Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



quinta-feira, 6 de abril de 2017

Hibernação eucaliptal


Quem visite o nosso país e quem leia ou veja notícias deste torrão à beira mar plantado poderá ser levado a concluir: vive-se num país onde não há greves, não se verifica contestação a nada nem a ninguém – no sentido político – e até certas instituições tão intervencionistas, como o tribunal constitucional ou mesmo a comunicação social vivem num quase anonimato e sem se dar por eles…

Fique claro que não sou defensor da alteração da ordem pública ou do conflito sem mais, antes pelo contrário, advogo que se procure viver e fazer por viver em harmonia e concórdia entre todos, particularmente para com os que pensam de forma diferente, defendendo o direito à opinião, com liberdade e responsabilidade.

Mas o que me faz confusão é esta hibernação de sindicatos – em especial em setores tão atribulados como os transportes, a educação, a saúde ou mesmo a segurança (social ou de ordem pública) – e um certo fenómeno de eucaliptização duma grande parte dos contestatários e seus sequazes, bem como uma espécie de amorfismo em que estamos a viver coletiva e individualmente.

Sabemos como o eucalipto seca tudo em volta de si, sugando as fontes de alimentação até ao mais profundo da condição ambiente à sua volta. Não será isto que está a verificar-se com certas forças ideológico-partidárias? Conseguidos os intentos de atingir o poder, não há como saber calar e manietar quem não alinha nas pretensões ansiadas… Vemos que, hoje, quem achava pensar de forma diferente da maioria dominante ficou sem espaço de intervenção e nem mesmo uma dita comunicação extra-regime se faz eco de qualquer discordância, por mais subtil que possa insinuar-se… 

= Ao nível do mais alto dignitário da nação vemos que tudo está conciliado e nota-se um clima conciliador… com cheiro a populismo. Mas será que é isso que o resto dos cidadãos precisam? Onde está a voz tribunícia, que se ergue em defesa de quem não se revê neste sistema de condução dos destinos coletivos? Não foi para isto que foi eleito o presidente da república para ser uma espécie de caixa-de-ressonância dos interesses partidários instalados na governação por acordo nas catacumbas do parlamento… Não foi para vermos como porta-voz de conluios entre forças patrióticas de internacionalismos, que o mais alto dignitário se limita a não fazer ondas nem a assumir-se efetivamente como defensor dos mais fragilizados, antes a ser visto como comensal duma parte do eleitorado, que nem foi o dele…na origem.  

= Cresce, entretanto, uma onda de individualismo por entre as posições da maioria dos cidadãos nacionais. Já lá vai o tempo dum certo idealismo da partilha, que caraterizou os primeiros anos após a revolução abrilina. Excluindo os exageros de tantos que se aproveitaram da inépcia duma parte significativa da população, houve tempos em que éramos um povo mais solidário e nem os atropelos cometidos por uns tantos habilidosos deixou de gerar uma força de atenção aos outros e, sobretudo, aos mais desfavorecidos. Dessa época já restam poucos desses idealistas…com tino e bom senso.

Hoje vivemos – num galopante sentimento de incómodo – mais fechados aos outros, nesse egoísmo individualista que coloca o eu em primeiro lugar e só no final da lista os outros…mesmo familiares. As remessas de fundos vindos da Europa – com mais fulgor na década de 90 do século passado – foram-nos tornando mais e mais refinadamente interesseiros, fechando as mãos e cerrando os punhos, que antes eram de contestação, para se irem tornando sinais de posse e de possessão endeusada de bem-estar ou de exaltação dos direitos…adquiridos, sabe-se lá com que legitimidade.

Nalguns casos nem as instituições e os responsáveis religiosos ficaram à margem desta onda de materialismo prático, já que os resquícios do pragmatismo dialético foram sendo aveludados com promessas e recebimento de subsídios ao não-trabalho. Quanta habilidade foi emergindo em tantas situações, que descobertas mais tarde, se tornaram focos de escândalo e matéria de más notícias…

Efetivamente, a hibernação eucaliptal tem vindo a ser conduzida – ou será manipulada? – sem nos darmos conta com clareza, podendo cada um de nós correr o risco de pensar à maneira do modo como vive e não a viver à maneira daquilo que pensa… com valores e critérios mais humanos porque mais cristãos!

   

António Sílvio Couto



quarta-feira, 5 de abril de 2017

Dores da família…na Senhora da Soledade


Uma das imagens mais simbólicas do tempo da semana santa é a representação de Nossa Senhora das Dores: ela está presente em tantos dos momentos de religiosidade (procissões de Passos ou teatros populares) e resume a vivência, por excelência, da Mãe para com seu Filho no mistério da sua paixão-morte-ressurreição.

Se atendermos ainda ao tema da família poderemos ver com mais acutilância as dores da Senhora da Soledade, da Piedade, das Angústias… a ‘Mater Dolorosa’, se bem que Ela seja a expressão de tantas das dores da própria família.

Seguiremos, por contraste, a narrativa de São Paulo aos coríntios (1 Cor 13,4-7) para tentarmos aglutinar em sete (numa visão tradicional) as dores da Senhora naquilo que à família diz (ou pode dizer) respeito: ira, inveja, orgulho, mentira, violência, ofensa, vingança… por contraste com paciência, aceitação/tudo espera, confiança/humildade, verdade/tudo crê, amável/sem violência, perdão/amor, paz/tudo desculpa, tudo suporta.

Na exortação apostólica pós-sinodal ‘A alegria do amor’ (n.os 89-119), o Papa Francisco faz uma leitura muito pertinente sobre cada uma destas caraterísticas do amor humano e espiritual, colocando algumas diretrizes para vivermos na consonância da potencialidade com que os cristãos podem e devem viver a sua relação uns com os outros e todos em sintonia com Jesus na Igreja católica…

Respigaremos algumas dessas vertentes na consolação que queremos dar e receber de Nossa Senhora, passando das suas dores à vivência do amor em família, como família e para a família.

As dores da família repercutem-se na Senhora da Soledade, que continua a acompanhar, hoje, todos quantos se sentem submetidos às mais rudes provações, muitas delas no seio da própria família e outras geradas e acentuadas pelos critérios mundanos com que, de tantos modos, nos vamos socorrendo e enganando…mesmo sem disso nos darmos conta.

* À ira contrapomos a paciência – «Uma pessoa mostra-se paciente, quando não se deixa levar pelos impulsos interiores e evita agredir» (n.º 91) – Entregamos à mãe das dores as situações de agressividade, para que a família não seja, hoje nem nunca, um campo de batalha sem vencedores…

* À inveja propomos a aceitação, tudo esperando – «A inveja é uma tristeza pelo bem alheio, demonstrando que não nos interessa a felicidade dos outros, porque estamos concentrados exclusivamente no nosso bem-estar» (n.º 95) – Apresentamos à mãe das dores quantas amarguras e desesperos que consomem as famílias, criando, por vezes, menos boa aceitação uns para com os outros…e entre si.

* Ao orgulho contrapomos a confiança pela humildade – O ‘amor não é arrogante’… [isto é] não se «engrandece» diante dos outros; mas indica algo de mais subtil» (n.º 97) – Na medida em que todos se aceitam e onde todos se procuram servir com estima, sinceridade e admiração…

* Perante a mentira propomos a verdade/tudo crê – «Como se diz muitas vezes, para amar os outros, é preciso primeiro amar-se a si mesmo» (n.º 101) – Com a Senhora da Soledade queremos aprender a amar mais os outros do que desejando ser amado, sendo transparentes uns com os outros, vivendo e dando liberdade sem aprisionar ninguém…nem pelo pretenso amor.

* À violência (interior e exterior) responder com amabilidade – «Para restabelecer a harmonia familiar basta um pequeno gesto, uma coisa de nada. É suficiente uma carícia, sem palavras. Mas nunca permitais que o dia em família termine sem fazer as pazes’» (n.º 104) – Entregando à Senhora das Angústias as agruras da família poderemos viver a cortesia como escola de sensibilidade e de altruísmo com pequenos gestos de ternura e carinho entre todos…sem distinção nem preconceitos.

* Combater a ofensa com o perdão/amor – «O perdão fundado numa atitude positiva que procura compreender a fraqueza alheia e encontrar desculpas para a outra pessoa» (n.º 105) – Será com a Senhora da Piedade que poderemos viver a dinâmica de sermos perdoados e de termos capacidade de perdoar a nós mesmos e uns para com os outros… porque todos perdoados por Deus.

* À vingança contrapomos a paz, tudo desculpando e tudo suportando – «O amor não se deixa dominar pelo ressentimento, o desprezo das pessoas, o desejo de se lamentar ou vingar de alguma coisa» (n.º 119) – Quem melhor do que a Senhora de-ao-pé-da-cruz para nos ensinar a paz e o abandono nas mãos do Pai, por Jesus, no Espírito Santo!

 

António Sílvio Couto




segunda-feira, 3 de abril de 2017

Promover e dar voz às famílias


‘Vivemos num mundo que parece querer fechar-se. Se queremos mudar temos de promover e dar voz às famílias’, de modo a que se defenda um mundo mais humano – disse D. José Ornelas, no domingo, dia 2 de abril, no santuário de Cristo Rei, Almada.

O Bispo de Setúbal intervinha na quarta e última catequese quaresmal, subordinada ao tema: Igreja, família de famílias. Esta catequese esteve integrada ainda no ‘dia diocesano da família’, que decorreu naquele santuário e reuniu centenas de famílias de toda a diocese… muitas delas com crianças ainda pequenas.

Esta quarta catequese teve três aspetos: do eu ao nós; Igreja-família; irmãos e irmãs ao serviço da grande família de Deus. 

= ‘A família é o espaço onde o encontro se faz carinho’, referiu D. José Ornelas, pois a ‘dinâmica do ‘eu ao nós’ não se fecha na própria família/casa’, na medida em que ‘é na abertura às outras famílias que se desenvolvem os povos’. Neste sentido, o Bispo de Setúbal apelou para que ‘os movimentos de cariz familiar devem estar atentos e dinamizados’, por forma a intervirem, no processo de humanização, onde a família deve contar… 

= Na segunda parte da catequese, D. José Ornelas centrou a sua atenção numa passagem bíblica onde se refere a escolha dos doze apóstolos e de faz o confronto com a família de sangue em Jesus passando para a família da fé. ‘Jesus rejeita a família fechada, controlada’, defendendo que ‘a verdadeira vocação da família humana tem como horizonte a paternidade/maternidade do Pai do Céu’. Com efeito, ‘Jesus leva o espírito de família para dentro da comunidade’. O Bispo de Setúbal realçou duas figuras que caraterizam a Igreja – mãe e irmão/irmã, com a ‘função materna que transmite a vida, educa e cuida dos mais débeis’, tipificada em Maria e a dimensão fraterna – irmão/irmã – que são ‘consequência da maternidade da Igreja’. 

= Na última parte desta catequese, D. José Ornelas falou da vocação dos padres e consagrados/as como irmãos e irmãs chamados a estar ao serviço da grande família de Deus. Partindo da consideração de que estas pessoas ‘não são incapazes de afeto’ nem seguiram esta vida (vocação) por traumas de teor afetivo, o Bispo de Setúbal referiu que ‘quem não tenha coração de pai não pode ser padre nem quem não tiver coração de mãe não pode ser consagrada’. Atendendo a isso, D. José Ornelas salientou ainda que estas vocações ‘não podem prescindir do amor ou, então, seriam inúteis’. Estes vocacionados têm de viver ‘em diálogo com Deus e com os outros’ ao longo de toda a sua vida, pois devem ‘aprender a serem irmãos e irmãs com os outros’.  

* Ao longo desta quaresma a Igreja de Setúbal pode escutar o seu Bispo em ensino sobre a temática da família. Foram momentos interessantes e que reputamos de importantes não só pela urgência do tema, mas também pela faculdade de podermos aprender em comum as linhas essenciais do ministério do nosso Bispo. As vertentes analisadas foram simples e em linguagem entendível, tanto para clérigos como para leigos. Em geral houve interesse por parte dos ouvintes, embora pareça que uma grande parte ainda se limita a fixar de ouvido, o que nem sempre deixa grandes marcas para além da audição momentânea. Apesar do recurso às gravações/filmagens seria de todo importante investir na tomada de notas para reflexão pessoal e familiar…  

* Um outro aspeto a ter em conta de futuro deveria ser a participação sistemática em todos os subtemas – o conjunto é que faz a totalidade – bem como deveriam ser relativizadas todas as outras ações particulares – por muito importantes ou tradicionais que possam ser – tanto de paróquias como de movimentos e outras devoções. Dá a impressão que temos ainda um longo caminho a fazer e a partilhar. Parece que o principal e essencial interesse dos leigos como que repercute o entendimento e a participação dos seus responsáveis, nessa subtil linguagem de alguém se dizia, por contraste, se o Papa fala e os bispos não ouvem; se os bispos falam e os padres não escutam; como poderão os leigos escutar se veem que os seus guias não dão o exemplo… Não basta mandar, é preciso ter autoridade… na família, na paróquia, na diocese! 

 

António Sílvio Couto




terça-feira, 28 de março de 2017

Insultos e provocações…quase-impunes!


Parece que não há dia algum em que não se veja noticiado – com maior ou menor destaque, dependendo dos intervenientes – algum insulto, provocação ou ofensa a pessoas e a instituições, num quadro de visibilidade percetível a quem interessa…

Há setores onde têm vindo a crescer os insultos e os casos de intolerância – no desporto, sobretudo no futebol, vemos cada vez mais que dirigentes e claques se comportam quase duma forma arruaceira, desde as palavras até aos atos… incendiando multidões a favor ou contra; na área da política, nem sempre a racionalidade é o melhor substantivo para avaliar seguidores e adversários; no campo da comunicação social surgem cíclica e acintosamente episódios, casos e narrativas onde a honorabilidade para além de ser questionada é ofendida, achincalhada e aviltada…Ontem eram os duelos e as defesas da honra, hoje lança-se a suspeita…mesmo que anónima e pela fechadura do facebook… até que seja ultrapassada por outro caso ou relato real ou virtual!

Cada vez menos está, seja quem for, num patamar não atingível, bastando que se crie algo que lance na lama e com muita dificuldade dela se sairá não-sujo… por muito tempo.

Há, no entanto, uma espécie de figuras a quem (quase) tudo é permitido e a quem nada nem ninguém parece atingir nem de soslaio: esses que podem dizer o que disserem, façam o que desejarem ou que muito bem acharem, critiquem quem lhes der na real-gana e não se passa nada… Nalgumas situações como que vemos hoje inverterem-se os papéis que antes eram de subordinação e de discriminação: coisas ligadas ao género (antes dizia-se sexo) ou ainda as funções tendo em conta a cor da pele…condicionam e exaltam as reações e os (possíveis) pensamentos. Há discriminações ostensivas e promoções coercivas, muito mais do que é noticiado e seria aceitável. 

Recordemos, então, alguns episódios… mais ou menos recentes, que nos referem este panorama de insultos, de suspeitas e de provocações:

– aquilo que disse um tal ministro (por sinal socialista) holandês, a propósito da ajuda que receberam os países do sul da Europa, em tempos de austeridade – usaram a ajuda para copos e mulheres;

– os ‘cânticos’ de fações de apoio à seleção nacional – usaram palavrões contra adeptos de equipas adversárias;

– as invetivas nos estádios de futebol, versando ofensas à honra e à dignidade das mães dos opositores e, sobretudo, do árbitro;

– as diatribes no parlamento entre defensores e oponentes do governo em exercício, resvalando para uma certa linguagem mais soez do que adequada a oradores e adversários…com instrução e alguma educação;

– os argumentos inflamados de comentadores televisivos, onde o basqueiro (isto é, barulho desorganizado ou agitação, típico no linguajar dalgumas regiões) parece querer disfarçar os reais intentos de quem não quer nem deixa que fale quem tenha algo a comunicar;  

– os impropérios com que tantos mentores da cultura vão alfinetando quem não dá cobertura aos seus arremedos intelectuais;

– a indisfarçável indisposição com que certas forças apelidam quem não alinha na sua descrença e agnosticismo – bastará ler e ouvir o que se diz (ou insinua) sobre Fátima, sobretudo neste ano do centenário das aparições;

– umas tantas suspeitas – logo tornadas indiscutíveis e dogmáticas porque afirmadas por certos gurus da maledicência – sobre os dinheiros geridos e cuidados por instituições ligadas à Igreja católica…

Sobre estes e muitos outros aspetos – que ofendem a honra e o bom-nome de tanta gente – é lançado um manto de impunidade, nunca ressarcindo quem foi difamado ou desonrado, antes continua a ser humilhado e a ser vítima das mais torpes malfeitorias…anónimas e difundidas suficientemente.

Porque defendemos, acima de tudo, a dignidade de todos, não podemos continuar a calar tantas injustiças, tendo em conta que muitos dos malfeitores e difamadores se escondem sob a sua capa de liberdade, mas para com os outros não assumem os seus erros, exageros e cumplicidades. Basta de silêncio. Basta de ofensa…

 

António Sílvio Couto



segunda-feira, 27 de março de 2017

A família como rede capilar de difusão do Evangelho


A família é, ou deve ser, como que ‘uma rede capilar de difusão do Evangelho’, fazendo ‘da nossa fé algo integrador e não com alguns momentos para o sagrado’, disse D. José Ornelas, que falava no decorrer da terceira catequese quaresmal, que se realizou numa das casas dos círios no santuário de Nossa Senhora da Atalaia, Montijo, versando o tema – ‘Família: lugar da presença e da revelação de Deus’. 

O Bispo de Setúbal colocou a abrir algumas questões, que foi respondendo ao longo dos cerca de quarenta minutos da sua catequese: Como se vive a fé em família, que lugar tem Deus? Como se vive a fé nas nossas casas? Será que circunscrevemos a expressão da fé ao tempo que passamos na Igreja?

Esta terceira catequese foi desenvolvida em três aspetos: Templo e as casas de Deus; Nazaré – casa da família de Jesus; o casal e a família como sacramento da presença de Deus.

 
= Partindo da explicação das vivências de ‘Templo e de casa’, no sentido bíblico, D. José Ornela percorreu várias figuras (Abraão e Moisés) e situações do povo de Israel (libertação do Egito, instalação na terra prometida e exílio) para tipificar as formas de Deus estar presente com o seu povo, desde a peregrinação pelo deserto até à construção do Templo em Jerusalém e que, após a experiência do exílio, se centra na sinagoga, ‘como a casa da Palavra’, onde se escuta Deus, pois ‘onde se reúnem as pessoas é lá que Deus está’. Para ilustrar as etapas da presença de Deus com o seu povo apresentou, por comparação, os momentos de anúncio de nascimento de João Batista, no templo e o de Jesus, na casa de Maria, em Nazaré.  

= ‘Nazaré é a primeira das casas que acolheu Jesus, aí cresceu Jesus’, considerou o Bispo de Setúbal a abrir a segunda parte da sua catequese. Com efeito, ‘Nazaré é ícone de evolução das nossas famílias’, pois Jesus não centra a sua atenção nos ambientes sagrados, mas ‘entra nas casas’, fazendo com que ‘o encontro com Deus se alargasse aos lugares habituais e da vida de família’. A terminar esta etapa da catequese, D. José salientou que ‘durante quase três séculos a Igreja viveu sem templos’… 

= Na terceira parte da sua catequese o Bispo de Setúbal falou da casa de família como sacramento da presença de Deus. Não podemos permitir que a ‘família seja como que a área do profano por contraste com o sagrado (religioso) na paróquia’, antes têm de ser complementares. Pai e mãe são ‘sacerdotes dentro da casa’, pois são eles que ‘fazem a ponte da vida humana’.

D. José Ornelas realçou também a importância do dever de abençoar, em família, dado que isso ‘transmite o carinho do Pai do Céu em família’, salientando ainda que ‘é importante que a família tenha momentos quotidianos da presença da Palavra de Deus’. Com efeito, ‘ninguém melhor do que os pais podem ensinar a rezar’, pois ‘família onde Cristo está presente, abre-se à dimensão da paróquia e da diocese’. 

Atendendo às anteriores catequeses, percebendo a importância do tema, tentando compreender o significado destas iniciativas para a etapa da vida da nossa diocese, cremos que há aspetos da vida católica que precisam de ser melhor cuidados. Com efeito, se o tema da família é tão essencial, porque faltam tantos responsáveis nestas ocasiões de aprendizagem seja nas linguagens ou das propostas? Não andaremos entretidos com o urgente, esquecendo o fundamental? Até onde irá a humildade capaz de alegrar-se com os dons, qualidades e carismas dos outros? Não teremos olhos menos límpidos uns para com os outros?

Apesar de sermos uma diocese com um número de praticantes reduzido, parece que o leque de abertura aos outros – de dentro e de fora da Igreja – está ainda um tanto afunilado, mesmo entre os casais e outros participantes nas iniciativas…diocesanas. Será que é preciso pertencer a algum grupo específico para ser visto, acolhido e atendido como irmão na mesma fé? Será que, estando no mesmo barco, remamos todos (ou o mais possível) na mesma direção? Não andaremos a confundir os sentidos por onde e para onde queremos ir…em comum?

Lamento que nos falte mais espírito de comunhão entre todos e para com todos e que nem as intempéries sejam capazes de nos desmotivar… ontem como hoje.    

 

António Sílvio Couto



terça-feira, 21 de março de 2017

Quando a maledicência parece compensar…


Desde há alguns dias que vimos andar na trituradora das notícias referências a ‘problemas’ relacionados – bem diferente seria se fossem só relativos – com a Caritas, uma organização da Igreja católica por onde passa muita da ajuda – assistência, prevenção ou solidariedade – a pessoas em dificuldade…económica, familiar, psicológica, moral ou espiritual.

A ‘notícia’ mais bombástica surgiu nas labaredas da (dita) opinião pública cerca de uma semana antes da designação ‘semana Caritas’ – envolvendo, sobretudo, a sua expressão em Lisboa – e, consequentemente, colidindo com o peditório de rua em todas as dioceses. A emersão do assunto naquela data não foi nem inocente e tão pouco inconsequente. Pelos valores envolvidos e outras questões apensadas deu para perceber que os danos na recolha de donativos estava, desde logo, prejudicada, fossem quais fossem as pessoas que viessem para a rua e onde quer que isso se visualizasse.  

= Um breve aparte: sabemos como certas entidades não conseguem fazer com idênticos meios e valores, algo que se assemelhe àquilo que a Igreja vai conseguindo. Um dia alguém referiu que a Igreja é capaz de fazer com um terço dos valores o que outros tentam com três vezes mais… Ora tais ‘milagres’ não são fruto da sorte nem mera proteção divina – diga-se que se sente e se exercita…fielmente –, mas antes registam-se devido uma boa gestão de proximidade, aliando ao razoável conhecimento das causas em ordem a vencer as consequências. 

= Feita esta ressalva poderemos tentar descortinar alguns dos motivos que terão levado a que certas forças se assanhassem contra a Caritas e um tanto para com a Igreja católica naquilo que ela tem de presença no mundo dos desfavorecidos, marginalizados e até malqueridos no resto do tempo, à exceção da época de eleições… Porque é que uma tal jornalista se abespinhou tanto sobre o assunto – debitando juízos do seu pedestal televisivo – e não fez antes uma reflexão sobre alguém da sua família, que fugiu do país após ter sido acusada de gerir um tal ‘saco-azul’? Será que certas figuras pensam que somos todos desmemoriados e não conseguimos unir as pontas de episódios e situações duvidosas, ontem como hoje? Até onde irá a cumplicidade de argumentos, quando estão em causa assuntos mais sérios do que fait-divers encomendados? Todos precisamos de cultivar a transparência, mas com isso não andemos a gerar momentos translúcidos ao serviço de razões (mais ou menos) subterrâneas… 

= Tentemos enquadrar a obra da Caritas e de tantos outros serviços e movimentos na Igreja católica que concretizam a ‘ação sacerdotal’ de cada cristão pela caridade organizada e vivida como testemunho da Palavra escutada e da liturgia celebrada.

* Assistência – mais que um certo assistencialismo que não dignifica quem o recebe, a capacidade de assistência pode e deve criar sinergias para fazer sair das dificuldades quem pede ajuda e a recebe gratuitamente… Por vezes um pequeno empurrão pode fazer toda a diferença. Quantos casos temos visto, assistido e compartilhado. 

* Prevenção – será pela educação e a valorização dos fatores de tribulação que muitos dos que se aproximam dos serviços sócio-caritativos da Igreja católica, que têm de se distinguir das ações de segurança social ou das redes de ministérios da área do trabalho, que muitos casos poderão e deverão ser resolvidos de forma responsável e não meramente subsidio-dependente… Basta de ter presos pela boca os que precisam de ajuda! * Solidariedade – há quem considere esta como o novo nome da caridade, mas nem sempre isso será tão linear. Com efeito, já os padres da Igreja diziam: não dês aos outros por caridade, aquilo que merecem por justiça! A solidariedade cria novas oportunidades, mas estas não podem ser prolongamento das pretensões de quem o executa. A dignidade das pessoas merece ser respeitada sempre e sem intenções menos claras ou capciosas.

Cremos que não será esta onda de maledicência que fará desmotivar quem serve os outros, porque eles são presença e sinal de Cristo para nós. A recompensa será dada sempre e essencialmente por Deus!

 

António Sílvio Couto



Família é escola viva e da vida


D. José Ornelas, na catequese que proferiu, no passado domingo, dia dezanove, na Sé Catedral de Setúbal, falou sobre ‘família – escola do amor e da reconciliação’, abordando as vertentes de ‘formar-se em família e como família’, de ‘acompanhar o crescimento dos filhos’ e tendo como modelo e testemunho São José.

O Bispo de Setúbal fez a sua intervenção perante uma Sé repleta de cristãos, entre os quais algumas dezenas de catecúmenos, que fizeram o rito do primeiro escrutínio momentos antes de se iniciar esta segunda catequese quaresmal. 

= Partindo da pergunta – como se realiza na família o crescer juntos? D. José respondeu que esta dimensão familiar se concretiza em dois aspetos: crescer, formar e formar-se em família, sendo que educar-se é importante em todas as idades.

O Bispo de Setúbal salientou que devemos ‘dar graças a Deus pelas nossas famílias’, apesar das dificuldades exteriores e interiores, que eles têm de enfrentar. Com efeito, quando vemos ‘proliferar fracassos de tantos projetos de família’, temos de ‘acolhê-las com especial atenção na comunidade cristã’.

Referindo-se à dimensão da educação na família, D. José Ornelas, referiu que ‘o caminho da educação tem de ser iniciado nas famílias de origem’. Ora para que a família tenha tempo para si própria, ‘temos de criar espaço na nossa família e não só o que sobre doutras atividades’, mesmo no que se refere àquelas que estão adstritas às coisas da paróquia ou naquilo que se refere ao trabalho ou a questões que fazem com que se esteja fora da família.

Dando algumas sugestões no que concerne à família no contexto da Igreja católica, o Bispo de Setúbal realçou que é preciso ‘repensar a pastoral familiar, tendo em conta as etapas dos mais frágeis, isto é, as crianças e os anciãos’. 

= Na segunda parte do tema, D. José Ornelas centrou a sua atenção no acompanhamento, em família, da educação dos filhos, tendo considerado que é ‘imprescindível a família na educação dos filhos’, pois será ‘a partir do amor e do carinho da família que se há de desenvolver a educação duma criança ou de um jovem’. Neste sentido, o Bispo de Setúbal acentua que ‘a perceção do afeto dos pais é fundamental para os filhos, mesmo nas coisas mais simples’, pois a família é referência até quando cuida na fragilidade.

A finalizar D. José apresentou breves incisos sobre a figura de São José – dado que nesse dia se celebrava o ‘dia do pai’ – na medida em que ‘José é aquele que recebe e passa tradição’, tal como o pai é ‘aquele que explica e é garante da promessa de Deus’.  

= Tal como na primeira catequese quaresmal sentimos algumas perguntas e inquietações, que, mesmo de forma simples (sem pretender ser simplista), ousamos aqui colocar:

* Numa grande maioria os participantes nestas catequeses são já pessoas que fizeram o seu caminho humano e histórico, por isso, não será de investir mais na prevenção de questões de âmbito familiar do que lançarmos sementes em terreno onde os frutos não serão tão profícuos e com futuro?

* Mais uma vez consideramos que se nota a ausência de bastantes clérigos, que têm a função de conduzir as orientações pastorais neste setor da família, não será, ao menos, de acertar a linguagem mais do que os (meros) conceitos?

* Como se poderá fazer crer e dinamizar mais pessoas – com tempo, recursos e estratégias – para que a família seja a curto e a médio prazo o que há de mais importante social, cultural e eclesialmente…dado que se ela falhar ou implodir que nos restará?

Afetiva e efetivamente, a família é e continuará a ser escola viva e da vida…   

 

António Sílvio Couto