Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Género ‘novo’ com conceitos velhos?


Por estes dias esteve cá pela terrinha lusitana uma atriz americana, que se fez acompanhar com a sua ‘mulher’ – sim foi esse o termo usado – com que alguns órgãos da comunicação social se referiram à companheira pintora da dita – com exposição badalada, concorrida e apoiada pela autarquia onde tem estado a ser exibida – e que terá sido realizadora cinéfila e mediana representadora…

Mas se as ditas ‘senhoras’ (no feminino ou no masculino) têm igualdade de género, porque se há de referir a uma delas como se fosse ‘mulher’, podendo inferir que a outra será como que o ‘homem’? Dá a impressão que a legislação (apropriada ou não) andou à frente dos conceitos e que as referências sociais ainda não conseguiram encontrar outra designação que não tenha por modelo a mais clássica dicotomia masculino/feminino!

Se bem repararmos poderemos, nessa intencionada difusão da ideologia de género, que algum dos membros do par – tanto no masculino como no feminino – tenta assumir o ‘papel’ duma das partes que o outro ‘elemento’ não é nem com o qual se identifica. Dir-se-á que um faz daquilo que outro/a não quer ou que um outro/a tenta assumir a complementaridade – forjada ou virtual – da outra parte que se faz passiva ou menos (claramente) assumida! 

= Coisas da natureza ou resquícios de educação?

Se há situações que são sérias e de difícil gestão, outras há que quase roçam uma espécie de folclore mais ou menos mediatizado. Com efeito, há problemas de pessoas que, por razões endógenas, podem viver problemas de desadequação à sua personalidade… isso faz sofrer e cria uma certa complexidade para a sua resolução psicológica. Mas não serão umas tantas ‘paradas… do orgulho’ nem outros desfiles com bandeiras multicolores que irão solucionar o que há de mais profundo nos conflitos psicossomáticos e (até) espirituais.

Sem queremos de forma alguma não levar a sério esta questão, poderemos considerar que não é gay ou lésbica quem quer, mas quem pode, seja em razão da força moral, seja pela forma económica que reveste, tácita ou mesmo assumida.

Parece que, dum modo mais ou menos tolerado, alguns dos sinais de desconformidade com a linguagem sexual corpórea têm vindo a ser menosprezados, quando se trata de deixar revelar outras facetas que possam estar menos adequadas com a vertente inicial da pessoa. Em certos meios isso deixou de constituir motivo de exclusão… como em tempos não muito recuados ainda se podia verificar. Mas daí a tudo ser válido e (quase) incentivado terá de ir uma longa caminhada humana e cultural.

Talvez valha a pena citar o que sobre esta matéria diz o Catecismo da Igreja Católica (n.º 2358): «Um número não desprezível de homens e mulheres apresenta tendências homossexuais profundas. Eles não escolhem a sua condição de homossexuais; essa condição constitui, para a maior parte deles, uma provação. Devem ser acolhidos com respeito, compaixão e delicadeza. Evitar-se-á, em relação a eles, qualquer sinal de discriminação injusta. Essas pessoas são chamadas a realizar na sua vida a vontade de Deus e, se cristãos, a unir o sacrifício da Cruz do Senhor as dificuldades que podem encontrar devido à sua condição». 

= Questões à procura de resposta

Atendendo à problemática que envolve este tema da homossexualidade poderemos elencar algumas questões, sem talvez encontrarmos desde já resposta:

- Como vive a família este assunto? Será que é de fácil resolução ou terá implicações no comportamento das várias pessoas?

- Embora menos contestada socialmente, como podemos ajudar as pessoas sem fazermos disso uma anormalidade ou um problema não abordado?

- Já teremos encontrado uma forma humana e cultural que faça da diferença um assunto de liberdade ou seremos capazes de tratar o assunto com responsabilidade e respeito?

- No campo da fé – que é muito mais do que religioso – temos sabido aceitar com serenidade as opções ou estaremos antes a viver em tolerância descartável e ainda de suspeita?

   

António Sílvio Couto


quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Sargeta ou corneta?


Nós, portugueses, somos um povo muito típico e temos uma posição muito própria na configuração das nações da Europa: quando os outros voltam, nós ainda vamos… e tão airosos que nem percebemos o ridículo da (nossa) situação! Isto tem implicações nos mais díspares campos de intervenção… mas é na ação política que tal se nota mais, sem podermos esquecer a vertente da economia.

Quando noutros países já estão noutra onda política, nós ainda vamos na recuperação – revertendo em leis e na mentalidade – de clichés latino-americanos de caudilhos (falidos e ressabiados) de esquerda radical, entendendo a mão aos dinheiros emprestados pela Europa, mas dando a entender que se pode nivelar a sociedade acabando com os ricos e não (como seria desejável) com os pobres…

A corneta dos mais defensores do igualitarismo tem vindo a ser altissonante por estes dias, dando a entender que quem mais grita maior razão parece (querer) ter. É nesta algazarra de interesses que temos visto surgirem uns tantos travestidos de ‘zé-do-telhado’ da era informática, que tentam assaltar quem tem, mas não sabemos a quem o vão dar… Em simultâneo emergem novos conquistadores de regalias – esses mesmos que antes eram protestantes da classe sindical, mas agora estão tão simbolicamente calados – fazendo com que tudo pareça em paz, mas não se sabendo qual foi o real custo desse silêncio e a matéria para tanta pacificação. 

= De quando em vez lá surge, por outro lado, a faceta mais tenebrosa da luta contra a justiça das leis, ora incluindo os (possíveis) réus, ora aparecendo na liça uns tais juízes. Se uns se consideram legitimados para intervir e até atacar, os outros logo são trucidados porque poderão estar a exorbitar as funções. Não deixa de ter um certo cheiro a sargeta esta dicotomia de critérios para com os diversos cidadãos… bastando descobrir a coloração partidária/ideológica. Há quem até, à revelia da formação partidária em que (ainda) milita, se dê à ousadia de se voltar contra quem não concorda com ele, pois divergir pode parecer crime… sabe-se lá com que gravidade! 

= Sem pretendermos fazer paralelo com um filme e as suas conjeturas, poderemos considerar que todos os animais são iguais, mas há uns que são mais iguais – ou será diferentes? – do que os outros. Vem-se tornando um tanto mais explícito que certas figuras podem cometer – dizer, não fazer, afirmar ou contradizer – as atrocidades que quiserem que uma certa comunicação social há de encontrar (quase) sempre justificação para ser como é e não como se pode interpretar. Nesta como noutras situações o que importa não é ser engraçado, é essencial é cair em graça! Disso temos várias provas e com determinadas simpatias e esboços de sorriso nos vão enganando – a quem quer ou se deixa ir na onda – até ao colapso total.   

= Nota-se uma razoável desconstrução dos valores – diga-se de incidência ética ou de narrativa moral – na nossa sociedade… sobretudo se alicerçados na formação cristã. Valores e critérios como a verdade, o trabalho, a paz, a lealdade, a confiança, o amor, a fraternidade/solidariedade, a liberdade… vão tendo para cada um dos intervenientes um sentido que cada qual lhe quiser dar. Quase será preciso que façamos a definição dos termos com que nos relacionamos e tentamos dialogar, pois o subjetivismo cria condições para que se esteja a usar as mesmas palavras, mas cada um dá-lhe o significado que lhe convém.

Será a partir do reconhecimento que algo precisa de ser modificado que poderemos encontrar melhores condições para que contribuamos na construção duma sociedade mais justa, mais fraterna e mais humana. De facto, será a partir da dimensão interior da pessoa humana que estaremos a ser mais cidadãos. Ora, a desconstrução referida dos valores está a acontecer porque se pretende impor um modelo de sociedade onde as razões para agir são mais de natureza exterior – por vezes mudando conforme as circunstâncias e interesses – e isso favorece os ditadores – grandes ou anões – que pululam no nosso tempo…Pior será, quando perdendo a razão, começarem a lutar com emoção, que sem razões mínimas farão vítimas e cobardes.

Já soa a corneta vinda da sargeta. Até quando?   

 

António Sílvio Couto

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

No taxar estará o ganho?


Numa apropriação indevida dum adágio popular – ‘no poupar é que está o ganho’ – temos vindo a assistir à difusão e incremento dum outro aforisma: no taxar está o ganho… Sendo dado a entender uma espécie de combate estatizante de tudo quanto possa ser iniciativa privada ou que inclua aforramento económico-financeiro de pessoas e famílias… portuguesas.

De facto, é clamorosa a feroz impetuosidade com que temos vindo a ver crescer uma radicalização – não se sabe muito bem por quem é idealizada, se dos radicais de esquerda, se dos socialistas mais extremistas – a tudo o que possa cheirar a dinheiro poupado ou acumulado, pois parece que isso se tornou quase um crime à luz da mentalidade de certas forças político-partidárias de índole marxista, trotskista ou (quase) anarquista. Tais mentores como que se pretendem zeladores/as da moralidade e/ou fautores do combate ‘à fraude e evasão fiscal’, colocando – acintosa e ridiculamente – no mesmo patamar poupança e roubo, dinheiro acumulado e fuga aos impostos, pessoas honestas e pantomineiros, promotores de emprego e habilidosos para captarem subsídios e falcatruas…e a lista poderá continuar… 

= Temos visto, por estes dias como não era costume, ser citado o episódio do capitão-político, que no auge da revolução abrilina, terá dito, numa deslocação à Suécia, que, por aqui estávamos a tentar acabar com os ricos ao que eles, responderam, que, por lá, a intenção era acabar, antes, com os pobres!

As fúrias anti-riqueza, nos tempos mais recentes, mais parecem saídas dessas catacumbas da ideologia trotskista de antanho e não das posições sérias sobre as questões sociais e económicas… em contexto europeu mais ou menos civilizado. As ditas difusoras de tais posições parece que estão a rever a matéria na cartilha dos progenitores como assaltantes de bancos e de fabricantes de artefactos terroristas. Agora usam a verborreia para iludirem as culpas daqueles que antes nos sobressaltaram com atentados e tropelias de adolescência. Nota-se que não cresceram na evolução histórica e cultural. Assim como querem ser levados a sério? Retirada a cortina de certa comunicação social serão julgados/as nos próximos atos eleitorais.  

= Acrescentemos a estes fait-divers umas tantas intervenções ‘intelectuais’ de ressabiados contra tudo o que possa soar a religioso e a cristão-católico em particular. Alguns evocam – citando com aspas, mas apresentando-se, eles mesmos, como meras vespas – a laicidade do Estado, como se esta fosse a condição de ter de ser anódina toda e qualquer intervenção que não lhes agrade… Com efeito, têm olhos tão vesgos e os juízos tão encriptados que será muito difícil descobrir sobre o que discordam ou aquilo que defendem… tal é a confusão mental e a leitura preconceituosa com que leem os atos alheios, mas não atendem à lacuna que está tão visível nos próprios.

Em certos casos como que poderíamos considerar que, se a patetice pagasse impostos, a dívida nacional estava já paga há muito tempo e com juros muito baixos, tanto lá fora como cá dentro!   

= Vai sendo cada vez mais preocupante a cultura de consumo com que vão enganando muitos do nosso povo. Em vez de criar riqueza e de a distribuir por todos, vemos ser implantado o regime de ganhar mais para gastar mais. Não se pode pensar em poupar, pois isso até pode ser taxado. Lança-se dinheiro sobre as massas e estas hão de fazer gerar consumo… nem que mais não seja de forma artificial. Sobem os ordenados – e nem se pensa na sustentabilidade das entidades empregadoras – e com isso, pensa-se, que pode haver mais poder de compra… o que é puro engano! Uma coisa é aumentar os ordenados nas empresas do setor primário e secundário, algo bem diferente é esse aumento vir a acontecer no setor do trabalho social, que vive das comparticipações estatais e nem sempre gera riqueza própria e muito menos acumulada. Aqui uns mísero dez euros tornam-se milhares em salários e que não são recuperáveis a curto e médio prazo…

Já sabemos que os taxadores sobre a poupança acumulada estarão de dente bem afiado para combaterem muitas das instituições particulares de solidariedade social. Podem ganhar várias batalhas, mas terão de se preparar para muitas outras guerras, pois a luta pelos direitos dos mais desfavorecidos é feita por esses que eles combatem… E, como sói dizer-se: Roma não paga a traidores… e tão pouco a oportunistas!        

 

António Sílvio Couto



quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Cegueira da indiferença


«A mundanidade é como um buraco negro que engole o bem, que apaga o amor, que absorve tudo no próprio eu. Então só se veem as aparências e não nos damos conta dos outros, porque nos tornamos indiferentes a tudo. Quem sofre desta grave cegueira, assume muitas vezes comportamentos estrábicos: olha com reverência as pessoas famosas, de alto nível, admiradas pelo mundo, e afasta o olhar dos inúmeros Lázaros de hoje, dos pobres e dos doentes, que são os prediletos do Senhor».

Foi desta forma incisiva e simples que o Papa Francisco se dirigiu aos milhares de participantes no ‘jubileu dos catequistas’, que decorreu, no passado domingo, em Roma, integrado no ano da misericórdia. 

= Atendendo às mais diversas advertências com que o Papa nos vem conduzindo, nestes três ano e meio de pontificado, poderemos considerar que esta expressão – ‘cegueira da indiferença’ – pode ser muito mais do que um conceito moral ou religioso, para se poder tornar uma faceta por onde podemos ler a nossa sociedade e as mais diferentes situações em que vivemos. Com efeito, tem vindo a crescer uma indiferença impressionante nos múltiplos campos da atividade humana, podendo esta como que vir a tornar-se desumana tal é a indiferença com que nos tratamos e até somos tratados.

Se quiséssemos usar uma imagem tirada das lides do campo e do trato com alguns animais, poderíamos considerar que temos vindo (ou têm-nos vindo) a pôr umas certas talas – em certos círculos diríamos: antolhos – que condicionam a nossa visão do mundo e dos outros, reduzindo a nossa capacidade de ver, reduzindo-a ao que queremos como que ver…Esta espécie de cegueira reduz a nossa essência humana, desumanizando-a.  

= Com que facilidade vem sendo desenvolvido um razoável servilismo cultural, onde algumas ‘modas’ de pensamento são protegidas e outras formas de viver menosprezadas. Normalmente o que é privilegiado é do âmbito do hedonismo, senão explícito ao menos tácito: desde o incentivo ao epicurismo até às formas mais bizarras de ‘viver a vida’, vamos assistindo a uma tentativa de desconstrução dos valores pessoais e sociais alicerçados no cristianismo... tudo numa programação e execução mais ou menos concertada com uma comunicação social promotora e servidora desses ideais.

Quem duvidará que a onda de telenovelas e de reality shows, de literatura cor-de-rosa ou de escândalos ‘encomendados’, de regalias e de ofertas... não passam, afinal, de sinais dessa cegueira da indiferença, pois o que interessa é exaltar o ‘eu’ em detrimento do ‘tu’, pois a cultura do ‘nós’ não tem espaço nem significado... Aqui se insere a batalha (sem quartel nem tropas) contra o casamento e, sobretudo, o matrimónio entre um homem e uma mulher... ao contrário da exaltação da ideologia de género e da descarada influência do lóbi gay e afins!  

= Mesmo quando se tenta abordar a ajuda – simples, fixada ou institucional – aos mais desfavorecidos podemos descortinar tentáculos de setores onde a visão personalista da pessoa humana nem sempre conta ou está claramente presente. Nota-se uma razoável proliferação dumas certas ‘carraças’ sociais, que vão desenvolvendo o seu papel à custa da fraqueza alheia. Tais intervenientes pululam desde a área política (governativa ou autárquica), passando pelo setor (dito) sócio-caritativo da intervenção das Igrejas, sem esquecer alguns dos reivindicativos do sindicalismo e mesmo dos partidos políticos. Esta cegueira da indiferença faz com que as pessoas só pareçam ser números e não rostos e histórias de vida... sofrida e necessitada de compaixão e de misericórdia.

Porque ainda acreditamos nalguma réstea de bondade das pessoas, das famílias e das instituições, gostaríamos de auspiciar que todos sejamos capazes de exorcizar a indiferença do nosso coração, da nossa mente e, sobretudo, da nossa vida... do dia-a-dia.    

      

António Sílvio Couto



segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Enxotar moscas!


Numa reportagem apresentada num desses canais regionais de televisão, a repórter de serviço – num misto de simplicidade e dalguma ignorância – perguntava ao maestro duma banda filarmónica qual o significado do gesto que ele fazia com a batuta para com os músicos que orientava: aquilo é para enxotar as moscas?

Ao que o interrogado ripostou: aquilo é para que possam todos saber o compasso da música, que estão a tocar!

É significativo que coloquem a fazer um trabalho de reportagem quem faça perguntas que têm tanto de inesperado quanto de quase brejeiro. Com efeito, uma pergunta daquelas só pode roçar ofensa a quem seja questionado… mesmo que isso aconteça de forma um tanto inocente e/ou simplista.

Diante deste episódio sentimos que há um número razoável de pessoas a desenvolver tarefas de comunicação social que não parecem estar habilitadas para exercer tal função… Não bastará ter um palmo de cara simpática para se tornar suporte de microfone e desatar a pôr perguntas muitas delas desconexas e, possivelmente, ofensivas… Temos de ter ‘profissionais’ que estejam capazes de estarem preparados para os vários campos que têm de cobrir… Quem é informado não pode ser tratado como um mero ignorante e quem é perguntado tem de saber ao que vem da forma mais honesta e sincera… 

= No desenvolvimento do espaço da comunicação social cada vez mais precisamos de acreditar que, quem exerce tal função, é isenta, mas não meramente anódina, isto é, tem de saber da arte e não pode deixar-se ser interpretada como valendo tudo e o resto... De facto, em cada pessoa que exerce as funções de ser veículo de comunicação em estado social não podemos permitir que possa dizer tudo o que pretendem que se diga, mas que o transmissor tem (ou deve ter) também critérios e valores que passam (ou devem passar) por aquilo que transmite. Neste aspeto quem dá notícias é uma pessoa, que tem, irremediavelmente, sentimentos e inteligência, não podendo deixar estas faculdades anestesiadas com a (possível) isenção de trabalho…

Neste sentido, sim, estaria a enxotar moscas mais ou menos abstratas e virtuais, onde cada um poderá ver o que deseja ou até ser manipulado pelo que mais favores lhe possa trazer… 

= Nesta espécie de longo lamaçal em que nos vamos, apesar de tudo, movimentando, torna-se importante e essencial que sejamos capazes de identificar os espaços mais ou menos vulneráveis em que tentamos desenvolver a nossa atividade humana, social e cultural. Atendendo a que as moscas se desenvolvem – nesse longo processo de germinação – em situações menos boas do ponto de vista da higiene, teremos de encontrar os lugares onde se alimentam as tais ‘moscas’ que é preciso enxotar. Com efeito, em tantas situações da atividade humana – política/autárquica, económica/financeira, religiosa, cultural/académica – vemos uma proliferação de moscas que deambulam em redor dum certo manjar do poder… real ou tácito, visível ou presumido… nessa espécie de sinfonia de zangões e de vespas em conexão de canícula.

Quem não terá já visto uns tantos (ou tantas) que estão (quase) sempre a flutuar nos lugares mais almejados? Quem não se terá já interrogado sobre a sobrevalorização de certas figuras desde que conste que possam aparecer? Quem não se interrogará sobre a manutenção duns tantos/as a fazer figura de intocáveis, quando o que têm desenvolvido fazia acreditar que o seu reinado já deveria ter cessado…há muito tempo? 

= Precisamos de enxotar tantas moscas que ainda ocupam e como que infestam os lugares onde o servir deve ser lema de vida e não engodo de promoção.

Precisamos de enxotar umas quantas moscas que transmitem doenças em razão dos locais infetocontagiosos por onde se pavoneiam e donde usufruem prebendas e regalias.

Precisamos de enxotar tantas e tantas moscas que só desacreditam quem as vai ainda tolerando… seja qual for a situação mais ou menos nefasta.

Por alguma razão se atribui a uma das facetas do ‘espírito do mal’ a designação de «belzebu», isto é, senhor do esterco ou das moscas! Credo abrenúncio!   

 

António Sílvio Couto




quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Fúrias anti-riqueza


‘A primeira coisa que temos de fazer é perder a vergonha de ir buscar dinheiro a quem está a acumular dinheiro’. Foi desta forma altissonante que uma deputada de um dos partidos que apoia o atual governo quis enunciar uma nova taxa sobre quem ‘acumula riqueza’… confundindo – não se sabe com que propósito – acumular riqueza com a possibilidade dessa (dita) riqueza ser resultado de poupança…

Para além de todas as derivas que foram apresentadas posteriormente, vimos como que ressurgir um ambiente de luta de classes – ricos e pobres – com que uns tantos querem fazer de ‘robin dos bosques’ do século XXI… embora não se saiba claramente aonde querem chegar de verdade.

Passadas quatro décadas sobre a ‘revolução do abril’ e as subsequentes conquistas proletárias pensávamos que já tinha sido ultrapassado um certo fervor anticapitalista, onde mais do que acabar com os pobres se pretende dar combate aos ricos… essa lepra social de que alguns só se coçam quando atingem o poder… 

= Talvez a deputada se tenha quedado em ler a primeira versão da constituição portuguesa de 1976 que, então, dizia: ‘Portugal é uma república soberana, baseada na dignidade da pessoa humana e na vontade popular e empenhada na sua transformação numa sociedade sem classes’. Ora, a versão atual diz: ‘Portugal é uma república soberana, baseada na dignidade da pessoa humana e na vontade popular e empenhada na construção de uma sociedade livre, justa e solidária’.

Pelo que se pode ver, na versão de 1976, diz-se que vamos em vias de ‘uma sociedade sem classes’, enquanto que, na versão mais atualizada, refere-se ‘a construção de uma sociedade livre, justa e solidária’…

A deputada parece que está saudosa desse registo onde deve ser sido educada: a luta de classes marxista/trotskista e que tão maus frutos deixou numa parte significativa da Europa. Também não precisamos de desenterrar conflitos que não trazem paz nem segurança… a ninguém.

O problema principal parece ser, no entanto, que foi numa reunião partidária de quem faz o governo que tal declaração foi proclamada e com aplausos dos participantes… A quem interessa regressar a matérias que já deviam estar resolvidas intelectual e socialmente? Estas derivas dialético-marxistas revelam que ainda há poeiras que não assentaram nalgumas mentes? 

= De quem está em serviço do bem público espera-se – creio – um equilíbrio emocional e intelectual capaz de ser responsável pelo que diz e que faz. Ora, quando vemos intervenções destas, surge-nos a sensação de que algo vai mal no reino da fantasia, pois as pessoas evoluem em razão das dificuldades da vida e, no caso em apreço, parece que as pessoas, que direta ou indiretamente, intervieram, notou-se mais uma tentativa de ver se resultava a pretensão, dando ainda conta da possibilidade das pessoas andarem distraídas e a coisa poder seguir os objetivos traçados… Já vimos esta habilidade noutros campos e áreas de governação... Daí que temos de estar em constante alerta para não sermos apanhados na execução de algo que não tem em conta o bem comum, mas antes pretendam satisfazer alguns grupos e lóbis… mais ou menos declarados.  

= O pior que nos pode acontecer é a situação de vivermos na desconfiança e em sobressalto do que nos querem fazer, sobretudo, na nossa ausência. Com esta apreensão sobre o presente e para com o futuro, estaremos a criar uma sociedade onde as relações humanas se vão deteriorar rapidamente, tornando cada outro num adversário, senão mesmo inimigo, de quem nos temos de defender.

Quem irá acreditar num país que modifica as regras com o jogo a decorrer? Quem será capaz de investir num país onde quem coloca a sua riqueza a render pode ser taxado e castigado? Quem poderá aceitar que, por ter poupado e amealhado algum dinheiro, tenha de ser considerado inimigo da classe operária?

A quem interessa acirrar as pretensões (sociais, económicas e financeiras) se não tem capacidade de gerir o ordenado que aufere? A quem iremos pagar a fatura por nos tentarem iludir com mais proventos senão temos capacidade de gestão do sustentável?

Numa palavra: cristãmente temos de evangelizar os ricos – isto é, de lhes anunciar a Palavra de Deus – para que sejam tocados e possam investir em favor dos pobres, criando riqueza e emprego.

 

António Sílvio Couto



segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Quando a manipulação reina


Quem vir, escutar ou ler, por estes dias, as notícias do nosso país poderá ser tentado a dizer: reina uma paz social imensa entre todos… desde trabalhadores a empresários, de sindicatos a empregadores… nos mais diversos setores, sobretudo nos (visivelmente) contestatários como os transportes e os professores, passando pelas autarquias e na (apelidada) função pública.

Não se consegue totalmente perceber ao que se deve tal ruidosa pacificação. Será que está tudo a funcionar e todos ‘se dão bem’? Ou será que, não sendo dadas notícias sobre os (possíveis) conflitos, as coisas acalmam e se resolvem?

Tanto uma como outra destas (possíveis) razões são questionáveis. Pois, se a pacificação foi conquistada com mais uns trocos no ordenado mensal porque não se fez isso antes? Porque foi preciso esticar a ‘crise’ e se enfatizou tanto a ‘austeridade’? Ou se a pacificação se deve a que quem governa – sabe-se lá quem é? – porque é da mesma cor ideológica, então, estaremos sob uma ditadura de quem só cria paz quando os seus mandam ou os deixam mandar! Por outro lado, a ausência noticiosa sobre conflitos e protestos poderá servir para que se possa entender que os ‘profissionais’ da contestação conseguem condicionar as lutas e as demais serventias com que são preenchidos os alinhamentos dos noticiários… ao serviço doutros intentos e interesses. Certos ‘profissionais’ da comunicação têm algum jeito para acirrarem os ânimos, senão na forma, ao menos na interpretação dos casos que apresentam e servem… ardilosamente. 

= Fique claro: não há independência na comunicação social. Esta é tão facilmente comprada que já nem vale um simples prato de lentilhas. Veja-se a forma como certas figuras saltam das redações para os gabinetes de comunicação de ministérios, de cargos públicos e até para os interesses desportivos… de clube.

Já não basta saber quem disse, é preciso procurar, afinal, quem foi que induziu a dizer. De pouco adianta querer fazer de forma diferente, que, bem depressa, se cai no recurso a chavões, frases-feitas ou até a figuras da moda… logo facilmente descartáveis. Veja-se o inciso aos ‘pokemóns’ para falar de coisas sérias como a construção do futuro orçamento… A superficialidade da comunicação está a tornar-se o mais vendável e os estrategas servem-se disso para distrair e manipular…

= Embora o admire pessoalmente como político com influência cristã – queimado nas grelhas do avental em tempos do lamaçal – considero que o candidato luso às altas esferas da ONU poderia ser mais uma espécie de engano para a continuação de manipulação reinante cá pelas terras do ocidental da Europa. Cada vez mais vamos sentindo que a crispação ideológica vai deixando rasto no comportamento ético de muitos que têm mais a perder do que a ganhar com a batalha que têm curso… Por agora parecem a rã da fábula de Esopo tentando crescer até ao tamanho do boi… lá na estória, como em breve por cá, veremos os estilhaços espalhados sem recuperação…

 = São fortes os indícios dum certo estertor da civilização ocidental. Tal como no crepúsculo da sociedade romana antiga – com pão e jogos – estamos a sentir que será precisa uma séria revolução onde os paladinos das liberdades no antigo leste europeu possam experimentar os resultados – veja-se o que acontece na ‘próspera’ Venezuela – e que outros defensores do facilitismo (da esquerda caviar) possam sentir que os objetivos por eles defendidos só podem vingar porque há uma sociedade capitalista e liberal, que dá cobertura aos seus anseios de bem-estar e às travessuras de contestação… Se fossemos governados por tais ideais andaríamos todos à míngua de pão e de liberdade… De facto, a reivindicação só é possível porque os liberais dão paz e segurança… à mistura com tolerância e pagamento de impostos da iniciativa privada.  

= Como é capcioso o jogo de interesses com que certas autarquias promovem festas e distrações populares: à custa dum razoável capitalismo popular – suportado por taxas e prebendas – que vai entretendo o povo, excogitando o que há de mais sensorial e, assim, se governa com populismo e de mãos voltadas para recolher os proveitos, enrolando tudo e todos sem grande esforço e inteligência. Acordem!        

 

António Sílvio Couto