Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



quinta-feira, 8 de setembro de 2016

‘Não valorização’… dos professores


31% dos professores não está motivada para ensinar e 64% dos docentes refere que a educação, em Portugal, se tem vindo a deteriorar.

Estes dados são resultado de um estudo – ‘as preocupações e as motivações dos professores portugueses’ – a que responderam cerca de três milhares de profissionais… dos setores público e privado. Este inquérito foi realizado nos meses de maio a julho… ao que parece deste ano… em quase centena e meia de escolas.

Embora uma larga maioria dos (ditos) docentes – 92% – tenha dito que escolheu a profissão por razões vocacionais, nota-se que quase um terço dos inquiridos se sente desmotivado para ensinar e que 13% gostaria de se aposentar antecipadamente.

Sobre as causas de insatisfação mais de metade dos inquiridos salienta que não há reconhecimento público e social da profissão, seguindo-se uma larga percentagem que aduz a indisciplina na sala de aula e a extensão dos programas no leque de razões para se sentirem menos bem ou até mal… pessoal, social e profissionalmente.

Em todo este conspecto de avaliação e de respostas pode encontrar-se que os mais insatisfeitos são professores com mais de dez anos de serviço e que acusam mais cansaço e até desilusão.

Quem coordenou e analisou este inquérito referiu ainda que, entre outros fatores de desgaste do corpo docente, se podem encontrar os cortes de vencimentos, o congelamento das carreiras, o aumento da idade da reforma, o aumento do número de alunos por turma e a prorrogação das horas letivas. 

= Perante este panorama duma das mais importantes instituições da nossa sociedade, isto é, quem cuida da educação e da instrução dos futuros cidadãos, poderemos considerar que algo está muito mal, pois no presente sentimos que qualquer coisa não está a ser bem conduzida: a insatisfação do corpo docente faz perigar algo em que uma sociedade deve estar alicerçada: a confiança na docência e na aprendizagem, tendo em conta a reciprocidade de quem é ensinado e que deve encontrar ‘modelos’ de conduta… muito para além do saber e do prestar contas… com ou sem exames!

Daquele inquérito ressaltou-nos ainda a visão vocacional de muitos dos professores, pois uma coisa será a profissão outra, bem distinta e percetível, será a de ser educador/a, ministrando conhecimentos e saberes que devem ser adquiridos para uma boa socialização e cidadania…adequados ao comportamento e vivência ética.     

Quando tivermos professores ‘mercenários’ algo poderá ser dramático, mas já faltou mais para que tal possa ser posto em prática!  

= Talvez se deva assumir que essa espécie de ‘profissão limpa’ – sem ter de se sujar nem de mudar de roupa para o seu exercício – como chegou a ser vista a do ensino, tenha os dias contados, pois certos fatores têm vindo a fazer decrescer o público-alvo, que são os alunos. Se a natalidade diminuiu também os alunos entraram em decrescimento… Serão consequências duma cultura-sem-filhos que irá deixar rasto por vários anos na nossa sociedade… Até a instabilidade profissional dos próprios professores terá contribuído para este estado das coisas. Se não tentarmos inverter a tendência do ‘filho único’ ou de nem ter filhos ainda irá bater mais no fundo esta crise humana, social e cultural! 

= Não deixa de ser inquietante a colapso social da profissão de professor/a. Muito mais do que a perda de regalia social – reinante até há umas décadas – poderemos ter em conta a desconjunção da qualidade de quem ensina, mesmo perante os pais/educadores e até os próprios estudantes. Nota-se ainda um certo desrespeito desde a sala de aula até ao ambiente extraescolar, passando ainda por uma espécie de vulgarização da função de ser professor, muito em razão das alterações socioculturais, pois a difusão de instrução deixou de colocar quem ensina num estádio superior…

Urge, por isso, que sejamos capazes de dignificar este setor humano e cultural para que o nosso futuro coletivo seja mais superiormente conduzido por quem serve o saber e menos por quem possa procurar a promoção…nem sempre global e personalista. Aos verdadeiros professores: obrigado!   

    

António Sílvio Couto

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Levar a misericórdia para a rua…em evangelização


Estamos a viver, na Igreja Católica, o ‘ano jubilar da misericórdia’.

Será mínimo que tentemos levar – da forma mais simples, mas não menos ousada – este conceito para a rua, criando sensibilidade e aproveitando as oportunidades.

Assim, na Moita, por ocasião da festa anual em honra de Nossa Senhora da Boa Viagem, este ano quisemos fazer um tempo de preparação da celebração, meditando em jeito de novena algumas facetas de Nossa Senhora em ligação à misericórdia.

Em forma de acróstico, deixamos algumas dessas vertentes teológico-eclesiais de Nossa Senhora… neste tempo e atendendo à localização em que vivemos:

Mãe de Deus Filho,
Irmã entre irmãos,
Serva do Espírito Santo,
Enviada como mensageira,
Rainha do Céu e da Terra,
Intercessora para todos,
Crente entre os crentes,
Orante em cada tempo,
Resposta nas aflições,
Dádiva de amor eterno,
Imagem da Igreja (santa e pecadora),
Anunciadora da esperança... eterna!

De facto, temos de ir compreendo – a partir da nossa vivência pessoal e comunitária – a complexa simplicidade da função de Nossa Senhora na vida dos cristãos e no mistério da Igreja neste mundo. Há questões que não se compadecem com certos rituais de mera ‘tradição’, na medida em que esta possa significar uma espécie de repetição ao sabor dum tal cristianismo social e/ou sociológico.

Desde logo levar a misericórdia para a rua pode envolver uma exposição cénica de elementos pedagógicos e de teor evangelizador… o mais explícito possível. 

= Num tempo, por vezes, agnóstico de conhecimentos e falho de saberes bem aquilatados, torna-se importante explicar as razões da nossa fé e do modo de a viver, pois o quadrado de compreeensão pode estar disfuncionado até nas mais pequenas coisas e sinais… mesmo sem disso nos darmos conta. Urge, por isso, sermos capazes de comunicar de forma simples e clara, sem deixarmos qualquer espécie de leitura ambígua ou distorcida. Quem melhor do que os santos e santas para nos darem lições da vivência da misericórdia traduzida em vida? Neles e por eles podemos apresentar a vivência feita pela dádiva e entrega vivida em Deus aos outros 

= Numa época onde nem sempre as relações humanas estão alicerçadas na cordialidade e na verdade, tentar traduzir na vida a misericórdia como que nos exige que sejamos leais uns para com os outros, servindo a verdade por palavras e por atos sem nada temermos que possa fazer perigar a nossa imagem em relação aos outros nem deles em relação a nós.

Quem melhor do que Nossa Senhora para nos fazer viver nesta coerência de vida e de comportamento: Ela nos apresenta e nos aponta para Jesus, Aquele que nos traz continuamente desafios a vivermos da misericórdia e pela misericórdia. Quando levamos Nossa Senhora em procissão pelas ruas nas nossas terras como que podemos compreender melhor o olhar de Maria que nos vê e pelos seu olhar podermos também olhar o mundo de forma mais e mais misericordiosa.  

= Apesar de tudo acreditamos que temos uma missão de anúncio e de testemunho da misericórdia de Deus, que, ultrapassando as nossas falhas e pecados, nos há de fazer seus instrumentos de compaixão continua, atenta e renovada...

 

António Sílvio Couto

 

sábado, 3 de setembro de 2016

Defendidos dos sarracenos?

Por estes dias passeava numa localidade ao pé do mar. Quem me acompanhava, depois de observar vários quadros de rua e outros sinais de religião católica, disse: esta terra não será atacada pelos muçulmanos, pois tem muitos santos na rua que a protegem… e os islamitas não gostam de santos!
Esta singela observação fez-me tentar entender – antes de mais por reflexão e depois por participação até nalguns daqueles quadros postos na rua, por ocasião do jubileu do ano 2000 – qual a abrangência dos símbolos cristãos colocados nas vias públicas e quanto isso pode ser – mesmo que de forma inconsciente – uma espécie de salvaguarda da nossa identidade cristã e do compromisso social cristão…
Embora o termo ‘sarraceno’ possa designar, numa terminologia cristã mais envolvente na Idade Média, os árabes e muçulmanos em geral, como que se pode ainda estender à ocupação do primeiro califado árabe na península ibérica…
Se atendermos a esta abrangência designativa como que poderemos considerar que as investidas mais recentes da cultura ismaelita sobre a cultura ocidental e europeia em particular poderá ser entendida como uma nova ofensiva sarracena, onde muitos dos valores cristãos são colocados em risco e, particularmente, as simbologias cristãs no âmbito público.
Assim, se tivermos em conta a observação supra citada sobre os sinais cristãos nas vias públicas, teremos de refletir sobre a ausência e a não-referência às questões religiosas cristãs na maioria das nossas cidades e suas artérias…

= Há casos em que certas forças ideológicas – sobretudo na incidência autárquica – vão tentando obnubilar a alusão aos patronos – Nossa Senhora ou algum santo – das festas concelhias ou de freguesia. Com efeito, será preciso estar atento e vigilante para que não consigam subverter o espírito original e que não tentem criar fait-divers para impingirem certas ideias anticristãs mais sublimares… Por acaso ou propositadamente há factos que fazem desconfiar das distrações mais ou menos circunstanciais…Talvez os sarracenos (ainda que à distância) nos possam fazer acordar da letargia social em que vamos sendo embalados e adormecidos… pelo materialismo galopante de vida e de valores.

= Em tempo não muito recuados era habitual vermos, nalgumas encruzilhadas e em estradas de grande movimento de veículos e pessoas, pequenos nichos, cruzeiros e até capelinhas alusivas a santos e santas de maior devoção popular. Com isso deixava-se uma marca de espiritualidade e mesmo dalguma religiosidade de teor um tanto cristão. Em certas situações viam-se também cruzes e flores a lembrar algum acidente normalmente fatídico. Esses elementos eram quase de maior alerta para perigosidade da estrada do que até os sinais de trânsito… lembrando e fazendo memória de casos passados, que seriam ainda considerados atuais e atuantes. Deste modo se ia espalhando pequenas receitas de religiosidade e perspetivando que a nossa caminhada continua envolta em mistério humano e mesmo cristão. 
= Atendendo, no entanto, à crescente privatização da dimensão religioso-espiritual – sobretudo de âmbito cristão – torna-se cada vez mais importante e essencial colocarmos na via pública sinais que nos façam lembrar as referências cristãs mais marcantes bem como sejamos ajudados a viver esse compromisso da nossa fé e da memória dos nossos maiores e de figuras de referência no ‘eu coletivo’ de cada localidade… Não podemos permitir que certas ondas de laicismo tenham de ser impostas a quem não se pode pronunciar sobre as decisões autárquicas ou dalguns diretórios partidários sem rosto nem história. Alguns tentam construir a história à dimensão da sua origem, criando lacunas e erros que iremos pagar caro, quando se vir o logro em que nos tentam conduzir. Não temos todos de ser regidos pelos fantasmas com que ainda vivem, pois país, região ou localidade que não valoriza os seus antepassados e os seus patronos (humanos ou espirituais) bem depressa cairá nessa esquizofrenia cultural com que temos estado a viver… mais ou menos inconscientemente.
Algo tem de mudar. Assim o sejamos capazes de concretizar a bem do futuro…


António Sílvio Couto

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

É proibido proibir…


Em França continua a ser ‘lei’ um tácito princípio que raramente não se exprime: é proibido proibir… Isso mesmo se verificou na questão do burquini, uma espécie de fato-de-banho feminino, que alguns autarcas de zonas balneares francesas do sul proibiram o uso, mas que o conselho de Estado não concedeu que fosse considerado motivo de proibição, pois ofendia a igualdade de direitos de todos os cidadãos – no caso as cidadãs – perante a lei geral francesa…

A discussão que se gerou à volta do uso ou não do burquini pode reduzir-se, genericamente, a duas perspetivas: uma que reclama da ofensa às liberdades individuais e outra que pretende afirmar o laicismo do estado… na medida em que o burquini, sendo usado em público pelas islamitas, poderia ser visto como ‘um símbolo da escravidão das mulheres’ seguidoras do islão…

Deixando a questão do pretenso fato-de-banho feminino, o burquini pode colocar questões mais simples do que um mero tema religioso-cultural. Que dizer, então, do fato dos surfistas: só lhe falta a touca para ter muitas semelhanças com o burquini: será uma coincidência ou faz-se problema com assuntos de natureza confessional? Será que esta espécie de islamofobia não trará mais confusão e radicalismo em forças fundamentalistas… dentro e for da Europa? 

= Acreditando que o bom-senso há de ganhar nesta como noutras lutas, deixamos agora algumas considerações sobre o ‘proibido proibir’ tão francês e as suas ramificações na cultura ocidental.

De vez em quando França volta a tentar que seja proibido proibir. Assim foi no maio de 1968, assim tem acontecido quando se tentou fazer essa espécie de miscigenação cultural dos vários povos que foram ‘invadindo’ o país desde os finais da segunda guerra mundial e de que agora se está a colher (mais visivelmente) os frutos. À queda do cristianismo em França e na Europa em geral vemos crescerem múltiplas manifestações religiosas e culturais imbuídas doutras religiões e com implicações culturais, sociais, humanas e até desportivas… Vejam-se as equipas francesas dos vários desportos: quantos atletas com origem procedente de várias colónias francesas ou descendentes de emigrantes… onde os apelidos não conseguem disfarças as raízes. Com efeito, a situação francesa é bastante reveladora da realidade social de tantos outros países… Se o é nas causas, sê-lo-á nas consequências. Por isso, se por lá vemos certos fenómenos mais ou menos subversivos, temos de estar preparados para os vivermos por cá a muito curto prazo!  

= De facto, vivemos cada vez mais numa sociedade onde ‘é proibido proibir’, logo desde a mais tenra idade. A educação tem vindo a fazer das crianças pequenos ditadores, aos quais pouco ou nada se pode contrariar. Se isto se vai verificando na pedagogia, podemos ver idêntica vivência na condução da sociedade. Quem ousa contrariar ou contraditar seja quem for? Vemos crescer numa razoável escala uma espécie de intolerância à tolerância, pois se pretende que se seja o mais possível compreensivo para com o ‘eu’ e suficientemente exigente para com o ‘tu’… numa difícil conjugação do ‘nós’. Com que facilidade vemos medrar na nossa sociedade um ambiente onde quase tudo vale, desde seja para benefício dum ‘eu’ crescentemente egoísta e centrado nos seus próprios interesses ou desejos… 

= Temos de ser capazes de recentrar a nossa vida nas exigências de verdadeira e autêntica liberdade do Evangelho de Jesus Cristo, pois só n’Ele e por Ele podemos conhecer e reconhecer, aceitar e renovar, entender e discernir o que, em nós e à nossa volta, há de menos cristão ou mais pagão, seja nas ideias, seja no comportamento. Com efeito, só na luz do Espírito Santo podemos ser acusados dos nossos próprios erros, acolhendo essa denúncia na voz da consciência, sempre aferida aos valores do Evangelho e na condução sincera e humilde duns pelos outros… como irmãos.

Talvez nem sempre o ‘é proibido proibir’ seja cristão, na medida em que podemos antes inchar de orgulho e de vaidade, não deixando que possamos ser corrigidos nas pequenas como nas grandes coisas. O esforço da conversão continua a ser uma graça de Deus misericordioso e bom!

 

António Sílvio Couto 



terça-feira, 23 de agosto de 2016

Olimpicamente… à portuguesa


Acabaram os jogos olímpicos – na dose de atletas ditos ‘normais’ – do Rio de Janeiro: muitas e diversas modalidades preencheram cerca de três semanas de competições, houve momentos de alegria e situações de tristeza, sonhos que foram concretizados e aspirações que se goraram… nalguns casos mais uma vez ou por pequenas diferenças…

A delegação portuguesas com mais de uma centena de atletas, treinadores e pessoal de apoio, quedou-se com uma simples medalha de bronze e diversos diplomas – um reconhecimento de quem ficou qualificado do quarto ao décimo lugar nas respetivas provas – num custo que se estima em dezassete milhões de euros… o que fez alguns considerarem que a dita medalha conseguida no judo terá tido aquele valor tão exorbitante…

Mais uma vez – em Londres há quatro anos aconteceu um espectro idêntico – os resultados ficaram aquém das nossas aspirações, tanto em relação aos atletas como nos augúrios dos portugueses em geral. Com efeito, a partida da primeira leva de competidores aconteceu no rescaldo da vitória do europeu de futebol em França. Por isso, eram expetáveis alguns resultados mais benéficos.

Claro, que muitos dos que assim desejavam associar-se às vitórias fazem parte da imensa maioria silenciosa para quem o desporto de alta competição só me mede pelas vitórias, esquecendo-se das muitas e incontáveis horas de luta e de sofrimento com que os nossos atletas viveram os últimos quatro anos. Não vimos os responsáveis cimeiros da governação a virem a terreiro reconhecerem que nem tudo vai bem quando se perde e se regressa ao país pela porta pequena… Seria como que desonesto intelectual e politicamente aproveitar-se dos sucessos alheios para quererem colher dividendos partidários… Será algo que nos deve envergonhar, quando vemos atrelarem-se às vitórias aqueles que não dão – não deram e nem darão – condições para que os nossos atletas sejam mais do que alfinetes de lapela na hora da verdade e dos (pretensos) louros.  

= Das análises já feitas realçam-se os atletas que se consagram de alma-e-coração ao seu desporto favorito e com isso cativam os mais novos para desenvolverem as suas faculdades muito para além do futebol ou do atletismo… que já nos deram reconhecimento internacional. Que dizer da canoagem ou do judo, do ténis de mesa ou da natação, que na maior parte das vezes – sobretudo nestas modalidades – é desenvolvida por clubes e associações de âmbito privado, que investem muitos dos seus recursos ‘fazendo’ estes atletas a quem o Estado devia dar mais do que esmolas ou prebendas se forem da cor partidária reinante… 

= Tal como noutras áreas – os fogos florestais, as cheias ou os acidentes – não basta fazer promessas a quente, se depois não se conseguem criar condições mínimas, exequíveis e amadurecidas, que nos façam programar a médio e longo prazo… colhendo os frutos com serenidade e correção. Qualquer bom atleta leva bem mais duma década a cumprir um programa sequente e de (possível) bom sucesso… incluindo o despertar, o desenvolver e colher frutos… Repare-se na situação de um jovem nadador que, há oito anos, tirou uma fotografia com o seu ‘ídolo’ ao tempo e agora, nestes jogos olímpicos, conquistou contra esse mesmo ídolo a medalha de ouro na competição!   

= Olimpicamente falando Portugal continua a querer colher o que não se semeou e, se o fez, quer tão rápidos resultados que não podem ser nem sérios nem capazes de trazer novos praticantes às modalidades vencedoras. É urgente mudar de mentalidade e refletir sobre que pessoas queremos no futuro próximo.

Agora que o show se desfez por momentos, esperemos pelos resultados dos jogos para-olímpicos, pois aí costumamos ganhar mais medalhas e reconhecimento público… mundial. Também neste setor o investimento estatal é tão ridículo que não deixará de trazer à liça a fundamental aposta que os privados fazem nesta matéria.

Agora que vivemos uma etapa de neo-estatização de tudo e de mais alguma coisa, queremos deixar aqui um conselho aos governantes: já que fizeram tão pouco, não se aproveitem das mazelas dos outros, pois eles são para todos nós uma lição de dedicação, de empenho e de superação… Assim todos o sejamos capazes de reconhecer! 

    

António Sílvio Couto



quinta-feira, 18 de agosto de 2016

A patranha está de volta!


Foi anunciado: vai ser lançado um denominado programa ‘qualifica’, ao que parece uma espécie de recauchutagem das ‘novas oportunidades’ dum governo socialista anterior…

De entre as várias considerações para tal programa incluem-se a tentativa de certificar uma espécie de processo de formação – uns dizem que de adultos sem a escolaridade mínima, outros já falam em dar emprego a professores excedentários – aumentando os ‘centros de formação’ até três centenas, gastando mais de cinquenta milhões de euros, usando a formação dada (já) por algumas escolas e (ditos) centros de formação profissional, tentando dar validação de competências e reconhecimento do que já é feito… Numa palavra: quer-se (pretensamente) qualificar adultos para programas de estatística e gastando dinheiro que está disponível pela União Europeia… 

= Quem possa ter visto referências às ‘novas oportunidades’ foi como que patente um resvalar para a mera propaganda, onde uma grande parte das pessoas foi usada para fins (eminentemente) partidários. Dizem que de cerca de um milhão de inscritos – ao tempo – mais de 400 mil adultos obtiveram certificação escolar no âmbito daquele programa, em 2005, dando-lhes equivalência ao nível do ensino básico ou secundário… A duração, em média dos (ditos) cursos foi entre cinco e dez meses, tendo por base a experiência de vida – umas vezes profissional, outras de desemprego e tantas outras de nítido compadrio – dos candidatos. 

= Há fontes de informação – não se sabe com que verdadeira origem, embora se possa colocar uma certa e fundamentada suspeita – que dizem que 55% da população portuguesa adulta não tenha completado o ensino secundário… Atendendo às intenções governamentais tais circunstâncias condicionam ‘o potencial de crescimento, de inovação e de produtividade do país’, criando ainda dificuldades – segundo as mesmas fontes – à ‘participação e à progressão destas pessoas no mercado de trabalho’!... Aqui se incluem ainda os que, em idade escolar, abandonaram a frequência letiva em ordem à escolaridade obrigatória. 

= Se atendermos aos apresentadores públicos do recente ‘programa qualifica’, vemos que ambos são da margem sul do Tejo, com ramificações a outros governantes e como que fazendo-se patrocinadores de algo que não condiz com a valorização daqueles a quem se destina o dito programa. Pelo contrário, parece que isto foi urdido para tentar empregar mais professores do que para valorizar ‘estudantes’, tendo em conta que até querem dar uma espécie de ‘passaporte qualifica’, onde se insere mais uma lógica de curriculum do que certificado de estudos avaliados, feitos e sérios… 

= Este é mais um ato de reverter, tentando dar a sensação de que se está a fazer algo pelo povo mais desfavorecido. Ora, tal iniciativa parece antes servir a certos infantes em etapa de prestação de provas, dando aos seniores da cúpula a possibilidade de colher os louros ou, se falharem, de serem empurrados para fora da corrida, tendo em conta se o programa não verifique alguma procura ou grande aceitação. Com efeito, o quase meio milhão de jovens ‘nem-nem’ – isto é, nem estudam nem trabalham – como que podem ser campo de recrutamento para este programa… desde que ele possa servir os intentos de quem se propõe prolongar a validade da geringonça por mais alguns meses… mesmo que à custa de proventos vindos da UE. 

= Com tudo quanto temos vindo a viver nos tempos mais recentes e que poderemos ainda vivenciar a curto e médio prazo, consideramos que este ‘programa qualifica’ pode ser mais uma patranha de engano e de falsidade de quem nos vem governando. Com efeito, não é com soluções de facilitismo que iremos credibilizar o país e os mais novos. Não será com a recuperação de falhanços doutros tempos que iremos construir algo de sério e sensato. Não será com diplomas a pataco que iremos dar cultura a quem não lê, não escreve, não pensa e tão pouco tem opinião própria e fundamentada com argumentos racionais e não meramente emocionais…

Portugal merece melhor. Assim o decidamos com verdade e ousadia, brevemente!

 

António Sílvio Couto

Quando agradecer é diferente de ser grato


Em muitas circunstâncias vemos a ser feito um role de agradecimentos – muitos deles quase que fazendo pairar mais a adulação – as pessoas e entidades que participaram nalguma iniciativa mais ou menos pública ou publicitada…

Quantas vezes por entre os vários citados em agradecimento há pessoas que só fizeram o que deviam fazer, isto é, por obrigação das funções ou dos espaços – públicos ou do setor privado – que ocupam. Neste aspeto agradecer poderá não ser mais do que uma mera redundância quase retórica, pois se se faz o que se deve que merecimento se pode exigir…

Noutras situações como que vemos ainda serem dadas como atitudes de agradecimento aquilo que deveria ser cultivado como bom, necessário e suficiente exercício do dever cumprido. Há momentos em que, quem não criar dificuldades, já estará a ser uma boa ajuda. Será que se lhe deve agradecer, se mais não fez do que situar-se na normalidade do que deve ser uma boa articulação com o que pode e deve ser feito…em benefício do bem comum!

Há, no entanto, ocasiões em que nem sempre o estar a agradecer significa ser grato, pois poderá envolver uma pretensão de querer fazer esquecer os antecessores e como que colhendo louros daquilo para o qual pouco ou nada se teve de intervenção, mas que fazendo agradecimentos de lisonja como que se pretende fazer obnubilar o que antes se fez talvez até melhor…

- Quantas vezes vemos, sobretudo, nas mudanças em paróquias, que, quem chega, como que pretender fazer esquecer – pelo esquecimento ou até pelo melindre – quem antes tentou construir – sabe-se lá com que dificuldade e sofrimento – o que é passado em testemunho… Na simbiose de fé nada é começado do zero e todos temos uma história que deve ser respeitada… humilde e sinceramente. Não podemos ficar presos à nossa impressão, mas temos de saber continuar a tecer os elos dessa grande cadeia de comunhão e de vida! Aqui como noutros aspetos o vedetismo costuma deixar rastilho de má fogueira… em extinção.

- Quantas vezes encontramos uns certos ‘salvadores’ inchados de messianismo barato que tentam fazer crer que só quem com eles é que caminha e se está certo do rumo traçado. Se ainda vamos nesta onda bem depressa ficaremos nas bordas da derrota e muitos vencidos iremos conquistar para uma batalha onde todos saímos a perder. Se não conseguimos perceber a força da convicção na verdade, iremos deixar os locais por onde passamos mais e mais tristes e sem esperança.

- Quantas vezes nos falta a admiração e estupor pelo que Deus faz através dos outros, pois, quase nada está, de verdade, completo, embora ainda muito pouco possa haver a inovar. Se todos fossemos mais aprendizes do recomeçar a caminhada e menos ensinadores do pouco que sabemos, teríamos sempre uma maior capacidade de estarmos atentos àquilo que os outros nos fazem conhecer pela partilha e a sinceridade. Ora, muito para além do princípio de ‘deixarmos o mundo um pouco melhor do que o encontramos’, precisamos de ir aprendendo a crescer pelas mãos uns dos outros, seja qual for a sua cultura ou a idade…

= Ser grato é ter memória para com quem nos antecedeu, sabendo olhar com simplicidade quem Deus põe no nosso caminho e estando sempre atento aos mais diversos sinais com que Deus nos fala agora e no futuro.

A gratidão não se forja nem inventa, mas antes se exercita em cada dia, dizendo continuamente: ‘obrigado’, desde os gestos mais simples até aos mais complexos e difíceis. Assim iremos aprendendo a saber discernir se aquilo que nos agradecem é verdadeiro ou se soa a oco e disfarçado.

Os mais significativos momentos de gratidão acrisolam-se nos meandros da nossa convivência em normalidade de vida, tendo a família como o principal laboratório dessa vivência honesta, desprendida e altruísta. 

Hoje quero ser grato para todos quantos me ajudaram a crescer ao longo da vida, lamentando quem possa ter desejado que lhe agradecesse como pretendia, mas que não teve essa dita… Grato sim; engraxador, não!  

 

António Sílvio Couto