Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Tantas situações ululantes!


Nos tempos mais recentes temos sido matraqueados com a sigla TSU, numa designação que se tem vindo a considerar menos boa em abono de quem a usa e, sobretudo, quase como arma-de-arremesso para com quem a tenta obstaculizar… Sabe-se lá com que razões e o seu contrário, isto é, quem a deseja favorecer…

A tal sigla TSU resume a pretensão de ‘taxa social única’, mas não querendo deixar de considerar o problema que a dita se tem tornado, quisemos apreendê-la como ‘tantas situações ululantes’…

Fazemos uma descrição do que é a TSU e depois voltaremos às tais situações ululantes… 

= Tanto quanto conseguimos consultar, a Taxa Social Única é um encargo das empresas que incide sobre o salário mensal de cada trabalhador e que é encaminhado para a segurança social. Na prática a TSU é o montante que trabalhadores e empresas descontam mensalmente para a segurança social em ordem a, no futuro, serem pagas as reformas de cada funcionário, tendo em conta aquilo que ganhava enquanto trabalhava.

A TSU sobre o trabalhador, em Portugal, é de 11% e a TSU sobre as empresas, com base no trabalhador, é de 23,75%... Até ao início deste ano, as empresas beneficiavam de um desconto de 0,75% tendo em conta os trabalhadores que recebiam o ordenado mínimo, quando atualizado, cifrando-se, assim, a TSU em 23%...

De acordo – se houve ou haverá mesmo o dito! – com uma medida concertada entre governo, patrões e uma central sindical, até janeiro do próximo ano – portanto a prazo – haveria uma descida da TSU em 1,25% em relação a empresas que tivessem de aumentar o salário mínimo nacional para 557 euros, tendo em conta os trabalhadores abrangidos…

Parecem ser estes os factos discutidos e acertados na ‘concertação social’, mas o assunto não parece reunir concordância entre todos os partidos no parlamento, seja naqueles que suportam o governo, seja nas oposições… E aí caímos nas tais situações ululantes! 

= Efetivamente temos visto ‘tantas situações ululantes’ que quase nem sabemos quem fala verdade e, particularmente, quem tem razão. Desde já valerá dar o significado (variado) de ‘ululante’, pois, o que temos visto anda um pouco nas franjas do significado original. Ulular quer dizer uivar. Ululante tem como sinónimos: uivo, grito, alguém que berra, que faz barulho…

Com efeito as ‘tantas situações ululantes’ têm-nos sido servidas pelos diversos intervenientes, pois alguns não se escusam de se fazerem notar por entre argumentos pouco abonatórios de quem os profere.

- Uns dizem que a TSU não pode ser moeda de troca para o aumento do ‘ordenado mínimo nacional’, pois estar-se-ia a favorecer os empregadores e, por outro lado, tal medida traria prejuízo futuro para a segurança social. Será preciso a certas pessoas passarem pela apertada condição de ter de pagar os ordenados, quando faltam os meios para que isso se possa verificar sem fazer perigar as instituições e as pequenas empresas. Bem se vê que nunca tiveram essa tarefa, pois lhes é facultado o que exigem sem olhar a meios nem a tribulações. Alguns que têm agora essa função – depois de terem estado do outro lado da trincheira – vão reclamando em surdina, embora consigam – sabe-se lá até quando! – agradar aos mentores dos aumentos, mesmo que falhando as obrigações para com os (seus) funcionários…

- Quem negociou a medida quer agora trazer à liça outros que, não tendo sido tidos nem achados, se vão encrespando nos seus interesses, podendo ser-lhes prejudicial (eleitoralmente) tal posição. Dizem que não querem ser muleta de decisões para as quais não foram consultados. É possível que muita coisa deveria ter mais em vista o bem comum do que as tricas (meramente) partidárias. No entanto, deixa um pouco a cogitar – quem ainda tiver oportunidade e paciência para tal! – que se queira colher resultados sem semear no campo correto, isto é, uns são os que comem a fruta e outros limitam-se a observar os caroços depois de comidos…

- Há forças sociais e ideológicas com bastante poder de argumentação, sabendo desviar a atenção dos problemas reais, entretendo-se e fazendo entretenimento com fait-divers de somenos… Quando teremos uma comunicação social que seja independente e capaz de ver as várias perspetivas e não vá continuando a ser caixa-de-ressonância do dono? Para quando deixarmos de ter ‘tantas situações ululantes’ sem rosto nem consequências? O povo merece muito melhor!...

 

António Sílvio Couto 



sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

A cultura são as pessoas…na era digital




Decorreu, de 16 a 19 de janeiro, na Praia da Rocha (Portimão), a atualização do clero das dioceses de Algarve, Beja, Évora e Setúbal, subordinada ao tema: levar Cristo às periferias humanas e existenciais – novos areópagos.

Cerca de cento e vinte padres e diáconos daquelas dioceses refletiram sobre desafios pastorais da cultura digital, redes sociais e comunicação social… incluindo ainda vários painéis – sobretudo com leigos – onde foram apresentados olhares em áreas prioritárias da ação pastoral da Igreja, tendo ainda sido escutadas ‘boas práticas’ nas dioceses envolvidas…

Nos primeiros dias houve tempo e espaço para conferências de especialistas vindos de Roma – António Spadaro (jesuíta) e Martin Carbajo (franciscano) – que lançaram leituras, propostas e desafios a ter em conta na era digital, que estamos a viver. A segunda parte destas jornadas foi ocupada com intervenções de pensadores e de leigos cristãos/católicos que vivem e testemunham a sua fé em contextos diversificados como a cultura, a política, a música, o desporto, a interculturalidade e mesmo na religiosidade popular.   

= Respigamos agora algumas das frases escutadas:

* Misericórdia como categoria política – não se pode mais considerar ninguém definitivamente perdido… Ter um pensamento aberto – pronto e disponível a romper esquemas… Na periferia se mede como funciona o centro… A Europa é um processo e não só um espaço… Da pastoral da resposta à pastoral da pergunta, reconhecendo as respostas justas… Precisamos de valorizar a evangelização da pergunta… Da transmissão da fé à pastoral do testemunho…os conteúdos passam, se há pessoas que os partilham… Capacidade de escuta: saber escutar o que os outros dizem (António Spadaro).  

* Conhecer as linguagens, dinâmicas e símbolos da era digital… As redes sociais são lugares antropológicos que constroem a nossa identidade… A rede social favorece o contacto, mas não impede o isolamento… O ambiente digital é um ambiente de vida… A Igreja promove a unidade e a reconciliação, enquanto os meios de comunicação buscam o sensacionalismo (Martin Carbajo).  

* Visão de conjunto do património e não uma fragmentação… Compreensão do outro e do diferente… Serviço público não é serviço estatal… Falar de cultura não é esquecer a economia… Voltar a falar da caridade, como cuidado e relação com os outros… Estar atentos à realidade que está a mudar… A cultura são as pessoas… Educação-ciência-cultura… Necessidade de compreendermos os grandes desafios (Guilherme d’Oliveira Martins).  

* A Igreja foi sabendo criar continuidade em resposta a cada tempo… Dicotomia sacro-profano… interpretação entre Europa do Norte, protestante e do Sul, católica (Rui Vieira Nery).  

* Após o Concílio Vaticano II deu-se uma espécie de neo-realismo devocionista…suprimiram-se procissões, devoções e criou-se um vazio… Não se pode nivelar sem saber valorizar (Francisco Couto).  

* Estamos muito dentro de nós e não colocamos Cristo em primeiro plano… Importância de assumir-se como cristão e do testemunho na vida…não perder as oportunidades de dar testemunho de Cristo vivo (Fernando Santos). 

Atendendo a mais esta oportunidade de aprendizagem – tanto de conteúdos como de ferramentas – cremos que será numa intercomunhão entre as dioceses e, sobretudo, dos padres com os leigos que haveremos de ir crescendo na consciência de que a mensagem do Evangelho continua atual, mas precisa de saber cuidar dos instrumentos para fazer Jesus conhecido, por entre tantas outras propostas num mundo secularizado e egoísta. Abertura à humildade em aprender e em caminhar com os outros, precisa-se!   

 

António Sílvio Couto



domingo, 15 de janeiro de 2017

Em busca da pós-mentira


Tem sido recorrente vermos e lermos a referência a uma nova palavra: pós-verdade. Foi até a escolhida como a ‘palavra do ano’ de 2016 (post-truth) para o dicionário Oxford.

Em que consiste este novo vocábulo? Qual o conteúdo (ou a falta dele) para que possamos falar de algo com consistência? Será que este termo define alguma coisa sobre o nosso tempo/era? Numa linguagem morfológica, é um adjetivo ou um substantivo?

Com efeito, precisamos de explicar esta ‘pós-verdade’ para tentarmos encontrar a sua abrangência mais relevante, tendo ainda na devida conta uma outra palavra em que se quer dizer o que não se desejava exprimir: não-verdade, isto é, não se refere ‘mentira’ nem tão pouco se classifica alguém como ‘mentiroso’, mas antes se diz que usou de inverdade…

Pós-verdade há quem a descreva (mais do que defina) como um adjetivo ‘relacionado ou denotando circunstâncias em que factos objetivos são menos influentes na formação da opinião pública do que apelos à emoção e crença pessoal’.

Entendidos na matéria – desde a comunicação social até à dimensão política, passando pela sua expressão em conteúdos das redes sociais – consideram que a pós-verdade traz consigo o definhamento da relevância da verdade e da objetividade na vida privada e pública… exaltando a importância das emoções, tanto na vida privada como na sua expressão pública.

Atendendo ao poder que se vem conferindo às redes sociais, sobretudo onde há menor intervenção de instrumentos de controlo, podem por ali difundirem-se informações e declarações mais ou menos disparatadas… Podem circular imensas inverdades, exageros e todo o tipo de invenções não contraditadas…

Também na era da pós-verdade, cada grupo tem ou pode criar o seu conjunto de crenças, deixando de dar qualquer importâncias aos outros…mesmo que relevantes. Como que se vai valorizando mais a fragmentação do que a dimensão total, gerando-se ainda pessoas fechadas em pequenos grupos de círculos de interesses ideológicos, sociais e económicos… mais apáticos do que participativos…nos mais básicos atos cívicos! 

= Perante tal civilização da pós-verdade, teremos de construir uma nova resposta: a busca da pós-mentira. Aí haveremos de passar da superficialidade e do engano de tantas intervenções nas redes sociais para a responsabilização em difundir sempre e só o que é digno de crédito e não uma certa bisbilhotice barata – antes exercida à mesa de café ou no soalheiro, mas agora cúmplice do espreitar por novos buracos da fechaduras, que têm vindo a ser, tantos post’s entre (pretensos) amigos sem amizade…

Como não podemos continuar a deixar-nos ir no engodo de que a pós-verdade ainda possa ter algo a insinuar-se para com a verdade, cada vez melhor teremos de atender àqueles/as com que nos relacionamos – mesmo em matéria de virtualidade – sabendo gerir, nesta economia do digital, quem nos possa ajudar a crescer na responsabilização do uso das tecnologias, cultivando os valores mais essenciais e não à mera visualização factual e difusa, mas sem real consistência… 

= É preciso perder o medo de chamar à inverdade, mentira; de classificar a pós-verdade, de manipulação; para que possamos incluir no nosso léxico – pessoal e coletivo, social e político – que a pós-mentira, é tão simplesmente, uma escolha da verdade, como conceito ético/moral e, sobretudo, como vivência de programação cristã, que se vai aferindo a Verdade por excelência que é uma Pessoa e uma clara mensagem, Jesus Cristo.

Quando tantos pensam ainda que a paz – social e política, cultural e económica – dos últimos setenta anos na Europa parece garantida, precisamos de advertir: pelos indícios de pós-verdade, muito breve, poderemos entrar em colapso e só uma assunção da pós-mentira poderá fazer-nos acreditar que os problemas que nos vão noticiando poderão servir para continuarem a enganar-nos com futilidades…Vejam-se as manigâncias atribuídas ao futuro presidente dos EUA, as manobras desconformes aos que não fazem parte da proteção da geringonça, as subtilezas dos protegidos pelos vencimentos aumentados, os silêncios amordaçados de quem pensa de modo diferente…embora livremente. Servidores da pós-mentira, precisam-se! 

 

António Sílvio Couto 


segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Fim duma certa oligarquia?


Com o falecimento consumado dum tal venerável ‘patriarca’ da democracia portuguesa como que se pode aperceber um tanto melhor o terminus do reinado duma certa oligarquia – ‘republicana, laica e um tanto socialista’, mas com tiques de monarquia… senão na forma (fórmula), ao menos num tácito conteúdo – que tem vindo a saltitar pelo poder – pretensamente – democrático nos últimos quarenta anos em Portugal…

Repare-se na veneração (quase) idolátrica com que foi noticiado o passamento e os remoques com que uns tantos ao serviço foram aparecendo e dando as suas doutas opiniões…  

= Agora que se fechou em definitivo o ciclo de vida – suficientemente longa – de tão vetusta personagem, ainda vamos sentindo as réplicas do realizado… umas vezes bem, outras sem brilho e pouca glória; tantas de combate e muitas de contestação; umas com direito à indignação, outras a roçar a indignidade (processo de descolonização); muitas vividas com vitórias e quantas outras sorvidas com tragos de derrota; bastantes com popularidade e não menos no equilibrismo em serem consideradas dalgum populismo…à luz dos factos hodiernos; visto como herói em momentos de crise, embora podendo ser interpretado como renegado por outros mais fundamentalistas; pretenso conciliador, embora com posições de inveterado inconformista… 

= Quando esboçamos estas apreciações – que não são, de forma alguma, juízos nem nada que possa ser julgado como tal, pois só Deus (creia-se ou não n´Ele) nos pode avaliar… – ainda decorrem os preparativos para o designado ‘funeral com honras de estado’ – algo único em mais de 40 anos de democracia – e que, na intenção dos promotores, poderá ser uma manifestação popular – ou será antes, mais uma vez, populista? – de reconhecimento nas ruas dos feitos do ‘rei da república’ e família! 

= Tenho mais de cinquenta anos e recordo-me desta figura pública nas lides da política…pura e dura. Não sou, por isso, dos que não viveram – com que aflição apreensiva – tantos dos atos e factos dos tempos mais recuados ou nas posições mais recentes e de razoáveis agruras… Não sinto, no entanto, que tudo foi louvável e que nada (ou muito pouco) deixou de ter marcas na nossa identidade coletiva – sem ser coletivista – desde a dimensão económico-financeira até às consequências de decisões ideológicas…mais ou menos visíveis e/ou toleradas…na Europa e para com o resto do mundo!  

= Não sou daqueles – mesmo que de forma indireta – são ingratos. Muito daquilo que hoje podemos ser – com liberdade, tanto social, como cultural e até religiosa – está enraizado na longa e fundamental história de quem soube defender a diferença, mesmo com prejuízo mais ou menos tolerado do seu sucesso... Talvez a influência de quem acompanhou o agora aureolado de ‘heroicidade’ tenha tido importância, mesmo que não o possa ter sido assumido tão claramente, como seria desejável. Umas tantas raízes de teor espiritualizante foram fazendo caminho, atendendo aos ancestrais e com ramificações que devem ser pontualizadas muito para além dos mentores do triângulo…supremo.    

= E o futuro, o que é que nos trará sobre a (dita) defunta oligarquia? Quais serão os efeitos do final do reinado sobre as mentes e no trato com os ‘súbditos’ um tanto confusos e em recuo de visibilidade?

Agora que estamos numa espécie de novo paradigma ainda poderemos esperar que algo vai ressurgir na mentalidade dos vindouros? Será que estamos a viver o estertor de algo que está caduco e ultrapassado? Como poderemos aferir com confiança que os novos tempos serão mais norteados pelo direito do que pelo protesto à indignação?

Embora respeitando as opções religioso-culturais, ousamos dizer: RIP (descansa em paz)!

 

António Sílvio Couto 




sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Homicídio moral?


Por estes dias ouvi uma referência que, uma outra pessoa, terá manifestado sobre uma terceira: para mim, tal pessoa (...) morreu! Ora, esta frase trouxe-me à memória idêntica observação de alguém que escreveu a outrem em mensagem de sms: neste momento acabei de morrer eternamente para si!

Embora, num como noutro caso, as situações possam parecer idênticas, elas não podem ser – como agora se diz – fulanizadas nem tão pouco vistas em mera aceção pessoal, mas podem (e devem) ser colocadas numa reflexão mais abrangente e, por que não, num enquadramento psicológico/emocional, humano/espiritual, referenciado/cultural.  

= Antes de mais teremos de questionar-nos sobre o que leva pessoas – ao que parece cristãs e de frequência religiosa – a dizer tais frases. Será que elas têm o alcance daquilo que as palavras querem dizer? Se sim, porque são ditas de forma tão acintosa? Se não, porque escapam tais observações? Como se coaduna a cultura cristã com expressões, no mínimo, tão anticristãs? De facto, desejar a morte da alguém é grave e declará-lo – mais ou menos publicamente – ainda se torna mais agravado... Com efeito, a vida não me pertence, quanto mais desejar algo de mal sobre a vida de outra pessoa, por muita razão de queixa que possa ter dela... Se andássemos por aí a ‘matar’ todos que não concordam connosco, este mundo seria uma selvejaria e/ou um campo de batalha... 

= Tentemos enquadrar a questão do ‘homicídio’ no plano geral de ordenamento jurídico. Na maior parte dos códigos penais, o homicídio está inserido nos crimes contra as pessoas e na componente dos crimes (direito) contra a vida. No código penal português encontra-se dos artigos 132.º a 134.º... com as respetivas penas, tendo em conta os atenuantes e/ou os agravantes.

Não vamos abordar a questão em análise no sentido meramente jurídico, mas antes pretendemos inserir o assunto num outro plano mais de teor moral/ético...sem pretender reduzi-lo a vertentes moralizantes...  

= Certamente que quem disse/escreveu aquelas palavras, que citámos na abertura deste texto, como que desejando e manifestando a morte de outra pessoa, não deve estar muito bem consigo mesmo e, por isso, estará também um tanto desconjuntado com aqueles/as que o rodeiam. A perceber pelos contextos de quem tais frases proferiu não andaremos muito longe dalguma verdade, se bem que esta possa ser um pouco subjetiva...

É notório que, quem passa o seu tempo a dizer mal dos outros, não pode estar de bem consigo mesmo/a, revelando, pelo contrário, uma personalidade afetada, senão mesmo imatura, na compreensão dos outros, porque não se conhece nem se aceita – até nas suas naturais lacunas e falhas, os católicos não temem chamar-se de ‘pecados’ – no confronto,que não é confrontamento com os outros como diferentes, diversos e complementares... mas nunca adversários nem sequer inimigos! 

= Quem vá conhecendo um tanto melhor a condição humana poderá ser tentado a ver tantas destas situações, casos ou episódios como reveladores das doenças – muitas delas dificilmente assumidas – em que as pessoas laboram a sua personalidade. Em quantos dos casos as pessoas que ‘matam’ moralmente os outros não passam de pessoas com uma razoável menorização de auto-estima, tentando denegrir os outros para, inconscientemente, se valorizarem...mesmo que com isso possam cometer injustiças e julgamentos menos adequados, tendo em conta a (possível) fé que dizem professar.

É paradigmático que, no livro das origens – Genésis (4,1-18) – o primeiro pecado da condição humana tenha sido um crime de mantança do irmão que se destacou na diferença... Ainda hoje há por aí muitos Caim’s que não conseguem ultrapassar com benevolência a boa aceitação do irmão Abel! Ainda hoje há quem vá fazer a sua oferta ao altar e não se reconcilie primeiro com seu irmão... Ainda hoje há quem frequente os sacramentos – sobretudo onde não é conhecido/a – mas viva nos sentimentos de quase homicídio moral para com outros...dessa pretensa mesma fé! Até quando?  

 

António Sílvio Couto




quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Santiago Maria


Segundo dados publicitados por estes dias, em 2016, os nomes mais dados a crianças foram: Santiago e Maria… nos registos em Portugal.

Eis a lista dos cinco primeiros nomes mais preferidos em cada sexo: masculino – Santiago (2102), João (1787), Francisco (1702), Rodrigo (1565) e Martim (1510); feminino – Maria (5640), Matilde (1835), Leonor (1783), Carolina (1174) e Beatriz (1154). 

= Desde logo se poderão colocar algumas questões: qual o significado de ‘dar o nome’ a alguém? Como se pode definir a identidade com a identificação? Será lógico dar um certo nome sem se saber qual a personalidade do identificado? Não andaremos, nestas coisas de pôr ou dar o nome, um tanto desfasados da visão mais profunda do ser humano? Certos nomes ‘da moda’ não revelarão (mais) alguma futilidade e inconsciência do que sabermos quem somos e qual a nossa missão neste mundo?  

= Atendendo à nossa tradição judaico-cristã, com fundamentação bíblica, ‘dar o nome’ está muitas vezes ligado às circunstâncias do nascimento, à missão dessa pessoa, que é confiada por Deus, podendo até ser mudado o nome, se essa pessoa recebe outra função ou tarefa da parte de Deus. Assim, no contexto bíblico, um determinado nome é mais do que uma forma de ser chamado, mas implica atender ao que essa pessoa recebe com responsabilidade enquanto vive nesta condição terrena…

Recordo-me de ter lido uma breve explicação da cultura dos índios e da forma como eles dão (ou dariam) o nome de alguém. Aquele que seria uma espécie de padrinho estaria com o pretenso afilhado durante algum tempo, conversando e estudando aquele a quem iria ser dado o nome… passado o tempo necessário e suficiente, saíram da tenda e seria posto, então, o nome, atendendo às caraterísticas e à personalidade dessa pessoa… Talvez, assim, se possa explicar a razão de certos nomes um tanto esquisitos ou menos conformes com a nossa cultura… 

= Ora, a vermos pela forma um tanto superficial com que vemos serem dados os nomes às pessoas, particularmente, na nossa cultura ocidental, como que poderemos ter de refazer muito daquilo em que andamos envolvidos na ‘denominação’ (na origem etimológica: de dar o nome, conhecer) e na ‘designação (colocar o selo ou a marca que distingue) sobre as pessoas e aquilo que elas estão incumbidas de viver com liberdade e responsabilidade.  

= Não será difícil perceber, ao escutarmos os nomes dalgumas pessoas, qual seria a telenovela da moda ou o programa televisivo onde esse nome aparecia… Quantos ‘marcos’ pululam por aí, atendendo à série de animação que passava na década de setenta do século passado… Só encontraremos a designação de ‘maria de fátima’ muitos anos após as manifestações (aparições) de Nossa Senhora naquela localidade na região de Leiria…até aí haveria muitas ‘marias… da conceição ou da senhora de maior devoção em cada localidade’…

Houve tempos em que se verificava o ‘dar o nome’ atendendo ao santo da data de nascimento da criança… Isso mesmo era recomendado nas regras da Igreja católica para que a pessoa tivesse alguém ‘santo’ ou de grande heroicidade que pudesse imitar…

Também aqui poderemos encontrar outra linha de nomes (mais) revolucionários onde os progenitores e os possíveis padrinhos – se é que tinham tal fé – se demarcavam do regime político ou até poderiam assim contestar a perseguição a que estavam submetidos… 

= Agora que o colocar um determinado nome está mais democrático, talvez valesse a pena refletir um pouco mais a sério sobre esta importante forma de identificar alguém. Talvez valesse ainda um pouco atender à linguagem com que nos dirigimos uns aos outros, como por exemplo ao dizermos: ‘como é que se chama’, quando deveríamos antes referir: ‘como é que o chamam’, pois chamar-se por um certo nome a si mesmo não parece ser muito correto nem manifesta algum equilíbrio…psicológico e emocional!

 

António Sílvio Couto



segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Banhos e auspícios…para 2017


Nas primeiras horas de novo ano surgiram imagens de ‘banhos de mar’ em vários pontos do país – de norte a sul – incluindo a prestação solitária do presidente da república…com quase quatro décadas de iniciativa. Dumas dezenas até às várias centenas, passando por uns poucos com história mais recente foi um ver de afoitos a mergulharem nas águas do mar, incluindo pelas causas mais diversificadas…

É verdade que não sabemos quais os efeitos que tais proezas trazem aos participantes. Poderemos auspiciar que devem ser benéficas, pois a repetição (anual e não só) pode ser o melhor crédito para que se faça algo de bizarro e um tanto a destoar do resto da população… em contraste com o recorrer em catadupa às urgências hospitalares com sobrecarga de procura e insuficiência de resposta. 

= Ao vermos outras imagens dos festejos – na rua e nos espaços privados, com organização prévia ou com grandes gastos do erário público – do final-do-ano e da receção ao novo ano, parece que se vive uma confluência social de grande alcance…sem lamúrias nem despesas, com música a rodos e regados com muito álcool…ocasional ou programado.

Dá a impressão que uma (possível) ínfima minoria se interroga sobre estes espetáculos de luz e som, de cor e de alienação – senão pessoal ao menos coletiva – onde parece que se faz festa, mas se não sabe quem é, verdadeiramente, o festejado… Dá-se vivas, a quem? Exalta-se e exulta-se, quem? Festeja-se um alguém anónimo…qual entidade sub-reptícia, sem rosto e sem identidade…

Muitas das rolhas ‘glorificam’ algo que não se sabe quem é nem onde está… Com efeito, este ‘mito’ anónimo e desconhecido tem honras de festança, mas dilui-se por entre a multidão eufórica e um tanto anestesiada pelos eflúvios exalados do néctar de Baco, com trejeitos à celebração retardada de Dionísio…    

= Quem não entrar nesta onda, como que poderá questionar-se sobre as razões e os objetivos de tais vivências. Quem se distanciar um tanto – e nem será preciso fazê-lo por repulsa ou por discordância – de tais festejos, corre o risco de entrar em questionamento sobre tudo quanto vê à sua volta…A envolvência – social e de consumo, crescente e de (quase) paganismo – como que faz os menos fervorosos sentirem-se à margem, se não da mentalidade, ao menos duma certa cultura reinante e mais ou menos abrangente… 

= De vez em quando, lá surgem vozes que tentam explicar tais festejos, enumerando as expetativas para o novo ano… Na sua maioria são ainda de teor muito subjetivo e de motivação primária: saúde, dinheiro, melhores condições económicas, anseios de satisfação imediatista…projetos a muito curto prazo à mistura com reivindicações antigas e não-resolvidas como habitação, emprego, segurança (social e de policiamento)…de forma direta ou atendendo a terceiros… 

= Nota-se, por outro lado, uma espécie de intervalo na celebração religiosa de tal data. Muitos dos que foram preparando – mais ou menos convenientemente – a celebração do Natal, esfumam-se dos espaços comunitários de religião. Outros parece que suspendem o ritual um tanto cristão e mergulham na apatia geral senão mesmo na idolatria epicurista… Como referia o Papa na mensagem para o 50.º ‘dia mundial da paz’ falta-nos maior capacidade de acolhimento de Jesus, que é, de facto, a resposta aos anseios do nosso coração… Mas, se vemos tanta deserção dos que se dizem discípulos de Cristo, como poderemos credibilizar a mensagem d’Ele?

Dá a impressão que ainda nos regemos por uma visão de religiosidade de verniz, que, quando estala, logo deixa perceber o caruncho sobre o qual estava (ou está) alicerçada. É forte a sedução do mundo e pálida a convicção de tantos/tantas que percorrem os espaços duma certa fé, que mais parece uma loja de conveniência – cada um vai onde lhe dá mais jeito e onde se escuta o que menos incomoda – do que de caminhada em compromisso com as razões mais profundas da existência e da crença…

Para todos desejamos um ano de bênção e de paz…em Jesus, por Jesus e com Jesus, na Igreja, pela Igreja… em expressão católica!


António Sílvio Couto