Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



quinta-feira, 9 de março de 2017

Tiques ‘novos’ à moda antiga


Por estes dias e nos tempos mais recentes temos vindo a assistir – nos vários campos de atividade e de ação pública e política, mas também social e até no âmbito religioso – ao ressurgimento de tiques mais ou menos já vistos e que tantos estragos fizeram no nosso país…nesta era da (dita) democracia.

O cancelamento duma conferência sobre ‘populismo ou democracia? O brexit, Trump e Le Pen em debate’, numa (pretensamente progressista) universidade, em Lisboa, tem sido como que o rastilho para percebermos que uns tantos podem silenciar quem não pensa como eles, aduzindo a isso epítetos e argumentos de colonialistas, racistas e xenófobos com que foram classificados, por uma tal associação de estudantes, os promotores e talvez os que pudessem interessar-se pela dita palestra…  

Outrossim se poderá dizer das posições de certas forças ideológicas que, quando não são favorecidas nas posições por algum organismo oficial – económico, de regulação, social ou cultural – logo atiram para a fogueira os visados e ameaçam com a modificação dos parâmetros ou com a extinção…libertando, deste modo, o campo para que seja feito segundo os seus critérios e vontades…

Mal vai uma Nação na qual seja preciso argumentar com a credibilidade da comunicação social, quando esta se faz, sobretudo, eco da voz do dono…seja ele estatal ou privado. Só alguém muito inocente acredita que haja independência total neste ‘quarto poder’, que por querer afirmar-se no espectro geral tem de lutar com as armas que pode e talvez nem sempre ser tão anódino como uns tantos queriam… Há, de facto, coincidências em noticiar temas que só ‘por acaso’ surgem quando é preciso desviar as atenções de algo que se deseja distrair. Talvez só por razões ético-profissionais não se diga tanto quanto é preciso e possível dizer. Só quem nunca tenha andado por certos círculos – ou circos – é que se admirará da criação de diversões e da ampliação doutros episódios…  

= Fazendo-nos eco duma passagem bíblica poderemos considerar: nada há de novo debaixo do Céu, pois o que antes se viu, agora – duma forma diferente, mas não totalmente nova – surge. Será preciso, então, saber um pouco da filosofia da história para sermos capazes de interpretar o que agora acontece, sem ficarmos aterrados ou admirados com o que se está a passar.

Falta a muita gente visão abrangente e capacidade de discernimento, pois quem se defende, por vezes, usa armas que denotam mais fragilidade do que superioridade. Com efeito, ter medo daquilo que os outros pensam e, sobretudo, se o fazem de forma diversa da sua, será, no mínimo, insegurança e pouca tolerância, respeito e aceitação da diferença…na prática.

Recorrer a estereótipos e acusações do passado será, muitas das vezes, mais arrogância do que inteligência, embora possa representar alguma esperteza. Com efeito, há quem conte mais com a sua esperteza sem atender à inteligência dos outros ou ainda sonegue esta sem atender àquela.

Entrincheirar-se nas suas certezas, normalmente, não costuma ser bom princípio para o diálogo, seja com quem for, pois este gera-se no confronto de posições, com respeito e dignidade, sem pretender vencer só porque se acha que tem mais cotação… De facto, certas atitudes que vemos por aí mais parecem as posições duns certos animais que enfincando os meios de locomoção no chão não andam nem deixam andar…na sua convicção.

O recurso à recuperação de certos adereços – mesmo de classe ou de afirmação pública duma vocação – tem vindo a ser outro aspeto de tique ‘novo’ à moda antiga. Para quem precisa de se afirmar pela distinção talvez isso possa ser razoável, pior será se isso servir para se defender ou tentar colher frutos dum posicionamento (dito) superior. Em certas circunstâncias dá a sensação de que, quem assim se apresenta, pode considerar-se melhor do que outros que, podendo ou circunstancialmente usando, não o fazem de forma habitual… Este tique corre o risco de se difundir mais do que parece em certos meios mais fundamentalistas ou anticristãos. 

= Perante certos tiques podemos concluir que já não apresentam nada de novo, antes dão a impressão que denunciam uma recauchutagem de má qualidade! Verdade a quanto obrigas!  

 

António Sílvio Couto



terça-feira, 7 de março de 2017

Tr(i)unfos comprometedores…


Soube-se, por estes dias, que os dados sobre a execução orçamental do ano passado e a leitura dos mesmos foi criticada pelo ‘conselho de finanças públicas’ (CFP), cuja presidente do conselho superior considerou ‘um milagre’ o défice alcançado com ‘medidas que não são sustentáveis’ a longo prazo.

As reações foram tanto de espanto quanto de espantar: uns porque se quis inclui a nota do divino, onde o que foi feito saiu do pelo dos portugueses… outros porém, não contentes com as farpas dos técnicos do CFP, sugeriram ora a sua remodelação, ora a sua extinção… porque ao que parece por não se dizer – ou confirmar – aquilo de quem ocupa o poder deseja ou, sabe-se lá, por agora já não convirem as correções aos triunfos, que mais não parecem do que trunfos escondidos na hora de clamar vitória.  

= O que é e para que serve o CFP? O ‘conselho de finanças públicas’ é um organismo independente que fiscaliza o cumprimento das regras orçamentais em Portugal e a sustentabilidade das finanças públicas. Criado em 2011 e em exercício desde fevereiro de 2012 tem a missão de proceder à avaliação independente sobre a consistência, cumprimento e sustentabilidade da política orçamental, promovendo a sua transparência, de modo a contribuir para a qualidade da democracia e das decisões de política económica e para reforço da credibilidade financeira do estado. 

= Quem tem medo da verdade e parece que se esconde sob a capa do sucesso ainda não confirmado? Porque agora se teme que se diga que nem tudo correu bem, quando antes se fazia apanágio do ‘quanto pior melhor’? Não será possível que os atores da ação política tenham mais tento na língua, sem esquecerem o que disseram antes sobre os outros?

Até quando pensarão tratar os cidadãos como desprovidos de capacidade crítica, quando querem confundir a árvore com a floresta, isto é, acusar quem agora não lhes convém, quando antes aplaudiam porque lhes era favorável? Ainda creem que serão adulados nas suas pretensões, quando vão condicionando o apuramento dos números…mesmo que estes lhes possam – realmente – ser adversos? 

= Bastará trazer à colação o título – ‘triunfo dos porcos’, de George Orwell, de 1945, para intentarmos ler muitos dos episódios da nossa vida coletiva, seja quem for que ocupe o poder…em Portugal ou noutro país… indo embater na célebre frase: ‘todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais do que outros’.

Efetivamente, mesmo quem conhece a alegoria, tantas vezes se esquece de que está sob suspeita de toda e mais alguma vulnerabilidade de tentar proteger quem concorda consigo e de nem sempre aceitar quem discorda daquilo que diz-e-faz, mesmo que possa ter razão e alguma razoabilidade… sobretudo no futuro.

Nas tentativas de recauchutagem que fizeram surgir ‘o triunfo dos porcos’, vamos vendo que há muita gente que ainda não aprendeu as lições do passado – seja ela estalinista ou com outra coloração – pois correm o risco de continuar a tratar os outros com esses tiques de displicência e de sobranceria, que já deviam ter sido corrigidos com humildade e verdade… 

= Agora que estamos, catolicamente, em tempo de quaresma não deixa de ser fundamental que nos confrontemos com propostas da Palavra de Deus e do magistério da Igreja em ordem a tentarmos fazer cair a máscara – adereço essencial do teatro para ampliar a voz e fazer cumprir um papel de representação – diante de nós mesmos, dos outros e até para com Deus… Será preciso cada um conhecer-se para poder ser capaz de aceitar os seus erros e disfarces…mais ou menos aceites, legitimados ou tolerados. Se há uns que tiveram lições de teatro, outros há que não passam de fracos/as amadores, porque não amam nada nem ninguém… a não ser ao seu umbigo!

 

António Sílvio Couto



segunda-feira, 6 de março de 2017

Donald – entre o pato e o outro…


 

Faz parte dum certo imaginário infantil – pelo menos de muitos quinquagenários – a figura do ‘pato donald’, essa espécie de ícone dos desenhos animados que, em vários momentos, encarna uma espécie de personagem antipática, mal-humorada e mutante, em luta aguerrida com Mickey Mouse e sobrinhos… A finalizar cada episódio lá surge a voz grasnada… numa ‘leitura’ dos acontecimentos mais ou menos desagradáveis… Desde a década de trinta do século passado que o ‘pato donald’, os sobrinhos, adversários e afins têm preenchido imensas rábulas nas várias línguas e latitudes…entretendo e questionando.

Nos últimos tempos surgiu, entretanto, um outro ‘donald’ – donald joseph trump – que tem vindo a assombrar muitas mentes e a lançar imenso grasnar de reprovação a partir do seu novo ofício, o de presidente dos EUA. Diante da figura do ‘pato’, este novo ‘donald’ como que fica – ou tem vindo a ficar – cada vez mais como alguém que ensoberbe o tal ‘pato’, na medida em que as tropelias deste não passam de ironias perante as altissonâncias do (agora) investido em poder pelos americanos… 

= Há, no entanto, tantos sinais de seguidores do ‘donaldismo’ – mais o do pato do que o do político – que precisaremos de estar em contínua observância de factos e de ideias. Com efeito, vamos vendo serem tolhidas as energias de tantos que procuram dar um novo sentido à vida e aquilo que veem é a difusão da cultura da morte, seja relatada, seja no culto do direito à autonomia… essa nova forma de designar a possibilidade de promover a ‘morte doce’ (eutanásia) a pedido ou camuflada de legislação aceite…em (má) consciência…invencivelmente errónea!

O grasnar do ‘pato donald’ poderá tornar-se o refrão de assentimento de muitos dos desejos e projetos dos mentores da cultura da morte. De facto, ninguém pediu que se venha a soltar a ‘caixa de pandora’ dos movimentos fraturantes com que certos setores da ‘esquerda social travestida de política’ nos querem brindar nos tempos mais próximos. Enquanto nos desenhos de animação podíamos controlar o enredo, agora, desencadeadas as investidas, pouco restará para que seja possível aglutinar os cacos estilhaçados na nossa sociedade um tanto permissiva e bastante irracional. 

= Se estivemos atentos poderemos encontrar na textura dos combatentes do ‘donald trump’ que muitos daqueles que têm vindo a servir a luta contra certos valores que o ‘donald’ político tem estado a fazer reverter do seu antecessor, sobretudo em matérias éticas e sociais mais ou menos dos lóbis internacionais razoavelmente combativos e sobretudo anticristãos. Por vezes, o gato não escondeu bem o rabo e podem, então, ver-se os tentáculos aveludados em matéria de assunto e de notícias.

As questões relacionadas com a família, que tão maltratadas foram pela administração americana anterior, podem sofrer de novo posicionamento no contexto de toda a sociedade ocidental. Urge, por isso, saber distinguir o essencial daquilo que é secundário. Torna-se fundamental que pensemos pela nossa cabeça e que sigamos os valores evangélicos e não as meras diretrizes das lojas do avental e afins. Acrescente-se ainda que seria de gosto duvidoso que houvesse tantos ignorantes e desfasados mentais que elegeram quem os possa governar…mesmo que nem sempre acerte nos critérios mais adequados. Reduzir os eleitores à condição de quasi-mentecaptos será um tanto abusivo e preocupante para a democracia deles e a nossa!   

= Cuidemos, então, do nosso futuro, refletindo sobre o presente. Este será tanto mais assegurado na confiança quanto se souber para onde queremos caminhar, com quem desejamos ir e quais os desafios a concretizar. A ver pelos ‘patos’ que grasnam, algo vai mal no reino da fantasia… se desta se trata, pois para tal acontecer – haver fantasia – será preciso ser adulto nos valores e sério nos métodos, pois os fins nem sempre justificam os meios usados ou a promover. Quando vemos mulheres – portadoras, por excelência, do dom da maternidade – serem as primeiras promotoras da cultura da morte, algo vai mal no reino da realidade… funesta e fatalista! Quando vemos certas forças trocarem a ideologia por minudências de grupos de influência, teremos de suspeitar que a (dita) democracia corre muito sério risco…agora e no futuro!

 

António Sílvio Couto



terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

À luz da lua!


‘Moonlight’ – numa tradução brasileira: ‘sob a luz do luar’… aqui ousamos traduzir por ‘à luz da lua’ – foi o vencedor do óscar para melhor filme do ano passado…embora no primeiro anúncio tenha sido referido um outro… o que lançou uma solene e eminente bronca na distribuição das prebendas do cinema.

Não sou nem nunca fui grande cinéfilo, mas a confusão do espetáculo dos óscares foi digna da prosápia com que os excelentíssimos apresentadores e a maioria dos seguidores da dita ‘sétima arte’ têm vivido – nessa ocasião se refinaram – em tratar o chefe máximo do país que os acolhe…até porque muitos deles não passam de mercenários, onde a tal ‘arte’ tem mais bolor do que qualidade e a presunção nem precisa de maquilhagem para luzir… nas trevas da lua!

Quem queria tosquiar foi tosquiado – diz o nosso povo com razão! De facto, com tantas atribuições e tributos culturais, dar asneira num acontecimento daqueles, manifesta que algo vai mal no reino da fantasia. Ali foi posto a manifesto que a lua se eclipsou e, por breves momentos, ofuscou os discursos inflamados contra o poder legitimamente eleito, atirando para a lama quem atiçou as rezes na arena e fez com que se possa pensa – muito mais do que seria desejável – que tudo corre bem até quando se descobre a tramoia… 

= Deixem que, por momentos, se possa transladar aquele figurino todo ou em parte para a nossa praça – ou será antes saguão ou até porta dos fundos? – e com alguma vulgaridade poderemos recorrer a uns quantos argumentos de que uns tantos/as vingam (isto é, vencem) enquanto têm cobertura, mas um dia pode acontecer um resvalo menos previsto e tudo se poderá pôr a nu… A luz deixará de brilhar, pois já não reflete o sol que a suportava! 

Na verdade há situações e episódios que, na sua complexidade e subtileza, nos obrigam a tentar descobrir quem manobra quem ou como se faz e chega a algum posto a que que custo e com armas. Sinto que os acontecimentos mais recentes do nosso país económico e social, político e emocional tem vindo a ser tratado com alguma leviandade, senão no conteúdo ao menos na forma. Por onde andava o povo agora tão animado como não se via desde há dezassete anos? As agruras foram enterradas com tanta velocidade, que não se lhes vê já o rasto? Bastarão umas doses de (pretenso) otimismo para contagiar o resto do povo? A difusão dos afetos e abraços pagam as contas e as dívidas? Como se faz para que se vença a miséria e não se volte, brevemente, à casa de partida como (acontecia) no jogo do monopólio? 

= À luz da lua – ou ‘sob a luz do luar’ – parece ser um bom título para o desempenho de muitos dos artistas que vemos em atuação… Não me refiro à semelhança com o filme oscarizado, mas à ideia de que à luz da lua poderemos ir vendo as sombras, mas quando o sol aparecer, de verdade, não ficaremos admirados com os fantasmas que nos tentavam impingir?

Uma coisa é ser utópico, outra bem distinta é ser lunático. Tanto quanto é percetível este segundo estado tem vindo a derramar-se numa forma crescente e bem paga…neste nosso imenso Portugal em penumbra de esquecimento dalgumas malfeitorias, agora vendidas como regalias… numa cultura que tenta distrair com um rol de episódios em intriga…

Como é lamentável que certas vozes se tenham calado. Será que foram compradas ou se venderam? Como vivemos num nivelamento de menor denominador comum, quando precisamos de potenciar muito mais as nossas capacidades e possibilidades. A quem interessa enganar com uma tal paz podre e bolorenta? 

= Muito honesta e sinceramente, sinto que, neste momento, estou a ser enganado e que alguém mente – ou será que é só in-verdade? – e consegue ludibriar tudo e todos. Não temos – como país e até sociedade – riqueza capaz de fazermos a vida de opulência que vemos tantos/as a ostentar… ou, então, há quem consiga enganar, habilidosamente, os outros…e em especial o fisco. Não é possível continuar este filme por muito mais tempo…Um dia, a lua deixará de brilhar!    

 
António Sílvio Couto





segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Paróquia da Moita - Caminhada da família em família


Na Quaresma deste ano, a Paróquia da Moita quer estar em consonância com a proposta de caminhada diocesana sobre a família. Assim o tema da vivência paroquial situa-se na linha da ‘Caminhada da família em família’, tanto no desenrolar dos domingos como nas propostas de devoção como a via-sacra e da preparação do sacramento da penitência e através do exame de consciência.
Os domingos da Quaresma têm por tema, dinâmica e simbologia:
- I domingo (5.3): tentações - ‘da família recebemos’ e colocamos uma grande cruz no espaço celebrativo, como sinal da nossa caminhada... e meta.
- II domingo (12.3): transfiguração - ‘em família escutamos’, fazemos a entronização da Bíblia, convidando particularmente os avós a participarem.
- III domingo (19.3): samaritana - ‘na família cremos’, uma bilha com água nos faz alusão ao texto bíblico, convidando os pais (masculinos) a participarem em momento celebrativo com o ‘dia do pai’...
- IV domingo (26.3): cego - ‘com a família vemos’, sendo incluída uma vela alusiva à luz que iluminou o cego e convidamos as mães a participarem mais ativamente.
- V domingo (2.4): Lázaro - ‘como família vamos’, convidando os filhos/irmãos a participarem e usamos como sinal a veste branca do batismo, numa referência à veste de ressuscitado de Lázaro...
A via-sacra semanal, à sexta-feira, será dinamizada por famílias que se disponibilizaram a ajudar a rezar. As várias etapas (‘estações’) da via-sacra percorrem a proposta tradicional e incluem ainda textos do magistério da Igreja católica sobre a família, rezando com a família e pela família. Para as crianças foi também sugerido um texto adaptado à idade, segundo a via-sacra bíblica fomentada pelo Papa João Paulo II... Esta vivência de oração será usada na procissão do Senhor dos Passos, na tarde do domingo de Ramos.
O ‘exame de consciência’ preparatório da celebração do sacramento da Penitência e reconciliação segue os treze passos de 1 Cor 13,4-7 (hino da caridade), aprofundado pelo Papa Francisco na exortação apostólica pós-sinodal ‘A alegria do amor’ (n.ºs 89-119). Os vários grupos de catequese terão momentos específicos, em pequeno grupo, para a celebração do sacramento, sendo acompanhados pelos respetivos pais e avós.
De referir que, ao longo da Quaresma, é proposta a participação de todos nas conferências quaresmais diocesanas com o senhor Bispo D. José Ornelas.

António Sílvio Couto




Quaresma - O dom do outro…em família


As mensagens do Papa Francisco e do Bispo de Setúbal para a Quaresma dão-nos oportunidade para tentar coser dois aspetos essenciais para a vivência do tempo de preparação para a Páscoa…deste ano – o dom do outro, sobretudo, em família…numa descoberta contínua e necessitada de aprofundamento.

O Papa intitula a sua mensagem – ‘A Palavra é um dom. O outro é um dom’, enquanto D. José Ornelas Carvalho submete a sua mensagem à temática – ‘Converter-se em família’.

Respigamos alguns excertos dum e doutro das nossas referências em Igreja universal e particular, colocando, posteriormente, breves questões.  

* «Quaresma é um tempo propício para abrir a porta a cada necessitado e nele reconhecer o rosto de Cristo. Cada um de nós encontra-o no próprio caminho. Cada vida que se cruza connosco é um dom e merece aceitação, respeito, amor. A Palavra de Deus ajuda-nos a abrir os olhos para acolher a vida e amá-la, sobretudo quando é frágil».

Esta citação da mensagem do Papa faz-nos centrar no essencial: o outro é um dom, mas o pecado pode ofuscar a nossa capacidade de vermos isso de forma tão simples e até para conseguirmos discernir como a Palavra de Deus é também dom, que nos faz descobrir o essencial, pois, como diz o Papa, «fechar o coração ao dom de Deus que fala, tem como consequência fechar o coração ao dom do irmão».  

* «’Converter-se em família’ significa, antes de mais, que o caminho de conversão quaresmal, assumido por cada um de nós diante de Deus, tem de começar no relacionamento com os membros da nossa família, aqueles que nos são próximos e com os quais partilhamos o mais importante da vida. Tantas vezes, vivemos na família como se ela fosse simplesmente um endereço postal comum, uma pensão onde passamos a noite e usufruímos de alguns outros serviços funcionais.

(…) ‘Converter-se em família’ quer dizer também que o caminho de conversão não pode ser apenas uma questão individual. Temos de estar juntos como família para que ela mude. Nesta Quaresma, somos chamados a sentar-nos juntos, em família, e decidir que sinais vamos dar, que atitudes vamos assumir para sermos mais família, mais família cristã.
(...) A conversão ao Evangelho comporta sempre uma dimensão de atenção aos outros, para além da porta da nossa casa, do círculo dos amigos, da coesão étnica ou nacional. Significa alargar os horizontes da nossa atenção e preocupação ativa à totalidade da família humana, como faz Deus, o Pai comum de toda a família humana.
(...) ‘Converter-se em família’ tem igualmente um horizonte fundamental que é a família de Deus, a Igreja, que é uma família de famílias».  

Estes excertos da mensagem de D. José deseja pôr o dedo na ferida: a família é muito mais do que aquilo que queremos fazer dela, seja porque isso nos convém interesseiramente, seja porque não temos capacidade de entender melhor o que é, de facto, a família. Será em família – de sangue ou da fé – que havemos de nos converter, dando mais atenção aos outros, dando-lhes sinais dessa conversão contínua e continuada… 

= Se a família não é o lugar onde estimamos o outro, como poderemos sobreviver na confusão, na convulsão e na concorrência da rua?

Se a família não for mais do que um espaço de interesses, como poderemos sentir e fazer sentir respeito duns pelos outros e de todos entre si?

Se a família não nos souber educar para a dádiva mútua, como poderemos ser construtores duma sociedade saudável e sensível aos mais fragilizados?

Se a família não se converter em espaço de dom e de mistério, tanto de Deus como ao nível humano, como poderá ela sobreviver aos contínuos ataques e ridicularizações de certos lóbis anti-família?

 

António Sílvio Couto


segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

‘Erro de perceção mútuo’


À confusão de interpretações sobre a troca de informações – escritas (de forma tradicional e publicável) e outras aduzidas de comunicação pessoal (sobretudo na forma digital) – entre um ministro e um potencial/ex-presidente dum banco, surgiu esta expressão que vai, certamente, fazer furor nos tempos mais próximos, particularmente quando estiver em causa algo que se pretenda esconder: ‘erro de perceção mútuo’… podendo vir a ser de bom-tom pensar que esta expressão pode servir para tudo e quanto se quiser… apensar-se-lhe! 

= Até agora estamos um tanto atónitos, pois só temos visto e ouvido uma parte do ‘mútuo’, isto é, aquela que fala e dá explicações sobre o que se terá passado, mais desculpando-se do que elencando as causas, pois quanto às consequências ainda não se vislumbra nada de essencial…

Não deixa de ser sintomático para a nossa conduta coletiva que se possam usar palavras mais ou menos aplicáveis a situações pessoais, que correm o risco de se virem a generalizar…mesmo que do particular se entre na fulanização das gravidades e dos agravos duns para com os outros!  

= De facto, quem não deixará de usar esta expressão até para poder – intencional ou capciosamente – chamar mentiroso a outrem, só por que ele não conseguiu entender o que lhe foi dito? Quem não se servirá – mais ou menos distraidamente – desta expressão para corrigir a capacidade de entendimento do interlocutor, só porque lhe dá jeito ou até favorece? Quem não hesitará – seja qual for a intenção – em recorrer a esta expressão, se estiver em causa amedrontar os adversários, condicionando-os e tentando-os manipular? 

= Num tempo e num país onde se gasta tanto tempo com coisas secundárias, fazendo crer que são importantes, esta expressão – ‘erro de perceção mútuo’ – tem tanto potencial para não dizer nada como para arranjar condições para dizer tudo…mesmo podendo roçar a mentira e/ou alienando quem não pensa como quem usa a dita expressão. 

= Talvez agora possamos aprender a tratar os assuntos da vida coletiva e pessoal com mais acerto e profundidade, cuidando em que as questões não se resolvem com superficialidades nem jogos-do-empurra, mas antes assumindo cada qual as responsabilidades que lhe competem numa crescente atitude de adultez que sabe enfrentar as consequências das suas decisões e que não se esconde sob a capa da interpretação daquilo que os outros possam pensar… Aquela expressão – erro de perceção mútuo – não poderá tornar-se uma espécie de alibi duns tantos irresponsáveis para prolongarem uma certa impunidade perante tudo e todos… Com efeito, já bastava termos de aturar a ascensão dalguns oportunistas para termos ainda de condescender com a vulgaridade que reina e campeia…  

= Sabendo que nem todos assumem os seus erros e falhas – isso faz arrepender-se e pedir perdão – precisamos de fomentar na nossa sociedade novos promotores (mas não senhores) da verdade, onde a palavra dada é mesmo honrada e os atos são paradigma da personalidade de quem os pratica. Efetivamente para que haja ‘erro de perceção mútuo’ teremos de ser dignos de aceitar os erros, percebê-los e perante os outros aceitá-los…Tudo o resto poderá ser conversa barata e discurso sem nexo. Até quando iremos aturar tais desfaçatezes? Coerência, precisa-se!   

 

António Sílvio Couto