Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



quarta-feira, 14 de junho de 2017

Situação de seca… de água e de ideias




Segundo dados mais ou menos credíveis, o nosso país tem vindo a caminhar para uma situação de seca extrema, atingindo em finais de maio passado, 98% do território…

Ora, se a ausência de chuva tem vindo a agravar-se, outrossim a ausência de ideias para mobilizar o país sofre de idêntica secura, senão mesmo de aridez… psicológica e cultural.

Um longo e tenebroso manto – rosa, adamascado ou doutra cor afim – cobre as mentalidades, fazendo crer que tudo está bem e que nada será capaz de ofuscar um certo sucesso, dizem que até económico.

Sobre a seca de água parece que ainda vamos sendo informados com alguma credibilidade, o mesmo não será tão fiável de ver e de demonstrar sobre a situação do país social, político ou mesmo financeiro. 

= Fique, desde já claro, que não partilho minimamente do pretenso otimismo de quem ocupa o posto de governo nem aprecio essa outra turbulência intervencionista – a propósito, a despropósito e às vezes com intromissões – do inquilino de Belém e tão pouco considero digna de crédito uma projeção dum certo sucesso carimbado por Bruxelas, quando nos parecem mais fazer flutuar sobre o mar das dificuldades ultrapassadas do que das decisões patrioticamente tomadas.  

* É preciso que haja verdade e independência por parte de tantos dos intervenientes na vida pública, onde nem sempre a maioria da comunicação social tem feito corretamente o seu papel, antes parecendo mais vendida a alguém que subjuga económica e ideologicamente…ainda sem mostrar o rosto e/ou a caricatura.  

* Muito mal vai este país que rotula de ‘bom tempo’, só quando há sol e não chove, mesmo que a chuva possa ser mais do que benéfica para a vida e as diversas tribulações do povo que gasta o tempo e tenta angariar o sustento a partir daquilo que lhe dá o campo, sem subterfúgios de estufas nem de outras artimanhas de sucesso. Com efeito, ‘bom tempo’ também é o de receber a chuva como dom solícito de angariação de ambiente para as colheitas e os esforços rurais. Enquanto fizermos de conta que os calores citadinos são o que de mais interesse tem para todos, andaremos a ser subornados por outros intentos que não os do equilíbrio holístico e espiritual… A chuva faz sempre falta com conta, peso e medidas certas e adequadas! 

= É clamorosa a desnecessária valorização do incrível seguidismo de forças ideológicas que vão capitalizando os seus intentos à custa da desvalorização dos que pensam pela sua cabeça, de quem seja capaz de não precisar das proteções de tios e de enteados mais ou menos bem cotados na bolsa da promoção sócio política.  

* Por agora vão aparecendo os ditos candidatos autárquicos, uns em recauchutagem, outros em primeira dose e alguns ainda num recurso ao refugo daquilo que nada deu e nada conseguirá. Os tentáculos partidários vão emergindo por entre tentativas de vitória ou como derrota por poucos. Quem for ver o arquivo doutras eleições poderá encontrar bastantes semelhanças ou ainda como promessas do ‘dejá vu’…  

* As ditas ideias de mudança ou os projetos de cativação de novos interesses dá a impressão que foram saldados em maré de muito vento… tudo foi levado e nem resquícios ficaram. Novos atores com ideias renovadas precisam-se e dão-se alvíssaras a quem encontrar tais desideratos a curto e/ou médio prazo. 

= Em maré de seca – extrema ou severa – das fontes de alimentação para as águas em solo, vivemos idêntico questionamento sobre as ideias que possam vir a frutificar com resultados democráticos e com legitimidade… Que dizer de eleitos que o foram com mais de dois terços de abstencionistas? Alguém será capaz de conviver com tais fantasmas?

Mediocridade, não, obrigado!      

 

António Sílvio Couto




sexta-feira, 9 de junho de 2017

Oito anos com o mesmo smoking…


Os dados foram anunciados: nos oito anos que esteve na casa branca, Barack Obama usou sempre o mesmo smoking, nas festas oficiais… e ninguém reparou no episódio: entre 2009 e 2017, o presidente dos EUA conseguiu trajar a mesma roupa, sem que ninguém se apercebesse.

A revelação foi feita pela esposa – sobre quem recaiam as atenções na variedade de roupa que apresentava – mas com ele tudo foi diferente… pois até os sapatos foram os mesmos nesses anos… Assim, ele conseguia preparar-se em dez minutos e da mesma forma… 

* Diante desta revelação fica-nos uma boa oportunidade para refletirmos sobre aquilo que vestimos, ao que damos importância e mesmo àquilo em que outros reparam… muitas vezes mais no papel de embrulho do que no conteúdo que é embrulhado.  

* Com que facilidade, hoje, as pessoas mudam de farpela, quase não tendo um estilo próprio de vestir, antes andando ao sabor da moda – manipulada por entidades mais ou menos abstratas e sem rosto – numa linguagem de pronto-a-vestir… unissexo, popular e (mais ou menos) barato ou de marca.  

* Se o modo de vestir define – ou pode dar a entender – a personalidade de cada um, então, poderemos ser levados a inferir que a maior parte das pessoas vive numa oscilação tal de personagem que teremos de reparar, antes de tudo naquilo que veste e como veste, para depois tentarmos descortinar com quem estamos…mesmo que possa ser essa outra figura com quem ontem estivemos… ou cuja identidade (aparentemente) conhecemos. 

* No tempo das armaduras seria difícil de saber quem era o nosso interlocutor, pois ele/ela se disfarçava por detrás disso que não mostrava. Também agora a armadura está montada, sendo preciso uma grande subtileza para conseguirmos decifrar quem se veste de tal ou outra forma, sendo que a perplexidade já não se reduz ao setor feminino…  

* O problema passa a ser mais complexo quando vemos uma sociedade a reger-se por esta forma de estar: afirmar-se pela indumentária, negligenciando a formação humana, intelectual, cultural ou psicológica… Mal vai uma sociedade onde as conversas se desenrolam a propósito do que se veste e da importância que se dá à ‘imagem’… O que apetece é destoar de toda essa vulgaridade – ética/moralmente poderemos chamar-lhe vaidade – apresentando-se da forma mais despretensiosa sem ser desleixada. 

= A referência ao estatuto do presidente do EUA poderá fazermos perceber que nem todos se guiam pela mesma cartilha – termo agora muito em uso e que significa essencialmente capacidade de aprendizagem segundo um modelo e para que possa haver uma identidade na forma de estar – da boa impressão e do faz-de-conta que é importante porque se veste – às vezes até parece que é mais despe! – duma determinada forma. Ter a ousadia de não ser como os outros e de deixar-se guiar por critérios muito para além dos de teor materialista pode ser uma espécie de testemunho até mesmo cristão. Com efeito, não será assim tão pouco significativo que alguém não entre na onda da futilidade e do estar sempre na moda, pois isso custa caro e pode ser ofensivo dos mais pobres. De facto, não se pode andar a mudar de roupa todas as semanas ou meses, só para que pensem que se tem nível económico ou estatuto de rico… Encontrei há anos uma situação em que uma pessoa devia – ao tempo – mais de mil euros só das roupas que tinha comprado sem pagamento imediato… Será um atentado à pobreza dos mais desfavorecidos ter armários e comodas atulhados de roupa, sem se questionar se tal – o dinheiro gasto – não fará falta a quem passa dificuldades essenciais!

Basta de termos de aturar tantos manequins ambulantes, pavoneando-se à custa da insensibilidade para com os que podem precisar de ajuda… Muito mal irá a religião (cristã ou outra) se não questionar tais atropelos à verdade e aos outros/as… Cristo viveu em espírito de pobreza e desafia-nos a vivê-lo, sempre!      

 

António Sílvio Couto



terça-feira, 6 de junho de 2017

Porque subsiste a ‘feira do livro’?


Embora seja uma das mais faladas – tanto pela dimensão que comporta, quanto pelos ingredientes que envolve – a ‘feira do livro de Lisboa’ é, por estes dias, um espaço de visita, de interesse e de reflexão para muitos dos intervenientes na cultura do nosso país.

Sendo já a 87.ª edição, a feira do livro de Lisboa continua a crescer. Este ano a feira tem 286 pavilhões, com 602 marcas editoriais (chancelas ou editoras), ocupando quase quatro talhões do Parque Eduardo VII e esperando atingir – em três semanas de evento – meio milhão de visitantes…

Numa época (dita) tão digital e tecnológica, ainda haverá lugar para o livro? Que faz ainda apostar na impressão de livros, se podemos ter acesso aos conteúdos em formato não-impresso? Como se pode defender o direito de autoria, se o texto se divulga sem controlo? Onde começa e onde acaba o ‘copy/paste’ sem plágio nem usurpação dos direitos de autor? Como poderemos confiar nos trabalhos feitos – mesmo pelos intelectuais, tanto docentes como discentes – se não conhecermos as fontes nem os verdadeiros autores? Quem cuida em defender a ‘propriedade intelectual’, mesmo em tempo de internet?

Estas e outras questões podem – e talvez devam – ser feitas por ocasião desta feira do livro, em Lisboa. O assunto é – ou pode ser – mais relevante quando está prevista uma intervenção, num dos dias da feira (dia 18), na apresentação dum novo livro sobre o Espírito Santo… Já em 2008 tive a oportunidade de estar numa sessão de apresentação dum outro livro sobre o sacerdócio ministerial. Por isso, apreciar o ambiente da feira do livro é algo natural, diria mesmo, necessário, benéfico e essencial. 

= Ora, depois duma breve visita à feira do livro de Lisboa com pouca gente e exígua de compras, foi possível ver – no dia 5 – muita literatura e propostas diversas para crianças, seja ao nível geral e de diversão, seja na dimensão pedagógica e formativa.

Nota-se a tendência, agora em Portugal, da edição biografias de figuras nacionais e internacionais…numa linha de apresentação histórica – mesmo de personalidades do passado remoto e mais recente – e com implicações no desenrolar do presente.

É interessante, particularmente quando a afluência de público não é muito grande – já fui à feira do livro noutros anos onde se tornava impossível andar senão fosse aos encontrões e por entre imenso barulho – apreciar por onde deambulam as vertentes mais pessoais dos visitantes, tanto ao nível cultural, como nos aspetos profissionais e mesmo religiosos…

As grandes editoras parecem mais contidas nos espaços que ocupam e até na orgânica que apresentam. Certamente que mais para o final do evento surgirão numa atitude mais agressiva para atingirem os objetivos de venda, mas, por agora, não se destacam como noutros anos.

Atendendo ao nivelamento por baixo dos recursos do público, dá a impressão que os preços estão bastante em conta, mesmo sem desfazermos das promoções, dos descontos, dos lançamentos e mesmo dos saldos…

Embora tenha saído sem comprar nada, ficou-me a impressão de que, na próxima visita, trarei alguns livros com interesse, culturais e de boa apresentação. 

= Respondendo à questão colocada no título deste artigo: porque subsiste a ‘feira do livro’? Eis algumas sinceras, razoáveis e úteis razões:

* O livro continua a ser uma boa companhia e uma salutar fonte de informação no presente e com implicações para o futuro.

* Só lendo se aprende a escrever e a exprimir o que se pensa, pois pensar exige assimilar ideias e comunicá-las aos outros.

* Embora cada um se possa exprimir como sabe, a arte de escrever e de comunicar aprende-se na escola da leitura, da reflexão pessoal e não meramente colando coisas de outros sem nexo ou vago sentido.

* Como é insidioso o cheiro a tinta quando abrimos o livro, a revista, o jornal ou algo escrito… aí se pode apreciar e voltar a ler o que em nós deixa marcas e faz mudar até de ideias.

Porque fui formado a ler e a escrever, sinto que a feira do livro é muito mais do que um desfile de vaidades…

 

António Sílvio Couto



sexta-feira, 2 de junho de 2017

Em vista dum país de potenciais delatores…


Por estes dias vimos noticiado que a ‘delação’ – termo de contexto brasileiro, com uso em Portugal sob a designação de ‘colaboração’ – premiada começa a ganhar adeptos no meio da justiça, sendo os juízes, os procuradores e funcionários seus defensores, enquanto os advogados são quem mais se-lhe opõe. 

= De que consta, então, a ‘delação/colaboração premiada’?

‘Delação premiada’ é uma expressão usada no âmbito jurídico, que significa uma espécie da troca de favores entre o juiz e o réu. Caso o acusado forneça informações importantes sobre outros criminosos ou dados que ajudem a solucionar um crime, o juiz poderá reduzir a pena do réu quando este for julgado... Na situação brasileira, que tem já experiência em casos destes e com legislação, a redução da pena pode ser dum terço ou de dois terços do delator, caso as informações fornecidas ajudem realmente a solucionar o crime.

Se tivermos em conta as várias vertentes desta discrição de ‘delação/colaboração premiada’ poderemos encontrar aspetos um tanto preocupantes para a justiça no futuro. Desde logo que aquele que se assume como delator é um criminoso que se serve do papel de beneficiado para encobrir os erros de que é acusado, mesmo que com isso vá enterrar quem, anteriormente, de forma tácita ou explícita, foi seu parceiro de delito. Por outro lado, o denunciado pelo delator poderá passar a conhecer quem o irá entalar na delação, que, posteriormente, será atenuada pelo comparsa na prevaricação. Se tivermos ainda em conta a desconfiança que a delação criará entre os criminosos, poderemos ver neste estratagema de compra de penas menores uma espécie de denúncia da falência do sistema de investigação, pois este poderá aliciar algum dos criminosos a serem delatores e com isso não ser feito o trabalho que compete à justiça... 

= Porque sabemos ainda pouco do modo como poderá vir a ser implementado este processo da ‘delação/colaboração premiada’, podemos, no entanto, elencar questões sobre a extrapolação deste modo de estar na vida para além do sistema de justiça. Antes de tudo o associar-se para praticar o crime terá de ser mais arguto para com aqueles a quem se junta, pois, de repente, poderá estar a ser denunciado por alguém que possa antecipar-se à pena com a subtileza de beneficiar por se tornar ‘bufo’ dos outros. Criminoso sim, mas terá de ser de alta confiança com quem se torna parceiro da delinquência.

Se o processo da delação se alarga a outros campos, como será difícil de ter com quem se associar para fazer o mal ou mesmo para construir algo que envolva outros na caminhada, pois quem se sentir prejudicado poderá tornar-se delator desde que com isso continue a flutuar na boa impressão de quem julga, mesmo sem ser só na justiça... Suponhamos que este sistema da ‘delação premiada’ se incrementa na área da comunicação social: quem dirá seja o que for, se isso se vier a voltar-se contra quem disse o que disse... As fontes e, sobretudo, os potenciais denunciadores poderão pensar mais sobre as consequências do que lhes é soprado mesmo sob anonimato, pois algo poderá correr menos bem quando surgirem suspeitas sobre que referiu o quê...

Talvez este método da ‘delação/colaboração premiada’ possa vir a ser uma espécie de caixa de pandora, que, uma vez aberta, mesmo judicialmente, poderá trazer à relação das pessoas algo mais do que uma colaboração justificada com a justiça, mas antes uma complexa e atribulada mescla de interesses, onde cada qual fará pela vida o que antes foi usado para ludibriar quem tinha de ajuizar ou de estar num patamar superior da aplicação da igualdade entre todos. O delator pode tornar-se, deste modo, uma peça da engrenagem que fará emperrar a boa convivência entre todos... 

= Para quem tanto contestou a sociedade pidesca anterior à recuperação da liberdade, não será que esta atitude de ‘delação/colaboração premiada’ poderá trazer à memória certos serviços desse regime? Agora que dizem que estamos em democracia, esta ‘delação/colaboração premiada’ não poderá converter-se num manto de perseguição a adversários...dentro ou fora do partido/associação?

 

António Sílvio Couto



terça-feira, 30 de maio de 2017

Não temos vindo a aparvalhar as crianças?


As crianças dos nossos dias são cada vez menos auto-suficientes, tal é o protecionismo com que as vimos defendendo ou até colocando-as dentro duma bolha (quase) artificial. Parece aos pretensos riscos deste tempo, que vamos aparvalhando tanto as crianças que nem as deixamos errar, coartamos a capacidade de brincar e como que afunilamos as aprendizagens sem as falhas, as tropelias e as asneiras próprias da sua idade… Com tantas defesas e pretensos cuidados, as crianças deixam-no de ser antes do tempo!

Quem deixa ainda que os filhos brinquem na rua? Quem aceita que os filhos/netos vão sós (e a pé) para escola? Quem ousará deixar, nem que seja por breve momentos, de controlar por onde andam os filhos/netos, se estão, momentaneamente, na rua?
Ora, por ocasião do ‘dia mundial da criança’, parece que podemos/devemos colocar algumas questões e lançar desafios a este setor da vida humana que tem vindo – dá a impressão – a ser algo menosprezado naquilo que poderão ser os resultados no futuro (mais ou menos) próximo.  
 

= Embora saibam mais coisas mais cedo do que noutros tempos, a maioria das crianças vai sendo infantilizada sem disso nos darmos conta. Com alguma facilidade as crianças parece que perderam a capacidade de brincar, inventando as suas brincadeiras e os seus próprios brinquedos: quase tudo lhes é fornecido e nem sempre da forma mais pedagógica e respeitadora das potencialidades dos mais novos. Numa formatação de interesses vemos que as crianças podem deixar de viver no seu mundo, antes reproduzindo outros cenários que não são os seus nem sabendo adaptar-se às novas dificuldades e necessidades. Esta espécie de democratização educativa pode nivelar pelos pés aquilo que deveria ser uma possibilidade de potenciar a capacidade de sonho e de criação das crianças e dos seus espaços.

A diversidade de brinquedos – bastará observar uma campanha de recolha – tem vindo a tornar as crianças cada vez mais dependentes das criações alheias, menorizando-as e descartando-lhes pequenos sonhos, onde a abundância de proposta como que revela a volatilidade dos mais velhos e pode ainda tentar disfarçar com coisas aquilo que seria bem mais benéfico ser preenchido com tempo de qualidade dedicado às crianças… 

= Se a isto acrescentarmos sinais inquietantes do egoísmo crescente das crianças – muitas delas como filhos únicos – poderemos perceber que a capacidade de partilha – desde os brinquedos até às roupas, passando pelas exigências feitas para com os mais velhos (pais, educadores, avós, etc.) – tem vindo a diminuir e, daí virem a ser gerados conflitos, é um simples passo ou questão de tempo. Vivemos – dá a impressão – na época da criança-objeto que serve mais para contentar os adultos do que fazendo com que a criança valha por si mesma…

Sem exagero podemos considerar que, hoje, as crianças passam dois terços do seu dia fora ou longe do ambiente familiar. Em muitos casos os filhos vão sobrevivendo quase sem a presença e o carinho dos pais… e não fossem os avós, as coisas seriam ainda mais graves e aflitivas. Por isso, não admira que, muitas das vezes, as crianças sejam nacionalizadas por quem pretensamente governa…mesmo que não se verifiquem problemas. 

= Antes de tudo e acima de tudo, cremos sinceramente que o cuidado das crianças é tarefa e missão dos pais, tornando-os os primeiros e principais educadores, seja em que idade for. Não podemos continuar a entregar ao estado – bem diferente é a atitude de delegar por substituição na instrução – a capacidade de educar, onde os valores sejam muito mais do que menores denominadores comuns numa influência ética amorfa e anódina… que, por vezes, é mais do que laica ou republicana.

Porque a família é a escola (no sentido amplo do termo e não como correia de conhecimentos) de transmissão de valores e de princípios, será urgente criar condições para que as crianças deixem de ser tratadas de forma tão aparvalhada como têm sido, onde se lhes dê muito mais do que aquilo que já se viu ter sido ultrapassado noutras culturas e sistemas educativos. Quem dera que fossemos capazes de educar cada criança como única, no projeto de Deus e de cada família. Por onde temos andado até agora, não, obrigado!  

 

António Sílvio Couto




quinta-feira, 25 de maio de 2017

Numa cultura do zapping


“Se não quisermos ser vítimas da cultura do zapping e, às vezes, de uma cultura de morte, devemos incrementar o hábito do discernimento, formar-nos e formar para o discernimento”, disse o Papa Francisco, esta semana, no Vaticano, quando se dirigia às participantes no capítulo geral das Pias discípulas do divino Mestre.
“Neste tempo de grandes desafios, que exigem dos consagrados fidelidade criativa e busca apaixonada, a escuta e a partilha são muito necessárias, se quisermos que a nossa vida seja plenamente significativa para nós mesmos e para as pessoas que encontramos”, salientou o Papa, que apelou aos consagrados na Igreja católica para lutarem contra o ‘cancro da resignação’.
= Ora, perante estas considerações incisivas do Papa, poderemos perguntar se temos a noção do que é, de facto, o zapping? Como é que este pode alimentar, em nós mesmos e para com os outros, essa cultura de morte e da indiferença? Até onde e como o dito zapping será legítimo, se nos enquistar perante os outros e os seus problemas?  

O significado de ‘zapping’ tem a ver com a prática do telespectador que muda consecutiva e frequentemente de canal por meio do telecomando… podendo originar alguma ansiedade, volatilidade ou insegurança em quem usa tal recurso na busca de assuntos que mais lhe possam agradar.

– Atendendo à prevenção do Papa poderemos incluir nesta ‘cultura do zapping’ uma espécie de tentativa de criar um mundo onde os factos têm de nos agradar, de modo que se conjugue o que nos mostram com aquilo que desejamos ver…

– Isto será tanto mais pernicioso quanto nos possa fazer refugiar nalguma superficialidade pessoal ou social, mesmo nas questões mais exigentes da vida, misturando as coisas de consumismo com alguma emotividade recorrente… 

= Num tempo em que as fontes de informação são tão díspares e tão profusas, torna-se muito difícil escolher ou ser assíduo seguidor dalgum canal televisivo ou mesmo de conversa social, pois em quase nenhum se perfaz o que nos pode interessar ou mesmo convir. Com efeito, se a conversa – na maior parte das vezes é mais discussão – não me agrada não há como fazer zapping e ir à procura de algo que seja mais interessante. Se alguns dos intervenientes em programas de confronto entre tendências clubísticas ou de preferências partidárias tivessem isso em conta poderiam perceber que podem estar a falar para ninguém…mesmo fazendo um grande berreiro, na medida em que o recurso ao zapping se torna solução fácil e, por vezes, necessária… tais são os disparates desconexos.

Já lá vai o tempo em que as pessoas se deixavam ouvir, expondo cada qual o que era de interesse para a conversa. Hoje há uma tal sobreposição de conversas que o melhor disso tudo é que podemos calá-los com um simples zapping e deambular por outros espaços onde se ouça com mais nitidez a verborreia que por aí possa estar…

Deste modo o recurso ao zapping também pode funcionar como momento de avaliação da saúde mental de quem ouve, pois nada melhor do que podermos ainda fazer escolhas de quem queremos ouvir ou de quem nos pode ajudar a pensar… em coisas simples ou mais complicadas.  

= À luz das advertências do Papa Francisco temos de saber quando o zapping pode fazer de nós pessoas insensíveis aos outros ou quando nos faculta ainda a possibilidade de não nos deixarmos intoxicar por informações, opiniões ou confusões duns tantos sobre outros. Sobre a primeira vertente, teremos de não ficar anódinos sobre os sofrimentos e as dores alheias, mas antes precisamos de cultivar a boa e salutar comunhão com os que mais precisam da nossa solidariedade e do nosso apoio humano ou moral. No segundo aspeto – a autodefesa – será sempre muito útil o tal exercício do discernimento sereno e amadurecido pelas questões da vida…Ora, o discernimento é uma arte que tem de ser aprendida na vida, pois raramente alguém nasce ensinado ou vive em discernimento senão for ajudado a cultivá-lo. No discernimento não há zapping que nos valha…    

 

António Sílvio Couto



segunda-feira, 22 de maio de 2017

Comunidade, sim; coletivo, não!


Na complexidade de leituras que o Papa Francisco nos traz – tal como outros pontífices – uns tantos ‘iluminados’ ditos sem fé, agnósticos, descrentes ou ateus confessos – com voz até nos canais católicos como corifeus da tolerância e da boa compreensão – vemos que só conseguem entender do Papa aquilo que se refere à linha em que lhes encaixa nos preconceitos e nas formatações ideológicas…sobretudo na dimensão (dita) social, nos casos de intervenção horizontalista e nas situações mais ou menos de sabor solidário que não tão ético/moral… 

(Um pequeno aparte: como é difícil fazer diálogo com quem exige que os entendamos, mas que não fazem algum outro esforço – intelectual minimamente razoável – de entrarem na linguagem daqueles com quem – assim parece – pretendem impor ideias e noções até já ultrapassadas no tempo e pela evolução histórica).  

* Mal vai uma séria proposta de leitura das atitudes do Papa Francisco se dele quisermos explorar a vertente social – pretensamente de esquerda – ou ecológica – com o rótulo de progressista – à mistura com a defesa dos pobres e marginalizados… como se os Papas anteriores fossem (mais) defensores dos capitalistas ou difusores da economia de mercado – que uns tantos abjuram, mas da qual vivem e medram com bons proveitos – sem entenderem que a Igreja não tem ideologia de propaganda nem sequer se ajeita para colher frutos dos beneficiados ou dos menosprezados…  

* Não tenho a menor das dificuldades em compreender as objeções de quem não é capaz de decifrar as linguagens da fé, senão se estiver na onda das coisas mais materiais. De facto, há pessoas que, colocando os óculos da dialética marxista, são especialistas em verem as intenções e as ações dos outros pela perspetiva do social, gerando em si e à sua volta um clima de luta, senão for de classes, sê-lo-á de interesses…declarados ou subterrâneos. Só que não se podem ler as palavras e os gestos do Papa por tais preconceitos nem muito menos se terá de distorcer a mensagem pelo que nos possa interessar que seja dito ou feito. Este pragmatismo apresenta riscos e perigos… mesmo no seio da Igreja católica.  

* Não se pode tentar desvirtuar a mensagem do cristianismo pelo menos bom ou até mau desempenho de muitos dos cristãos. Ora, se há caraterística que fez afirmar os seguidores de Cristo na história, foi a da dimensão comunitária, desde as coisas mais simples até às mais complexas, isto é, esse colocar em comum os bens espirituais e materiais, sem que não houvesse desfavorecidos nem necessitados. Vemo-lo nas narrativas do livro dos Atos dos Apóstolos e nos escritos dos padres da Igreja. A vivência comunitária desse testemunho interpelou muitos dos opositores aos cristãos, que, apesar de perseguidos, ainda se alimentavam mais e melhor da fonte dessa razão: a adesão a Cristo e aos seus princípios de fraternidade, de pobreza, de serviço e de humildade. Ninguém chamava seu ao que lhe pertencia, tinham tudo em comum!

Este ideal de vida foi e é mais do que uma utopia – seria bom ler ou reler o livro com este título de Tomás Moro (1516) – pois se fundamenta na unidade/comunhão nascida desde o mais íntimo de cada discípulo de Cristo e que se faz presença em caridade e solidariedade.  

* Bem diferente e talvez visceralmente oposta é a noção de coletivo, sobretudo se entendido como pretensão política e social. Esse dito coletivo – com a coletivização dos bens de produção, da força de trabalho e mesmo da mentalidade de governo/submissão – era (foi ou é) imposto à força, fazendo com que cada qual se faça servidor duma entidade – mais ou menos abstrata – ‘estado’, que a todos subjuga e faz participante mesmo que dele discorde ou possa estar contra. Com efeito, o coletivismo fez vítimas, particularmente entre aqueles que se opunham à sua concretização. Os regimes coletivistas tentaram criar pela força algo que, em vez de seguidores, foi gerindo beneficiados, sobretudo se eram (são) mentores da mesma ideologia, numa espécie de combate sem tréguas à dimensão religiosa e cristã em particular… Pela compreensão que tenho da pessoa humana, dispenso que me imponham esta forma de conduta! Nunca, jamais!    

 

António Sílvio Couto