Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



sábado, 17 de dezembro de 2016

Linguagem do silêncio

Talvez não seja a forma mais comum de viver o tempo de Natal e a recorrente passagem-de-ano, essa de viver o silêncio. Pelo contrário, em quase todos os lugares ouvimos – embora na maior parte das vezes nem escutemos – músicas e canções, promoções e novas compras…num ritmo que facilmente exclui o silêncio.
No entanto, se pararmos – queira Deus que tenhamos ainda tempo e capacidade de o fazer conscientemente – diante da representação simbólica do presépio, vemos que, só no silêncio, encontramos o verdadeiro significado do mistério do Natal e das ‘figuras’ que o compõem…
De entre as várias personagens há uma que se destaca ainda mais pelo seu silêncio – nunca fala, embora seja bom a escutar – que é São José, o pai adotivo de Jesus e a personalização do homem (masculino) de todos os tempos: José está em silêncio; José acolhe em silêncio; José segue as orientações de Deus em silêncio; José vive com intensidade tudo… em silêncio. José é silencioso, mas não silenciado!

= Quando tanta gente quer impor a sua posição pelo barulho, ora barulhando, ora resmungando. Quanta tanta gente tem dificuldade em fazer silêncio…cheio, profundo e com significado… É preciso criar, cada vez mais, condições para vivermos o silêncio, que nos faz encontrar a nós mesmos, com as nossas perguntas e interrogações mínimas, necessárias e suficientes. É preciso preencher o silêncio para que não haja vazio nem que possamos andar em busca de compensações para sabermos quem somos, de verdade.

= O silêncio não é nem nunca pode ser algo que se defina pela ausência, mas antes tem de ser objetivado pela compreensão das nossas qualidades mais essenciais: encontrar-se no mistério de si mesmo, entrando no que há de mais profundo e revelador do nosso ser… aí no sacrário do nosso coração, na cátedra da nossa inteligência e no resguardo da nossa vontade.

= Torna-se importante começar desde tenra idade a fazer exercícios de silêncio, seja pela ausência do falar, seja pela capacidade de abstrair do que se passa à nossa volta. No entanto, precisamos de corrigir, urgentemente, essa tendência de nos isolarmos com os fones nos ouvidos, vivendo cada qual no seu mundo e fechando-se aos outros de forma ostensiva e quase doentia. Além de perigoso – veja-se a possibilidade dumas adolescentes terem sido projetadas pelo comboio em andamento e morrido – isso revela uma espécie de autismo sociológico e que nos trará frutos ainda mais desagradáveis a curto e a médio prazo…

= A família deve tornar-se ‘escola de silêncio’, tanto pelo modo as pessoas falam umas com as outras, como no exercício entre todos os membros: pais e filhos, marido e esposa, avós e netos, vizinhos e visitas… Não será muito difícil fazer o diagnóstico deste aspeto na nossa família: bastará vermos com se relacionam as pessoas e pelo modo como se falam… Todos temos muito a aprender, desde o mais básico até aos momentos de maior tensão. Se pelo silêncio nos acolhermos e nos deixarmos acolher, tudo mudará em nós e à nossa volta!

= Os espaços de celebração da fé devem ser laboratórios de aprendizagem do silêncio, pois precisamos de apreciar interior e intensamente a presença do divino, onde palavras e canto, música e reflexões nos fazem captar a dimensão do nosso ser profundo, ávido do silêncio em que Deus nos fala e nós O escutamos.

= Que neste Natal demos espaço a Jesus na nossa família, pelo silêncio, dador de paz e consolador nas horas de maior tribulação.   


António Sílvio Couto

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Salário mínimo…diferenciado


«O CPASM quer viver as responsabilidades que lhe são acometidas, precisando, no entanto, que muitos outros nos deem condições para sermos parceiros duma ‘economia social’, que tem obrigações – veja-se o cumprimento do ‘salário mínimo’, equiparado a outros setores produtivos e com retorno económico dos custos – mas não consegue os mesmos proveitos…se não for a correta comparticipação estatal»…

Esta observação aparece nas considerações finais do plano de atividades e orçamento para o próximo ano daquela instituição. 

= Ora, estando a ser debatido o novo salário mínimo nacional será de apresentar algo que pode não ser tão óbvio como à primeira vista parece. Com efeito, equiparar o salário mínimo por igual em todas as atividades poderá ser, além de excessivo, um tanto comprometedor para com alguns setores que não vivem da comercialização nem têm facilidade em fazer repercutir no produto final o peso dos vencimentos… sobretudo quando há mensalidades – muito baixas e de âmbito solidário – em curso e com impacto, se forem aumentadas, na prestação de serviços e, consequentemente, na viabilidade das instituições… 

= Os funcionários – também agora denominados de colaboradores – precisam, merecem e anseiam melhores salários, sobretudo os que vivem na bitola do ordenado mínimo…Mas não será fácil para a sobrevivência das instituições – muitas delas IPSS’s com grandes problemas de tesouraria – suportar aumentos tão grandes e extensos, particularmente quando atingem uma parte significativa dos seus trabalhadores.

Bem diferente poderá ser o aumento do salário mínimo em setores onde se pode fazer repercutir os (ditos) aumentos em preços de venda.  

= Neste campo um tanto difícil, que é o mundo do trabalho e das remunerações, mais do que fazer afirmações ou colocar problemas que possam agravar o relacionamento entre empregador e empregado, deixamos algumas questões/inquietações:

. Os senhores/senhoras das centrais sindicais estão devidamente informados sobre a situação dos prestadores de serviços da economia social?

. Até onde irá a capacidade reivindicativa, mesmo se não há possibilidade de satisfazer as exigências?

. Será que, por ser na maior parte dos casos um setor mais de índole privada, a economia social não devia ser atendida nas regras e nas exceções?

. Os que fazem a mentalidade laboral, já perceberam que, com certos aumentos, poderá estar em causa muito daquilo que ainda se faz – com poucos meios económicos – por esse país fora?

. Será que as entidades associativas da economia social têm estado atentas às consequências gerais dos problemas particulares?

. Até onde irá este manto de silêncio, que poderá, muito em breve, cobrir de luto tantas instituições que fazem serviço de cuidado ao público, mesmo quando há concorrência do Estado e das autarquias? 

Deixamos estas breves perguntas e bem desejaríamos de poder contar com a solidariedade mais ativa de tantos, que usufruem dos serviços das IPSS’s, mas que, na hora da verdade, se escondem na penumbra da burocracia, deixando quem dá a cara a sentir que mais vale fechar portas com dignidade do que continuar a mendigar subsídios que nos são merecidos por trabalho já feito.

A quem tanto contesta o assistencialismo, como forma de vida e de sobrevivência, deixamos um desafio para que deixem este terceiro setor da economia – os outros dois são: setor público (Estado e governo) e setor privado (empresas e entidades lucrativas privadas) – trabalhar com meios dignos, com capacidade de resposta séria e nas condições mais adequadas à subsidiariedade e solidariedade… de tanto nos fala a doutrina social da Igreja.

Citando uma frase já antiga: há quem faça com três o que o Estado só faz com dez…com melhor proveito de todos. Boa gestão e correta administração, precisa-se!

 

António Sílvio Couto 



terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Natal sem O festejado?


Numa consulta na internet sobre figuras do Natal foi notório que, para muita gente, o Natal não inclui a celebração de Jesus.
Há cores - sobretudo vermelho, dourado, azul - imagens, sugestões e adereços em que nada se refere ao festejado, que é Jesus.
Na caminhada do Advento deste ano quisemos, na Moita, responder à pergunta - Jesus tem espaço na minha família? Deste modo houve a intenção de ir criando condições ao acolhimento d’ O festejado mesmo no espaço da família, tanto ao nível da casa (edifício, ramo de consanguinidade ou de descendência) como da parte das pessoas – avós, pais, filhos e outros – que nela vivem.

= De facto, temos vindo a constatar um progressivo processo de materialismo sobre o conceito, a vivência, a difusão e a realização do Natal. Agora que o caudilho cubano morreu, foi noticiado com maior atenção a reintrodução do feriado do Natal naquela ‘ilha da liberdade’… aí onde nem havia possibilidade de gozar o não-trabalho por ocasião daquela data tão festejada noutras partes do mundo. Por cá o gozo do feriado – este ano até acontece ao domingo – ainda está em vigor, mas cada qual usa-o para o que lhe dá proveito e não para celebrar digna e atentamente a data comemorativa do nascimento de Jesus. Até muitos dos (ditos) cristãos nesse dia estão mais voltados para si mesmos, de forma egoísta, usufruindo das regalias da festa, mas não contribuindo com quase nada para dignificar a celebração duma data como significativa de vivência em fraternidade e de comunhão com quantos festejam Jesus… sobretudo em perseguição.

= Um novo e galopante ‘ismo’ – consumismo – faz os rituais do seu culto, criando em muitas pessoas a sensação de que somos mesmo e só matéria e, como não conhecemos outros prazeres, vamo-nos alimentando daquilo que bem depressa se esgota e rapidamente se transforma em lixo...Que ficará na manhã seguinte da celebração do nosso Natal? Como ficaria cada um de nós, se do seu aniversário, só recordassem o papel de embrulho e umas quantas coisas descartáveis e expelidas, posteriormente, como excremento? Se nós, humanos, poderemos ficar ofendidos com tal memória, o que não ofenderá Jesus, se a tal reduzirmos a vivência do Natal!...    

= O recurso aos presentes/prendas faz, nesta época, o seu aparecimento com maior furor, o que provoca maior frenesi no comércio e nas superfícies (pequenas, médias ou grandes) de compras e de comercialização. Ora, segundo dados já do início de dezembro, a média estimada de gastos por família, em Portugal, este ano, é de 360 euros… tendo como produtos mais adquiridos chocolates, roupa/calçado e livros…

Se isto nos pode servir de análise aos interesses/necessidades/pretensões das pessoas e aos custos investidos, teremos de considerar que os valores (económicos) em causa ficam muito aquém do que noutros países é gasto… mas cada um faz o que pode e o que lhe é possível e/ou suficiente…

Não podemos incluir o Natal na lista dos acontecimentos de nostalgia, com que tantas vezes parece que recordamos o Natal. Tal vivência fez a sua história na nossa historicidade, mas não podemos configurar a celebração atual do Natal com tais arquétipos ou com clichés infantis… Viver o Natal sempre exigiu aferição ao Festejado, dando-lhe oportunidade para se encontrar connosco mesmos e tendo em conta os valores espirituais que nos norteiam… Quanto ao resto, os adereços não são mais importantes do que as figuras centrais: Jesus, Maria e José. Queira Deus (oxalá!) que sejamos capazes de os entender e de os glorificar pelo que Deus fez e faz neles!

Cantemos os ‘parabéns’ a Jesus neste Natal!      

 

António Sílvio Couto



segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

À procura da ‘palavra-do-ano’


Está aberta a votação para a escolha da ‘palavra-do-ano’ – 2016. São concorrentes: brexit, campeão, empoderamento, geringonça, humanista, microcefalia, parentalidade, presidente, racismo e turismo... dez candidatas ao todo!

A votação iniciada a 5 de maio – ‘dia da língua portuguesa e da cultura’ da CPLP – decorre ao final deste mês de dezembro, devendo ser anunciada a palavra vencedora nos primeiros dias de janeiro.

A escolha da ‘palavra-do-ano’ decorre, em Portugal, desde 2009, tendo sido estendida, este ano, a Angola e Moçambique... sendo da responsabilidade duma editora de grande expansão.

Em 2015 a ‘palavra-do-ano’ foi refugiado... enquanto em 2014 foi corrupção, em 2013 foi bombeiro, em 2012 a escolhida foi entroikado e em 2011 foi austeridade... 

= As palavras levadas à votação como que resumem o que de mais significativo houve na nossa vivência coletiva, umas com teor mais político e outras com referências ao nível mais social; umas realçando a conjuntura pública e outras exaltando mais a captação dos temas de âmbito relacional e até mesmo simbólico...

Mais do que escolher uma palavra que resuma a linha dominante do pensamento nacional – eu votei em geringonça – parece que se pretende algo que catapulte, para o futuro, o que foi a vivência deste ano de 2016, que caminha para o seu crepúsculo... Isso mesmo se pode ver pelas ‘palavra-do-ano’ supra citadas... Agora podemos compreender um tanto melhor ‘até’ a importância da escolha, pois falará de nós para o futuro próximo. 

= Cada vez mais precisamos de saber resumir, de forma simples, clara e incisiva, a nossa conduta pessoal e comunitária, na medida em que, muito daquilo que somos, se reflete no modo como pensamos, falamos, escrevemos e nos exprimimos. Efetivamente a nossa capacidade de comunicação faz com que aprendamos e enriqueçamos o nosso léxico, gerando novas formas para que as ideas sejam comunicadas e possamos fazer melhorar o tempo, o lugar e a cultura em que nos desenvolvemos.

No entanto, corremos o risco de irmos afunilando a nossa forma de comunicação, quer porque tentamos simplificar o que pretendemos dizer, quer porque o grupo sociológico a que pertencemos tem ou pode ter, ele mesmo, uma forma de comunicação, que se torna codificada e com tendências a fechar-se. Vejam-se as formas encriptadas com que muita da linguagem das mensagens em tlm se vão desenvolvendo e tornando entendíveis só para iniciados... 

= Não basta dizer que é preciso ler e que os mais novos têm vindo a perder a dedicação à leitura. Será preciso elevar o nível cultural de comunicação, a começar pelas entidades públicas – governação e deputados – e também na forma como se faz a comunicação social, sabendo dizer o que é essencial e deixando o supérfluo para quando houver tempo... mas, como este é cada vez mais escasso, precisamos de exercitar a comunicação do miolo do pensamento, deixando cair as roupagens do desnecessário.

Dá a impressão que precisamos de tratar os nossos interlocutores com mais respeito e não depreciando a sua inteligência, pois quem não sabe respeitar os outros talvez não mereça ser respeitado... Quantos exemplos vemos espalhados à nossa volta, que parecem contar mais com a sua esperteza e não tanto com a sagacidade dos outros... Quantas vezes perguntar é mais salutar e benéfico do que afirmar, mesmo que as questões possam, desde logo, exigir respostas e tomada de posição... Quantas vezes se percebe quem nos trata com civilidade ou quem nos pretende impingir patranhas ao desbarato... 

= Seja qual for a palavra-do-ano de 2016, teremos de refletir sobre aquilo que ela transmite aos outros da nossa vivência do passado recente... Até o empoderamento (= ato ou efeito de dar ou adquirir poder ou mais poder) poderá ser reveladora das caraterísticas do nosso tempo...

 

António Sílvio Couto



segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Velhos com infância menos feliz



26,9% dos portugueses, com mais de cinquenta anos de idade, afirmam ter tido uma vida feliz. No quadro de dezasseis países europeus esse mesmo enquadramento etário apresenta que 50,8% dos inquiridos dizem-se muitas vezes felizes.
Estes dados foram recolhidos dum estudo intitulado ‘Envelhecimento em Lisboa, Portugal e Europa: uma perspetiva comparada’.
Olhar para o passado parece que comporta para muitos portugueses uma espécie de fardo...e as perspetivas sobre o futuro não são também vistas como animadas. Poder-se-á dizer que os portugueses veem o passado difícil, o futuro incerto e o presente complicado. Tentemos abordar a questão sobre esta tríplice visão:
* Passado difícil
Muitos dos portugueses com mais de cinquenta anos foram educados num Portugal em ditadura política, alguns viveram a segunda guerra mundial, uns tantos participaram na guerra colonial...e uma grande maioria foi apanhada pela revolução de Abril na adolescência, vivendo as complicações sócio-económico-políticas dos últimos quarenta anos da (dita) democracia...
Tiveram de viver com muitos sacrifícios, em contenção económica...à mistura com anseios, sonhos e bons desejos nem sempre realizados na vida pessoal, familiar e social.
Quem viveu assim o passado talvez não tenha grandes perspetivas para o futuro...por entre dúvidas quanto ao presente...mais ou menos ritmado pelas ocupações do trabalho ainda a fazer... Uma parte significativa desses com mais de cinquenta anos são confrontados com as (ditas) ‘novas tecnologias’, exigindo-lhes capacidade de adaptação e contínua aferição a novos termos e conceitos…
* Futuro incerto
Sim, dadas as circunstâncias esta geração de mais de cinquenta vive agora no final do (possível) tempo útil de trabalho, com reformas, normalmente, baixas para os sustentar, entre a dúvida de onde será vivida a velhice, pois a família já não tem condições para ser o derradeiro reduto da sua vida... Quantos sonhos se podem ter esboroado e agora fica o amargo de ver que o sol prolonga a sombra na dianteira da vida e do que virá… Quantas perguntas se colocam. Quantos silêncios engolidos para dentro. Quantas vezes o limão é espremido para dentro, lançando mais amargura e incerteza sobre feridas nem sempre curadas…

* Presente complicado
Efetivamente nem tudo corre bem no reino do faz-de-conta, pois já não se tem o mesmo vigor físico, as virtualidades intelectuais podem começar a falhar, as dimensões emocionais/psicológicas vão amadurecendo com a experiência de vida...por muito pouca que esta possa ter sido. O presente não se apresenta assaz risonho, mas também não é tão sisudo que tenhamos de andar com cara de defunto em pré-registo. Sejamos realistas e tentemos viver o dia-a-dia com a intensidade que a dedicação aos outros nos confere...
Numa palavra: quem vos escreve já passou, de facto, a barreira dos cinquenta, mas ainda não tem uma perspetiva tão pessimista como a daquela minoria de pouco animados com o passado...pois crer em Deus pode ser um alento de vida na certeza de que Ele cuida de nós, sempre!
Comparativamente com outros países, com nível e qualidade de vida – termos tão queridos à nossa cultura do descartável – idênticas ou superiores à do nosso país, vão enfrentando passado-presente-futuro com outra disposição mais animada e, ao que parece, com menor apreensão. Será que a nossa condição de latinos e sob a influência duma certa religiosidade nos condiciona e nos atrofia? Será que a ligação familiar se foi rompendo e ainda não encontramos o verdadeiro sentido de vida? Será que não tem vindo a faltar uma maior adequação da fé dita à fé comprometida? Com tanto sol, ao longo do ano, não deveríamos ser mais animados, alegres e servidores da esperança?     

António Sílvio Couto 


sábado, 3 de dezembro de 2016

Delito de opinião


Ao abrigo do artigo 38.º da constituição da república portuguesa há liberdade de expressão e de criação por parte dos ‘fazedores’ da comunicação social, mas isso – a liberdade e o seu contrário – não é tão possível/percetível por parte daqueles que não estão nesse enquadramento ou que não perfilhem ideias por eles aceitáveis ou toleradas.

Ter direito de opinião é – ou pode ser – expresso (ou será, antes, exprimido?) num quadro de razoável complexidade de registos e de concordâncias.

Às vezes dá a impressão que certas atitudes funcionam com defeito de forma, isto é, muito daquilo que se diz (ou pode ser dito) tem de passar por um tal crivo do ‘coletivo’, onde a opinião de cada qual vale enquanto concorda com a maioria, gerando-se, assim, um aniquilamento do pensamento pessoal e fundamentado na pessoa e não no mito das maiorias… reais, exequíveis ou manipuladas. 

= Fique claro – quase como declaração de interesses – para mim cada pessoa vale mais do que o (pretenso) coletivo, pois daquela pode-se esperar responsabilidade e responsabilização e deste nem uma coisa nem outra… antes tudo parece ser e viver-se sem rosto nem voz. 

= Num tempo em que muitos dos mitos – pessoais ou coletivos, nacionais ou transnacionais, ideológicos e/ou populistas – vão tremendo na sua formulação e, sobretudo, na prossecução dos seus objetivos, vemos que uns tantos (mais do que aquilo que parece) ainda se agarram – quais náufragos em maré de tempestade – aos estilhaços da revolução silenciosa e contundente de 1989 – queda do muro de Berlim – acenando com conjeturas de circunstância em ordem a fazerem valer a construção duma sociedade democrática sem capitalismo, mas vestidos/calçados/produzidos (figura e imagem, tlm e carro) com as marcas (capitalistas e neoliberais) que contestam…mas lhes dão estatuto económico e social.  

= Há, por outro lado, forças e projetos que ainda se vão escondendo para que não se dito o que, de facto e com verdade, fazem em favor dos desfavorecidos… à boa maneira da sugestão bíblica sem barulho nem grande aparato. Por vezes a mão direita faz o que nem a esquerda sabe – esta é uma ideia/conselho do evangelho – e isso permite a muitas pessoas sobreviverem acima do mínimo da dignidade humana. Em quantas situações é a ajuda silenciosa e recatada que faz sobreviver famílias e pessoas individuais, aí onde outros fariam alarido para que se soubesse – de forma direta ou mais subtil – a ajuda prestada… Isso não dá votos e – no caso da frequência da prática religiosa – nem sequer devotos.

Efetivamente, por estes dias, veremos inúmeras associações e coletividades a publicitarem as suas ações de benemerência, sobretudo se isso tiver o patrocínio sub-reptício dalguma autarquia…

Com que facilidade se explora a fragilidade dos outros, tornando-os como que alfinete de condecoração no trato com as coisas de assistência… próprias ou rececionadas para o efeito.  

= Faço parte, desde a mais tenra idade, pelo batismo com um dia de vida, duma sociedade de fiéis, que têm por fundador um Deus-feito homem, Jesus Cristo e que, de forma organizada, se chama Igreja Católica. Fui educado e cresci nesta expressão de cristianismo. Por graça e mistério de Deus, fui ordenado para nela ser ministro, como padre. Aprendi a amar, a pensar e desejar tudo na vida a partir desta expressão de fé comunitária. Mas quase nunca me senti condicionado a dizer o que pensava e a pensar o que digo… até pela formação teológica e compromisso pastoral.

Quando falo de «delito de opinião» não me sinto condicionado a não ser livre para dizer, escrever ou falar o que, na minha consciência cristã, posso, devo e tenho de exprimir. Por tal razão considero que não temos – como Igreja plural e una – de temer que nos possam avaliar e até contestar… desde que sejam, minimamente, fiéis e queiram comungar da mesma fé professada, celebrada e comprometida…

De outros dispensamos lições… sobretudo se vivem e se alimentam do secretismo de estruturas e de coletivos menos claros, esclarecedores e transparentes.  

   

António Sílvio Couto



segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Caixa’s de pandora!


Este ano de 2016 – prestes a terminar – trouxe à sociedade portuguesa algumas apreensões sobre a designada CGD (caixa geral de depósitos), tanto na matéria da sua existência – depósitos deixados ou resposta aos pedidos solicitados, como ainda no resultado das economias – bem como na forma de gestão – mais errática do que de confiança – sobre o presente e, sobretudo, o futuro.

Atendendo ao setor bancário foi este caso o culminar de situações que envolveram outros bancos, com os custos inerentes na economia e nas finanças (impostos) dos portugueses. Quase poderíamos considerar que cada governo – seja qual for a cor partidária – neste século XXI (isto é, em dezasseis anos) teve o seu ‘banco de estimação’ com a necessidade de resolver os casos, dado que estamos vinculados à União Europeia e – até ver – não se brinca com coisas sérias. 

Atendendo, porém, a que se pode apelidar a CGD de banco nacional, tudo e o resto que ali aconteça se pode tornar uma caixa de pandora. Esclarecendo esta expressão ‘caixa de pandora’. Caixa de pandora é um artefacto da mitologia grega em que Pandora, a primeira mulher criada por Zeus, que era muito curiosa, foi-lhe dada uma caixa em que estavam todos os males do mundo… na sua curiosidade Pandora caiu na tentação para ver o que havia na caixa… e dela saíram todos os males, que se espalharam pela terra! 

= Efetivamente o nosso sistema bancário é uma autêntica ‘caixa de pandora’, pois, quando se começa a falar duma instituição, bem depressa chegam em catadupa réplicas do terramoto com cada vez maior intensidade. Por isso, o que, neste último ano, se tem verificado com a CGD está ainda no princípio dos efeitos sobre a economia nacional, as precárias poupanças dos clientes e até sobre a credibilidade do sistema económico-financeiro.

Porque será que tem havido tanta nebulosidade no trato com os gestores, por agora demissionários? Porque houve o arrastar de clareza e/ou esclarecimento sobre pretensões e promessas aos indigitados? Porque se gastou tanto tempo e energias em esconder/descobrir o que, de verdade, se passou? Porque se contesta tão ardilosamente o setor privado, mas depois se vai recrutar neste quem possa gerir no público? 

= Até ver todos são sérios desde que não se prove o contrário. Por isso, este fenómeno CGD é paradigmático do modo como muitas das questões são tratadas em Portugal. O problema arrasta-se há demasiado tempo para que não deixe sequelas de desacreditação no país. Não se compreende como pessoas que deviam ser honestas e leais se deixam enredar por questiúnculas de nível menos transparente…

Neste processo como noutras matérias falar em excesso da questão só agrava (ou tem vindo a agravar) o problema e faz com se possam misturar interesses pessoais com tarefas institucionais. Precisamos de criar novamente um escol de pessoas que sejam capazes de viver em missão de serviço aos outros e não tanto – como parece que se pode descortinar – que se valham dos lugares para (aparentemente) enriquecerem e se vangloriarem no presente e para o futuro.  

= Todo este problema dever-nos-ia proporcionar – a todos – uma reflexão sobre o nosso modo de lidarmos com as coisas materiais e o dinheiro em particular, pois muito daquilo que fomos percebendo se prende com a não-aceitação clara e legal de apresentar a declaração de rendimentos, por parte dos gestores demissionários e um certo afã para não dar parte de derrotado, para que se cumpra a lei, de quem tem (teve) a tutela do assunto ao nível superior em governação. Dá a impressão que alguém não estava preparado para gerir este assunto tão efervescente!

Agora que entramos em fase de natal-consumista poderemos tirar uns segundos de tempo para nos confrontarmos com as seduções do momento: até onde irá a ousadia em lutar contra as tendências que nos têm sido semeadas para que gastemos mais e mais, preenchendo a nossa vida com coisas em vez de nos alimentarmos dos verdadeiros valores humanos e espirituais?

Afinal, como tão sabiamente nos tem dito o Papa Francisco: não consta que a ‘mortalha tenha bolsos’ para levarmos na morte os bens que, entretanto, aferrolhamos!      

 

António Sílvio Couto