Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



terça-feira, 9 de maio de 2017

Peregrinos em conversão?


Por estes dias temos visto e ouvido muitas intervenções de pessoas que vão – particularmente a pé – como peregrinos para Fátima. Cada qual apresenta, normalmente, as razões que levam a empreender tal esforço durante dias. Uns dizem que vão para pagar alguma promessa, feita em horas de aflição; bastantes referem que vão em agradecimento por algum favor humano-divino recebido, habitualmente tendo em conta situações de saúde pessoais ou de familiares; outros ainda vão numa atitude de nada pedir nem de agradecer, tendo somente em conta uma experiência a concretizar.

Ora, raramente – se é que alguma vez foi dito – os entrevistados salientam que se meteram à estrada – a pé ou noutra forma de peregrinação – porque se sentem num processo de conversão pessoal, familiar e em Igreja…seja lá qual for a motivação de vida em conversão a Deus, através de Nossa Senhora.  

= Se atendermos aos parâmetros essenciais da mensagem de Fátima podemos encontrar o seguinte tríptico: oração – conversão – penitência.

Será que é isto que motiva tanta gente a recorrer – de forma direta ou indireta – a Fátima, seja à invocação de Nossa Senhora, seja aos resultados aduzidos como daí advindos? Como se poderá compreender – humana e cristãmente – que haja alguém que vá a Fátima – use o modelo que mais lhe convier – e que continue em zanga com os familiares, os vizinhos ou mesmo a Igreja? Será isso uma fé amadurecida ou antes revelará uma circunstância de crença com sabor a religião (meramente) natural? Como entender que possamos encontrar pessoas que abjuram a prática paroquial, mas tendencialmente recorrem à máquina do anonimato na ‘multidão’ fatimista? Que pensar ainda dos ‘sacrifícios’ – públicos ou privados, de promessa ou aleatórios – dos quais não se nota influência nem repercussão no comportamento quotidiano? Como interpretar que alguns/algumas dos que flutuam pelas paróquias sejam mais cultivadores da imagem da Senhora da capelinha – sabendo que não passa duma representação – podendo menosprezar alguma outra figuração da mesma Senhora num lugar mais simples e recôndito, mas não mesmo autêntico e de venerável devoção?

Os lugares podem falar-nos de Deus, mas será perigoso reduzir a esse lugar a exclusividade da presença do próprio Deus e dalguma representação da Virgem ou dalgum santo… A teologia dos santuários precisa de ser aprofundada numa compreensão de Novo Testamento e da universalidade da ação de Deus no mundo!  

= Porque Fátima e a mensagem trazida por Nossa Senhora através de três pastorinhos é um assunto de fé sério é que urge não continuar a fazer-de-conta que já vivemos o que ali foi dito e posteriormente explicitado. Seria mais uma oportunidade perdida que, por ocasião do centenário das revelações, não tentássemos ir ao fundo do que nos é propor como mensagem de vida e também como linha de espiritualidade.

Cem anos depois continuamos a correr riscos de deixarmos salgar, subtilmente, a fé pelos critérios do mundo. A canonização dos dois pastorinhos mais novos traz-nos potencialidade para que a santidade seja proposta com entusiasmo às crianças, hoje, tão deficientemente introduzidas à fé cristã e à participação na Igreja. A valorização da família no processo de conversão tem de ser levada mais a preceito, não impondo meramente os preceitos da Igreja, mas valorizando a transmissão da fé em contexto familiar sadio e simples.

Porque acreditamos que Fátima tem futuro, tanto ao nível teológico, como na dimensão espiritual, temos de ser capazes de nunca deixarmos de questionar aquilo que fazemos e que vemos outros praticarem, tendo em grau de exigência a mensagem de conversão pessoal e nas implicações que têm de repercutirem-se na vida eclesial, sabendo discernir os tentáculos de infiltração do mal, ajudando e sendo ajudados pelo Espírito de Deus em Igreja e como Igreja católica.

Tal como se diz no hino para a celebração do centenário: Maria nos abre caminho… sê peregrino da esperança e da paz… Com Maria onde queres que vás, Deus em mim! Descobrindo a presença de Deus, seremos mais exigentes na nossa conversão e compreensivos para com os outros!      

 

António Sílvio Couto




sábado, 6 de maio de 2017

Sobre um ninho de cucos…


Ao vermos certos comportamentos e ao tentarmos analisar algumas das situações mais visíveis da nossa sociedade – política, social, económica ou mesmo cultural – fica-nos como que uma sensação de estarmos a sobrevoar algum ‘ninho de cuco’. Ora, sabendo nós que os cucos não têm ninhos, antes usufruem dos ninhos que outras aves fazem e onde os ditos cucos colocam os ovos para nidificação… poderemos ser quase levados a considerar que há muita gente – seja qual for o setor ou campo de ação em que se enquadre – que se comporta à maneira dos cucos… numa leitura mais ou menos exigente de tantos aspetos da nossa vida coletiva.  

– Que dizer da tentativa de certos partidos políticos anunciarem a celebração da vitória sem terem candidato, só porque dão apoio ao pretenso vencedor…independente? Não será isto, visão e comportamento de cuco? Como explicar que há seriedade, se vemos colocar os ovos para nidificar em ninho alheio…mesmo que fazendo os ovos intrusos serem pintados da cor daqueles que os chocam!

– Que consideração poderemos ter para com pessoas e ideologias que se vangloriam de lutar contra a União Europeia, sabendo que só esta lhes pode conferir espaço e estatuto de protesto e de ganha-pão? Não será espírito de cuco disfarçado este de contestar quem lhes alimenta o ego e as contas de sobrevivência para a contestação? Não fosse o capitalismo que abjuram e ficariam sem possibilidade de serem ouvidos, pagos e tolerados!

– As eleições presidenciais francesas são um dos melhores repositórios de ovos de cuco, pois a extrema-esquerda confere aos inimigos da extrema-direita a capacidade de aspirar ao poder, usando estratégias idênticas para possíveis resultados mais ou menos iguais, se bem que nem todos se deixarão enganar, agora pelos cantos da sereia má!

– Com quantos e tão subtis disfarces se tenta ludibriar os mais incautos na convivência social e cultural, pois diz-se em palavras o que facilmente se contradiz com atos e comportamentos: milhentas formas de corrupção se vão alimentando com palavrinhas mansas, embora sejam arietes de maledicência e de ruindade…até à hora em que se descubra a tramoia.  

– Esta cultura de cucos parece ser favorecida logo desde a mais tenra idade, onde os mais novos conseguem com choraminguices, birras e tropelias conquistar e manipular os mais velhos, tanto os pais como os avós…Bastará atender às reações nos jardins-de-infância e perceberemos a ‘universidade’ de tantos pequenos heróis.

Com efeito, é muito pior a psicologia do cuco do que a da coruja, pois esta, embora vendo os filhos feios com os seus olhos embelezados, aquele serve-se do esforço e do trabalho alheio para conseguir os seus objetivos, por vezes, embebecidos na recolha dos frutos e não na assunção do trabalho correto e necessário.

A natureza ensina-nos tantas coisas e dá-nos tantas lições. O problema é nós sermos capazes de as entendermos e de vivermos em conformidade com as lições ensinadas e aprendidas. 

= E nem mesmo o ‘jogo da baleia azul’ tem servido para que reflitamos sobre as influências que estão a ser lançadas nos mais novos. Por esse mundo além vemos imensos casos de adolescentes e de jovens que entram nesta espiral de agressividade, já não somente para com os outros, mas cada um para consigo mesmo. Ora, se alguém não gosta de si, se despreza a tal ponto o seu corpo que é capaz de se mutilar – sabe-se lá sob que influências e de quem seja o comando! – estaremos a entrar numa crise de repercussões impensáveis sobre a nossa cultura e quanto a representa e simboliza.

Mais uma vez a psicologia do cuco faz com que sejam semeadas tendências perigosas e que poderão fazer com que, muito em breve, não saibamos quem é quem, neste emaranhado de conjeturas, de oportunismos e de sem-sentido de vida…

Não será este pretenso ‘jogo’ um grito surdo contra a falta de valores com que temos vindo a educar os nossos mais novos? Demos-lhes coisas, mas não amor e atenção. Demos-lhes conforto e regalias humanas, mas não os colocamos a olhar para o Alto e para o lado, respetivamente, para Deus e para os outros. Basta!     

 

António Sílvio Couto

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Os sete concelhos poderosos…dos 26 mais ricos


Lisboa, Porto, Sintra, VN Gaia, Cascais, Oeiras e Loures registam o maior poder de compra conjunto (26%) do resto dos concelhos do país… Estes sete concelhos perfazem apenas um por cento do território nacional… Se a estes dados acrescentarmos que 26 dos concelhos com maior capacidade de compra se situam no litoral podemos ver ainda melhor que somos um país assimétrico, desigual e desnivelado nas oportunidades.

Estes dados fornecidos por uma empresa de estudos em marketing e estatística apresenta-nos alguns dados reveladores da importância das próximas eleições autárquicas, tanto dos concorrentes, quanto do significado das vitórias pessoais, políticas e económicas.

Eis a lista dos 26 concelhos mais ricos, causas e possíveis consequências:

Zona norte: Braga, Barcelos, Famalicão e Guimarães;

Grande Porto: Maia, Matosinhos, Porto, Gondomar, VN Gaia e SM Feira;

Zona centro: Coimbra, Viseu e Leiria;

Área metropolitana de Lisboa: VF Xira, Loures, Odivelas, Amadora, Sintra, Cascais, Oeiras, Lisboa, Almada, Seixal e Setúbal;

Algarve: Faro e Loulé.

Vejamos alguns números que ilustram a relevância destes concelhos no espetro nacional: são 6% do território nacional, incluem 45% da população residente, ocupam 26% do parque habitacional, têm 44% das dependências bancárias, perfazem 45% do consumo de eletricidade, absorvem 70% dos médicos e nelas se situam 46% das empresas nacionais…

= Questões (quase) mínimas se nos devem colocar perante estes dados dum país (tão) inclinado para o mar, que abandona o interior e atende, essencialmente, às reivindicações dos autarcas minoritários:

- Não teremos andado, particularmente após a revolução de abril, a engordar os ricos e a esfolar os mais pobres?

- Os equilíbrios e as alternâncias no governo das autarquias favoreceram ou prejudicaram as populações mais desfavorecidas?

- Será que só muda quem ocupa o lugar ou este faz as pessoas serem iguais na presunção?

- Onde está a igualdade de oportunidades, se os favorecidos moram sempre na mesma rua, avenida, largo ou praça…empurrando para fora do quintal do poder quem não se digne concordar ou, simplesmente, calar-se com uns subsídios de circunstância?

- Porque têm memória tão curta os prejudicados pelo favorecimento dos ricos, quando se dizem com raízes noutros espaços que não esses onde são bafejados pela sorte ou cumulados de proveitos mesmo sem tal cultivarem?

- Porque será que os que são de fora deste círculo de interesses autárquicos não conseguem ultrapassar certos complexos de inferioridade, tanto dentro dos seus partidos como no conjunto da governação nacional?

- Agora que já fizeram quatro anos de ‘nojo’ fora do poder porque ressurgem certas figuras a candidatarem-se aos mesmos postos? Será por serviço ou por conveniência de protagonismo?

= Diante do espetro sócio-económico dos 26 concelhos mais ricos e, se reduzirmos o zoom, ficarmos nos sete mais relevantes, agora se compreende que as notícias surjam quase sempre destes espaços, relegando para o esquecimento os outros trezentos e tal…mais pobres ou descapitalizados de população e do resto das necessidades mais básicas. Dá a impressão que uns tantos que deambulam por tais cenários já não conseguem pensar doutra forma e nem a dita ‘defesa das populações’ nos convence a nós, quantos mais a eles!

Urge, por isso, fazer uma séria reflexão sobre as causas de termos chegado a este beco, pois parece que ele não tem saída, na medida em que se vai prolongando no poder – veja-se o impedimento de mais de três mandatos consecutivos – quem a ele se afeiçoou e com dificuldade se consegue distinguir o lugar da pessoa, dando a impressão de que vivemos numa oligarquia dos menos maus, sustentada pelos acomodados, que já nem votam, pois as mudanças podem ofuscar o pouco feito…dizemo-lo em tantos dos municípios das periferias daqueles 26 mais relevantes… Em breve seremos chamados a pronunciar-nos, não fiquemos em casa!

 

António Sílvio Couto



segunda-feira, 1 de maio de 2017

Não somos todos trabalhadores?


Em certas datas e efemérides podemos perceber um tanto melhor como há termos e conceitos que podem estar (mais ou menos) distorcidos, senão mesmo manipulados, por preconceitos e formas enviesadas de ler, de dizer e mesmo de compreender.

Ora, ‘trabalhador’ é uma dessas palavras e conceitos – mesmo que ‘trabalho’ possa ser menos discordante segundo as ideologias e as mentalidades – que cada qual usa segundo lhe possa convir e servir como que de arma-de-arremesso contra outros que pensem de forma diferente… 

= Se recorrermos a uma definição (descritiva) da wikipédia lemos: ‘trabalhador é um termo amplo que inclui todo aquele que vive do seu trabalho – isto inclui o escravo, o servo, o artesão e o proletário. Na atualidade, o trabalhador é considerado legalmente (formalmente) como todo aquele que realiza tarefas baseadas em contratos, com salário acordado e direitos previstos em lei. No caso de voluntariado, trabalha-se em instituições sem fins lucrativos, não sendo, portanto, assalariados’.

Se tivermos ainda em conta os qualificativos que podemos acrescentar a trabalhador, encontramos: por conta de outrem, independente, liberal…tendo em atenção a profissão desempenhada… atendendo ao local onde trabalha…em conformidade com a tarefa assumida…numa visão mais pessoal ou mais comunitária…numa leitura materialista ou com incidência espiritual… Ora, podemos e devemos considerar-nos todos – duma forma ou doutra – trabalhadores, isto é, construtores dum mundo mais humanizado e onde cada um de nós colabora como coo-criador com Deus criador. 

= Diante desta visão mais abrangente do que é costume de trabalhador, a quem interessa afunilar a aplicação do termo só a quem faz algo pago e/ou em função duma (quase pretensa) exploração? Não teremos sido excessivamente instruídos numa perspetiva dialética de trabalho? Trabalho não deverá ser entendido muito para além das mais-valias que gera quem paga? Não há tanto trabalho que não tem paga e nem por isso deixa de ser uma atividade humana digna e dignificante de quem a executa? 

= Não podemos continuar a permitir que haja uns tantos, habilidosos na arte de manipular, que queiram assenhorear-se de conceitos e de termos que são património da toda a humanidade. Ora, o trabalho é um desses termos que faz de cada um de nós participante na obra da criação de Deus, completando no hoje de cada momento da história o que nos está confiado por missão divina e tarefa humana.

Também, por isso, é grave a preguiça, a exploração duns pelos outros, o trabalho não-devidamente pago, a falta de segurança no trabalho, a discriminação entre trabalho executado por homens e por mulheres, o menosprezo por certas profissões, pretensamente secundárias, a apropriação indevida do trabalho infantil, o prolongamento da dependência dos outros (subsídios, abonos ou benesses) para além do tempo necessário…

Embora tenham (já) exercido uma benéfica função, os sindicatos que hoje temos estão ultrapassados na forma e no conteúdo, pois continuam a ser, muitas vezes, correias de transmissão de partidos políticos e, nalguns casos, comportam-se mais como caixas-de-ressonância de interesses ideológicos mais subtis… E o pior é que só funciona num sentido! 

= Agora que não é preciso tanto tempo de trabalho para produzir, torna-se urgente refletir sobre a valorização da pessoa humana para além do tempo estrito de trabalho – dizemo-lo no dito remunerado. Não são precisas tantas horas de trabalho para conseguir idênticos resultados aos alcançados há décadas. Não poderemos, no entanto, concordar com a pretensão de menos horas de trabalho com mesmos rendimentos, pois correr-se-ia o risco de acumular horas de trabalho em vários empregos. Culturalmente temos muito a ganhar e a fazer melhor! Os sindicatos, as autarquias, as associações e coletividades, as igrejas e outras agremiações de âmbito sócio-cultural têm uma palavra a dizer antes que seja tarde.

Porque somos, de facto, todos trabalhadores precisamos de nos unirmos mais do que para reivindicar para construirmos uma sociedade mais justa, mais fraterna e mais solidária…dando cada qual o seu contributo!         

 

António Sílvio Couto




sexta-feira, 28 de abril de 2017

Os netos que paguem a dívida…


A ‘luminosa, arguta e ousada’ solução encontrada por alguns partidos políticos do arco do governo em funções – o alargamento do prazo para pagamento da dívida às instituições europeias de quinze para mais quarenta e cinco anos – tem tanto de simbólico, quanto de perigoso: simbólico porque ao tentarem estender os prazos se pretende fazer diminuir os juros anuais, perigoso porque não se tem a noção dos gastos e dos encargos que irão suportar as gerações vindouras… até depois de 2060! 

Vejamos algumas incidências a curto, médio e longo prazo desta pretensão tão ‘progressista’: 

– Com que autoridade – embora seja um ato de poder – pode além prorrogar uma dívida para governos que podem não ter a mesma orientação política e económica? Quer isto dizer que teremos de suportar os mesmos – isto é, os de agora – durante tanto tempo, dado que foram eles que nos meteram neste colete-de-forças? Onde estará, então, a alternância democrática?

– Uma opção desta natureza não pode ser tomada de forma unilateral, sem o acordo bem concertado dos outros partidos e forças sociais? O perfil democrático – apelidado por forças apoiantes desta forma de governação – do ‘posso, quero e mando’ – só é contestado quando se está fora do arco do poder? Não andarão por aí uns laivos de ditadura encapotada?

– Há crianças cujos pais ainda nem nasceram e já estão endividadas com encargos para os quais não contribuíram minimamente. Teremos direito de lhes deixarmos tal herança ainda não herdada? 

= Deixemos, por momentos, estas conjeturas e fixemo-nos nos dados do dia-a-dia: Ainda esta manhã vi dezenas de pessoas à porta duma repartição de finanças… hoje é o último dia útil para pagar alguns impostos, talvez o IMI ou sobre veículos com matrícula deste mês… Porque deixou esta gente para o último dia o acerto de contas com as finanças? Será defeito ou feitio, isto de deixar para a última hora as obrigações, sobretudo, de pagamentos? Não será preciso uma nova educação social e coletiva, quando toca a honrar os compromissos? Por que temos de andar na aflição e à pressa, quando sabemos o que temos de fazer e a pagar?

Atendendo às vicissitudes da nossa conjetura económico-financeira custa a crer que já tenhamos adquirido a consciencialização de que ninguém dá nada a ninguém sem cobrar os seus direitos. Assim tem sido com as ajudas da UE e as largas benesses em dinheiro a rodos lançado para este país. Em certas épocas chegou a ser de nove milhões de euros por dia… entre 1986 e 2011. Que fizemos disso? Gastamo-lo em coisas essenciais ou andamos a ostentar de rico sem consistência de finanças…públicas e privadas? Depois das estradas e dos estádios de futebol o que é que ficou na nossa mentalidade de ajudados, menos bons trabalhadores e (quase) incapazes de gerirmos o que nos foi subsidiado?

Antes davam-nos dinheiro e gastávamos, prestando contas mais tarde. Agora, no ‘projeto 20/20’ temos de apresentar contas (com tudo registado e regularizado) e só depois recebemos a comparticipação já decidida, mas em definitivo desbloqueada…Com efeito, foram ‘estes marroquinos do norte’ que fizeram com que a Europa rica nos tivesse de colocar sob alçada de rigoroso controlo, nalguns casos desconfiando das nossas capacidades e arbitrados por regras mais exigentes do que para com outros… 

= Não deixa de ser um tanto patético que uns pretensos ‘sábios’ dum apelidado ‘grupo de trabalho para a negociação da dívida’ venham trazer um novo alento aos caloteiros nacionais, pois se nos aceitarem tal projeto, lá fora, estaremos a salvo de termos de cumprir os mais mínimos compromissos, cá dentro, na medida em que os mais novos terão de assegurar as dívidas para as quais não foram tidos nem achados, empurrando para quem vier atrás e seja capaz de ter vergonha por si e pelos seus antepassados. Não foi de entre os atuais governantes (secundários) que veio a proposta em não pagar a dívida? Não são parceiros de conluios outros que propagam o resgate sem honra nem face? Não foram do tal ‘grupo de trabalho’ economistas dialéticos e diletantes?

Como cidadão tenho vergonha de deixar aos meus descendentes indiretos responsabilidades a que eles não estão obrigados moralmente. Não nos tentem enganar mais, pois a verdade vencerá!

 

António Sílvio Couto



quarta-feira, 26 de abril de 2017

‘Católico de esquerda’ – porquê e para quê?


Numa das suas diatribes de circunstância o presidente da república considerou que ‘faz falta mais esquerda católica’ em Portugal, tendo em conta as variações sociais – o país metropolitano, no seu entendimento – e os confrontos e ‘determinados posicionamentos doutrinários, ideológicos e partidários’.

A provocação – tentaremos explicitar este termo nesta partilha/reflexão – surgiu no contexto da apresentação dum livro sobre o Papa Francisco e dinamizado por dois jornalistas que têm conhecimentos na área da religião e do catolicismo em particular.

O ex-jovem militante de causas sociais nas décadas de 60 e 70, que foi Marcelo Rebelo de Sousa, ocupa agora a mais alta instância do poder/autoridade no nosso país. Viu inclusive, recentemente, elevado ao patamar mais almejado da política internacional – a ONU – um companheiro de armas desse tempo, António Guterres. Nunca escondeu a sua condição de crente/praticante. Tem intervindo em matérias do foro eclesial. Fez comentários sobre leituras dominicais. Benze-se em público, como nunca vimos outros ocupantes da visibilidade institucional… governativa, autárquica…como deputado ou figura exposta… Por vezes diz o que poderia ser melhor acertado, tanto na forma como no conteúdo.  

* Teremos, no entanto, de nos interrogar sobre o significado e o alcance desta expressão – ‘católico de esquerda’ – para que não entremos numa lógica de aglutinação de termos em ordem a serem satisfeitas pretensões que cada um pode dissimular e/ou confundir. Não será que dizer ‘católico’ já deveria conter facetas que se aninham na conceção de ‘esquerda’? Esta terá de ser sempre – e só – lida, entendida e proclamada como visão materialista das pessoas, das sociedades, das culturas e mesmo do estado? 

* Efetivamente só quem desconhecer ou quiser obnubilar os fundamentos do cristianismo poderá não ver que os ‘primeiros cristãos’ foram e viveram como pessoas que lhes interessava acima de tudo o bem comum e não a mera satisfação dos seus interesses pessoais ou de grupo. Consultem-se os ‘sumários’ do livro dos Actos dos Apóstolos – 2,42-47; 4,32-35; 5,12-15 – e poderemos ver a semente de novidade que era a força da conversão a Cristo, na condução do Espírito Santo, em Igreja. 

* Será, apesar de tudo, uma espécie de condicionamento – para não lhe chamar mesmo manipulação ou leitura preconceituosa – que tenhamos – como fez nas suas palavras Marcelo – de conotar o ser católico com o ‘ser de direita’, tendo em conta uma dada leitura sociológica, com algum sabor ruralista, e mesmo com outros posicionamentos ideológicos e partidários, tentando apensar figuras do passado à vivência do presente ou ainda dando de barato que ser católico tem de estar numa posição de direita por ataque e em prejuízo social e cultural…  

* De facto, há uns tantos mentores da configuração da sociedade – ditos ou apelidados de ‘opinion makers’ ou jornalistas/comentadores – que não conseguem entender as questões do catolicismo e – numa espécie de sofisma envenenado – tentam concluir: não compreendo, logo é de direita…porque não ser de esquerda não rima com justiça social, com os conceitos de liberdade-igualdade-fraternidade, com pensamento de solidariedade, com fazer pelos outros…muito para além dos seus objetivos de promoção e de democracia.   

* Conhecemos e sabemos que houve figuras da Igreja católica que foram apelidadas de ‘esquerda’, só porque defendiam os pobrezinhos e estavam lá, à porta das empresas em rutura e falência, dizendo-se dum catolicismo social – seriam de esquerda ou estariam ser evangélicos acima de tudo? – mas que, no trato pessoal e fora dos holofotes da comunicação social, aceitavam opíparos almoços pagos por outros católicos que eram rotulados – pela mesma resma de servidores da informação – de direita!  

* A provocação de Marcelo pode servir para entreter por algum tempo, mas o que desejamos é que os católicos vivam na força do Evangelho, sem se deixarem manipular por rótulos ideológicos…esgotados!

 

António Sílvio Couto





terça-feira, 25 de abril de 2017

Porque Fátima incomoda…tanto?


Parece que quem pretenda ser falado – padre ou leigo, cristão ou agnóstico…seja qual for a religião ou a tendência ideológica – poderá dizer umas coisas – sobretudo contra – sobre Fátima e logo anda nas bocas do mundo…mesmo que por efémeros segundos de menos boa fama.  

Quem recorda ainda a petição lançada, em outubro do ano passado, contra a visita do Papa a Fátima agora em maio? Acabei de consultar a adesão – ou foi antes visita, como eu, por curiosidade – conseguiu o número de 1.070 (mil e setenta) peticionários…

Por estes dias um ex-membro dum governo estendeu-se nas suas considerações contra o que aconteceu em Fátima há cem anos e muito daquilo que, desde então, foi vivido por milhões de pessoas, crentes ou não… O tal articulista-deputado não deixou de mostrar, minimamente, o ferrete do avental, tal era a argumentação triangular, mas deixando perceber que o texto pareceu mais sermão por encomenda…do que contributo de reflexão intelectual séria, sensata e serena. 

= Quem se fizer visitador de Fátima – santuário e recinto, basílicas e capelinha, zona próxima e espaços envolventes…até comerciais e de restauração – é tocado pela expressão de tantos e tão díspares peregrinos. Mas quem entrar naquele espaço restrito ou alargado em atitude de peregrino é confrontado com milhentas vivências de pessoas, de famílias, de situações e de problemas… A questão é essa: Fátima tem uma policromia de espiritualidades, em que cada um precisa de ser visto, acolhido e sentido como cada qual…

Mal vai a nossa sintonia com Fátima se houver quem pretenda impor aos outros a sua mais pessoal (íntima ou intimista) experiência. Por isso, não se pode dar lições nem tão pouco fazer nivelar por si o que faz parte do património humano e cultural de tantas fés… mais ou menos conscientes, mais ou menos cristãs, mais ou menos católicas. 

= Mesmo que à sombra da ‘revolução de abril de 74’, Fátima continua a ter sentido e a dar identidade ao nosso parco país. Quem não terá já tido a vivência, no estrangeiro, de lhe ser perguntado de onde é e não saberem onde fica Portugal, mas logo percebem donde somos e quem somos, se dissermos que somos do país onde está Fátima.

A política dos três ‘fês’ – fado, futebol e Fátima – não foi invenção do Estado novo para entreter e camuflar as oposições ao regime. Tal como tão sabiamente disse o senhor cardeal Cerejeira: não foi a Igreja que impôs Fátima, foi Fátima que se impôs à Igreja…

Neste tributo de centralidade, poderemos entender o incómodo de certas forças que se viram vencidas pela promessa da Senhora vista pelos pastorinhos. Talvez seja um tanto confrangedor que se pretenda combater a quem não se reconhece existência nem possível credibilidade. Talvez possa ser um tanto quixotesco que ainda se dê ouvidos a pessoas que nada seriam se não andassem em busca dos seus fantasmas alumiados pelo fenómeno de Fátima…em Portugal e no mundo. 

= Ainda temos, cem anos depois, um longo caminho a percorrer para irmos passando da religião natural – das velas, das promessas, das situações meramente humanas e até algo mundanas – à capacidade de interpelação pelo Evangelho que Fátima e a sua mensagem nos trazem continuamente. Também aqui precisaremos de estar mais perto daqueles/as que fazem da sua ida a Fátima a sua expressão religiosa sem comunidade de fé. Também aqui precisaremos de passar do culto do sacrifício – desde o mais simples até ao percorrer de quilómetros a pé – mais ou menos por si mesmo e pela sua salvação individualista para a capacidade de aproveitar tudo o que me proporcionar oferecer em sacrifício pela salvação dos outros e do mundo pecador.   

Queira Deus que a celebração do ‘centenário das aparições’ não se fique só pelas coisas exteriores, mas antes consigamos todos viver um processo de conversão, aproveitando as críticas que nos possam fazer, desde que sinceras e bem-intencionadas.

Como dizia um padre (já falecido) num título dum livro contrapondo ao de outro (mais acintoso): Fátima, nunca mais ou nunca menos? Sim: Fátima sempre mais cristã e católica!

 

António Sílvio Couto