Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

À procura da ‘palavra-do-ano’


Está aberta a votação para a escolha da ‘palavra-do-ano’ – 2016. São concorrentes: brexit, campeão, empoderamento, geringonça, humanista, microcefalia, parentalidade, presidente, racismo e turismo... dez candidatas ao todo!

A votação iniciada a 5 de maio – ‘dia da língua portuguesa e da cultura’ da CPLP – decorre ao final deste mês de dezembro, devendo ser anunciada a palavra vencedora nos primeiros dias de janeiro.

A escolha da ‘palavra-do-ano’ decorre, em Portugal, desde 2009, tendo sido estendida, este ano, a Angola e Moçambique... sendo da responsabilidade duma editora de grande expansão.

Em 2015 a ‘palavra-do-ano’ foi refugiado... enquanto em 2014 foi corrupção, em 2013 foi bombeiro, em 2012 a escolhida foi entroikado e em 2011 foi austeridade... 

= As palavras levadas à votação como que resumem o que de mais significativo houve na nossa vivência coletiva, umas com teor mais político e outras com referências ao nível mais social; umas realçando a conjuntura pública e outras exaltando mais a captação dos temas de âmbito relacional e até mesmo simbólico...

Mais do que escolher uma palavra que resuma a linha dominante do pensamento nacional – eu votei em geringonça – parece que se pretende algo que catapulte, para o futuro, o que foi a vivência deste ano de 2016, que caminha para o seu crepúsculo... Isso mesmo se pode ver pelas ‘palavra-do-ano’ supra citadas... Agora podemos compreender um tanto melhor ‘até’ a importância da escolha, pois falará de nós para o futuro próximo. 

= Cada vez mais precisamos de saber resumir, de forma simples, clara e incisiva, a nossa conduta pessoal e comunitária, na medida em que, muito daquilo que somos, se reflete no modo como pensamos, falamos, escrevemos e nos exprimimos. Efetivamente a nossa capacidade de comunicação faz com que aprendamos e enriqueçamos o nosso léxico, gerando novas formas para que as ideas sejam comunicadas e possamos fazer melhorar o tempo, o lugar e a cultura em que nos desenvolvemos.

No entanto, corremos o risco de irmos afunilando a nossa forma de comunicação, quer porque tentamos simplificar o que pretendemos dizer, quer porque o grupo sociológico a que pertencemos tem ou pode ter, ele mesmo, uma forma de comunicação, que se torna codificada e com tendências a fechar-se. Vejam-se as formas encriptadas com que muita da linguagem das mensagens em tlm se vão desenvolvendo e tornando entendíveis só para iniciados... 

= Não basta dizer que é preciso ler e que os mais novos têm vindo a perder a dedicação à leitura. Será preciso elevar o nível cultural de comunicação, a começar pelas entidades públicas – governação e deputados – e também na forma como se faz a comunicação social, sabendo dizer o que é essencial e deixando o supérfluo para quando houver tempo... mas, como este é cada vez mais escasso, precisamos de exercitar a comunicação do miolo do pensamento, deixando cair as roupagens do desnecessário.

Dá a impressão que precisamos de tratar os nossos interlocutores com mais respeito e não depreciando a sua inteligência, pois quem não sabe respeitar os outros talvez não mereça ser respeitado... Quantos exemplos vemos espalhados à nossa volta, que parecem contar mais com a sua esperteza e não tanto com a sagacidade dos outros... Quantas vezes perguntar é mais salutar e benéfico do que afirmar, mesmo que as questões possam, desde logo, exigir respostas e tomada de posição... Quantas vezes se percebe quem nos trata com civilidade ou quem nos pretende impingir patranhas ao desbarato... 

= Seja qual for a palavra-do-ano de 2016, teremos de refletir sobre aquilo que ela transmite aos outros da nossa vivência do passado recente... Até o empoderamento (= ato ou efeito de dar ou adquirir poder ou mais poder) poderá ser reveladora das caraterísticas do nosso tempo...

 

António Sílvio Couto



segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Velhos com infância menos feliz



26,9% dos portugueses, com mais de cinquenta anos de idade, afirmam ter tido uma vida feliz. No quadro de dezasseis países europeus esse mesmo enquadramento etário apresenta que 50,8% dos inquiridos dizem-se muitas vezes felizes.
Estes dados foram recolhidos dum estudo intitulado ‘Envelhecimento em Lisboa, Portugal e Europa: uma perspetiva comparada’.
Olhar para o passado parece que comporta para muitos portugueses uma espécie de fardo...e as perspetivas sobre o futuro não são também vistas como animadas. Poder-se-á dizer que os portugueses veem o passado difícil, o futuro incerto e o presente complicado. Tentemos abordar a questão sobre esta tríplice visão:
* Passado difícil
Muitos dos portugueses com mais de cinquenta anos foram educados num Portugal em ditadura política, alguns viveram a segunda guerra mundial, uns tantos participaram na guerra colonial...e uma grande maioria foi apanhada pela revolução de Abril na adolescência, vivendo as complicações sócio-económico-políticas dos últimos quarenta anos da (dita) democracia...
Tiveram de viver com muitos sacrifícios, em contenção económica...à mistura com anseios, sonhos e bons desejos nem sempre realizados na vida pessoal, familiar e social.
Quem viveu assim o passado talvez não tenha grandes perspetivas para o futuro...por entre dúvidas quanto ao presente...mais ou menos ritmado pelas ocupações do trabalho ainda a fazer... Uma parte significativa desses com mais de cinquenta anos são confrontados com as (ditas) ‘novas tecnologias’, exigindo-lhes capacidade de adaptação e contínua aferição a novos termos e conceitos…
* Futuro incerto
Sim, dadas as circunstâncias esta geração de mais de cinquenta vive agora no final do (possível) tempo útil de trabalho, com reformas, normalmente, baixas para os sustentar, entre a dúvida de onde será vivida a velhice, pois a família já não tem condições para ser o derradeiro reduto da sua vida... Quantos sonhos se podem ter esboroado e agora fica o amargo de ver que o sol prolonga a sombra na dianteira da vida e do que virá… Quantas perguntas se colocam. Quantos silêncios engolidos para dentro. Quantas vezes o limão é espremido para dentro, lançando mais amargura e incerteza sobre feridas nem sempre curadas…

* Presente complicado
Efetivamente nem tudo corre bem no reino do faz-de-conta, pois já não se tem o mesmo vigor físico, as virtualidades intelectuais podem começar a falhar, as dimensões emocionais/psicológicas vão amadurecendo com a experiência de vida...por muito pouca que esta possa ter sido. O presente não se apresenta assaz risonho, mas também não é tão sisudo que tenhamos de andar com cara de defunto em pré-registo. Sejamos realistas e tentemos viver o dia-a-dia com a intensidade que a dedicação aos outros nos confere...
Numa palavra: quem vos escreve já passou, de facto, a barreira dos cinquenta, mas ainda não tem uma perspetiva tão pessimista como a daquela minoria de pouco animados com o passado...pois crer em Deus pode ser um alento de vida na certeza de que Ele cuida de nós, sempre!
Comparativamente com outros países, com nível e qualidade de vida – termos tão queridos à nossa cultura do descartável – idênticas ou superiores à do nosso país, vão enfrentando passado-presente-futuro com outra disposição mais animada e, ao que parece, com menor apreensão. Será que a nossa condição de latinos e sob a influência duma certa religiosidade nos condiciona e nos atrofia? Será que a ligação familiar se foi rompendo e ainda não encontramos o verdadeiro sentido de vida? Será que não tem vindo a faltar uma maior adequação da fé dita à fé comprometida? Com tanto sol, ao longo do ano, não deveríamos ser mais animados, alegres e servidores da esperança?     

António Sílvio Couto 


sábado, 3 de dezembro de 2016

Delito de opinião


Ao abrigo do artigo 38.º da constituição da república portuguesa há liberdade de expressão e de criação por parte dos ‘fazedores’ da comunicação social, mas isso – a liberdade e o seu contrário – não é tão possível/percetível por parte daqueles que não estão nesse enquadramento ou que não perfilhem ideias por eles aceitáveis ou toleradas.

Ter direito de opinião é – ou pode ser – expresso (ou será, antes, exprimido?) num quadro de razoável complexidade de registos e de concordâncias.

Às vezes dá a impressão que certas atitudes funcionam com defeito de forma, isto é, muito daquilo que se diz (ou pode ser dito) tem de passar por um tal crivo do ‘coletivo’, onde a opinião de cada qual vale enquanto concorda com a maioria, gerando-se, assim, um aniquilamento do pensamento pessoal e fundamentado na pessoa e não no mito das maiorias… reais, exequíveis ou manipuladas. 

= Fique claro – quase como declaração de interesses – para mim cada pessoa vale mais do que o (pretenso) coletivo, pois daquela pode-se esperar responsabilidade e responsabilização e deste nem uma coisa nem outra… antes tudo parece ser e viver-se sem rosto nem voz. 

= Num tempo em que muitos dos mitos – pessoais ou coletivos, nacionais ou transnacionais, ideológicos e/ou populistas – vão tremendo na sua formulação e, sobretudo, na prossecução dos seus objetivos, vemos que uns tantos (mais do que aquilo que parece) ainda se agarram – quais náufragos em maré de tempestade – aos estilhaços da revolução silenciosa e contundente de 1989 – queda do muro de Berlim – acenando com conjeturas de circunstância em ordem a fazerem valer a construção duma sociedade democrática sem capitalismo, mas vestidos/calçados/produzidos (figura e imagem, tlm e carro) com as marcas (capitalistas e neoliberais) que contestam…mas lhes dão estatuto económico e social.  

= Há, por outro lado, forças e projetos que ainda se vão escondendo para que não se dito o que, de facto e com verdade, fazem em favor dos desfavorecidos… à boa maneira da sugestão bíblica sem barulho nem grande aparato. Por vezes a mão direita faz o que nem a esquerda sabe – esta é uma ideia/conselho do evangelho – e isso permite a muitas pessoas sobreviverem acima do mínimo da dignidade humana. Em quantas situações é a ajuda silenciosa e recatada que faz sobreviver famílias e pessoas individuais, aí onde outros fariam alarido para que se soubesse – de forma direta ou mais subtil – a ajuda prestada… Isso não dá votos e – no caso da frequência da prática religiosa – nem sequer devotos.

Efetivamente, por estes dias, veremos inúmeras associações e coletividades a publicitarem as suas ações de benemerência, sobretudo se isso tiver o patrocínio sub-reptício dalguma autarquia…

Com que facilidade se explora a fragilidade dos outros, tornando-os como que alfinete de condecoração no trato com as coisas de assistência… próprias ou rececionadas para o efeito.  

= Faço parte, desde a mais tenra idade, pelo batismo com um dia de vida, duma sociedade de fiéis, que têm por fundador um Deus-feito homem, Jesus Cristo e que, de forma organizada, se chama Igreja Católica. Fui educado e cresci nesta expressão de cristianismo. Por graça e mistério de Deus, fui ordenado para nela ser ministro, como padre. Aprendi a amar, a pensar e desejar tudo na vida a partir desta expressão de fé comunitária. Mas quase nunca me senti condicionado a dizer o que pensava e a pensar o que digo… até pela formação teológica e compromisso pastoral.

Quando falo de «delito de opinião» não me sinto condicionado a não ser livre para dizer, escrever ou falar o que, na minha consciência cristã, posso, devo e tenho de exprimir. Por tal razão considero que não temos – como Igreja plural e una – de temer que nos possam avaliar e até contestar… desde que sejam, minimamente, fiéis e queiram comungar da mesma fé professada, celebrada e comprometida…

De outros dispensamos lições… sobretudo se vivem e se alimentam do secretismo de estruturas e de coletivos menos claros, esclarecedores e transparentes.  

   

António Sílvio Couto



segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Caixa’s de pandora!


Este ano de 2016 – prestes a terminar – trouxe à sociedade portuguesa algumas apreensões sobre a designada CGD (caixa geral de depósitos), tanto na matéria da sua existência – depósitos deixados ou resposta aos pedidos solicitados, como ainda no resultado das economias – bem como na forma de gestão – mais errática do que de confiança – sobre o presente e, sobretudo, o futuro.

Atendendo ao setor bancário foi este caso o culminar de situações que envolveram outros bancos, com os custos inerentes na economia e nas finanças (impostos) dos portugueses. Quase poderíamos considerar que cada governo – seja qual for a cor partidária – neste século XXI (isto é, em dezasseis anos) teve o seu ‘banco de estimação’ com a necessidade de resolver os casos, dado que estamos vinculados à União Europeia e – até ver – não se brinca com coisas sérias. 

Atendendo, porém, a que se pode apelidar a CGD de banco nacional, tudo e o resto que ali aconteça se pode tornar uma caixa de pandora. Esclarecendo esta expressão ‘caixa de pandora’. Caixa de pandora é um artefacto da mitologia grega em que Pandora, a primeira mulher criada por Zeus, que era muito curiosa, foi-lhe dada uma caixa em que estavam todos os males do mundo… na sua curiosidade Pandora caiu na tentação para ver o que havia na caixa… e dela saíram todos os males, que se espalharam pela terra! 

= Efetivamente o nosso sistema bancário é uma autêntica ‘caixa de pandora’, pois, quando se começa a falar duma instituição, bem depressa chegam em catadupa réplicas do terramoto com cada vez maior intensidade. Por isso, o que, neste último ano, se tem verificado com a CGD está ainda no princípio dos efeitos sobre a economia nacional, as precárias poupanças dos clientes e até sobre a credibilidade do sistema económico-financeiro.

Porque será que tem havido tanta nebulosidade no trato com os gestores, por agora demissionários? Porque houve o arrastar de clareza e/ou esclarecimento sobre pretensões e promessas aos indigitados? Porque se gastou tanto tempo e energias em esconder/descobrir o que, de verdade, se passou? Porque se contesta tão ardilosamente o setor privado, mas depois se vai recrutar neste quem possa gerir no público? 

= Até ver todos são sérios desde que não se prove o contrário. Por isso, este fenómeno CGD é paradigmático do modo como muitas das questões são tratadas em Portugal. O problema arrasta-se há demasiado tempo para que não deixe sequelas de desacreditação no país. Não se compreende como pessoas que deviam ser honestas e leais se deixam enredar por questiúnculas de nível menos transparente…

Neste processo como noutras matérias falar em excesso da questão só agrava (ou tem vindo a agravar) o problema e faz com se possam misturar interesses pessoais com tarefas institucionais. Precisamos de criar novamente um escol de pessoas que sejam capazes de viver em missão de serviço aos outros e não tanto – como parece que se pode descortinar – que se valham dos lugares para (aparentemente) enriquecerem e se vangloriarem no presente e para o futuro.  

= Todo este problema dever-nos-ia proporcionar – a todos – uma reflexão sobre o nosso modo de lidarmos com as coisas materiais e o dinheiro em particular, pois muito daquilo que fomos percebendo se prende com a não-aceitação clara e legal de apresentar a declaração de rendimentos, por parte dos gestores demissionários e um certo afã para não dar parte de derrotado, para que se cumpra a lei, de quem tem (teve) a tutela do assunto ao nível superior em governação. Dá a impressão que alguém não estava preparado para gerir este assunto tão efervescente!

Agora que entramos em fase de natal-consumista poderemos tirar uns segundos de tempo para nos confrontarmos com as seduções do momento: até onde irá a ousadia em lutar contra as tendências que nos têm sido semeadas para que gastemos mais e mais, preenchendo a nossa vida com coisas em vez de nos alimentarmos dos verdadeiros valores humanos e espirituais?

Afinal, como tão sabiamente nos tem dito o Papa Francisco: não consta que a ‘mortalha tenha bolsos’ para levarmos na morte os bens que, entretanto, aferrolhamos!      

 

António Sílvio Couto 




quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Petição (um tanto) provocatória!


Surgiu nestes dias (3.ª feira, dia 22) a notícia duma petição intitulada - «contra a credibilização do milagre de Fátima» - contestando a confirmada visita do Papa Francisco, nos dias 12 e 13 de maio de 2017 ao santuário da Cova de Iria.

Ao consultarmos, via internet, a recetividade da iniciativa percebemos que havia de seiscentos e vinte subscritores, às 24 horas do dia 23 de novembro (4.ª feira)… 

= Os proponentes dizem-se ‘legitimados’  na sua pretensão, embora recorram a chavões mais ou menos já ditos e propagados por alguns dos intervenientes – chegando a autocitarem em ‘obras’ suas já publicadas – e com isso tentam dar abrangência a algo que poderá inflamar outras correntes e tendências mais ou menos adormecidas na nossa configuração sociopolítica…

Estes que vieram a público emergem de vários quadrantes do antirreligioso e, particularmente, do anticatólico…embora por lá deambule um (dito) ‘padre’ com trejeitos de rebelde, ancorado num passado volátil e assumidamente anti-Fátima… 

= Antes de tudo temos de saber analisar o ‘fenómeno Fátima’, que confunde alguns cidadãos que não têm afinidade com a possibilidade da fé – talvez nem acreditem em si mesmos – como recurso de vida e fator de conduta existencial. No entanto, não se pode confundir a árvore com a floresta – a árvore é Fátima e a floresta é a Igreja – pois pelos frutos se pode reconhecer a credibilidade da árvore e esta – Fátima – tem dado imensos resultados espirituais, culturais, humanos e até económicos… Estes não podem ser – como pretendem os peticionários – os mais significativos, mas também não podem ser desprezados… Não querer reconhecê-lo será, no mínimo, miopia intelectual e dislexia emocional.  

= Esta petição parece, além de enfermar de múltiplos preconceitos para com aquilo que Fátima representa para Portugal e o mundo em geral, não se limita a atrair – ou será destruir? – a atenção duma certa fação menos cívica e um tanto barulhenta na forma e nos conteúdos, como ainda pretende intitular-se com direitos de contestação eivados de tiques de ignorância e de clichés do tempo da primeira república jacobina e acintosamente a-religiosa…

Já é habitual que, por ocasião do Natal, surjam alguns fait-divers anticristãos...como se a falta de respeito pelas convicções alheias possa ser um título de aglutinação ou de desculpa para não se confrontarem com a dimensão espiritual de toda a pessoa humana… 

= Esta petição poderá ser um dos (primeiros) casos que irão ser intentados ao longo do ano jubilar do centenário das aparições de Nossa Senhora em Fátima. Tudo isto revela uma espécie de labirinto de interesses, que tentam alimentar-se da contestação à mensagem de Fátima, enquanto esta revela e impulsiona todo um processo de regeneração do tecido religioso do mundo ocidental e de Portugal em concreto.

Numa época marcada pelo egoísmo e o sensacionalismo, Fátima consegue catapultar multidões ávidas de sentido para com as agruras do quotidiano e onde cada um seja capaz de viver em abertura à dimensão do divino e àquilo que nos outros nos faz construir a fraternidade a partir de dentro…

Nem todos serão capazes de entender o que Fátima significa na história de Portugal. Temos pena! Mas da não-compreensão à contestação e à ofensa vai algo que devia obrigar certos ‘democratas’ a serem, ao menos, respeitadores para serem igualmente respeitados, pois nada lhes dá o direito de apelidar de ‘embuste’ algo que serve de referência à conversão e ao caminho de fé… de milhões de homens e de mulheres. 

= Não foi a Igreja que impos Fátima, foi Fátima que se impos à Igreja – disse o cardeal Cerejeira. Ora, neste tempo de preparação do centenário das aparições, teremos de estar vigilantes para com vários arietes que tentarão lançar a confusão – saída da sua própria convulsão – aproveitando-se de questões mais ou menos periféricas e de episódios laterais ao essencial. Vigiemos e denunciemos.        

   

António Sílvio Couto



segunda-feira, 21 de novembro de 2016

‘Mau tempo’ ou tempo adequado?


Na apresentação das previsões do tempo atmosférico – sobretudo nesta época do ano – ouvimos, por vezes, a expressão de ‘mau tempo’, referindo-se às condições de chuva, de frio, de vento, de alterações no mar… com descida (mais ou menos acentuada) de temperatura.

Ora, será que, estando nós, no hemisfério norte, entre o outono e o inverno, estas condições de tempo são ‘más’ ou serão, antes as adequadas àquilo que é preciso em cada estação do ano? Não seria, por outro lado, ‘mau tempo’ se tivéssemos, agora, calor e não houvesse chuva? Porque havemos de andar em rotulagens infelizes, só porque a uma certa cultura – do lazer, do bel-prazer e da comodidade – lhe convém que haja só sol e não chuva?  

= Questões de linguagem ou de mentalidade?

Atendendo ao progressivo afastamento das pessoas do ritmo da natureza, vamos sendo influenciados por clichés onde a comunhão com os elementos da natureza nem sempre está articulada e em simbiose.

Essa pretensa ‘cultura urbana’ vai-se esquecendo de quem lhe dá os alimentos e lhe fornece a conjugação com a vida entre os vários componentes sociobiológicos. Não são os ‘serviços’ e as atividades de diversão que põem o pão na mesa nem fazem com que as pessoas tenham harmonia psicológica. Podem fomentar a distração mas não o fornecimento da subsistência…

Soará a praguejar que se possa estar contra o tempo atmosférico que nos é dado. Por muito que se pretenda viver na correria dos nossos interesses mesquinhos e egoístas, as observações sobre o tempo continuarão a ser um tema para quando não se tem (quase) nada de que falar. No entanto, não queiram fazer crer que o ‘mau tempo’ é o culpado pelo mau humor de tantos descontentes da vida… 

= Lições de vida…ao ritmo do tempo

Nas contingências da nossa história vamos aprendendo a viver com dias de sol e de chuva, dias de canícula e de tempestade, dias de serenidade e dias de nuvens… tanto exteriores como exteriores. O difícil será sempre discernir o que há de bom, quando temos a sensação de que algo parece ser mais negativo.

Ver só o que os outros veem não será grande capacidade de amadurecimento. As coisas da vida fazem-nos aprender com os momentos que purificam…muito para além daquilo que é, meramente, visível. Por isso, é que ficar-se sob a penumbra da chuva e não ver para além do meramente sensitivo, será, no mínimo, pouca previsibilidade do já vivido.

Ora a nossa história humana não pode deixar-nos fixados no passado. Esse só tem utilidade para que saibamos interpretar o presente e iluminar o futuro.

Quantas vezes encontramos pessoas que, chorando sobre o passado, não vivem o presente e muito menos se abrem aos mistérios do futuro. A esses chamaríamos ‘saudosistas’ e, em muitos casos, profetas da desgraça.

Quantas vezes encontramos pessoas fixadas naquilo que lhes foi agradável e fechando-se à descoberta de quem Deus coloca no seu caminho… No tempo de criança é que era tudo bom, nos anos de adolescência tudo foi agradável… Não veem nem apreciam as novas pessoas que lhes é dado conhecer e refugiam-se no seu reduto de casulo à prova de desafios…

Quantas vezes parece que pararam no tempo e excluem o que têm a aprender, tornando-se reféns dos seus medos e aprendizagens… Serão certamente pessoas inseguras e ansiosas para consigo mesmas e em relação aos outros. 

= Interpretar os sinais dos tempos

Mais do que os tempos atmosféricos – com seus ciclos e cuidados – é preciso que as pessoas de cada tempo e em cada lugar saibam interpretar os sinais do ‘kairós’ (graça) mais do que ‘cronos’ (tempo), pois este só tem sentido quando inserido na correta justeza daquele. Não percamos tempo com coisas inúteis nem com futilidades mais ou menos bizarras, pois bem depressa teremos de amadurecer muito para além da chuva e do vento, do frio e das tempestades. Cada tempo tem as suas preocupações. Vivamo-las na serenidade!

 

António Sílvio Couto 


quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Populismo – de direita ou de esquerda?


Perante a onda de classificação de ‘populismo’ quisemos consultar algo que nos desse uma informação histórica e ideológica deste novo assentimento à condução da política nos tempos mais recentes… e que, possivelmente, trarão uma necessidade de correção de termos e de condutas.

Assim na wikipédia encontramos uma espécie de definição descritiva do populismo.

O termo populismo, um dos mais controversos da literatura política, possui várias conotações. Geralmente é utilizado, na América Latina, para designar um conjunto de práticas políticas que consiste no estabelecimento de uma relação direta entre as massas e uma liderança política (um líder carismático, como um caudilho, por exemplo) sem a mediação de instituições políticas representativas, como os partidos, ou até mesmo contra elas, e geralmente empregando uma retórica que apela para figuras difusas (‘o povo’, ‘os oprimidos’, etc.). 

= Ora diante desta descrição teremos de questionar se o populismo é só de direita ou se não haverá também um populismo de esquerda, mesmo que subentendido e quase sub-reptício no comportamento de certas figuras que assim apelidam os demais… embora se comportem como (quase) primários populistas.

Quem não se lembrará da conotação depreciativa de ‘fascista’, usada nos tempos após a revolução do 25 de abril, e com isso se pretendia rotular alguém com posições diferentes dos contestatários?

Quem não estará recordado das posições e comportamentos de certas forças partidárias, sindicais e associativas que usavam da manha para aprovar manifestos em nome do povo… esse que não entendida a rapidez com que se passava do ‘quem vota contra’, ‘quem se abstém’… ‘está aprovado’… mesmo sem ler ou ter sabido o que aprovou? Isso não era, não é populismo? Ainda hoje se continua a usar esta artimanha em nome do ‘povo’ e da ‘classe trabalhadora’… Isso não é populismo?

Ora, diante destas memórias de antanho, precisamos de refletir, denunciar e contrariar a mera tentativa de fazer crer que é populista quem não entra na onda reinante ou, pelo menos, assim considerada a seus olhos e de quem difunde tais guerrilhas politico-intelectuais.

Quando vemos forças duma certa esquerda em conduta difusa, aglutinada e fragmentada… à medida do combate contra as propostas dos outros partidos, isso não terá tiques de populismo?

Quando verificamos que a posição apresentada é dita ser em favor do ‘povo’, mas este não é tido nem achado porque as elites (culturais) antissistema pretendem fazer-se donas da (sua) cultura, isso não enfermará de populismo? 

= Não há dúvida que a situação mundial está confusa e talvez mesmo se crie apreensão sobre o futuro, mas devemos ser honestos intelectual e civicamente para sabermos não entrar nesta manipulação com que alguns iluminados querem fazer crer que só os outros – em que não nos revemos politicamente nem que não são da nossa cor ideológica e partidária – é que são populistas.

Nos últimos dias tenho ficado baralhado com posições de certos professores universitários – a quem se exige rigor e capacidade de visão multifacetada… acima do vulgo – que vão embarcando na teoria do populismo ser só de direita, fazendo quase uma figura ridícula sobre o seu não-distanciamento emocional senão na teoria ao menos na prática.

Já não será de admirar o posicionamento dalguma comunicação social, pois esta normalmente é a voz do dono – que lhe paga e a sustenta – e este vive mais na oportunidade de ganho económico do que na coerência de valores. É preciso que haja mais respeito pela inteligência dos ouvintes, leitores ou telespectadores, pois o tal ‘povo’ não pode ser esse reduto que se manipula e a quem se impõe uma visão de modo acrítico. 

= Populismo pode ser de direita ou de esquerda, tudo depende de quem quer falar em nome ‘povo’ do qual não tem procuração e tão pouco legitimidade… Há tantos ditadores encobertos neste nosso tempo, neste Portugal e na nossa cultura. Será necessário estar sempre atento e vigilante ao que querem fazer de nós sem lhes darmos consentimento… A cada homem/mulher um voto e muito se poderá decidir com justiça e liberdade… em democracia adulta e séria.

 

António Sílvio Couto