Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Cegueira da indiferença


«A mundanidade é como um buraco negro que engole o bem, que apaga o amor, que absorve tudo no próprio eu. Então só se veem as aparências e não nos damos conta dos outros, porque nos tornamos indiferentes a tudo. Quem sofre desta grave cegueira, assume muitas vezes comportamentos estrábicos: olha com reverência as pessoas famosas, de alto nível, admiradas pelo mundo, e afasta o olhar dos inúmeros Lázaros de hoje, dos pobres e dos doentes, que são os prediletos do Senhor».

Foi desta forma incisiva e simples que o Papa Francisco se dirigiu aos milhares de participantes no ‘jubileu dos catequistas’, que decorreu, no passado domingo, em Roma, integrado no ano da misericórdia. 

= Atendendo às mais diversas advertências com que o Papa nos vem conduzindo, nestes três ano e meio de pontificado, poderemos considerar que esta expressão – ‘cegueira da indiferença’ – pode ser muito mais do que um conceito moral ou religioso, para se poder tornar uma faceta por onde podemos ler a nossa sociedade e as mais diferentes situações em que vivemos. Com efeito, tem vindo a crescer uma indiferença impressionante nos múltiplos campos da atividade humana, podendo esta como que vir a tornar-se desumana tal é a indiferença com que nos tratamos e até somos tratados.

Se quiséssemos usar uma imagem tirada das lides do campo e do trato com alguns animais, poderíamos considerar que temos vindo (ou têm-nos vindo) a pôr umas certas talas – em certos círculos diríamos: antolhos – que condicionam a nossa visão do mundo e dos outros, reduzindo a nossa capacidade de ver, reduzindo-a ao que queremos como que ver…Esta espécie de cegueira reduz a nossa essência humana, desumanizando-a.  

= Com que facilidade vem sendo desenvolvido um razoável servilismo cultural, onde algumas ‘modas’ de pensamento são protegidas e outras formas de viver menosprezadas. Normalmente o que é privilegiado é do âmbito do hedonismo, senão explícito ao menos tácito: desde o incentivo ao epicurismo até às formas mais bizarras de ‘viver a vida’, vamos assistindo a uma tentativa de desconstrução dos valores pessoais e sociais alicerçados no cristianismo... tudo numa programação e execução mais ou menos concertada com uma comunicação social promotora e servidora desses ideais.

Quem duvidará que a onda de telenovelas e de reality shows, de literatura cor-de-rosa ou de escândalos ‘encomendados’, de regalias e de ofertas... não passam, afinal, de sinais dessa cegueira da indiferença, pois o que interessa é exaltar o ‘eu’ em detrimento do ‘tu’, pois a cultura do ‘nós’ não tem espaço nem significado... Aqui se insere a batalha (sem quartel nem tropas) contra o casamento e, sobretudo, o matrimónio entre um homem e uma mulher... ao contrário da exaltação da ideologia de género e da descarada influência do lóbi gay e afins!  

= Mesmo quando se tenta abordar a ajuda – simples, fixada ou institucional – aos mais desfavorecidos podemos descortinar tentáculos de setores onde a visão personalista da pessoa humana nem sempre conta ou está claramente presente. Nota-se uma razoável proliferação dumas certas ‘carraças’ sociais, que vão desenvolvendo o seu papel à custa da fraqueza alheia. Tais intervenientes pululam desde a área política (governativa ou autárquica), passando pelo setor (dito) sócio-caritativo da intervenção das Igrejas, sem esquecer alguns dos reivindicativos do sindicalismo e mesmo dos partidos políticos. Esta cegueira da indiferença faz com que as pessoas só pareçam ser números e não rostos e histórias de vida... sofrida e necessitada de compaixão e de misericórdia.

Porque ainda acreditamos nalguma réstea de bondade das pessoas, das famílias e das instituições, gostaríamos de auspiciar que todos sejamos capazes de exorcizar a indiferença do nosso coração, da nossa mente e, sobretudo, da nossa vida... do dia-a-dia.    

      

António Sílvio Couto



segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Enxotar moscas!


Numa reportagem apresentada num desses canais regionais de televisão, a repórter de serviço – num misto de simplicidade e dalguma ignorância – perguntava ao maestro duma banda filarmónica qual o significado do gesto que ele fazia com a batuta para com os músicos que orientava: aquilo é para enxotar as moscas?

Ao que o interrogado ripostou: aquilo é para que possam todos saber o compasso da música, que estão a tocar!

É significativo que coloquem a fazer um trabalho de reportagem quem faça perguntas que têm tanto de inesperado quanto de quase brejeiro. Com efeito, uma pergunta daquelas só pode roçar ofensa a quem seja questionado… mesmo que isso aconteça de forma um tanto inocente e/ou simplista.

Diante deste episódio sentimos que há um número razoável de pessoas a desenvolver tarefas de comunicação social que não parecem estar habilitadas para exercer tal função… Não bastará ter um palmo de cara simpática para se tornar suporte de microfone e desatar a pôr perguntas muitas delas desconexas e, possivelmente, ofensivas… Temos de ter ‘profissionais’ que estejam capazes de estarem preparados para os vários campos que têm de cobrir… Quem é informado não pode ser tratado como um mero ignorante e quem é perguntado tem de saber ao que vem da forma mais honesta e sincera… 

= No desenvolvimento do espaço da comunicação social cada vez mais precisamos de acreditar que, quem exerce tal função, é isenta, mas não meramente anódina, isto é, tem de saber da arte e não pode deixar-se ser interpretada como valendo tudo e o resto... De facto, em cada pessoa que exerce as funções de ser veículo de comunicação em estado social não podemos permitir que possa dizer tudo o que pretendem que se diga, mas que o transmissor tem (ou deve ter) também critérios e valores que passam (ou devem passar) por aquilo que transmite. Neste aspeto quem dá notícias é uma pessoa, que tem, irremediavelmente, sentimentos e inteligência, não podendo deixar estas faculdades anestesiadas com a (possível) isenção de trabalho…

Neste sentido, sim, estaria a enxotar moscas mais ou menos abstratas e virtuais, onde cada um poderá ver o que deseja ou até ser manipulado pelo que mais favores lhe possa trazer… 

= Nesta espécie de longo lamaçal em que nos vamos, apesar de tudo, movimentando, torna-se importante e essencial que sejamos capazes de identificar os espaços mais ou menos vulneráveis em que tentamos desenvolver a nossa atividade humana, social e cultural. Atendendo a que as moscas se desenvolvem – nesse longo processo de germinação – em situações menos boas do ponto de vista da higiene, teremos de encontrar os lugares onde se alimentam as tais ‘moscas’ que é preciso enxotar. Com efeito, em tantas situações da atividade humana – política/autárquica, económica/financeira, religiosa, cultural/académica – vemos uma proliferação de moscas que deambulam em redor dum certo manjar do poder… real ou tácito, visível ou presumido… nessa espécie de sinfonia de zangões e de vespas em conexão de canícula.

Quem não terá já visto uns tantos (ou tantas) que estão (quase) sempre a flutuar nos lugares mais almejados? Quem não se terá já interrogado sobre a sobrevalorização de certas figuras desde que conste que possam aparecer? Quem não se interrogará sobre a manutenção duns tantos/as a fazer figura de intocáveis, quando o que têm desenvolvido fazia acreditar que o seu reinado já deveria ter cessado…há muito tempo? 

= Precisamos de enxotar tantas moscas que ainda ocupam e como que infestam os lugares onde o servir deve ser lema de vida e não engodo de promoção.

Precisamos de enxotar umas quantas moscas que transmitem doenças em razão dos locais infetocontagiosos por onde se pavoneiam e donde usufruem prebendas e regalias.

Precisamos de enxotar tantas e tantas moscas que só desacreditam quem as vai ainda tolerando… seja qual for a situação mais ou menos nefasta.

Por alguma razão se atribui a uma das facetas do ‘espírito do mal’ a designação de «belzebu», isto é, senhor do esterco ou das moscas! Credo abrenúncio!   

 

António Sílvio Couto




quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Fúrias anti-riqueza


‘A primeira coisa que temos de fazer é perder a vergonha de ir buscar dinheiro a quem está a acumular dinheiro’. Foi desta forma altissonante que uma deputada de um dos partidos que apoia o atual governo quis enunciar uma nova taxa sobre quem ‘acumula riqueza’… confundindo – não se sabe com que propósito – acumular riqueza com a possibilidade dessa (dita) riqueza ser resultado de poupança…

Para além de todas as derivas que foram apresentadas posteriormente, vimos como que ressurgir um ambiente de luta de classes – ricos e pobres – com que uns tantos querem fazer de ‘robin dos bosques’ do século XXI… embora não se saiba claramente aonde querem chegar de verdade.

Passadas quatro décadas sobre a ‘revolução do abril’ e as subsequentes conquistas proletárias pensávamos que já tinha sido ultrapassado um certo fervor anticapitalista, onde mais do que acabar com os pobres se pretende dar combate aos ricos… essa lepra social de que alguns só se coçam quando atingem o poder… 

= Talvez a deputada se tenha quedado em ler a primeira versão da constituição portuguesa de 1976 que, então, dizia: ‘Portugal é uma república soberana, baseada na dignidade da pessoa humana e na vontade popular e empenhada na sua transformação numa sociedade sem classes’. Ora, a versão atual diz: ‘Portugal é uma república soberana, baseada na dignidade da pessoa humana e na vontade popular e empenhada na construção de uma sociedade livre, justa e solidária’.

Pelo que se pode ver, na versão de 1976, diz-se que vamos em vias de ‘uma sociedade sem classes’, enquanto que, na versão mais atualizada, refere-se ‘a construção de uma sociedade livre, justa e solidária’…

A deputada parece que está saudosa desse registo onde deve ser sido educada: a luta de classes marxista/trotskista e que tão maus frutos deixou numa parte significativa da Europa. Também não precisamos de desenterrar conflitos que não trazem paz nem segurança… a ninguém.

O problema principal parece ser, no entanto, que foi numa reunião partidária de quem faz o governo que tal declaração foi proclamada e com aplausos dos participantes… A quem interessa regressar a matérias que já deviam estar resolvidas intelectual e socialmente? Estas derivas dialético-marxistas revelam que ainda há poeiras que não assentaram nalgumas mentes? 

= De quem está em serviço do bem público espera-se – creio – um equilíbrio emocional e intelectual capaz de ser responsável pelo que diz e que faz. Ora, quando vemos intervenções destas, surge-nos a sensação de que algo vai mal no reino da fantasia, pois as pessoas evoluem em razão das dificuldades da vida e, no caso em apreço, parece que as pessoas, que direta ou indiretamente, intervieram, notou-se mais uma tentativa de ver se resultava a pretensão, dando ainda conta da possibilidade das pessoas andarem distraídas e a coisa poder seguir os objetivos traçados… Já vimos esta habilidade noutros campos e áreas de governação... Daí que temos de estar em constante alerta para não sermos apanhados na execução de algo que não tem em conta o bem comum, mas antes pretendam satisfazer alguns grupos e lóbis… mais ou menos declarados.  

= O pior que nos pode acontecer é a situação de vivermos na desconfiança e em sobressalto do que nos querem fazer, sobretudo, na nossa ausência. Com esta apreensão sobre o presente e para com o futuro, estaremos a criar uma sociedade onde as relações humanas se vão deteriorar rapidamente, tornando cada outro num adversário, senão mesmo inimigo, de quem nos temos de defender.

Quem irá acreditar num país que modifica as regras com o jogo a decorrer? Quem será capaz de investir num país onde quem coloca a sua riqueza a render pode ser taxado e castigado? Quem poderá aceitar que, por ter poupado e amealhado algum dinheiro, tenha de ser considerado inimigo da classe operária?

A quem interessa acirrar as pretensões (sociais, económicas e financeiras) se não tem capacidade de gerir o ordenado que aufere? A quem iremos pagar a fatura por nos tentarem iludir com mais proventos senão temos capacidade de gestão do sustentável?

Numa palavra: cristãmente temos de evangelizar os ricos – isto é, de lhes anunciar a Palavra de Deus – para que sejam tocados e possam investir em favor dos pobres, criando riqueza e emprego.

 

António Sílvio Couto



segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Quando a manipulação reina


Quem vir, escutar ou ler, por estes dias, as notícias do nosso país poderá ser tentado a dizer: reina uma paz social imensa entre todos… desde trabalhadores a empresários, de sindicatos a empregadores… nos mais diversos setores, sobretudo nos (visivelmente) contestatários como os transportes e os professores, passando pelas autarquias e na (apelidada) função pública.

Não se consegue totalmente perceber ao que se deve tal ruidosa pacificação. Será que está tudo a funcionar e todos ‘se dão bem’? Ou será que, não sendo dadas notícias sobre os (possíveis) conflitos, as coisas acalmam e se resolvem?

Tanto uma como outra destas (possíveis) razões são questionáveis. Pois, se a pacificação foi conquistada com mais uns trocos no ordenado mensal porque não se fez isso antes? Porque foi preciso esticar a ‘crise’ e se enfatizou tanto a ‘austeridade’? Ou se a pacificação se deve a que quem governa – sabe-se lá quem é? – porque é da mesma cor ideológica, então, estaremos sob uma ditadura de quem só cria paz quando os seus mandam ou os deixam mandar! Por outro lado, a ausência noticiosa sobre conflitos e protestos poderá servir para que se possa entender que os ‘profissionais’ da contestação conseguem condicionar as lutas e as demais serventias com que são preenchidos os alinhamentos dos noticiários… ao serviço doutros intentos e interesses. Certos ‘profissionais’ da comunicação têm algum jeito para acirrarem os ânimos, senão na forma, ao menos na interpretação dos casos que apresentam e servem… ardilosamente. 

= Fique claro: não há independência na comunicação social. Esta é tão facilmente comprada que já nem vale um simples prato de lentilhas. Veja-se a forma como certas figuras saltam das redações para os gabinetes de comunicação de ministérios, de cargos públicos e até para os interesses desportivos… de clube.

Já não basta saber quem disse, é preciso procurar, afinal, quem foi que induziu a dizer. De pouco adianta querer fazer de forma diferente, que, bem depressa, se cai no recurso a chavões, frases-feitas ou até a figuras da moda… logo facilmente descartáveis. Veja-se o inciso aos ‘pokemóns’ para falar de coisas sérias como a construção do futuro orçamento… A superficialidade da comunicação está a tornar-se o mais vendável e os estrategas servem-se disso para distrair e manipular…

= Embora o admire pessoalmente como político com influência cristã – queimado nas grelhas do avental em tempos do lamaçal – considero que o candidato luso às altas esferas da ONU poderia ser mais uma espécie de engano para a continuação de manipulação reinante cá pelas terras do ocidental da Europa. Cada vez mais vamos sentindo que a crispação ideológica vai deixando rasto no comportamento ético de muitos que têm mais a perder do que a ganhar com a batalha que têm curso… Por agora parecem a rã da fábula de Esopo tentando crescer até ao tamanho do boi… lá na estória, como em breve por cá, veremos os estilhaços espalhados sem recuperação…

 = São fortes os indícios dum certo estertor da civilização ocidental. Tal como no crepúsculo da sociedade romana antiga – com pão e jogos – estamos a sentir que será precisa uma séria revolução onde os paladinos das liberdades no antigo leste europeu possam experimentar os resultados – veja-se o que acontece na ‘próspera’ Venezuela – e que outros defensores do facilitismo (da esquerda caviar) possam sentir que os objetivos por eles defendidos só podem vingar porque há uma sociedade capitalista e liberal, que dá cobertura aos seus anseios de bem-estar e às travessuras de contestação… Se fossemos governados por tais ideais andaríamos todos à míngua de pão e de liberdade… De facto, a reivindicação só é possível porque os liberais dão paz e segurança… à mistura com tolerância e pagamento de impostos da iniciativa privada.  

= Como é capcioso o jogo de interesses com que certas autarquias promovem festas e distrações populares: à custa dum razoável capitalismo popular – suportado por taxas e prebendas – que vai entretendo o povo, excogitando o que há de mais sensorial e, assim, se governa com populismo e de mãos voltadas para recolher os proveitos, enrolando tudo e todos sem grande esforço e inteligência. Acordem!        

 

António Sílvio Couto

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

A quem interessa o facilitismo?


O facilitismo interessa aos preguiçosos, aos incompetentes, aos manipuladores (ditadores travestidos de democratas radicais), aos rezingões reivindicativos, aos que vivem da exploração alheia, aos que adulam e vencem com a mentira, aos que são incongruentes, aos que flutuam no seu chico-espertismo até serem descobertos, aos que vivem da corrução, aos que hoje contradizem o que ontem afirmavam, aos que se contam mais com a sua esperteza sem contarem com a inteligência dos outros, aos que acham que ganham sempre…até serem descobertos nas suas próprias patranhas.

Na elaboração desta pequena reflexão começamos pelo fim, isto é, antes de colocarmos as razões tentam elencar como que as causas. Talvez não seja a forma mais correta, mas, desta vez, consideramos que podemos agora ir à procura dos ‘casos’ que fazem com que o facilitismo seja uma das doenças mais corrosivas da nossa sociedade, desde a mais próxima até à mais alargada… 

= Por estes dias ouvimos certos atores-políticos – isto é, políticos formados em ações de teatro – a reclamarem da prossecução do curso de comandos, pois tal pareceria algo muito exigente para os nossos jovens – por sinal mais masculinos do que femininos – e com isso se estaria a condicionar as suas vidas. Quis-se, desta forma, criar uma cortina de fumo sobre a exigência que a preparação daquele corpo de elite militar precisa de ter para ser aquilo que tantos jovens anseiam: participação na defesa da sua pátria e na sua auto-valorização.

Já vimos este filme de facilitismo, quando um ministro – doutra área política bem distinta desta – que nunca foi à tropa, fez acabar com o serviço militar obrigatório. Com isso abriu espaço para que possam entrar nas fileiras castrenses só aqueles que o querem por dinheiro…     

Será de perguntar porque não criam o menor denominador comum por baixo para os que querem vencer nos jogos olímpicos? Talvez a vitória dum paralímpico que venceu com melhor tempo do que o vitorioso na mesma distância seja um exemplo de superação e não de facilitismo… 

= Ao que temos visto no que se refere à área da educação nos tempos mais recentes – com a suspensão de avaliações ainda antes do executivo ter tomado posse e as demais variantes pelo abolir de exames – quase poderíamos tentar descortinar sobre alguns traumas – psicológicos e intelectuais – dos mentores e executores sobre essas etapas de aferição à aquisição de conhecimentos/prestação de contas daquilo que se sabe, de verdade. Também aquilo o facilitismo vai ser um fruto sobre a incompetência dos formandos…senão mesmo dos formadores. Que Deus nos livre de virmos a ser cuidados – na saúde ou noutros setores mais sensíveis – por gente formada no ‘coppy/paste’ sem assimilação do saber com respetivo processo e maturado de conhecimentos…  

= Ao ler uma entrevista dum treinador de judo, que já fez vencedores nos jogos olímpicos, ele dizia que preferia treinar os mais pobres do que os da elite, pois aqueles estavam mais habituados às dificuldades e superá-las seria uma questão de maior motivação e bom treino. Certamente que nem todos serão capazes de ultrapassar as tentações do facilitismo, mas há situações em que as exigências são as melhores condições para que ultrapassemos a mediocridade com que tantas vezes nos querem seduzir… 

= Por agora vamos vivendo numa espécie de cultura avoenga, onde a tolerância dos idosos premeia o que deveria ser a exigência de educação de pais… Com que facilidade vemos ‘pais’ (ambos, um ou outro e ainda um contra o outro) a simularem que não querem fazer nos filhos aquilo que deveriam por natural competência e idade. Isto será tanto mais grave quando esses (ditos) pais vão comprando os filhos com prendas e regalias que eles nem pedem, mas que lhes são dadas como atenuação da incapacidade de dedicação de tempo e em atenção…

Entretanto, vão caçando ‘pokemons’ na diversão do facilitismo de que tudo correrá bem, se não se fizer nada por contrariar, governando ou sendo minimamente capaz e eficiente!

 

António Sílvio Couto

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Das velas sem fé à fé sem velas


Por estes dias ouvi uma conversa, um tanto reveladora duma certa mentalidade (quase) ritual, podendo estar mais difundida do que nos possa parecer… Alguém desejava colocar a arder uma vela, mas, como tinha de passar pelo espaço da igreja para aceder ao local do queimador das velas, sentia alguma relutância… tendo, no entanto, cumpriu o desejo, mesmo pisando o espaço da igreja, não sabemos se convicta ou tolerantemente.

Num tempo eivado de imensos exoterismos, também as velas têm entrado nessa razoável panóplia de recursos mais ou menos conscientes. Vamos vendo tantas e tão diversas velas – de cores, de cheiros, de formatos, de intenções e/ou de ignorâncias – que cada um poderá servir-se a gosto, confundindo-se até com outras visões religiosas orientais, vemos ainda as velas incluídas – abusivamente – em iniciativas de teor mundano/reivindicativo e, por vezes, desconexas com o âmbito religioso mais essencial e simples. 

= Enquanto sinal de fé de índole cristã/católica, a vela tem um significado de fé recebida, de fé celebrada e de fé comprometida. De fé recebida, a vela é-nos dada como sinal da fé transmitida em tradição contínua e renovada no nosso batismo, acendida a vela no círio pascal, sinal por excelência de Jesus Ressuscitado. Como algo que tem a ver com a fé celebrada, a vela é referida na caminhada de cada cristão nos momentos de afirmação da sua fé pessoal em contexto comunitário… profissão de fé (catequese), crisma e outros sacramentos e sacramentais. A vertente de fé comprometida simbolizada na vela acesa é oportunidade em cada situação de testemunhar a fé assumida, esclarecida e amadurecida… nas várias etapas da vida do cristão crente.

Será que a maior parte dos que colocam velas acesas às imagens dos santos ou de Nossa Senhora – com especial incidência nos tocheiros do santuário de Fátima – tem claros e esclarecidos estes momentos e significados das velas? Não será que em muitos casos vemos mais a recomendação de religiosidade do que a vivência esclarecida de fé? Não haverá resquícios de devoção neopagã do que outras fontes de inspiração? Não haverá quem vai colocar velas porque algum sortilégio lho recomendou? Quantas velas são colocadas aos santos/santas e Nossa Senhora onde se nota a mão dalguma bruxa ou em razão do aconselhamento extra-cristão!    

= Se podemos ver – infelizmente – o uso das velas sem um possível mínimo de fé, talvez seja ainda de questionar a possibilidade de viver a fé sem a presença de velas. Com efeito, será necessário não cairmos nessa outra visão iconoclasta, rejeitando vários elementos de simbologia já veterotestamentária. De facto, já no Antigo Testamento se recorria a elementos figurativos, entre os quais as velas, dando-lhes significado religioso e espiritual. À afirmação de Jesus – eu sou a luz do mundo – podemos e devemos nós associar-nos como participantes na mesma luz.

Atendendo a estas breves questões será sempre de esclarecermos o correto uso destes símbolos, sabendo que a falta de educação para os sinais pode torná-los menos bem entendidos e talvez se possa criar ainda uma certa rejeição, correndo-se corre o risco de misturar o essencial com o factual e até supersticioso. 

= Queira Deus e não permitamos nós que a onda de tecnologia e de adereços informáticos não venham  a invadir – a curto ou médio prazo – as nossas liturgias, fazendo delas mais oportunidades de exibir futilidades do que vivências de cristãos em condição terrena... passageira. Seria de muito mau gosto que a vela do batismo fosse substituída por qualquer artefacto luminoso mesmo que mais fosforescente mas desprovido de significado e de possível leitura mistagógica.

Embora a luz não se reduza à configuração das velas, estas representam, por excelência, a visualização da luz, seja da fé, seja do conhecimento humano e intelectual. Com velas ou sem elas que saibamos ser portadores da Luz de Deus na nossa vida, reflectindo a Luz verdadeira, que é Jesus Cristo.       

 

António Sílvio Couto

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Praxes académicas… inclusão ou exclusão?


Com a publicação das colocações nas escolas de ensino superior – universidades e institutos – vão surgindo notícias que aduzem criar ambiente para quem vai começar uma nova etapa da sua formação humana e intelectual: uns chamam-lhe praxe e outros vão tentando formas de inclusão que possam ser consideradas civilizadas e menos medievalescas…tanto na forma como no conteúdo.

Desde um ministro até a uma universidade já surgiram posições a contestar a prática das praxes… tal como têm sido postas em prática. Com efeito, de tempos recentes foram noticiados – quando escapam ao controle das (ditas) comissões – exageros, nalguns casos a deixarem marcas nas pessoas e na reputação das instituições onde tais vexames são cometidos. 

= Se a intenção das praxes é incluir pode, em muitas situações, resultar no seu contrário, pois os ‘faltosos’ ao pretenso ritual como que se podem tornar excluídos num meio onde ainda vigora um espírito demasiado gregário e, em certas situações, deixando pouco em abono da inteligência de quem pensa – se pensa – e executa…tais praxes. Se virmos em certas instituições o ‘chefe’ da praxe é o aluno com mais matrículas, isso como que nos deverá questionar se tal façanha abona pela capacidade de ultrapassar os estudos – se é que os faz – ou se antes estaremos perante uma prorrogação de ‘estudante’ muito para além do quadro da normalidade! 

= Nalgumas situações parece que os artefactos – cenas e confusões – que são propostos não andarão muito longe daquilo que lhes foi feito há tempos mais ou menos recuados, situando-se, assim a praxe numa repetição daquilo que lhes fizeram outros e que se vai aturando até que haja quem não se deixe submeter a humilhações e processos de menor dignidade de quem se quer valorizar culturalmente, mas que, por momentos, é tornado alvo de chacota e de ridículo… Quantas vezes quem pensa estar a crescer na sua dimensão humana e intelectual se pode sentir aviltado, chafurdando em obscenidades e ações de menos boa conduta social… Referimo-nos ao que é mostrado na via pública (incluindo a comunicação social) e não no espaço das escolas e suas dependências mais próprias… Se algum responsável dum jardim-de-infância permitisse tais casos certamente – e bem – estaria sob a alçada da lei e da condenação pública. Porque, então, terá de haver um manto de silêncio sobre coisas que nem de infantis se podem considerar? 

= A vida académica é uma etapa essencial da estruturação de qualquer pessoa, mas não pode ser levada com leviandade e muito menos com referências de banalidade, tanto no que se refere ao saber como ao educar ou, então, teremos pessoas imaturas e prolongadas numa adolescência psicológica muito para além do que é (ou era) razoável.

Perante este quadro complexo de questões, deixamos algumas que consideramos um tanto pertinentes: praxes – porquê e para quê? Praxes socializam ou ostracizam? Porque há tanta resistência em mudar este panorama nas escolas de ensino (dito) superior? A quem interessa prolongar este cenário – às associações de estudantes ou à direção das escolas? Até quando se irá dar cobertura a este processo de inserir na vida académica?

Atendendo ainda à posição do ministro da tutela em combater as comissões de praxe, porque têm estado caladas as associações estudantis e de praxe: será porque se deve a ser da sua área ideológica? Fariam o mesmo se fosse proposto por outro governante não da área? Ou será que a racionalidade tem cor – se não é da minha não vale tanto como quando tem afeição e identificação com o que eu acho ou julgo? 

= Agora que a educação pré-universitária está numa certa ‘paz dos anjos’ – não sem sabendo quem manda ou quem obedece: se os sindicatos ou se o ministro – talvez seja oportuno refletir sobre questões de humanismo que envolvem a formação cultural… As praxes académicas precisam de mudar e todos devemos ter uma posição. Urge, por isso, ser sério e sereno. Com tão pouco tempo para ‘fazer doutores à maneira de Bolonha’ corremos o risco de andar entretidos com as praxes e cortejos académicos e não haver tempo para estudar!

 

António Sílvio Couto