 

António Sílvio Couto



quarta-feira, 5 de julho de 2017

Rezar pelos que se afastaram da fé


«Peçamos pelos nossos irmãos que se afastaram da fé para que, através da nossa oração e testemunho evangélico, possam redescobrir a beleza da vida cristã».

Foi desta forma simples, mas comprometedora que o Papa Francisco desafiou os católicos de todo o mundo e fê-lo através dum vídeo disponível no youtube, onde mensal nos deixa uma mensagem, divulgada em Portugal pelos jesuítas ligados ao apostolado da oração.

Na perspetiva do Papa, quando um cristão está triste, isso significa que se afastou de Jesus. «Nesses momentos não devemos ficar sozinhos. Devemos oferecer a esperança cristã com a nossa palavra, o nosso testemunho, com a nossa liberdade e a nossa alegria. Nunca esqueçamos que a nossa alegria é Jesus Cristo, seu amor fiel e inesgotável». 

= Esta solicitude pastoral do Papa Francisco revela o seu coração paterno, que sofre com todos quantos se afastaram da fé, da sua celebração em Igreja e, em última análise, do reconhecimento de Deus na vida. Com efeito, na linha do que já nos disse o Papa emérito Bento XVI, o mais grave é o crescimento do relativismo com que tantos/as dos nossos contemporâneos vivem como se Deus não existisse nem que tal lhes faça qualquer problema existencial.

Veja-se como tantas pessoas deixam desenrolar a sua vida ao ritmo dum razoável ateísmo prático e sem qualquer problema de consciência. Nada nem ninguém lhes parece condicionar ou orientar as questões mais básicas. Não que Deus seja ou possa ser entendido com controlador das consciências, mas o problema é o fechamento ao divino – seja ele qual for – de tão mergulhados que estão nas coisas materialistas, usando os outros como degraus duma ascensão em descida, isto é, parecendo que estamos a evoluir humanamente, mas antes vamo-nos animalizando e instrumentalizando os outros para o nosso favor e proveito.  

= ‘Ide, primeiramente, às ovelhas perdidas da casa de Israel’ – disse-nos Jesus nos evangelhos. Não sei se temos levado a sério esta ordem de Jesus, pois, muitas vezes, limitamo-nos a ver partir, quem antes estava connosco. Talvez precisemos de fazer um diagnóstico sério sobre as razões daqueles/as que se foram afastando, dando-lhes oportunidade de se explicarem, criando condições para que não nos limitemos a constatar a saída, mas tentando ver as ‘suas’ razões de ausência passiva ou ativa.

É certo que muitas das ‘razões’ podem, antes de mais, ser desculpas. Possivelmente até será mais proveitoso – veja-se o conteúdo deste substantivo…em tantas das relações humanas correntes – não estar, pois, desse modo poderão viver sem engulhos na consciência e, embora seja uma mentira, talvez possa dar mais agrado ou satisfação…

Num tempo onde se vai vivendo mais à luz da exaltação da emoção, torna-se urgente dar mais sabor a uma certa religião racionalista, seca e quase fria. Torna-se, por isso, de grande utilidade – sem ser mero utilitarismo – criar condições para que o cristianismo inclua maior afetividade e emotividade nas suas celebrações. Não é fácil nem se faz sem riscos, mas teremos de saber gerir as respostas para homens/mulheres deste tempo, por vezes carentes de gestos, de palavras e de sinais de afetividade equilibrada, sadia e serena.  

= O Papa, na sua visão mais abrangente das coisas e das situações, deixou-nos um aviso/desafio, que teremos de levar a sério, em ordem a continuarmos a ação evangelizadora da Igreja, sabendo corresponder às necessidades desta época. Mesmo em tempo de férias – quando tantos fazem uma paragem de presença/participação nos atos de culto – deveremos questionarmos sobre a não-assiduidade, tentando entrar nas razões/desculpas, nas explicações/dúvidas, nas faltas/circunstâncias… reais ou presumidas.

O problema de fundo continua a ser o mesmo de sempre: falta evangelização, catequese, compromisso com Deus e uma vivência em dimensão comunitária. O individualismo – mesmo religioso – tem hoje mais adeptos do que se possa imaginar. À boa maneira do modernismo do início do século passado, continuamos a conjugar essa forma de viver: Cristo sim, Igreja não!... Até quando tal disparate?   

 

António Sílvio Couto




segunda-feira, 3 de julho de 2017

Augusto, adeus. Até sempre!


Nas lides da paroquialidade há estórias que nos ficam, mesmo que o tempo passe. Numa sugestão que estava a decorrer – a de reunir com os pais das crianças e dos adolescentes que iam fazer a primeira comunhão ou a profissão de fé – um dia entraram-me pela porta de atendimento dois casais e uma só adolescente. Percebi que dum lado estava o pai com a esposa ao tempo e do outro lado estava a mãe com o que era marido na circunstância… e os quatro se sentiam, tanto quanto pude perceber, em consonância para acompanhar aquela que se preparava para fazer a profissão de fé.

Foi assim o meu primeiro contacto com o Augusto, na ocasião acompanhando a mãe da adolescente.

Decorreram os anos e fomo-nos encontrando nas tarefas públicas, umas vezes como vereador e mais tarde como presidente da autarquia… Até que saí de Sesimbra, em 2010, e fui acompanhando as lides nesta terra.

Quando me falavam do Augusto fui apreendendo que foi formado na sua área de atividade numa aposta de quem o patrocinou e, daí, fui captando alguém sensível à valorização e em gratidão a quem tal lhe facultou… dados os poucos recursos familiares.

Pois é desta faceta de gratidão que desejo realçar a personalidade do Augusto, podendo eu próprio inserir-me – naquilo que a mim mesmo se refere – na vertente que à Igreja católica me toca e com todo o respeito.

Pela minha parte o refiro sem qualquer vergonha: fui ajudado pela diocese de Braga, logo que faleceu meu pai, tinha dezassete anos e estava naquilo que hoje corresponde ao décimo ano de escolaridade…

Num tempo em que as pessoas são, tendencialmente, ingratas para com quem as ajudou a valorizar-se, quero deixar o meu mais singelo preito de homenagem a quem serviu – mesmo que não me reveja na opção ideológica – os outros, tanto quanto se pode perceber com dedicação e altruísmo… Isto criou em mim uma grande e salutar admiração pelo Augusto e por tudo quanto tentou fazer pela sua terra! Admiro quem assume e não renega as suas raízes…por muito modestas que possam ter sido!

Não sei se tinha fé. Nunca falamos sobre isso… A não ser no ‘nosso’ clube de preferência. Mas duma coisa estou convicto: o Augusto vivia a procissão do Senhor das Chagas com devoção e isso percebia-se até no olhar.

Nestes tempos derradeiros fui-lhe manifestando – sempre por mensagem e não por palavras faladas – breves incentivos…sem nunca esquecer a dimensão da fé cristã. Espero que Deus lhe possa ter ajudado a fazer uma caminhada de crente…

Numa observação final: quantas vezes me vinha à memória a célebre vivência rocambolesca do cinema de Peppone e de D. Camilo – duas figuras do imaginário italiano, que retratam o relacionamento, no final da segunda guerra mundial, entre um presidente da câmara comunista e um padre pitoresco… onde as peripécias se conjugam para viverem uma espécie de amor-ódio – mas onde nem eu era (ou fui) o tal D. Camilo (embatinado e defensor duma certa ortodoxia) nem o Augusto representava o Peppone, pois a sua subtileza era bem mais arguta do que aquela figura transalpina…

A todos quantos conheceram, admiraram e trabalharam com Augusto Pólvora espero que estas minhas palavras possam acalentar a perda – sobretudo à sua família mais direta – e dar ressonância ao desejo de merecermos ter sido seus amigos…

Augusto: até sempre!  

Notas

- Augusto Pólvora foi presidente da CMSesimbra. Contava 58 anos.

- Este texto não é um elogio fúnebre nem pretende trazer para o público questões de índole privada.

Antes de mais será dado a conhecer à família, procurando que seja divulgado como testemunho, sobretudo, no espaço da comunicação social daquela localidade…onde procurei servir durante quase treze anos, aprendendo mais do que possa ter ensinado!

- Neste texto que reputo de despretensioso auguro homenagear tantos autarcas – dos mais diversos quadrantes partidários e ideológicos – que vivem a política de forma audaz, simples e comprometida com os mais desfavorecidos, sempre, unidos aos homens e mulheres de boa vontade, que povoam este mundo…

 

António Sílvio Couto




quinta-feira, 29 de junho de 2017

De regresso ao tempo do quasi-quase?


Depois duns tempos de sucesso em várias áreas – sobretudo no segundo semestre do ano passado e no primeiro semestre deste – parece que estamos a regressar ao tempo do quasi-quase: ficamos à porta da vitória, mas outros se anteciparam; outros conseguiram e nós fracassámos; outros subiram bastante e nós só andámos uns degraus... há os que fazem a festa e nós limitamo-nos a lacrimejar!

Se tem havido sucessos que representam serem resultado de trabalho, outros há que denotam mais habilidade – alguns dirão esperteza – e uma certa capacidade de superação, mesmo que à custa do bom desenrascanço tão típico português.

Esta vaga de (novos) insucessos e de desastres não pode ser entendida como a outra faceta daquilo que já foram momentos de júbilo nacional ou sectorial. Talvez o problema é que não estejamos preparados para uma e outra das situações: nas vitórias achamo-nos os maiores e nas derrotas consideramo-nos os mais desafortunados. É um facto: falta-nos equilíbrio emocional e psicológico tanto para gerir aquilo que corre bem como para digerir o que corre mal. 

= O que é mais aflitivo em tantos destes momentos é a ausência de pessoas (líderes) que sejam capazes de guiar o resto do povo, que, muitas vezes, se mostra sem capacidade de discernir o que de mais significativo comportam as vitórias coletivas e/ou associativas, tal como de perscrutar o alcance mais profundo das situações de provação...na medida em que os insucessos revelem mais do que as circunstâncias em que se dão e as conquistas muito mais do que o bom desempenho de superação...

Tudo isto é ainda mais agravado quando vemos desaparecerem do convívio dos vivos figuras marcantes do nosso ‘eu coletivo’, como por exemplo Helmut Kohl, o pai da unificação alemã e um dos pilares da construção da União Europeia nos após-queda do muro de Berlim. Outros da sua época têm vindo a desaparecer sem que, nos respetivos países, surjam novos intérpretes da história na Europa e no mundo. Com efeito, a crise de liderança é cada vez mais visível e de atroz complexidade, pois o que vemos surgir são pequenos ditadores aureolados – para já! – de democratas, como na situação francesa, onde um tal Macron destruiu tudo à sua volta, tentando fazer da sua personalidade uma espécie de partido à base dos cacos doutros que, entretanto, foram reduzidos à insignificância eleitoral... o que não quer dizer social! 

= Na nossa condição nacional o que temos tido, até agora, são uns meninos feitos nas jotas partidárias que vão suplantando outros com idênticas intenções, mas de medíocre qualidade intelectual, emocional, psicológica e até moral, que se vão ancorando noutros de idêntica jaez, que para ter emprego adulam o chefe e tentam fazer carreira à custa da ignorância do povo.

De novo a teoria do ‘quasi-quase’ é servida à saciedade, a começar pelos poderes autárquicos, pasando pelos postos intermédios de confiança política e atingindo os patamares mais elevados do estado e da nação. Quantos se esqueceram com rapidez da sua procedência popular e agora parecem os tribunos dum estatuto superior, embora se saiba que o seu reinado é efémero e o poder facilmente destronável...  Mesmo nestas circunstâncias não deixa de ser um tanto admirável que haja que aspire a tais postos e se coloque a jeito para que a sua vida seja devassada sem-dó-nem-piedade. Por vezes torna-se quase heróico que ainda se encontre quem se submeta a tal sistema e se dê mais ou menos bem com as artimanhas pessoais e alheias. 

= Fique claro que não deixamos de sentir que algo de muito idêntico se passa em estruturas humano-religiosas, com grande escândalo dos mais crédulos e suscetíveis de deixarem impressionar por tais conluios, onde se esperava outro valor ético/moral. Também aqui se vive o comportamento do ‘quasi-quase’, na medida em que pouco faltou para não ser descoberto nem manifesto. Novamente aqui sentimos que faltam personalidades com valor humano e de craveira superior. Com efeito, temos heróis e santos, mas muitos são já dum passado ínclito e com algum tempo... Não serão as ferramentas digitais nem o floreado de power-points que irão convencer as gentes, será sim, a vida de entrega a Deus e aos outros que se tornará testemunho de vida...simples, sincera e sábia.

   

António Sílvio Couto



quarta-feira, 28 de junho de 2017

Sob um manto de impunidade



Quem não se lembra ainda dos acontecimentos da queda da ponte de Entre-os-Rios – ocorrida a 4 de março de 2001 – e não recordará também que, poucas horas depois, o titular da pasta do equipamento social pediu a demissão. Ao tempo pereceram 59 pessoas, muitas delas da mesma família, não esquecendo a longa e tortuosa procura dalguns dos falecidos durante dias e semanas… O espetáculo mediático foi então montado, escalpelizando as razões e as consequências a tirar de tudo aquilo!



Agora, por ocasião dos incêndios de 17 a 20 de junho do passado recente, na área do Pinhal Interior norte, porque não se colhem idênticas lições, antes parece que um longo e tenebroso manto cobre muitas mentes, condiciona tantas vontades aferradas à ideologia e alguns se vão entretendo com esse ‘osso do poder’, silenciando protestos, contestações e até reivindicações.

Até agora ninguém se demitiu nem foi demitido. Até agora vemos que uns tantos vão deambulando por entre fagulhas crepitantes como se fossem pingos de chuva de não-punição!

* Por onde andam tantas vozes outrora tão protestantes em situações idênticas, mas que por agora se mantêm tão silenciadas?

* Será que – como se dizia eufemisticamente – os beijos sobre o ‘dói-dói’ infetaram em narcotização geral e generalizada o tecido social e político?

* A quem serve a ofuscação de factos e de acontecimentos com que alguma comunicação social – escrita, televisiva ou em internet – vai andando a flutuar numa espécie de informação-espetáculo, onde os atores são elevados à categoria de mentores de opinião?

* Na medida em que a fratura entre visões do país deixa mais clivagens do que a promoção do todo nacional, até onde irá tanto amorfismo encapotado sobre muitas das desgraças alheias?

* Na medida em que a diluição da maioria das ideologias veio trazer maior confusão e criar alguns rácios de populismo, não estaremos a agravar o (não) diálogo cultural por entre clichés de forças transversais e subterrâneas 

= As iniciativas desenvolvidas para atenuar perdas dos incêndios na zona do Pinhal interior norte foram surgindo e ganhando significado até económico. Assim o concerto solidário ‘Juntos por todos’ – no dia 27 de junho e com mais de vinte artistas participantes – rendeu 1,153 milhões de euros… sendo uma ação conjunta de todas as televisões em canal aberto e de mais de cem rádios nacionais.

Dá, no entanto, a impressão que muitas das pessoas, que vemos a reagir a tudo isto, vão tentando criar desculpas – umas nota-se logo de forma mais assumida, outras de modo mais presumido – para o significado mais profundo que esta tragédia, com tantas perdas emocionais, materiais e afetivas bem como outros aspetos sócio/culturais, podem envolver.

Há de verdade questões que necessitam de algum distanciamento para conseguirmos pronunciar-nos sobre isso, mas tantos outros aspetos revelam o que de mais genuíno há no povo português: a capacidade de sofrimento com a dor alheia, chamem-lhe solidariedade ou continuemos a considera-la na sua essência como caridade cristã. Com que abnegação vemos as pessoas despojarem-se de tantas coisas para que os outros recomecem com um mínimo de dignidade… Com que espírito fraterno vemos emergirem sinais de que temos um lado humano muito cristão, mesmo que, por vezes, se envergonhe das suas raízes e dos sinais exteriores de expressão dessa comunhão…

Por entre tantas e tão benéficas manifestações da grandeza de alma do povo português continuo a interrogar-me sobre a ausência clara e distinta da leitura cristã dos sinais, pois raramente Deus é metido em tudo isto, como se fossemos boas pessoas por natureza, quando temos visto logo surgirem oportunistas e larápios a aproveitarem-se da desgraça alheia.

Em tantos destes momentos publicitados não temos visto a Igreja católica de forma assumida e sem medo. Por onde andam os responsáveis cimeiros das dioceses nas notícias? Será que bastará uma nota de rodapé para dignificar o trabalho desenvolvido? É preciso que brilhe a luz diante dos homens para que glorifiquem o Pai dos Céus. Que essa luz apareça…bem acesa!  

 

António Sílvio Couto



segunda-feira, 26 de junho de 2017

Para um glossário eleitoral autárquico


A canícula estival vai ter de ser, este ano, conjugada com as propostas dos candidatos às eleições autárquicas de um de outubro próximo. Talvez possamos lançar uma espécie de glossário relativo ao momento que se aproxima. Os termos usados não têm hierarquia pela ordem em que são apresentados, embora se procure conjugá-los num certo desenvolvimento articulado.

A quadragenária democracia à portuguesa precisa, urgentemente, de ser refundada e refletiva, pois muitos dos mais novos auferem de direitos para os quais não tiveram de lutar e, por isso, pouco valorizam. Por outro lado, não podemos continuar a fazer-de-conta que está tudo normal, quando se vão perpetuando nos postos – sobretudo de índole autárquica – forças e ideologias, figuras e figurões suficientemente desgastadas e com projetos ultrapassados de governação. Mal vai uma localidade (concelho, freguesia ou aldeia), se os eleitos ganham pela ausência dos votantes…acomodados, reféns e afeitos ao dejá vu!    

* Listas – elenco de concorrentes que aceitaram sair dalgum anonimato, continuando anónimos…embora servindo interesses nem sempre claros e entendíveis;  

* Candidatos – peças dum certo xadrez jogado por abstratos à luz da lua em fase de nova, isto é, com sombras, sob suspeitas e sem rosto;   

* Independentes – uma espécie de jihadistas sem rastilho…embora bastante bem armadilhados…sem nunca estralejarem;  

* Promessas eleitorais…com incidência autárquica – uma espécie de pincel sem cabo, se bem que untado numa lata de pez em decomposição…e fora de validade;  

* Campanha eleitoral (no sentido lato ou mais estrito) – um certo tempo de anúncio, de apresentação e de discussão das propostas a votar, mas onde a mentira não pode ser beneficiada em desfavor da verdade. Quem promete o que não é capaz de fazer deveria ser criminalizado muito para além da derrota nos votos… pois, quem engana deve ser julgado com mão pesada e não ser aliviado pela impunidade;  

* Iniciativas de campanha – umas coisas que, noutras épocas soam a fait-divers de entreter, mas que em tempo da dita campanha parecem ações de grande fervor, embora pagas e nem sempre levadas a sério ou onde se dizem coisas sem o mínimo de seriedade e com pouca credibilidade; 

* Cartazes de propaganda – facetas mais ou menos douradas ou até bizarras de quem pretende impressionar o público, criando frases pequenas (slogans), feitas à medida do público-alvo ou fazendo-se, no intervalo, alvo dalgum público;   

* Votação – exercício cívico – normalmente presencial – onde se exprime a escolha avaliada e atenta… A votação devia ser obrigatória, sendo sancionado o não-exercício deste direito, com penalizações nas regalias sociais…atuais e futuras. Desta obrigatoriedade todos teríamos a beneficiar, a começar pelos eleitos, pois teriam outra legitimidade. Por que temem tantos tal obrigação legal?  

* Abstenção – a arma dos cobardes, que fogem na hora de se pronunciar, mas que, depois, reivindicam sem direito e algum alarido! 

= Este breve glossário poderá ajudar-nos a sabermos aferir as nossas ideias pelos nossos ideais e nunca a fazermos o contrário de pensarmos a partir daquilo que, egoisticamente, vivemos. Usando um pensamento de São José Maria Escrivá: porque voas como ave de capoeira, se podes voar com asas de águia?

 

António Sílvio Couto




sexta-feira, 23 de junho de 2017

Falar ou estar calado


Por estes dias – uns mais recuados e noutros mais recentes – temos visto factos e pessoas que bem podem ser resumidos deste modo simplista: falar ou estar calado, podendo simbolizar tais atitudes duas figuras sociais – uma do (dito) mundo desportivo, um tal ‘marques’, que vem desfiando informação para entreter a época estival nem sempre profícua em acontecimentos dignos de tal designação; a outra personagem, um tal ‘costa’ que se vai escondendo sob capa das perguntas que fez e das promessas a desejar cumprir, mas umas e outras efabulando em maré política de pré-férias…

Se há quem fale e vá digerindo a conversa a conta-gotas, na apresentação acintosa de imensos emails (pretensamente) particulares, outros vão tentando gerir com silêncios de ignorância ou mesmo de incompetência as flagrantes tragédias de cidadãos esquecidos e sem voz, mesmo que agora chorem as perdas e se tornem lacrimejantes de circunstância. 

= Alguém acredita que é sério o espetáculo da divulgação de mails em folhetim, quando os denunciadores só têm um objetivo: desmontar os sucessos recentes dos adversários? Não haverá muita tagarelice e pouca matéria informativa e incriminatória? A quem interessa tal cortina de fumo – apaziguado por ocasião do luto nacional em razão dos incêndios! – reinando sobretudo quando não se sabia do futuro desportivo dos promotores? Será isto método de informação ou, pelo contrário, confusão do vale-tudo, desde que ponhamos os outros na lama e os promotores na luta…sem oposição?

Este maquiavelismo visto ou presumido pode entreter alguns dos mais suscetíveis em comprarem jornais e de se ligarem aos canais de difusão, mas por certo quem pensar pela sua cabeça e assistir a tal espetáculo perceberá que o chico-espertismo nem sempre compensa ou ganha campeonatos sem rede!

 = Eis que, de repente, a bolha de sucesso da governação em curso (quase) implodiu nas terras ardidos do ‘pinhal interior norte’ – região que engloba catorze concelhos da região centro entre os distritos de Coimbra e de Leiria – e do ‘pinhal interior sul’ – Sertã…onde sete dos municípios foram mais atingidos pelas chamas funestas e mortíferas…de 19 a 22 de junho passado.

Refira-se que, em época de pré-campanha eleitoral para as autárquicas, destes concelhos martirizados três são autarquias socialistas – Castanheira de Pera, Figueiró dos Vinhos e Góis – e quatro sociais-democratas – Pampilhosa da Serra, Pedrógão Grande, Penela e Sertã…

Há, por isso, questões que não podem ficar diluídas nas lágrimas justamente choradas, mas teremos de saber interpretar o que está a correr mal para que mais uma vez – Deus queira que não se repita a curto prazo – sejam consumidas dezenas de hectares de floresta e nada se responde pelas causas nem ninguém assume as consequências.  

* O sucesso da governação vai ficar intacto com tamanho descalabro e incompetência? Bastarão umas festinhas de governantes e do presidente, assobiando para o lado e deixando que os inquéritos sejam metidos na gaveta dos gabinetes do terreiro do paço? Os citadinos sentem-se parte do problema ou atiram para os rurais a culpa das suas misérias e derrotas? As televisões ávidas de sensacionalismo vão deixar cair os figurantes que lhes deram horas de espetáculo barato e, nalguns casos, indecoroso? As estórias de fim-de-página, que se tornaram títulos nalguns noticiários, vão ser esquecidas como rascunhos de malvadez e de exploração dos sentimentos expostos sem respeito?  

* A solidariedade tão típica dos portugueses na hora da desgraça poderá ser continuada muito para além dos holofotes noticiosos. Seria bom que as paróquias criassem parcerias entre si e se conseguisse mobilizar adolescentes/jovens, escuteiros e grupos sócio/caritativos que se prontificassem a viverem, já nestas férias de verão, momentos de ajuda às populações mais fragilizadas e que foram duramente postas à prova. Talvez valha o desafio de trocar umas férias inúteis de praia e de preguiça por ações concretas de participação na recuperação de casas, de aldeias e mesmo de vivências de comunhão na dor…         

 

António Sílvio Couto