Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Uma no cravo e outra na ferradura


Conta-se que, numa discussão em tribunal, um eminente advogado se volta para outro e diz-lhe:

– O senhor doutor tanto dá uma no cravo como outra na ferradura.

Ao que o visado respondeu:

– Pois é, o senhor doutor não está quieto com o pé!

Este diálogo é descrito como tendo acontecido com tribunos da primeira república, que tinham um pelo outro tanto estima como de repugnância!

Ora, por estes dias, temos visto e ouvido acontecimentos que bem podem ser caraterizados com aquela expressão, que, basicamente, se pode interpretar como querendo dizer que as várias posições e atitudes dos inúmeros intervenientes se parecem com a atividade de ferrar um animal – normalmente da família equídea e afins – onde se tem de colocar a ferradura como defesa dos cascos e, por vezes, de forma ocasional ou propositada se dá uma pancada no casco para preparar a colocação do revestimento na hora própria e que pode doer ao animal…

Assim, dar uma no cravo (isto é, essa espécie de prego no ato de ferrar) e outra na ferradura (isto é, o revestimento em metal no casco do animal) será não ser capaz de ter mão certa e acertada para que tal momento seja rápido e bem executado… nas ‘solas’ do protegido… ou, na evolução conotativa, vermos que esse tal que diz ou pretende dizer tanto acerta como dá fora do lugar, isto é, fala e diz o que profere e o seu contrário… 

= Embora com algum sabor popular esta expressão – uma no cravo e outra ferradura – pode resumir o posicionamento oscilante de tantas das figuras que vão deambulando pelo nosso meio social, cultural e mesmo político. Com efeito, com razoável facilidade vemos a mudança de posição dos intervenientes – ontem tinham uma aguerrida atitude de combate, exigindo demissões e outros artefactos lógicos, tendo em conta o campo ideológico; hoje, as situações são as mesmas, os atores mudaram e as consequências são tão díspares que sentimos que as pessoas, se não são incoerentes, aos menos são (bastante) inconsequentes.

Será que a montada do poder – pelo espaço ocupado e/ou pela visão que daí têm – muda tanto as ideias? Como poderemos classificar os ideais de tais personagens: são ou deixam de ser, só porque lhes mudam a paleta da pintura? 

= Porque acreditamos que as pessoas não mudam só pelo mero prato de lentilhas que lhes queiram oferecer, parece-nos que a expressão ‘uma na cravo e outra na ferradura’ é muito mais do que um rótulo com que se pretende apelidar os adversários de mutação e de incapacidade em ser honesto para consigo mesmo e para com os outros. Neste tempo tão propenso a fazer com que as pessoas possam ser compradas… a qualquer preço…tudo dependendo do valor que se lhes possa oferecer, esta expressão obriga-nos a refletir sobre os mais básicos princípios pelos quais se norteiam muitos dos nossos contemporâneos. De facto, sem valores que não ultrapassem as metas do materialismo e do consumismo, isto e muito mais poderá ser justificável… desde que se possa enganar – nesta cultura do faz-de-conta – até que venha a ser descoberto o embuste.  

= Porque vamos percebendo que tantos e de tão variegadas formas vão conjugando este ditado popular – uma no cravo e outra na ferradura – será essencial que não nos deixemos derrotar pelos ‘vencedores’ da dissimulação. Precisamos de contestar que se pretenda fazer crer que os manhosos são reis e príncipes…à custa dos distraídos. Precisamos de saber combater – mesmo pelo voto, quando essa for a forma de nos pronunciarmos – certas aves de arribação, que se tentam sobrepor à racionalidade, criando a sensação de que ser camaleão é a forma de vingar na vida e entronizando a vingança nas decisões mais fundamentais.

A todos e outros dizemos: tentem estar quietos com o pé para que se possa colocar o cravo no devido espaço da ferradura!     

 

António Sílvio Couto


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Governação em dronagem


O uso (ou abuso) dos drones tem vindo a vulgarizar-se. Quase não há festa ou acontecimento mais ou menos social onde não tenhamos de ter a presença dum tal besouro sobrevoando as cabeças, recolhendo imagens e mesmo invadindo a privacidade de pessoas e grupos.

Sendo um veículo aéreo não tripulado, controlado de forma remota, o drone é usado em tarefas ou missões de reconhecimento ou ataque em operações militares ou com outras finalidades. Temo-lo visto, sobretudo, a ser usado por fotógrafos em ocasiões de casamento ou em eventos de maior ou menor dimensão…

Embora usados durante algum tempo sem legislação que configura-se a sua restrição, vão surgindo casos em que os drones como que mostram o que não seria desejável e dão acesso a informações que talvez seria escusado serem divulgadas…  

= Porque veem as coisas a partir de cima, isto é, num plano geral e quase superficial, os drones – com uma certa psicologia que lhe pode estar atinente – como que nos apresentam algo genérico e pouco concreto, mostram mas nem sempre atingem as questões que devem ser resolvidas duma forma séria e sensata… Isto mesmo é aquilo que nos dá a impressão estar a passar-se na governação do nosso país: desde o drone do poder pretende-se dar espetáculo e parece que se resolve tudo e o resto, mas no concreto, pouco ou nada se vê; dá boa impressão, pois trata as questões mais difíceis em objetos de espetacularidade, umas vezes distraindo e noutras confundindo, mas somos levados um tanto a desconfiar que alguém anda a enganar outrem; servidos por artefactos mais ou menos engenhosos, os resultados são duvidosos, tanto na forma, como no conteúdo…Esta dronagem está servida por um sistema bem montado, que vai escapando aos olhares mais incautos e onde quem destoar corre o risco de ver invadida a sua privacidade pelo drone que distribui as benesses e as prebendas… 

= Não deixa de ser sintomático que se tenham calado tantas vozes reivindicativas, pois as escolas continuam sem condições e pouco vemos denunciado nem protestado; os transportes públicos não adquiriram melhor qualidade, antes pelo contrário, e as contestações parecem abafadas; os hospitais não dão conta do recado, com largas horas de espera no atendimento e nem sombra de mal-estar…visível; muitas das estradas esburacadas nem remendadas foram, embora andem faltas de arranjo, e pouco ou nada se diz…aguentando as dificuldades; as tropelias em matéria do sistema bancário é de tal forma clamorosa e (quase) escandalosa, usando e abusando dos arranjos por trás da cortina, e nada acontece, parecendo que os factos se modificam na avaliação quando são protagonizados por amigos de quem manobra o drone… Um longo e profundo manto de silêncio está lançado sobre este país adormecido – ou será, antes, comprado? – por quem governa e secundado em fazer vista grossa por quem devia fiscalizar…  

= Há, no entanto, forças sociais, intelectuais, culturais, morais e espirituais que não podem continuar mudas como tem acontecido. Não podem permitir que lhes amordacem a voz com uns parcos proventos, que o dono do drone tem para lhes distribuir, quando querem fazer algo em matéria social e em favor dos mais desfavorecidos, pois, se tal acontecer, para além de ficarem manietados e, possivelmente, comprados, serão coniventes com certas malfeitorias praticadas pelos controladores do drone… Onde está a voz profética doutros tempos? Como poderemos servir sem deixarmos que se sirvam de nós? Como poderemos agora calar novas injustiças, se não estivermos do lado dos injustiçados?

Parece chegada a hora de despertar, pois os sinais do Evangelho não podem ser calados nem os que nos precederam no anúncio da boa nova ficariam honrados…Haja quem ponha tento no (ab)uso do drone do poder! Tal como dizia D. António Ferreira Gomes: de joelhos diante de Deus, mas de pé perante os homens!

  

António Sílvio Couto 




segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Dia mundial do doente - Cultura respeitadora da vida…íntegra e digna


‘Por ocasião da Jornada Mundial do Doente, podemos encontrar novo impulso a fim de contribuir para a difusão duma cultura respeitadora da vida, da saúde e do meio ambiente; encontrar um renovado impulso a fim de lutar pelo respeito da integridade e dignidade das pessoas, inclusive mediante uma abordagem correta das questões bioéticas, a tutela dos mais fracos e o cuidado pelo meio ambiente’.
Este pequeno excerto da mensagem do Papa Francisco para o 25.º dia mundial do doente, que se celebra no próximo dia 11, põe-nos de atalaia para uma série de temas que podem ofender a vida na sua condição de integridade e na sua expressão de dignidade, tais como a eutanásia e suas sequelas, bem como outras questões no atinente à vida na sua gestação.
A mensagem papal tem particular referência para com as pessoas doentes e ainda os intervenientes no processo de saúde, como os médicos e enfermeiros, as famílias dos doentes e mesmo os voluntários.
 
= Quando tanto de fala de saúde – como referia um responsável que foi da pastoral neste sector, devemos preferir a abordagem do tema na linha positiva e não na dimensão da doença, pois esta ‘é só’ a ausência daquela – no nosso país, não podemos perder de vista a dimensão espiritual da pessoa e nem devemos reduzir o problema – seja de aborto, de eutanásia ou outro – àquilo que atinge o âmbito biológico-físico, pois, muitas vezes, este até está em crise por razões mais do foro psicológico/espiritual…  

= Sobre aquilo que o Papa apelida de ‘cultura respeitadora da vida, da saúde e do meio ambiente’ precisamos de ver e de viver a interligação entre estes fatores, envolvendo-os e sendo envolvidos… perante essa outra cultura de morte, de doença e mesmo de desarticulação com o meio ambiente… Esta visão holística faz de cada um de nós um ser único e irrepetível, tanto para com Deus, como na sua prossecução cultural. Com efeito, somos um todo e nada daquilo que nos acontece está fora do alcance divino, podendo, muitas vezes, sermos mais ofensores da natureza e do meio ambiente do que tentarmos construir a nossa vida numa harmonia que tem algo de sagrado na leitura que fazemos da presença de Deus na própria natureza.   

= A temática abordada pelo Papa deve-nos fazer ainda refletir sobre a baixa ou quase inexistente linguagem profética da nossa participação na dimensão redentora com Cristo e em Cristo da nossa doença, em primeiro lugar, e da consequente participação na educação da fé dos outros, levando-os a oferecerem-se oblativamente pela conversão dos outros e mesmo pela reparação para com Deus. Isso mesmo nos foi trazido pela mensagem de Nossa Senhora em Fátima, tal como tinha já sido iniciado pela ação do Anjo junto dos pastorinhos…pois, ‘de tudo o que puderdes, oferecei em sacrifício em ato de reparação’… 

= Num tempo tão mergulhado no imediatismo e no hedonismo, precisamos de saber hierarquizar o essencial e relativizar o urgente, procurando que, em cada momento, vamos entendendo o que Deus nos quer dizer, mesmo que envolvido em mistério e sorvendo as lágrimas da dor…Não basta continuarmos a dissimular as fragilidades, será sempre preciso viver num discernimento daquilo que é resultado das nossas menos boas (ou más) opções e como Deus nos corrige, por vezes numa busca continua e necessitada de ser continuada com a ajuda dos outros que connosco caminham. 

= A celebração próxima do dia mundial do doente poderá ser aproveitada para que seja facultada a vivência comunitária do sacramento da Unção dos doentes…Este como momento de fé – sobretudo se vivido em contexto paroquial – poderá constituir uma oportunidade de limparmos certas teias de aranha religiosas e, por que não, de preconceitos para com este dom do amor de Deus, feito compaixão e misericórdia. Queira Deus que possamos renovar esta graça de Deus, incluindo-a numa correta leitura e celebração da vida…
 
António Sílvio Couto



quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Num disfarce de carnaval...


Um ‘fato de refugiado’ – calções e casaco verde com uma etiqueta na lapela – foi retirado de circulação porque reclamação uma associação antirracista, que a considerou ofensiva.

O tal disfarce carnavalesco, com o custo de quinze euros, pretendia retratar as crianças refugiadas da segunda guerra mundial, cujos pais alemães as enviaram para a Inglaterra… sendo o número da etiqueta uma (mera) indicação do lugar na viagem.

Este assunto ‘resolveu-se’ porque essa tal associação muito combativa e mediática levantou os pés e um deputado ergueu a voz, considerando o ato asqueroso e revoltante… Entretanto, outros – temas e intervenientes – são silenciados e têm de aguentar muitas das provocações porque tais protestantes não têm poder de fogo nem capacidade de influenciar as decisões.

De facto, muitas das máscaras de carnaval roçam mais a ofensa do que a diversão, conseguem mais troçar quem é retratado do que quem se disfarça, quase pretendem tornar a vida mais um troço de agonia do que uma representação de festa… Tentaremos abordar cada um destes aspetos nessa grande feira que se avizinha… pois é carnaval e há quem possa levar a mal.   

* Troçar: modo de estar ou de saber estar desse modo?

A cultura portuguesa – popular ou mais erudita – tem na capacidade de caricaturar uma longa e prolixa ação. Repare-se nas canções de escárnio e de maldizer, que foram um dos preâmbulos da nossa literatura, secundada nos autos de Gil Vicente e no desenvolvimento em fazer da arte de ironizar uma das formas de comunicação de tantos e tão audazes autores e atores.

O teatro de revista tem sido – sobretudo em épocas de ditadura – uma das expressões de crítica social mais ou menos bem elaborada, por forma a dizer de modo sucinto o que havia de mais complexo e até de mais difícil expressão. Em quantas figuras se tentou reproduzir o que de mais complicado se colocava, fazendo das palavras uma arma de combate e deste um espaço de cidadania bem explorada nas entrelinhas dos escritos e na elaboração de saber dizer com arte e, muitas vezes, com alma…  

* A rir se corrigem os costumes

A expressão latina – ‘ridendo castigat mores’ – tem apresentado uma diversidade de comunicadores, muitos deles sagazes na ironia e no sarcasmo, aproveitando certas épocas do ano para exercer tal arte…com ou sem artimanhas. Em muitos casos se vai apurando a finura de dar a entender mais do que em afirmar claramente.

Ora, o carnaval tem sido um desses momentos mais aproveitados para, por entre máscaras e disfarces, com palavras e chavões, na denotação dos termos até à conotação dos entendimentos se procurarem encontrar possibilidades de diversão, com o recurso à crítica, que pretende pôr a pensar quem ande distraído, mesmo que possa (até) ser alvo da chacota e do riso…

- Quando vemos fações partidárias defenderem de forma fundamentalista a vida dos animais e promoverem a morte dos humanos, não será isto, uma espécie de brincadeira de carnaval?

- Quando vemos certos ecologistas – mais ditos do que práticos – a corroborarem a despenalização da morte doce dos humanos sem atenderem ao essencial na saúde e na segurança, não poderemos considerar que já andam a brincar ao carnaval?   

* Tentando assumir papéis não-próprios

Por ocasião dos festejos carnavalescos, com alguma subtileza, se assumem papéis não vividos noutras funções, podendo trazer à luz do dia anseios não concretizados ou até aspirações raramente concretizadas…Isto e muito mais parece ser catapultado na época do carnaval, prestes a começar na sua reinação… Embora se possa considerar o tempo do carnaval como algo de festivo, ele ganha sentido na medida em que possa ser uma preparação para viver melhor a quaresma, enquanto tempo litúrgico de caminhada para a páscoa. Pena seja que se tente usufruir das consequências sem cuidar das verdadeiras causas! Pena seja que se faça do carnaval um espetáculo quase degradante, quando faltam condições autênticas para que possa haver festa com sentido e nalguma alegria…

 

António Sílvio Couto




terça-feira, 31 de janeiro de 2017

‘Eutanásia’ – ironias duma programação


Depois de um debate sobre a (apelidada) despenalização da eutanásia, o mesmo canal televisivo emitiu um programa sobre Estaline/Hitler, onde foram comparados e por onde passou a longa carnificina de ambos, tanto nas trincheiras do comunismo como do nazismo… atendendo às personalidades respetivas e aos métodos usados para vencerem inimigos e correligionários.

Mais do que um mero documentário histórico, o segundo programa como que nos fez refletir – pelo menos a mim – sobre os pretensos ideais ‘humanistas’ dos proponentes da tão ‘heroica’ eutanásia… defensora da autonomia de cada pessoa… até para poder escolher a hora e o modo de morte.

– Quando certas forças trazem para a discussão pública – política, social, ética, médica e civilizacional – algumas questões de fronteira duma forma tão simplista e acintosa como que sentimos que algo está podre nesta sociedade ocidental, pois a falta de rigor nos valores éticos põe a manifesto que andamos entretidos com minudências e que questionamos o que é essencial, sabe-se lá com que propósito.

– Quando vemos surgirem na defesa e promoção de tais temas (ditos) fraturantes figuras que se reclamam – e assim têm intervindo publicamente – da área dos valores cristãos, cremos que aquilo que temos reproduzido não passam de oportunistas malformados e um tanto paladinos da mentira, que, para além dalguma incongruência entre a (possível) fé e a (devida) práxis, mais se assemelham a lacraus que mordem quem os ajuda e promove…

– Naquele programa televisivo sobre Estaline/Hitler foram apresentados números que valerá a pena recordar: Estaline no tempo do seu governo (trinta anos) terá causado a morte até 60 milhões de pessoas, enquanto Hitler e seus sequazes, sobretudo no contexto da segunda guerra mundial, terão provocado cerca de 70 milhões de mortos. Este foi o ambiente que se viveu há cerca de seis décadas na Europa e que o tal programa televisivo nos apresentou por entre conjeturas e suposições, perpassando momentos históricos do passado, apresentando números de façanhas atrozes de governantes que ainda suscitam – pelo menos na área marxista – algum saudosismo ou talvez revanchismo…

– Agora que a Europa tem vivido tanto tempo de paz como nunca antes acontecera, vemos que há forças que pretendem ocupam o seu esforço político e moral com projetos de ‘audaz pertinência’, colocando os valores em causa, relevando a desvalorização da vida para planos inclinados e até querendo fazer acreditar que muitos pensam dessa forma, mas não permitem que o assunto possa ser referendado…

– Recordo algo que já referi numa outra ocasião: uma das figuras mais defensoras desta despenalização da eutanásia morreu há uns meses. Disse-se, em desabafos nas redes sociais, que acompanharam a sua morte que o seu maior medo era o de poder morrer sozinha… Ao tempo teve cerimónias religiosas, mas não sabemos se aquilo que defendia para os outros o queria (ou quis) para si mesma… Talvez os agora paladinos da despenalização da eutanásia possam sofrer da mesma doença, isto é, a incoerência; mas, por favor, não façam (ou exijam) para os outros aquilo que não pretendem para si mesmos!

– Termino com uma breve estória. Um professor chegou a uma aula e apresentou aos alunos uma prova relâmpago. Não podiam ter nada sobre a mesa, senão algo com que escrever. Distribuiu, então, uma folha, onde numa das faces estava somente um ponto negro no meio…Perante a surpresa, o professor disse aos alunos que tinham de escrever sobre aquilo que estavam a ver…Decorrido o tempo dado, recolheu as folhas e começou a ler o que tinham escrito…Todos discorreram sobre o ponto negro…ao que o professor respondeu que todos tinham falado do ponto negro e ninguém se deteve a falar da folha em branco… concluindo que todos nós (mais ou menos) fazemos o mesmo: temos uma folha em branco, que é a nossa vida, mas, na maior parte dos casos, fixamo-nos nos pontos negros… temos tantas coisas positivas, mas temos a tendência para realçar mais os pontos negros na saúde, nas dificuldades, nos problemas familiares e de emprego… Sim, há pontos negros, mas não podemos exaltá-los mais do aquilo que há de positivo cada dia…

– Agora que se vai falar mais a sério do tema da eutanásia, que ele não seja o nosso ponto negro coletivo, distraindo-nos do que é mesmo essencial: a vida e as suas mais variadas manifestações, mesmo que por entre dores e sofrimentos. Os profetas da desgraça não podem ganhar ou, então, estaremos a criar condições para novos hitler’s e estaline’s encapotados…que andam por aí!    

 

António Sílvio Couto

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Telemóvel vulgariza-se entre as crianças


Segundo um estudo duma universidade portuguesa nas crianças, entre os três e os oito anos, 18% têm um telemóvel para uso pessoal, 38% acedem à internet, 63% têm um tablet pessoal… se tivermos em conta que metade dos telemóveis usados são smartphones com acesso à rede, poderemos deduzir que estes nativos digitais vivem no seu mundo num próprio e por eles dominado e talvez os adultos (educadores, pais ou outros) não consigam detetar por onde andam a navegar os filhos e os que lhes estão ao cuidado…

O referido estudo intitula-se: ‘Crescendo entre ecrãs. Uso de meios eletrónicos por crianças’ e envolveu vinte famílias com crianças naquela faixa etária.

Dos dados recolhidos, os especialistas conseguiram perceber que televisores, computadores, tablets e telemóveis ajudam os pais a entreter os filhos e podem ainda ser considerados com instrumentos apaziguadores enquanto os adultos estão ocupados com as suas tarefas… Outras formas de entretenimento –que já tiveram grande sucesso em tempos mais ou menos recentes – como consolas de jogos, DVD’s e computadores portáteis também fazem parte das rotinas das crianças…embora com menos frequência.

Vejamos ainda outros meios de comunicação que preenchem os lares portugueses: 99% têm, pelo menos, um televisor; em 92% há um telemóvel; em 68% dos lares estão presentes os tablets; os computadores portáteis têm espaço em 70% das casas; 94% das crianças veem televisão todos os dias, numa média de uma hora e quarenta minutos diários. 

= Tem sido no âmbito dos meios de comunicação em dinâmica digital e quanto disso decorre que mais temos crescido – dizer evoluído poderá ser um tanto excessivo – nas últimas décadas. Se repararmos que o primeiro ‘computador pessoal (pc)’ surgiu, em 12 de agosto de 1981, poderemos todos ver isso na comparação com a idade que temos… De facto, cada vez mais estamos em contínua desatualização não só de instrumentos como até de ferramentas. Isso exige-nos uma grande humildade numa aprendizagem sem recuo nem estagnação... 

= Há, no entanto, algo que podemos e devemos pontualizar: os meios técnicos não substituem a inteligência nem esta pode subestimar aqueles, pois, durante algum tempo, poder-se-á camuflar as capacidades reais, mas o valor da pessoa humana nunca terá mais capacidade do que os instrumentos usados, pois quando estes forem mais importantes estaremos (quase) a colapsar como humanos.

Não será uma ‘exibição’ florescente de power-point’ que fará o trabalho do estudo aturado e assimilado com horas de reflexão… Não serão pequenos truques de eletrónica que farão perceber quem domina a matéria ou se foi colocada em ‘copy-paste’ sem absorção dos conteúdos… Não será um bem-falante com artifícios de ocasião que irá suplantar uma comunicação com emoções e vida feita de testemunho… 

= Apesar de tantos e tão auspiciosos recursos tecnológicos continuamos a precisar das pessoas para fazermos com que a história humana evolua, pois esta, embora contando com aqueles, é sempre feita por pessoas que podem ou devem, vivem ou desistem de construir novos episódios onde a valor humano se afirma e cresce numa maior humanização de todos e não só duma pseudoelite.

Se há ainda qualidade da pessoa humana que costuma estar em alto grau de vivência é a de adaptação a novas situações, muitas delas adversas e que nos fazem viver numa correlação de forças onde a inteligência humana, normalmente, vence. De outro modo correríamos sérios riscos de sermos ultrapassados pela fabricação de novos instrumentos, que nos hão de auxiliar a fazermos deste mundo um espaço mais humano e mais civilizado. Para que tal aconteça precisamos de viver numa contínua educação, cuidando de que não sejamos meros figurantes numa paisagem que precisa de ser amada e embelezada, admirada e contemplada, vista e sentida… 

= Não será que as nossas crianças nascidas e criadas, instruídas e civilizadas, ocupadas e entretidas, vivem cada vez mais sós? Embora possam ter o mundo nas suas mãos, parece que não têm mãos que as afaguem, que as beijem e que as amparem com ternura e carinho… Comuniquemos mais uns com os outros, já!         

 

António Sílvio Couto 



sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Opções, resultados & mercenários


Nos tempos mais recentes, numa espécie de onda crescente, temos vindo a tomar conhecimento de factos e de figuras, de situações e de intervenientes, de narrativas e de suposições…onde quem, ontem, estava num lugar ou num posto, hoje, desempenha tarefas – algumas concorrentes – que podem questionar a legitimidade e/ou a seriedade de tudo e de bastantes…

Reduzimos o âmbito de referência ao mundo do desporto – e do futebol em particular – e da ação política, com especial incidência na versão mais autárquica… até pela proximidade às movimentações do xadrez partidário, ‘independente’ e afins. 

= Com alguma facilidade temos visto que um jogador pode representar um clube (ou emblema) numa semana ou mês, e dias depois, estar a jogar por aqueles que antes defrontou. Vimos, recentemente, que uma determinada cor desportiva retirou – acintosamente – jogadores, que tinha até aí emprestado, a um outro projeto desportivo mais pequeno, que o venceu e fez sair da competição em que ambos estavam interessados… Temos visto serem condicionados os praticantes se não forem atendidos os anseios dos mais fortes… Nota-se uma certa conivência e beneplácito dos mais poderosos para com os menos fortes, tornando tudo ‘normal’ e sob a complacência de quem manda, sabe-se lá a troco do quê!

Já não bastava falar da compra-e-venda de jogadores – como se fossem peças dum puzzle mais ou menos articulado – para ainda termos de tolerar esta cultura de mercenário, onde a pessoa se pode reduzir aos meros intentos de quem manda ou que ostenta mais poder…económico e social, pois de desportivo tem muito pouco ou mesmo nada… 

= Outros sim poderemos considerar a prática de mercenarismo – uma espécie de ideologia que percorre o espetro político sem cor clara nem quadro de referência assumido – nas propostas com que certas figuras deambulam nos lugares de poder: umas vezes surgem (quase) no topo da lista candidata; outras vezes escondem-se nos lugares mais subtis, mas prontos a subir à ribalta; nuns casos percebe-se com facilidade quem são e o que pretendem; noutras situações esperam pela hora mais conveniente para aparecerem como substitutos (já) pensados; nalgumas vezes surgem de surpresa, enquanto noutros parecem (quase) morcegos em noite de lua cheia… 

= ‘Roma não paga a traidores’. Eis uma frase eloquente que poderia ilustrar a forma de entendermos alguns posicionamentos de certas figuras (ou figurões) do nosso quotidiano. Com efeito, aquela frase citada ilustra como as forças romanas responderam ao modo com que alguns ‘soldados’ lusitanos mataram, à traição, Viriato, em 139 a.C., derrotando este inimigo de Roma…no espaço daquilo que viria a ser este país que agora somos. De facto, perante a bravura e a intrépida coragem daquele chefe luso, foi preciso aliciar uns certos militares da sua tribo para porem termo à sua vida…em resposta os beneficiados com a perda, os romanos, executaram os facínoras, declarando que não pagavam a quem atraiçoara… 

= No contexto da sociedade em que se vive, mais para o culto da aparência do que para a autenticidade, tanto das palavras, como dos atos, poderemos considerar que aquilo que ontem era mentira, hoje pode ser considerado verdade – este pensamento foi expresso por um homem do futebolês, já retirado de circulação – bem como aquilo que hoje se afirma perentoriamente pode amanhã não passar duma mentira refinada e antítese duma nova conjetura dialética… Deste modo ser mercenário pode parece um bom ofício em que se ganha enquanto se reina e até que seja descoberta a falsidade de comportamento e de vida…encoberta.

Não são estes os critérios e valores que perfilhamos. As pessoas não podem ser usadas em nosso proveito nem enquanto nos convém. A lealdade e a palavra de honra são mais importantes do que os míseros proventos – mesmo que possam ser de milhões – ganhos com enganos e truques de má-fé.

As opções devem merecer a convicção duma vida, independentemente dos resultados, mas nunca à custa de ser mercenário, adulador ou intriguista… Nada paga uma consciência serena, séria e sensata! 

 

António Sílvio Couto