Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Fim duma certa oligarquia?


Com o falecimento consumado dum tal venerável ‘patriarca’ da democracia portuguesa como que se pode aperceber um tanto melhor o terminus do reinado duma certa oligarquia – ‘republicana, laica e um tanto socialista’, mas com tiques de monarquia… senão na forma (fórmula), ao menos num tácito conteúdo – que tem vindo a saltitar pelo poder – pretensamente – democrático nos últimos quarenta anos em Portugal…

Repare-se na veneração (quase) idolátrica com que foi noticiado o passamento e os remoques com que uns tantos ao serviço foram aparecendo e dando as suas doutas opiniões…  

= Agora que se fechou em definitivo o ciclo de vida – suficientemente longa – de tão vetusta personagem, ainda vamos sentindo as réplicas do realizado… umas vezes bem, outras sem brilho e pouca glória; tantas de combate e muitas de contestação; umas com direito à indignação, outras a roçar a indignidade (processo de descolonização); muitas vividas com vitórias e quantas outras sorvidas com tragos de derrota; bastantes com popularidade e não menos no equilibrismo em serem consideradas dalgum populismo…à luz dos factos hodiernos; visto como herói em momentos de crise, embora podendo ser interpretado como renegado por outros mais fundamentalistas; pretenso conciliador, embora com posições de inveterado inconformista… 

= Quando esboçamos estas apreciações – que não são, de forma alguma, juízos nem nada que possa ser julgado como tal, pois só Deus (creia-se ou não n´Ele) nos pode avaliar… – ainda decorrem os preparativos para o designado ‘funeral com honras de estado’ – algo único em mais de 40 anos de democracia – e que, na intenção dos promotores, poderá ser uma manifestação popular – ou será antes, mais uma vez, populista? – de reconhecimento nas ruas dos feitos do ‘rei da república’ e família! 

= Tenho mais de cinquenta anos e recordo-me desta figura pública nas lides da política…pura e dura. Não sou, por isso, dos que não viveram – com que aflição apreensiva – tantos dos atos e factos dos tempos mais recuados ou nas posições mais recentes e de razoáveis agruras… Não sinto, no entanto, que tudo foi louvável e que nada (ou muito pouco) deixou de ter marcas na nossa identidade coletiva – sem ser coletivista – desde a dimensão económico-financeira até às consequências de decisões ideológicas…mais ou menos visíveis e/ou toleradas…na Europa e para com o resto do mundo!  

= Não sou daqueles – mesmo que de forma indireta – são ingratos. Muito daquilo que hoje podemos ser – com liberdade, tanto social, como cultural e até religiosa – está enraizado na longa e fundamental história de quem soube defender a diferença, mesmo com prejuízo mais ou menos tolerado do seu sucesso... Talvez a influência de quem acompanhou o agora aureolado de ‘heroicidade’ tenha tido importância, mesmo que não o possa ter sido assumido tão claramente, como seria desejável. Umas tantas raízes de teor espiritualizante foram fazendo caminho, atendendo aos ancestrais e com ramificações que devem ser pontualizadas muito para além dos mentores do triângulo…supremo.    

= E o futuro, o que é que nos trará sobre a (dita) defunta oligarquia? Quais serão os efeitos do final do reinado sobre as mentes e no trato com os ‘súbditos’ um tanto confusos e em recuo de visibilidade?

Agora que estamos numa espécie de novo paradigma ainda poderemos esperar que algo vai ressurgir na mentalidade dos vindouros? Será que estamos a viver o estertor de algo que está caduco e ultrapassado? Como poderemos aferir com confiança que os novos tempos serão mais norteados pelo direito do que pelo protesto à indignação?

Embora respeitando as opções religioso-culturais, ousamos dizer: RIP (descansa em paz)!

 

António Sílvio Couto 




sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Homicídio moral?


Por estes dias ouvi uma referência que, uma outra pessoa, terá manifestado sobre uma terceira: para mim, tal pessoa (...) morreu! Ora, esta frase trouxe-me à memória idêntica observação de alguém que escreveu a outrem em mensagem de sms: neste momento acabei de morrer eternamente para si!

Embora, num como noutro caso, as situações possam parecer idênticas, elas não podem ser – como agora se diz – fulanizadas nem tão pouco vistas em mera aceção pessoal, mas podem (e devem) ser colocadas numa reflexão mais abrangente e, por que não, num enquadramento psicológico/emocional, humano/espiritual, referenciado/cultural.  

= Antes de mais teremos de questionar-nos sobre o que leva pessoas – ao que parece cristãs e de frequência religiosa – a dizer tais frases. Será que elas têm o alcance daquilo que as palavras querem dizer? Se sim, porque são ditas de forma tão acintosa? Se não, porque escapam tais observações? Como se coaduna a cultura cristã com expressões, no mínimo, tão anticristãs? De facto, desejar a morte da alguém é grave e declará-lo – mais ou menos publicamente – ainda se torna mais agravado... Com efeito, a vida não me pertence, quanto mais desejar algo de mal sobre a vida de outra pessoa, por muita razão de queixa que possa ter dela... Se andássemos por aí a ‘matar’ todos que não concordam connosco, este mundo seria uma selvejaria e/ou um campo de batalha... 

= Tentemos enquadrar a questão do ‘homicídio’ no plano geral de ordenamento jurídico. Na maior parte dos códigos penais, o homicídio está inserido nos crimes contra as pessoas e na componente dos crimes (direito) contra a vida. No código penal português encontra-se dos artigos 132.º a 134.º... com as respetivas penas, tendo em conta os atenuantes e/ou os agravantes.

Não vamos abordar a questão em análise no sentido meramente jurídico, mas antes pretendemos inserir o assunto num outro plano mais de teor moral/ético...sem pretender reduzi-lo a vertentes moralizantes...  

= Certamente que quem disse/escreveu aquelas palavras, que citámos na abertura deste texto, como que desejando e manifestando a morte de outra pessoa, não deve estar muito bem consigo mesmo e, por isso, estará também um tanto desconjuntado com aqueles/as que o rodeiam. A perceber pelos contextos de quem tais frases proferiu não andaremos muito longe dalguma verdade, se bem que esta possa ser um pouco subjetiva...

É notório que, quem passa o seu tempo a dizer mal dos outros, não pode estar de bem consigo mesmo/a, revelando, pelo contrário, uma personalidade afetada, senão mesmo imatura, na compreensão dos outros, porque não se conhece nem se aceita – até nas suas naturais lacunas e falhas, os católicos não temem chamar-se de ‘pecados’ – no confronto,que não é confrontamento com os outros como diferentes, diversos e complementares... mas nunca adversários nem sequer inimigos! 

= Quem vá conhecendo um tanto melhor a condição humana poderá ser tentado a ver tantas destas situações, casos ou episódios como reveladores das doenças – muitas delas dificilmente assumidas – em que as pessoas laboram a sua personalidade. Em quantos dos casos as pessoas que ‘matam’ moralmente os outros não passam de pessoas com uma razoável menorização de auto-estima, tentando denegrir os outros para, inconscientemente, se valorizarem...mesmo que com isso possam cometer injustiças e julgamentos menos adequados, tendo em conta a (possível) fé que dizem professar.

É paradigmático que, no livro das origens – Genésis (4,1-18) – o primeiro pecado da condição humana tenha sido um crime de mantança do irmão que se destacou na diferença... Ainda hoje há por aí muitos Caim’s que não conseguem ultrapassar com benevolência a boa aceitação do irmão Abel! Ainda hoje há quem vá fazer a sua oferta ao altar e não se reconcilie primeiro com seu irmão... Ainda hoje há quem frequente os sacramentos – sobretudo onde não é conhecido/a – mas viva nos sentimentos de quase homicídio moral para com outros...dessa pretensa mesma fé! Até quando?  

 

António Sílvio Couto




quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Santiago Maria


Segundo dados publicitados por estes dias, em 2016, os nomes mais dados a crianças foram: Santiago e Maria… nos registos em Portugal.

Eis a lista dos cinco primeiros nomes mais preferidos em cada sexo: masculino – Santiago (2102), João (1787), Francisco (1702), Rodrigo (1565) e Martim (1510); feminino – Maria (5640), Matilde (1835), Leonor (1783), Carolina (1174) e Beatriz (1154). 

= Desde logo se poderão colocar algumas questões: qual o significado de ‘dar o nome’ a alguém? Como se pode definir a identidade com a identificação? Será lógico dar um certo nome sem se saber qual a personalidade do identificado? Não andaremos, nestas coisas de pôr ou dar o nome, um tanto desfasados da visão mais profunda do ser humano? Certos nomes ‘da moda’ não revelarão (mais) alguma futilidade e inconsciência do que sabermos quem somos e qual a nossa missão neste mundo?  

= Atendendo à nossa tradição judaico-cristã, com fundamentação bíblica, ‘dar o nome’ está muitas vezes ligado às circunstâncias do nascimento, à missão dessa pessoa, que é confiada por Deus, podendo até ser mudado o nome, se essa pessoa recebe outra função ou tarefa da parte de Deus. Assim, no contexto bíblico, um determinado nome é mais do que uma forma de ser chamado, mas implica atender ao que essa pessoa recebe com responsabilidade enquanto vive nesta condição terrena…

Recordo-me de ter lido uma breve explicação da cultura dos índios e da forma como eles dão (ou dariam) o nome de alguém. Aquele que seria uma espécie de padrinho estaria com o pretenso afilhado durante algum tempo, conversando e estudando aquele a quem iria ser dado o nome… passado o tempo necessário e suficiente, saíram da tenda e seria posto, então, o nome, atendendo às caraterísticas e à personalidade dessa pessoa… Talvez, assim, se possa explicar a razão de certos nomes um tanto esquisitos ou menos conformes com a nossa cultura… 

= Ora, a vermos pela forma um tanto superficial com que vemos serem dados os nomes às pessoas, particularmente, na nossa cultura ocidental, como que poderemos ter de refazer muito daquilo em que andamos envolvidos na ‘denominação’ (na origem etimológica: de dar o nome, conhecer) e na ‘designação (colocar o selo ou a marca que distingue) sobre as pessoas e aquilo que elas estão incumbidas de viver com liberdade e responsabilidade.  

= Não será difícil perceber, ao escutarmos os nomes dalgumas pessoas, qual seria a telenovela da moda ou o programa televisivo onde esse nome aparecia… Quantos ‘marcos’ pululam por aí, atendendo à série de animação que passava na década de setenta do século passado… Só encontraremos a designação de ‘maria de fátima’ muitos anos após as manifestações (aparições) de Nossa Senhora naquela localidade na região de Leiria…até aí haveria muitas ‘marias… da conceição ou da senhora de maior devoção em cada localidade’…

Houve tempos em que se verificava o ‘dar o nome’ atendendo ao santo da data de nascimento da criança… Isso mesmo era recomendado nas regras da Igreja católica para que a pessoa tivesse alguém ‘santo’ ou de grande heroicidade que pudesse imitar…

Também aqui poderemos encontrar outra linha de nomes (mais) revolucionários onde os progenitores e os possíveis padrinhos – se é que tinham tal fé – se demarcavam do regime político ou até poderiam assim contestar a perseguição a que estavam submetidos… 

= Agora que o colocar um determinado nome está mais democrático, talvez valesse a pena refletir um pouco mais a sério sobre esta importante forma de identificar alguém. Talvez valesse ainda um pouco atender à linguagem com que nos dirigimos uns aos outros, como por exemplo ao dizermos: ‘como é que se chama’, quando deveríamos antes referir: ‘como é que o chamam’, pois chamar-se por um certo nome a si mesmo não parece ser muito correto nem manifesta algum equilíbrio…psicológico e emocional!

 

António Sílvio Couto



segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Banhos e auspícios…para 2017


Nas primeiras horas de novo ano surgiram imagens de ‘banhos de mar’ em vários pontos do país – de norte a sul – incluindo a prestação solitária do presidente da república…com quase quatro décadas de iniciativa. Dumas dezenas até às várias centenas, passando por uns poucos com história mais recente foi um ver de afoitos a mergulharem nas águas do mar, incluindo pelas causas mais diversificadas…

É verdade que não sabemos quais os efeitos que tais proezas trazem aos participantes. Poderemos auspiciar que devem ser benéficas, pois a repetição (anual e não só) pode ser o melhor crédito para que se faça algo de bizarro e um tanto a destoar do resto da população… em contraste com o recorrer em catadupa às urgências hospitalares com sobrecarga de procura e insuficiência de resposta. 

= Ao vermos outras imagens dos festejos – na rua e nos espaços privados, com organização prévia ou com grandes gastos do erário público – do final-do-ano e da receção ao novo ano, parece que se vive uma confluência social de grande alcance…sem lamúrias nem despesas, com música a rodos e regados com muito álcool…ocasional ou programado.

Dá a impressão que uma (possível) ínfima minoria se interroga sobre estes espetáculos de luz e som, de cor e de alienação – senão pessoal ao menos coletiva – onde parece que se faz festa, mas se não sabe quem é, verdadeiramente, o festejado… Dá-se vivas, a quem? Exalta-se e exulta-se, quem? Festeja-se um alguém anónimo…qual entidade sub-reptícia, sem rosto e sem identidade…

Muitas das rolhas ‘glorificam’ algo que não se sabe quem é nem onde está… Com efeito, este ‘mito’ anónimo e desconhecido tem honras de festança, mas dilui-se por entre a multidão eufórica e um tanto anestesiada pelos eflúvios exalados do néctar de Baco, com trejeitos à celebração retardada de Dionísio…    

= Quem não entrar nesta onda, como que poderá questionar-se sobre as razões e os objetivos de tais vivências. Quem se distanciar um tanto – e nem será preciso fazê-lo por repulsa ou por discordância – de tais festejos, corre o risco de entrar em questionamento sobre tudo quanto vê à sua volta…A envolvência – social e de consumo, crescente e de (quase) paganismo – como que faz os menos fervorosos sentirem-se à margem, se não da mentalidade, ao menos duma certa cultura reinante e mais ou menos abrangente… 

= De vez em quando, lá surgem vozes que tentam explicar tais festejos, enumerando as expetativas para o novo ano… Na sua maioria são ainda de teor muito subjetivo e de motivação primária: saúde, dinheiro, melhores condições económicas, anseios de satisfação imediatista…projetos a muito curto prazo à mistura com reivindicações antigas e não-resolvidas como habitação, emprego, segurança (social e de policiamento)…de forma direta ou atendendo a terceiros… 

= Nota-se, por outro lado, uma espécie de intervalo na celebração religiosa de tal data. Muitos dos que foram preparando – mais ou menos convenientemente – a celebração do Natal, esfumam-se dos espaços comunitários de religião. Outros parece que suspendem o ritual um tanto cristão e mergulham na apatia geral senão mesmo na idolatria epicurista… Como referia o Papa na mensagem para o 50.º ‘dia mundial da paz’ falta-nos maior capacidade de acolhimento de Jesus, que é, de facto, a resposta aos anseios do nosso coração… Mas, se vemos tanta deserção dos que se dizem discípulos de Cristo, como poderemos credibilizar a mensagem d’Ele?

Dá a impressão que ainda nos regemos por uma visão de religiosidade de verniz, que, quando estala, logo deixa perceber o caruncho sobre o qual estava (ou está) alicerçada. É forte a sedução do mundo e pálida a convicção de tantos/tantas que percorrem os espaços duma certa fé, que mais parece uma loja de conveniência – cada um vai onde lhe dá mais jeito e onde se escuta o que menos incomoda – do que de caminhada em compromisso com as razões mais profundas da existência e da crença…

Para todos desejamos um ano de bênção e de paz…em Jesus, por Jesus e com Jesus, na Igreja, pela Igreja… em expressão católica!


António Sílvio Couto 




sábado, 31 de dezembro de 2016

Da feira ao hospital



A poucas horas do final de 2016 – nalguns pontos da Terra já se festeja a passagem ao novo ano – tomei como resumo deste ano (quase) velho a expressão da ‘feira de gado’ – com que um governante caracterizou as conversações para a concertação social – e a romaria a um hospital privado – onde agoniza há mais de duas semanas um antigo presidente da república – enquanto milhares de pessoas enchem as urgências dos hospitais públicos…

Porque estes dois episódios? Que têm (ou podem ter) de significativo para o ano que termina? Como poderemos encontrar resumido o ano de 2016 em questões tão simples e talvez passageiras? Que país está retratado naqueles episódios que não possa estar noutros mais relevantes? 

= Antes de mais a conversa privada do dito ministro que classificou as negociações dos ‘parceiros sociais’ (entidades patronais e sindicais) com o governo como uma espécie de feira de gado, onde se vai regateando os preços até se chegar ao contento entre compradores, tem tanto de simplória, quanto de funesta, pois para muita gente poderá ter sido um mundo (rural) que desconheciam, mas de que o governante parece ter experiência, ao menos, de ouvido… e ainda que para umas tantas pessoas – que deviam ter mais respeito pelos outros – não passamos de ‘gado’, a vender/comprar, a submeter aos preços que se deseja e, possivelmente, sem a racionalidade capaz de se revoltar…

As desculpas – aceites pela maior parte dos envolvidos – são de muito não gosto e a roçar o indigno de quem, noutras circunstâncias, fez com que um outro governante tivesse de se demitir por gestos taurinos inadvertidos… Os critérios mudam conforme as vontades? Os sinais de poder fazem com que uns sejam castigados e outros ilibados?  

= A romaria ao hospital privado de eminentes figuras duma parte da nação deixa-nos um certo amargo de consciência, pois para uns defende-se o (democrático) ‘serviço nacional de saúde’, enquanto outros podem usufruir das regalias privativas – diga-se que todos deviam poder usar sem exclusão – a todo o tempo. Com efeito, estas coisas do ‘estado social’ servem para nivelar pelos pés o que devia ser elevado na qualidade sem ser preciso defender tudo e o seu contrário, desde que possamos dar a impressão que todos têm direito, mas só uns tantos participam… 

= É este o país que temos e que, em 2016, se pretendeu fazer mais democrático com ganhos de melhores ordenados, com reversão de direitos, com regalias repostas, com feriados revistos, com satisfação de promotores da reivindicação, com alguma paz social, com contas públicas mais ‘acertadas’ (os truques serão descobertos mais tarde), com bom desempenho dos ordenados… embora a economia não cresça, o ganho tenha sido – nas palavras do chefe do governo – poucochinho, as empresas continuam em dificuldade…mas o povo pode fazer festa, divertir-se cá dentro e lá por fora… 

= Este ano de 2016 foi memorável para as cores do futebol, do hóquei em patins, do atletismo; para as conquistas do novo secretário-geral do ONU; para os resultados económicos do turismo… viveu-se um tempo dalguma serenidade social, embora numa espécie de paz podre, onde mais do que a harmonia reina a desconfiança e se sente – qual espada de Dâmocles – a incerteza do terrorismo em qualquer parte e em todo o lugar… Até quando iremos estar, por cá, a salvo?  

= De facto, entre a feira e o hospital, vivemos num tempo e num lugar, onde se vai desenrolando uma mentalidade de consumismo, onde cada um se tem vindo a tornar mais egoísta, onde a família está sob ameaça constante, onde os valores da vida e da ética parecem ser mais armas de arremesso do que confluência cultural de todos e com todos.  

Já agora, a quem nos costuma ler: desculpem qualquer coisa que possa ter melindrado, mas escrever é expor-se e correr o risco de incomodar… A bênção de Deus no novo ano.      

 

António Sílvio Couto



segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Em cada tempo…



No livro do Qohelet (Eclesiastes) do Antigo Testamento (3,1-8) diz-se que há um tempo e um momento para tudo debaixo do céu – para nascer e para morrer; para plantar e arrancar; para matar e para curar; para destruir e para edificar; para chorar e para rir; para lamentar e para dançar; para atirar pedras e para ajuntá-las; para abraçar e para evitar abraços; para procurar e para perder; para guardar e para atirar fora; para rasgar e para coser; para calar e para falar; para amar e para odiar; para a guerra e para a paz… 
Ora, se é preciso saber isto, é tanto mais importante viver em conformidade com essa informação… sobretudo quando somos (ou podemos ser) postos em confronto com tais palavras de sabedoria e de vida ou ainda se somos questionados, avaliados e mesmo julgados…

= É isso que agora temos de fazer com a (dita) nova etapa da comunicação na diocese de Setúbal, em que – ao fim de dezasseis anos e setecentos e onze números realizados – o jornal semanário diocesano suspende a sua publicação em papel impresso.
Temos muito que aprender com a nossa história…neste particular do jornal diocesano. Isso será tanto mais importante quanto quisermos aprender com os erros e os sucessos, aquilo que foi menos bem e o que foi melhor conseguido, o que avaliza do desinteresse e o que foi resultado de participação… de alguns, de poucos ou de muitos, de quem se esperava maior corresponsabilidade pessoal, eclesial e comunitária.

= Em cada tempo é preciso saber ver e criar sinergias com tantos que nos são dados como companheiros de caminhada e não como adversários de competição. Será na benéfica diversidade dos dons e dos carismas, que haveremos de construir a unidade do mesmo corpo eclesial e não só eclesiástico, onde todos somos necessários, embora não imprescindíveis…. Esses, normalmente, têm já reconhecimento no espaço das tumbas e são em lista razoável e suficiente…
Temos visto, ao longo dos anos, tantas situações em que alguém, muito empenhado e com ideias capazes de mobilizar outros, com alguma resignação se vê desinteressar-se, qual desiludido e que entrou numa rotina muito derrotista e desmobilizadora… E isto não tem a ver só com a idade, mas antes parece atingir a dimensão volitiva e afetivo-intelectual. É verdade que manter-se atento e colaborante, inovador e não-acomodado, inquieto e generoso… não é fácil em todo o tempo, mas ver a decair – sobretudo rápida e precocemente – tais predicados poderá ser revelador de algo mais do que dar o lugar a outros…Essa crise exige atenção, reflexão e oração…

= Em cada tempo são importantes e essenciais os intérpretes dos ‘sinais dos tempos’ – essa expressão do Concílio Vaticano II, na constituição pastoral ‘Gaudium et spes’ sobre a Igreja no mundo atual’, n.º 4 – isto é, a forma como Deus nos fala, em mistério, em cada lugar, em cada momento e em cada condição de vida. Tantos os profetas como os que fazem o discernimento dos sinais dos tempos precisam de serem homens e mulheres de fé, com esperança e na caridade.
Hoje como no passado – e certamente na leitura do futuro – precisamos de intérpretes capazes de verem para além do meramente visível e, mais do que visionários pessimistas, é preciso que estejam imbuídos do Espírito de Deus, por forma a serem semeadores do bem e não da maledicência…como acontece com tantos outros fazedores de opinião e difusores da desgraça.

= Em cada tempo, dizemo-lo da Igreja Católica, Deus nos envia os profetas da sua Palavra, e que são muito mais do que a hierarquia, mas esta será sempre a referência em momentos mais delicados e, por vezes, controversos. Com efeito, quem sabe obedecer, normalmente, caminha nas sendas de Deus. Não podemos, por isso, tolerar atitudes de quem faz de conta que sai, mas deixa tentáculos. Não podemos continuar presos a quem já foi – e terá feito o melhor que sabia – e pretende induzir-nos a viver sob a nostalgia do passado…mesmo que glorioso. 
Em cada tempo Deus está e vela. Assim estejamos nós e vigiemos!


 


António Sílvio Couto 








quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Paz pela não-violência


O tema do 50.º dia mundial da paz, que se celebra no primeiro dia do ano civil, é – ‘A não-violência: estilo de uma política para a paz’.

Na sua mensagem o Papa Francisco situa a questão: «desejo deter-me na não-violência como estilo duma política de paz, e peço a Deus que nos ajude, a todos nós, a inspirar na não-violência as profundezas dos nossos sentimentos e valores pessoais. Sejam a caridade e a não-violência a guiar o modo como nos tratamos uns aos outros nas relações interpessoais, sociais e internacionais. Quando sabem resistir à tentação da vingança, as vítimas da violência podem ser os protagonistas mais credíveis de processos não-violentos de construção da paz».

Respigamos da mensagem do Papa Francisco alguns outros aspetos, colocando perguntas:  

1.Mundo dilacerado

«A violência não é o remédio para o nosso mundo dilacerado. Responder à violência com a violência leva, na melhor das hipóteses, a migrações forçadas e a atrozes sofrimentos, porque grandes quantidades de recursos são destinadas a fins militares e subtraídas às exigências do dia-a-dia dos jovens, das famílias em dificuldade, dos idosos, dos doentes, da grande maioria dos habitantes da terra».

Estamos mesmo conscientes de que violência gera mais violência e cria fatores de instabilidade nos mais diversos âmbitos? 

2. A Boa Nova

«Quem acolhe a Boa Nova de Jesus, sabe reconhecer a violência que carrega dentro de si e deixa-se curar pela misericórdia de Deus, tornando-se assim, por sua vez, instrumento de reconciliação».

Porque é que, hoje, tão difícil que Jesus seja acolhido neste mundo? Porque será que ainda temos medo de aceitar Jesus, quando só Ele é capaz de nos dar a paz verdadeira e profunda? 

3. Mais poderosa do que a violência

«A não-violência, praticada com decisão e coerência, produziu resultados impressionantes. (...). A Igreja comprometeu-se na implementação de estratégias não-violentas para promover a paz em muitos países solicitando, inclusive aos intervenientes mais violentos, esforços para construir uma paz justa e duradoura».

A não-violência tem de ser novamente uma escolha, como o foi para tantas figuras históricas e que fizeram acontecer momentos novos na história da Humanidade recentemente. Temos de fazer a nossa parte...da solução, a começar pelos que nos estão mais próximos… 

4. A raiz doméstica duma política não-violenta

«Se a origem donde brota a violência é o coração humano, então é fundamental começar por percorrer a senda da não-violência dentro da família...Esta constitui o cadinho indispensável no qual cônjuges, pais e filhos, irmãos e irmãs aprendem a comunicar e a cuidar uns dos outros desinteressadamente e onde os atritos, ou mesmo os conflitos, devem ser superados, não pela força, mas com o diálogo, o respeito, a busca do bem do outro, a misericórdia e o perdão».

Como poderá a família ser escola de paz? Até quando iremos adiar a aprendizagem em família?  

5. Convite-desafio

«A construção da paz por meio da não-violência ativa é um elemento necessário e coerente com os esforços contínuos da Igreja para limitar o uso da força através das normas morais, mediante a sua participação nos trabalhos das instituições internacionais e graças à competente contribuição de muitos cristãos para a elaboração da legislação a todos os níveis... As oito Bem-aventuranças traçam o perfil da pessoa que podemos definir feliz, boa e autêntica».

Assim o saibamos viver em 2017… com verdade e em paz!

 

António Sílvio Couto