Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

À luz da lua!


‘Moonlight’ – numa tradução brasileira: ‘sob a luz do luar’… aqui ousamos traduzir por ‘à luz da lua’ – foi o vencedor do óscar para melhor filme do ano passado…embora no primeiro anúncio tenha sido referido um outro… o que lançou uma solene e eminente bronca na distribuição das prebendas do cinema.

Não sou nem nunca fui grande cinéfilo, mas a confusão do espetáculo dos óscares foi digna da prosápia com que os excelentíssimos apresentadores e a maioria dos seguidores da dita ‘sétima arte’ têm vivido – nessa ocasião se refinaram – em tratar o chefe máximo do país que os acolhe…até porque muitos deles não passam de mercenários, onde a tal ‘arte’ tem mais bolor do que qualidade e a presunção nem precisa de maquilhagem para luzir… nas trevas da lua!

Quem queria tosquiar foi tosquiado – diz o nosso povo com razão! De facto, com tantas atribuições e tributos culturais, dar asneira num acontecimento daqueles, manifesta que algo vai mal no reino da fantasia. Ali foi posto a manifesto que a lua se eclipsou e, por breves momentos, ofuscou os discursos inflamados contra o poder legitimamente eleito, atirando para a lama quem atiçou as rezes na arena e fez com que se possa pensa – muito mais do que seria desejável – que tudo corre bem até quando se descobre a tramoia… 

= Deixem que, por momentos, se possa transladar aquele figurino todo ou em parte para a nossa praça – ou será antes saguão ou até porta dos fundos? – e com alguma vulgaridade poderemos recorrer a uns quantos argumentos de que uns tantos/as vingam (isto é, vencem) enquanto têm cobertura, mas um dia pode acontecer um resvalo menos previsto e tudo se poderá pôr a nu… A luz deixará de brilhar, pois já não reflete o sol que a suportava! 

Na verdade há situações e episódios que, na sua complexidade e subtileza, nos obrigam a tentar descobrir quem manobra quem ou como se faz e chega a algum posto a que que custo e com armas. Sinto que os acontecimentos mais recentes do nosso país económico e social, político e emocional tem vindo a ser tratado com alguma leviandade, senão no conteúdo ao menos na forma. Por onde andava o povo agora tão animado como não se via desde há dezassete anos? As agruras foram enterradas com tanta velocidade, que não se lhes vê já o rasto? Bastarão umas doses de (pretenso) otimismo para contagiar o resto do povo? A difusão dos afetos e abraços pagam as contas e as dívidas? Como se faz para que se vença a miséria e não se volte, brevemente, à casa de partida como (acontecia) no jogo do monopólio? 

= À luz da lua – ou ‘sob a luz do luar’ – parece ser um bom título para o desempenho de muitos dos artistas que vemos em atuação… Não me refiro à semelhança com o filme oscarizado, mas à ideia de que à luz da lua poderemos ir vendo as sombras, mas quando o sol aparecer, de verdade, não ficaremos admirados com os fantasmas que nos tentavam impingir?

Uma coisa é ser utópico, outra bem distinta é ser lunático. Tanto quanto é percetível este segundo estado tem vindo a derramar-se numa forma crescente e bem paga…neste nosso imenso Portugal em penumbra de esquecimento dalgumas malfeitorias, agora vendidas como regalias… numa cultura que tenta distrair com um rol de episódios em intriga…

Como é lamentável que certas vozes se tenham calado. Será que foram compradas ou se venderam? Como vivemos num nivelamento de menor denominador comum, quando precisamos de potenciar muito mais as nossas capacidades e possibilidades. A quem interessa enganar com uma tal paz podre e bolorenta? 

= Muito honesta e sinceramente, sinto que, neste momento, estou a ser enganado e que alguém mente – ou será que é só in-verdade? – e consegue ludibriar tudo e todos. Não temos – como país e até sociedade – riqueza capaz de fazermos a vida de opulência que vemos tantos/as a ostentar… ou, então, há quem consiga enganar, habilidosamente, os outros…e em especial o fisco. Não é possível continuar este filme por muito mais tempo…Um dia, a lua deixará de brilhar!    

 
António Sílvio Couto





segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Paróquia da Moita - Caminhada da família em família


Na Quaresma deste ano, a Paróquia da Moita quer estar em consonância com a proposta de caminhada diocesana sobre a família. Assim o tema da vivência paroquial situa-se na linha da ‘Caminhada da família em família’, tanto no desenrolar dos domingos como nas propostas de devoção como a via-sacra e da preparação do sacramento da penitência e através do exame de consciência.
Os domingos da Quaresma têm por tema, dinâmica e simbologia:
- I domingo (5.3): tentações - ‘da família recebemos’ e colocamos uma grande cruz no espaço celebrativo, como sinal da nossa caminhada... e meta.
- II domingo (12.3): transfiguração - ‘em família escutamos’, fazemos a entronização da Bíblia, convidando particularmente os avós a participarem.
- III domingo (19.3): samaritana - ‘na família cremos’, uma bilha com água nos faz alusão ao texto bíblico, convidando os pais (masculinos) a participarem em momento celebrativo com o ‘dia do pai’...
- IV domingo (26.3): cego - ‘com a família vemos’, sendo incluída uma vela alusiva à luz que iluminou o cego e convidamos as mães a participarem mais ativamente.
- V domingo (2.4): Lázaro - ‘como família vamos’, convidando os filhos/irmãos a participarem e usamos como sinal a veste branca do batismo, numa referência à veste de ressuscitado de Lázaro...
A via-sacra semanal, à sexta-feira, será dinamizada por famílias que se disponibilizaram a ajudar a rezar. As várias etapas (‘estações’) da via-sacra percorrem a proposta tradicional e incluem ainda textos do magistério da Igreja católica sobre a família, rezando com a família e pela família. Para as crianças foi também sugerido um texto adaptado à idade, segundo a via-sacra bíblica fomentada pelo Papa João Paulo II... Esta vivência de oração será usada na procissão do Senhor dos Passos, na tarde do domingo de Ramos.
O ‘exame de consciência’ preparatório da celebração do sacramento da Penitência e reconciliação segue os treze passos de 1 Cor 13,4-7 (hino da caridade), aprofundado pelo Papa Francisco na exortação apostólica pós-sinodal ‘A alegria do amor’ (n.ºs 89-119). Os vários grupos de catequese terão momentos específicos, em pequeno grupo, para a celebração do sacramento, sendo acompanhados pelos respetivos pais e avós.
De referir que, ao longo da Quaresma, é proposta a participação de todos nas conferências quaresmais diocesanas com o senhor Bispo D. José Ornelas.

António Sílvio Couto




Quaresma - O dom do outro…em família


As mensagens do Papa Francisco e do Bispo de Setúbal para a Quaresma dão-nos oportunidade para tentar coser dois aspetos essenciais para a vivência do tempo de preparação para a Páscoa…deste ano – o dom do outro, sobretudo, em família…numa descoberta contínua e necessitada de aprofundamento.

O Papa intitula a sua mensagem – ‘A Palavra é um dom. O outro é um dom’, enquanto D. José Ornelas Carvalho submete a sua mensagem à temática – ‘Converter-se em família’.

Respigamos alguns excertos dum e doutro das nossas referências em Igreja universal e particular, colocando, posteriormente, breves questões.  

* «Quaresma é um tempo propício para abrir a porta a cada necessitado e nele reconhecer o rosto de Cristo. Cada um de nós encontra-o no próprio caminho. Cada vida que se cruza connosco é um dom e merece aceitação, respeito, amor. A Palavra de Deus ajuda-nos a abrir os olhos para acolher a vida e amá-la, sobretudo quando é frágil».

Esta citação da mensagem do Papa faz-nos centrar no essencial: o outro é um dom, mas o pecado pode ofuscar a nossa capacidade de vermos isso de forma tão simples e até para conseguirmos discernir como a Palavra de Deus é também dom, que nos faz descobrir o essencial, pois, como diz o Papa, «fechar o coração ao dom de Deus que fala, tem como consequência fechar o coração ao dom do irmão».  

* «’Converter-se em família’ significa, antes de mais, que o caminho de conversão quaresmal, assumido por cada um de nós diante de Deus, tem de começar no relacionamento com os membros da nossa família, aqueles que nos são próximos e com os quais partilhamos o mais importante da vida. Tantas vezes, vivemos na família como se ela fosse simplesmente um endereço postal comum, uma pensão onde passamos a noite e usufruímos de alguns outros serviços funcionais.

(…) ‘Converter-se em família’ quer dizer também que o caminho de conversão não pode ser apenas uma questão individual. Temos de estar juntos como família para que ela mude. Nesta Quaresma, somos chamados a sentar-nos juntos, em família, e decidir que sinais vamos dar, que atitudes vamos assumir para sermos mais família, mais família cristã.
(...) A conversão ao Evangelho comporta sempre uma dimensão de atenção aos outros, para além da porta da nossa casa, do círculo dos amigos, da coesão étnica ou nacional. Significa alargar os horizontes da nossa atenção e preocupação ativa à totalidade da família humana, como faz Deus, o Pai comum de toda a família humana.
(...) ‘Converter-se em família’ tem igualmente um horizonte fundamental que é a família de Deus, a Igreja, que é uma família de famílias».  

Estes excertos da mensagem de D. José deseja pôr o dedo na ferida: a família é muito mais do que aquilo que queremos fazer dela, seja porque isso nos convém interesseiramente, seja porque não temos capacidade de entender melhor o que é, de facto, a família. Será em família – de sangue ou da fé – que havemos de nos converter, dando mais atenção aos outros, dando-lhes sinais dessa conversão contínua e continuada… 

= Se a família não é o lugar onde estimamos o outro, como poderemos sobreviver na confusão, na convulsão e na concorrência da rua?

Se a família não for mais do que um espaço de interesses, como poderemos sentir e fazer sentir respeito duns pelos outros e de todos entre si?

Se a família não nos souber educar para a dádiva mútua, como poderemos ser construtores duma sociedade saudável e sensível aos mais fragilizados?

Se a família não se converter em espaço de dom e de mistério, tanto de Deus como ao nível humano, como poderá ela sobreviver aos contínuos ataques e ridicularizações de certos lóbis anti-família?

 

António Sílvio Couto


segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

‘Erro de perceção mútuo’


À confusão de interpretações sobre a troca de informações – escritas (de forma tradicional e publicável) e outras aduzidas de comunicação pessoal (sobretudo na forma digital) – entre um ministro e um potencial/ex-presidente dum banco, surgiu esta expressão que vai, certamente, fazer furor nos tempos mais próximos, particularmente quando estiver em causa algo que se pretenda esconder: ‘erro de perceção mútuo’… podendo vir a ser de bom-tom pensar que esta expressão pode servir para tudo e quanto se quiser… apensar-se-lhe! 

= Até agora estamos um tanto atónitos, pois só temos visto e ouvido uma parte do ‘mútuo’, isto é, aquela que fala e dá explicações sobre o que se terá passado, mais desculpando-se do que elencando as causas, pois quanto às consequências ainda não se vislumbra nada de essencial…

Não deixa de ser sintomático para a nossa conduta coletiva que se possam usar palavras mais ou menos aplicáveis a situações pessoais, que correm o risco de se virem a generalizar…mesmo que do particular se entre na fulanização das gravidades e dos agravos duns para com os outros!  

= De facto, quem não deixará de usar esta expressão até para poder – intencional ou capciosamente – chamar mentiroso a outrem, só por que ele não conseguiu entender o que lhe foi dito? Quem não se servirá – mais ou menos distraidamente – desta expressão para corrigir a capacidade de entendimento do interlocutor, só porque lhe dá jeito ou até favorece? Quem não hesitará – seja qual for a intenção – em recorrer a esta expressão, se estiver em causa amedrontar os adversários, condicionando-os e tentando-os manipular? 

= Num tempo e num país onde se gasta tanto tempo com coisas secundárias, fazendo crer que são importantes, esta expressão – ‘erro de perceção mútuo’ – tem tanto potencial para não dizer nada como para arranjar condições para dizer tudo…mesmo podendo roçar a mentira e/ou alienando quem não pensa como quem usa a dita expressão. 

= Talvez agora possamos aprender a tratar os assuntos da vida coletiva e pessoal com mais acerto e profundidade, cuidando em que as questões não se resolvem com superficialidades nem jogos-do-empurra, mas antes assumindo cada qual as responsabilidades que lhe competem numa crescente atitude de adultez que sabe enfrentar as consequências das suas decisões e que não se esconde sob a capa da interpretação daquilo que os outros possam pensar… Aquela expressão – erro de perceção mútuo – não poderá tornar-se uma espécie de alibi duns tantos irresponsáveis para prolongarem uma certa impunidade perante tudo e todos… Com efeito, já bastava termos de aturar a ascensão dalguns oportunistas para termos ainda de condescender com a vulgaridade que reina e campeia…  

= Sabendo que nem todos assumem os seus erros e falhas – isso faz arrepender-se e pedir perdão – precisamos de fomentar na nossa sociedade novos promotores (mas não senhores) da verdade, onde a palavra dada é mesmo honrada e os atos são paradigma da personalidade de quem os pratica. Efetivamente para que haja ‘erro de perceção mútuo’ teremos de ser dignos de aceitar os erros, percebê-los e perante os outros aceitá-los…Tudo o resto poderá ser conversa barata e discurso sem nexo. Até quando iremos aturar tais desfaçatezes? Coerência, precisa-se!   

 

António Sílvio Couto

 




quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Instrumentalização ofensiva…


De forma recorrente o assunto volta à superfície: equiparar, de forma legislativa (obrigatória), a participação de homens e mulheres – ou será antes de género à masculina e ao feminino? – nas responsabilidades das empresas…para já só nas públicas, seja através de quotas, seja na paridade entre ‘de género’ quem ocupa tais lugares e funções.

Já anteriormente, em 2006, foi legislado sobre as quotas nas listas concorrentes aos órgãos autárquicos e do parlamento… ao menos na teoria. Os efeitos pareceram ser mais de teor nebuloso do que com consequências reais.

Embora o assunto seja de âmbito da União Europeia, por cá temos vindo a fazer alguns esforços para colocar quotas, paridades, regulações…com sanções estipuladas por incumprimento e pouco mais. 

= Ora, desde logo fazer da diferença uma agravante para que se tenha de nivelar o que não gera competência, será um tanto ofensivo para quem possa ser beneficiado, pois não ocupa o lugar ou a função por ser capaz, mas por ter este ou aquele género… Por agora são as mulheres – usamos esta linguagem para ser mais direta e assumidamente diferente – quem são elevadas na hierarquia do poder, mas amanhã serão os homens – novamente usamos esta designação para que se perceba de que estamos a falar – que poderão de ter de ser cotados em bolsa de promoção…

De facto, antes eram eles que estavam mais escolarizados ou mereciam mais reconhecimento para ocuparem os lugares, desempenhar as tarefas ou destacarem-se no tecido de poder. Mas, dado o benéfico crescimento da escolarização – tanto na quantidade, quanto na qualidade – das mulheres, serão eles a curto e médio prazos que passarão a exercer funções subalternizadas… e a paridade terá de ser reivindicada por eles, embora com custo acrescido de já não serem idênticas as armas usadas. 

= Há quem refira que tais questões da paridade ou das quotas são como que biombos atrás dos quais se escondem problemas estruturais de desigualdade e de discriminação. Isto diz-se do que está a acontecer atualmente, mas, pela mesma lógica, daqui a breves anos, estaremos a falar do contrário em relação a quem agora ocupa o poder e dele vai ser destronado certamente a contragosto… Por isso, consideramos que a instrumentalização deste problema não se resolve com a introdução de quotas nem com legislações, pois serão quase sempre os mesmos a estarem nos lugares, podendo – como se vê nalgumas estruturas partidárias, sindicais e associativas – não ser cortado o ciclo de poder, mudando só de figuras, dado que as relações de parentesco ou de afinidades entrecruzam-se à vista ou no verso da confeção… 

= Será quando se promover a competência que tais minudências passaram a ser considerados problemas secundários. Seja homem ou mulher – ou usando a designação que alguns preferem a atendendo ao género – o que importa é a qualidade humana, intelectual, emocional, cultural, social e (mesmo) espiritual da pessoa, pois se continuarmos a olhar para tais discrepâncias iremos criar teses e antíteses que só servem para gerar conflitos reais ou fictícios…

É verdade que nalguns sectores e organizações ainda falta um longo caminho a fazer, mas, por outro lado, já se nota a diferença senão na prática ao menos na formulação teórica de tantos outros que – por exemplo a meio do século passado – eram demasiado machistas, conservadores, reacionários e fundamentalistas… Algo tem vindo a ser feito!

À boa maneira do tratamento que a Igreja católica costuma fazer de muitos dos problemas que no seu seio se discutem, esta primeiro põe à prova e depois, tacitamente, aprova… sem ruídos nem grandes espalhafatos. Quem ainda não viu alguma mudança ou desconhece o que está a acontecer ou preferirá fixar-se no seu preconceito…Claro que não são muitas as mudanças almejadas, mas muita coisa mudou desde há sessenta anos com o Concílio Vaticano II. 

= Somos essencialmente pela competência de cada pessoa, use-se a vestimenta que se quiser ou reclame-se da intenção que lhe convier… Quotas e paridades ofendem…e muito!     


 

António Sílvio Couto



quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Uma no cravo e outra na ferradura


Conta-se que, numa discussão em tribunal, um eminente advogado se volta para outro e diz-lhe:

– O senhor doutor tanto dá uma no cravo como outra na ferradura.

Ao que o visado respondeu:

– Pois é, o senhor doutor não está quieto com o pé!

Este diálogo é descrito como tendo acontecido com tribunos da primeira república, que tinham um pelo outro tanto estima como de repugnância!

Ora, por estes dias, temos visto e ouvido acontecimentos que bem podem ser caraterizados com aquela expressão, que, basicamente, se pode interpretar como querendo dizer que as várias posições e atitudes dos inúmeros intervenientes se parecem com a atividade de ferrar um animal – normalmente da família equídea e afins – onde se tem de colocar a ferradura como defesa dos cascos e, por vezes, de forma ocasional ou propositada se dá uma pancada no casco para preparar a colocação do revestimento na hora própria e que pode doer ao animal…

Assim, dar uma no cravo (isto é, essa espécie de prego no ato de ferrar) e outra na ferradura (isto é, o revestimento em metal no casco do animal) será não ser capaz de ter mão certa e acertada para que tal momento seja rápido e bem executado… nas ‘solas’ do protegido… ou, na evolução conotativa, vermos que esse tal que diz ou pretende dizer tanto acerta como dá fora do lugar, isto é, fala e diz o que profere e o seu contrário… 

= Embora com algum sabor popular esta expressão – uma no cravo e outra ferradura – pode resumir o posicionamento oscilante de tantas das figuras que vão deambulando pelo nosso meio social, cultural e mesmo político. Com efeito, com razoável facilidade vemos a mudança de posição dos intervenientes – ontem tinham uma aguerrida atitude de combate, exigindo demissões e outros artefactos lógicos, tendo em conta o campo ideológico; hoje, as situações são as mesmas, os atores mudaram e as consequências são tão díspares que sentimos que as pessoas, se não são incoerentes, aos menos são (bastante) inconsequentes.

Será que a montada do poder – pelo espaço ocupado e/ou pela visão que daí têm – muda tanto as ideias? Como poderemos classificar os ideais de tais personagens: são ou deixam de ser, só porque lhes mudam a paleta da pintura? 

= Porque acreditamos que as pessoas não mudam só pelo mero prato de lentilhas que lhes queiram oferecer, parece-nos que a expressão ‘uma na cravo e outra na ferradura’ é muito mais do que um rótulo com que se pretende apelidar os adversários de mutação e de incapacidade em ser honesto para consigo mesmo e para com os outros. Neste tempo tão propenso a fazer com que as pessoas possam ser compradas… a qualquer preço…tudo dependendo do valor que se lhes possa oferecer, esta expressão obriga-nos a refletir sobre os mais básicos princípios pelos quais se norteiam muitos dos nossos contemporâneos. De facto, sem valores que não ultrapassem as metas do materialismo e do consumismo, isto e muito mais poderá ser justificável… desde que se possa enganar – nesta cultura do faz-de-conta – até que venha a ser descoberto o embuste.  

= Porque vamos percebendo que tantos e de tão variegadas formas vão conjugando este ditado popular – uma no cravo e outra na ferradura – será essencial que não nos deixemos derrotar pelos ‘vencedores’ da dissimulação. Precisamos de contestar que se pretenda fazer crer que os manhosos são reis e príncipes…à custa dos distraídos. Precisamos de saber combater – mesmo pelo voto, quando essa for a forma de nos pronunciarmos – certas aves de arribação, que se tentam sobrepor à racionalidade, criando a sensação de que ser camaleão é a forma de vingar na vida e entronizando a vingança nas decisões mais fundamentais.

A todos e outros dizemos: tentem estar quietos com o pé para que se possa colocar o cravo no devido espaço da ferradura!     

 

António Sílvio Couto


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Governação em dronagem


O uso (ou abuso) dos drones tem vindo a vulgarizar-se. Quase não há festa ou acontecimento mais ou menos social onde não tenhamos de ter a presença dum tal besouro sobrevoando as cabeças, recolhendo imagens e mesmo invadindo a privacidade de pessoas e grupos.

Sendo um veículo aéreo não tripulado, controlado de forma remota, o drone é usado em tarefas ou missões de reconhecimento ou ataque em operações militares ou com outras finalidades. Temo-lo visto, sobretudo, a ser usado por fotógrafos em ocasiões de casamento ou em eventos de maior ou menor dimensão…

Embora usados durante algum tempo sem legislação que configura-se a sua restrição, vão surgindo casos em que os drones como que mostram o que não seria desejável e dão acesso a informações que talvez seria escusado serem divulgadas…  

= Porque veem as coisas a partir de cima, isto é, num plano geral e quase superficial, os drones – com uma certa psicologia que lhe pode estar atinente – como que nos apresentam algo genérico e pouco concreto, mostram mas nem sempre atingem as questões que devem ser resolvidas duma forma séria e sensata… Isto mesmo é aquilo que nos dá a impressão estar a passar-se na governação do nosso país: desde o drone do poder pretende-se dar espetáculo e parece que se resolve tudo e o resto, mas no concreto, pouco ou nada se vê; dá boa impressão, pois trata as questões mais difíceis em objetos de espetacularidade, umas vezes distraindo e noutras confundindo, mas somos levados um tanto a desconfiar que alguém anda a enganar outrem; servidos por artefactos mais ou menos engenhosos, os resultados são duvidosos, tanto na forma, como no conteúdo…Esta dronagem está servida por um sistema bem montado, que vai escapando aos olhares mais incautos e onde quem destoar corre o risco de ver invadida a sua privacidade pelo drone que distribui as benesses e as prebendas… 

= Não deixa de ser sintomático que se tenham calado tantas vozes reivindicativas, pois as escolas continuam sem condições e pouco vemos denunciado nem protestado; os transportes públicos não adquiriram melhor qualidade, antes pelo contrário, e as contestações parecem abafadas; os hospitais não dão conta do recado, com largas horas de espera no atendimento e nem sombra de mal-estar…visível; muitas das estradas esburacadas nem remendadas foram, embora andem faltas de arranjo, e pouco ou nada se diz…aguentando as dificuldades; as tropelias em matéria do sistema bancário é de tal forma clamorosa e (quase) escandalosa, usando e abusando dos arranjos por trás da cortina, e nada acontece, parecendo que os factos se modificam na avaliação quando são protagonizados por amigos de quem manobra o drone… Um longo e profundo manto de silêncio está lançado sobre este país adormecido – ou será, antes, comprado? – por quem governa e secundado em fazer vista grossa por quem devia fiscalizar…  

= Há, no entanto, forças sociais, intelectuais, culturais, morais e espirituais que não podem continuar mudas como tem acontecido. Não podem permitir que lhes amordacem a voz com uns parcos proventos, que o dono do drone tem para lhes distribuir, quando querem fazer algo em matéria social e em favor dos mais desfavorecidos, pois, se tal acontecer, para além de ficarem manietados e, possivelmente, comprados, serão coniventes com certas malfeitorias praticadas pelos controladores do drone… Onde está a voz profética doutros tempos? Como poderemos servir sem deixarmos que se sirvam de nós? Como poderemos agora calar novas injustiças, se não estivermos do lado dos injustiçados?

Parece chegada a hora de despertar, pois os sinais do Evangelho não podem ser calados nem os que nos precederam no anúncio da boa nova ficariam honrados…Haja quem ponha tento no (ab)uso do drone do poder! Tal como dizia D. António Ferreira Gomes: de joelhos diante de Deus, mas de pé perante os homens!

  

António Sílvio Couto