Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Quando agradecer é diferente de ser grato


Em muitas circunstâncias vemos a ser feito um role de agradecimentos – muitos deles quase que fazendo pairar mais a adulação – as pessoas e entidades que participaram nalguma iniciativa mais ou menos pública ou publicitada…

Quantas vezes por entre os vários citados em agradecimento há pessoas que só fizeram o que deviam fazer, isto é, por obrigação das funções ou dos espaços – públicos ou do setor privado – que ocupam. Neste aspeto agradecer poderá não ser mais do que uma mera redundância quase retórica, pois se se faz o que se deve que merecimento se pode exigir…

Noutras situações como que vemos ainda serem dadas como atitudes de agradecimento aquilo que deveria ser cultivado como bom, necessário e suficiente exercício do dever cumprido. Há momentos em que, quem não criar dificuldades, já estará a ser uma boa ajuda. Será que se lhe deve agradecer, se mais não fez do que situar-se na normalidade do que deve ser uma boa articulação com o que pode e deve ser feito…em benefício do bem comum!

Há, no entanto, ocasiões em que nem sempre o estar a agradecer significa ser grato, pois poderá envolver uma pretensão de querer fazer esquecer os antecessores e como que colhendo louros daquilo para o qual pouco ou nada se teve de intervenção, mas que fazendo agradecimentos de lisonja como que se pretende fazer obnubilar o que antes se fez talvez até melhor…

- Quantas vezes vemos, sobretudo, nas mudanças em paróquias, que, quem chega, como que pretender fazer esquecer – pelo esquecimento ou até pelo melindre – quem antes tentou construir – sabe-se lá com que dificuldade e sofrimento – o que é passado em testemunho… Na simbiose de fé nada é começado do zero e todos temos uma história que deve ser respeitada… humilde e sinceramente. Não podemos ficar presos à nossa impressão, mas temos de saber continuar a tecer os elos dessa grande cadeia de comunhão e de vida! Aqui como noutros aspetos o vedetismo costuma deixar rastilho de má fogueira… em extinção.

- Quantas vezes encontramos uns certos ‘salvadores’ inchados de messianismo barato que tentam fazer crer que só quem com eles é que caminha e se está certo do rumo traçado. Se ainda vamos nesta onda bem depressa ficaremos nas bordas da derrota e muitos vencidos iremos conquistar para uma batalha onde todos saímos a perder. Se não conseguimos perceber a força da convicção na verdade, iremos deixar os locais por onde passamos mais e mais tristes e sem esperança.

- Quantas vezes nos falta a admiração e estupor pelo que Deus faz através dos outros, pois, quase nada está, de verdade, completo, embora ainda muito pouco possa haver a inovar. Se todos fossemos mais aprendizes do recomeçar a caminhada e menos ensinadores do pouco que sabemos, teríamos sempre uma maior capacidade de estarmos atentos àquilo que os outros nos fazem conhecer pela partilha e a sinceridade. Ora, muito para além do princípio de ‘deixarmos o mundo um pouco melhor do que o encontramos’, precisamos de ir aprendendo a crescer pelas mãos uns dos outros, seja qual for a sua cultura ou a idade…

= Ser grato é ter memória para com quem nos antecedeu, sabendo olhar com simplicidade quem Deus põe no nosso caminho e estando sempre atento aos mais diversos sinais com que Deus nos fala agora e no futuro.

A gratidão não se forja nem inventa, mas antes se exercita em cada dia, dizendo continuamente: ‘obrigado’, desde os gestos mais simples até aos mais complexos e difíceis. Assim iremos aprendendo a saber discernir se aquilo que nos agradecem é verdadeiro ou se soa a oco e disfarçado.

Os mais significativos momentos de gratidão acrisolam-se nos meandros da nossa convivência em normalidade de vida, tendo a família como o principal laboratório dessa vivência honesta, desprendida e altruísta. 

Hoje quero ser grato para todos quantos me ajudaram a crescer ao longo da vida, lamentando quem possa ter desejado que lhe agradecesse como pretendia, mas que não teve essa dita… Grato sim; engraxador, não!  

 

António Sílvio Couto 

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Purificação da memória


A memória é aquilo que nos faz saber quem somos. Sem memória não saberíamos quem somos nem quem são os outros. Memória é essa faculdade da nossa condição humana que nos faz perceber o ontem no hoje e abrirmos às condições do amanhã.

Como capacidade de armazenamento de informações e de factos obtidos através de experiências ouvidas ou vividas, a memória é todo um processo que relaciona conhecimentos e gera novas ideias, ajudando-nos a tomar decisões diárias.

Sem pretendermos entrar em conceitos técnicos e noções mais ou menos científicas – memória declarativa e memória não-declarativa – resumiremos, neste contexto, a memória como essa capacidade de saber que algo se deu e ainda como é que isso se deu… incluindo nessa compreensão factos, nomes, acontecimentos, que vamos vivendo ao longo da nossa (mais ou menos breve) existência.

Ora, nesta aprendizagem há uma razoável diversidade de vivências que podem condicionar o nosso atuar presente, digamos que há ‘coisas’ – aqui incluímos uma variedade de situações (reais ou menos percetíveis) e de pessoas – que nos podem condicionar, na medida em que possam ter sido menos boas, senão mesmos desagradáveis ou até traumatizantes…

Neste sentido quando falamos em purificação da memória temos de entrar num outro campo da nossa vida em que fomos desafiados a aceitar – numa atitude de consciencialização – que no nosso quadro histórico pessoal ou familiar, social ou coletivo podem ter acontecido vivências que nos deixam um tanto com dificuldade em explicar totalmente o nosso comportamento…atual. Com efeito, há imagens, figuras e pessoas que nos podem fazer recordar algo que nos ferir ou magoou. Há, por vezes, odores e sensações que nos podem fazer lembrar algo que nos condiciona até a nossa reação, veja-se a possível aversão a uma comida ‘só’ pelo cheiro que ela nos pode trazer à memória! 

= Diante destes breves (e um tanto superficiais) aspetos como poderemos entender – no sentido mais psicológico-espiritual – a purificação da memória? Onde e como poderemos incluir a função religiosa neste processo de purificação da memória? Quais os aspetos da purificação da memória que têm implicações com o nosso desenvolvimento humano e de maturidade? Até onde poderá ir a nossa capacidade de enfrentamento das nossas condições psicológicas para conseguirmos uma melhor purificação da memória?

Desde logo todo este processo da purificação da memória é muito mais do que uma mera ação de psicologismo, mas antes uma fundamental assunção dos nossos próprios erros diante de Deus, para com os outros e até para connosco mesmos. À afirmação, tantas vezes proferida, de que ‘não tenho nada de que me arrepender’, temos de contrapor a humildade em assumir que erramos e que desses erros fazemos reconhecimento e até confissão. Com efeito, na nossa história há, por certo, muitas lacunas e falhas, diversas menos boas opções e até erros pessoais, familiares e sociais.

«Purificar a memória significa eliminar da consciência pessoal e coletiva todas as formas de ressentimento ou violência que a herança do passado aí tenha deixado, na base de um novo e rigoroso juízo histórico-teológico que funde um consequente e renovado comportamento moral. Isto acontece todas as vezes que se atribui a atos históricos passados uma diferente qualidade, comportando uma nova e diversa incidência no presente com vista ao crescimento da reconciliação, na verdade, na justiça e na caridade entre os seres humanos» (Comissão teológica internacional, ‘Memória e reconciliação’, ano 2000).

- Quantas vezes teremos de ser mais verdadeiros uns para com os outros para que possam ser ultrapassadas feridas e momentos de dissensão entre pessoas e famílias, entre povos e culturas, entre expressões religiosas e formas de comunicação.

- Quantas vezes precisaremos de olharmos mais ‘olhos-nos-olhos’ e à luz da aceitação dos nossos erros e pecados para prosseguirmos um caminho que se deseja de comunhão e em paz.

- Quantas vezes será através do perdão dado e recebido que poderemos construir uma sociedade mais fraterna, mais justa e mais solidária, aceitando-nos mutuamente e reconciliando-nos na caridade.

No mais profundo de nós mesmos todos estamos necessitados de perdão, de paz e de purificação!

    

António Sílvio Couto

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Inabilidade, paga-se…


Nos tempos mais recentes temos sido confrontados com uma razoável inabilidade – isto é, falta de capacidade, abrangendo a inteligência e/ou a esperteza – de vários intervenientes, tanto na área política como na vertente social e económica, incluindo ainda setores onde a decisão sobre as pessoas deixam muito a desejar… sobretudo nos resultados finais.

Veja-se o que tem sido feito na área das decisões políticas, onde os atores se têm tornado numa espécie de ‘notas de rodapé’, quando se deveriam ter assumido como título em matérias como a fiscalidade, as mudanças do IMI, as viagens pagas por empresas a governantes para ir ver o futebol, as trocas e devoluções dos gastos do Presidente da República…Os mais altos responsáveis na matéria estão ‘para banhos’ e fazem de conta que não é nada com eles, colocando figuras de segunda linha a ripostar às perguntas e às questões.

Não será que esta razoável inabilidade em enfrentar os problemas – grandes ou pequenos, mais visíveis ou escondidos, na capital ou no estrangeiro – reverterá contra os seus fautores? Ou será que as indicações das (pretensas) sondagens já permitem uma certa sobranceria de quem já ganhou sem jogar? Até onde irá, por outro lado, a incapacidade dos opositores em se apresentarem para ser alternativa credível? Bastará esperar que a geringonça encalhe – sabe-se lá quando ou qual a possível razão! – para que possam retomar o caminho do poder?  

= Os tempos não estão para cantilenas – para usar um termo dum político autarca retirado – e as coisas não se resolvem sem decisões. A economia está paralisada e nem mesmo os dados – sabe-se lá com que credibilidade – do desemprego animam as hostes. Apesar duma certa pacificação laboral, não podemos crer que tudo está bem por decreto, pois noutros locais tudo parece pacificado mas o som é de morte…

Podem vangloriar-se de não termos sido claramente castigados pela União Europeia, mas a fatura virá com um saldo bem mais amargo do que aquele que nos têm estado a vender a retalho. Será de pouca inteligência acreditar que na Europa nos levam a sério, pois o jeito para fazer contas certas não costuma ser apanágio dalgumas forças partidárias. Será mera coincidência que os três anteriores pedidos de ajuda – em 1977, em 1983 e em 2011 – às instâncias internacionais tenham ocorrido depois dos mesmos terem ocupado o poder? De facto, parece que não conseguimos aprender com as lições do passado…nem do mais recente, que tanto nos custou a suportar… depois de – assim pareceu – termos atingido um certo nível de vida à maneira europeia! 

= Não será preciso ser grande estratega nem tão pouco aprendiz de adivinho para percebermos que já estamos num plano inclinado que nos irá levar a novo resgate. De pouco adianta dizerem que não acontecerá, pois as promessas irreversíveis não poderão continuar a iludir os mais distraídos. Pode o povo – essa entidade tão celestial quão etérea – andar com mais dinheiro no bolso ou com o cartão mais recheado, mas bem depressa compreenderá que lhe têm andado a vender ilusões, muitas delas que serão pagas a peso de sacrifícios a curto e médio prazos.

O pior de tudo isto é que não se veem pessoas capazes e competentes para nos falarem verdade e de nos envolverem na solução dos problemas, pois cada qual se acha senhor da razão, mas sem categoria para ser credível na forma e no conteúdo. Uma grande parte ancora as suas ideias (ou serão ideais?) na Constituição da República, mas esquece-se que essa tal está cheia de tiques ideológicos dum tempo já ultrapassado e vencido nas mudanças com a ‘queda do muro de Berlim’… Agora vemos surgirem uns novos pregadores da bonomia do Estado – uns dizem-no social, outros apelidam-no de protetor e outros ainda de protecionista – desde que lhes cubra a carreira, os lucros e até o sucesso sem trabalho!

Para uns tantos a iniciativa privada – essa que paga impostos e faz crescer a economia real – surge-lhes como algo a abater, mas depois quem suportará tantos desmandos da governação… Os milhões de trabalhadores não-estatais merecem mais respeito e cuidado. Não pode uma pequena minoria – cerca de seiscentos e cinquenta mil – tornar o país refém dum futuro mais sereno… só porque se acham donos de direitos e desculpados de deveres! Basta de tanta inabilidade!         

 

António Sílvio Couto

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Rebeubeu, pardais ao ninho!

Esta expressão – ‘rebeubeu, pardais ao ninho’ – significa, em linguagem de frases idiomáticas, um grande alvoroço… mesmo que sem grande resultado, e, como os pardais, com muito chilrear e esvoaçar… à volta do ninho. Este adágio foi ainda título de um programa radiofónico na década de 80, sendo usada para exprimir a caraterização de algo ou alguém que faz muito barulho, mas cujo proveito não é grande coisa… nem para o próprio e muito menos para os outros!
= Neste tempo de silly season – isto é, época sem grandes notícias…em que as poucas que há são empoladas – o tema do aumento do IMI (imposto municipal sobre imóveis) parece configurar um bom exemplo da expressão: rebeubeu, pardais ao ninho! Com efeito, há coisas que, por serem um tanto caricatas, quase se tornam ridículas, como por exemplo: o custo da taxa pela exposição ao sol… Até há pouco tempo pensava-se que o sol ainda era gratuito, mas com estas ‘inovações’ fiscais ficamos a perceber que não é (nem vai ser) bem como tem sido até agora!
Numa espécie de jogada – a fórmula foi a de decreto do governo – o assunto do IMI não passou pelo parlamento, pois aí a geringonça tinha (tem) de se pronunciar e ver-se-ia, afinal, quem é amigo do povo ou quem enche a boca com a sua defesa, mas, na hora da verdade, alinha pela capitalização das autarquias e pela carga de impostos, o que quer significar austeridade ao menos para alguns…
Não será possível que, quem legisla, se aperceba das interpretações a que podem ser sujeitos? Não haverá capacidade de autocrítica para perceberem que nem tudo vale, mesmo que se possa quase tudo poder?
Já só falta criarem uma nova ordem de avaliação em impostos onde os mais altos em estatura – porque mais expostos ao sol e com melhor vista/visão – podem ser submetidos a outras taxas que os mais pequenos não conseguem por medirem menos na sua corporalidade!
Noutros países a massa corpórea (peso) já conta na hora de elaboração de contratos de seguros de saúde… Em breve estaremos sujeitos a certas arbitrariedades de quem quer ganhar dinheiro a todo o custo!  
= Vivemos num tempo em que esperteza duns tantos quase se esquece da inteligência dos outros. Com efeito, há argumentos que, quando usados, se invertidos, podem ser a desgraça de quem os utilizou. Será que as pessoas não cuidam de ver todas (e muitas mais) as implicações daquilo que dizem ou acusam nos seus adversários?
Neste afã de querer mostrar serviço, há situações que precisam de ser muito melhor calculadas, pois, na maior parte dos casos, encontramos episódios que, de tão caricatos, se podem tornar reveladores da ignorância de quem, tendo responsabilidade pública e decisória, precisa de ser mais ponderado, astuto e sério, tanto nas palavras como nos atos. 
= Já passaram umas décadas – meados dos anos 80 – quando surgiu uma publicação intitulada: …com paredes de vidro! Nesse ensaio literário, o chefe ao tempo procurava explicar certas objeções e refutar outras tantas acusações… em ordem a cativar novos simpatizantes e aderentes. Só que, ao final dessa mesma década, caiu o ‘muro de Berlim’ (1989) e os argumentos, então aduzidos, ruíram com facilidade… pelo menos para quem não perfilava tal ideologia.
Ao vermos as atitudes de certas figuras atualmente como que sentimos que há pessoas que não conseguiram interpretar os factos históricos do seu passado nem os do nosso presente coletivo. Fixaram-se numa leitura histórica tão envelhecida que, por muito que lhes tentem dizer outra coisas, ainda estão ancorados em clichés sociais e em muitas outras vivências ultrapassadas pela evolução histórica, social, económica e cultural. 
= ‘Rebeubeu, pardais ao ninho’… neste país à beira-mar plantado, em que é quase confrangedor vermos como nos querem entreter com questões de lana-caprina, distraindo-nos do essencial e levando-nos a perder tempo com futilidades feitas de acontecimentos… ocos, virtuais e vazios!   


António Sílvio Couto 



quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Como ‘donos disto tudo’!


Sem querermos concorrer com o programa televisivo com título idêntico – esse faz-de-conta que é humorístico e vai dando umas alfinetadas à discrição – poderemos incluir sob este epíteto alguns dos episódios da nossa vida coletiva… social, política, desportiva, económica e até religiosa…recente. 

= Que dizer da forma algo sobranceira com que certas figuras vieram clamar vitória pela não-sanção da União Europeia ao nosso país. Uns reclamavam que era sobre o desempenho do anterior executivo, que se estava a julgar, logo o que está em funções ficava com campo de regozijo pelas sanções não-desejadas, mas expetáveis. Se tivesse havido sanções o atual chefe do governo poderia continuar a dizer que os anteriores eram, afinal, incompetentes. Se não houve sanções ele perdeu um bom campo de batalha e vai ter de começar a governar, pois as recomendações dos comissários europeus querem ver mais serviço e menos desculpas.

Se passaram uma espécie de esponja sobre o sofrível trabalho feito pelos anteriores responsáveis da política económica, quem são os comentadores que acham que o vencedor é quem ocupa atualmente a cadeira do poder? Nem tudo vale quando se pretende colher frutos das dissensões partidárias interesseiras e flutuar ao sabor das invetivas do inquilino de Belém! Quando ele começar a ser verdadeiro ‘Presidente para todos’, as coisas vão mudar de figura. Basta de protagonismo em excesso!

Vimos certas figuras até do parlamento europeu a gritarem – de forma um tanto histérica – contra a capacidade dos que se ocuparam das lides políticas em terem poder de influência sobre os parceiros ideológicos na Europa. Ora, sabe-se agora que foram os simpatizantes políticos (isto é, da mesma área do anterior governo e não da do atual) na Comissão europeia quem tiveram poder e força para não deixarem que os outros comissários nos castigassem… Diga-se, em abono a verdade, que há pessoas que nos representam (ou deviam!) lá fora que preferem a derrota do país à vitória da sua ideologia… hoje como ontem!

Se a vitória das não-sanções foi tão favorável ao governo da geringonça porque é que o chefe do governo entregou as lides de se vangloriar a figuras de plano secundário e com ar ressabiado doutras atribuições governativas… recentemente malfazejas?

Estes ditos são mesmo ‘donos disto tudo’ e já levam no cortejo uns tantos… oportunistas e bem posicionados para tarefas de visibilidade, em breve. 

= Que dizer também do desempenho da economia. Tudo parece em paz e sossego. Nota-se que as contestações laborais estão paradas. Os sindicatos e afins são mesmo os ‘donos disto tudo’, pois conseguem azedar as relações entre as pessoas, desde que não sejam da sua simpatia… À exceção, por estes dias, da área da saúde tudo parece ter sido resolvido com algumas indicações dos diretórios mais ou menos fiéis aos partidos que agora se sentem a governar.

Transportes terrestes e marítimos, trabalhadores portuários e de navegação aérea, construção civil e autarquias – entre muitos da lista – estão sem fazerem ondas.

Não sabemos se o silêncio foi comprado com melhores salários ou se os aumentos revertidos conseguem tais milagres… duma paz há muito não vista.

Se dúvidas houvesse, podemos (quase) concluir que há uns tantos ‘donos disto tudo’ que conseguem calar a razão e nem o menos bom desempenho das exportações cria qualquer engulho em tanta serenidade. Desde que – à boa maneira romana – o povo tenha pão e jogos, muito do que era, há bem pouco tempo, essencial foi passado para outra prioridade.   

= Breves questões para outros ‘donos disto tudo’:

- O futebol clubístico vai reacender a conflitualidade? Os atritos sociais tornarão a ser desculpa para que uns se julguem melhores do que os outros? Teremos por mais tempo algo mais que nos una do que nos divida?

- Até onde irá a nossa pasmaceira sobre os atentados por essa Europa fora? Temos valores que possam vencer tais conflitos? Estaremos por quanto tempo resguardados de tudo isso?

- Com certos tiques de religiosidade poderemos construir um país mais humano, fraterno e solidário?  

 

António Sílvio Couto

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Censura às notícias…de atentados, já!


Dá a impressão que a proliferação de notícias sobre os mais recentes atentados – terroristas ou de atos de doentes psíquicos, sobretudo na França e na Alemanha – têm de ter uma outra forma de serem encarados, pois apresentá-los quase em direto permanente já deu para perceber que não é a melhor forma de precaver outros… casos e situações.

Num dos episódios – o de Munique, na Alemanha – houve mesmo uma filtragem das informações e alguma contensão nas imagens, sendo quase tudo controlado pelas forças policiais. Noutros casos foi aconselhado a que houvesse o mínimo de imagens… de tão agressivas que eram.

Poder-se-á dizer que está instalado o medo – essa arma tão feroz e contundente com que é fácil vencer os mais afoitos e/ou temerosos – entre as populações e nem a (pretensa) distância dos acontecimentos nos deixa alguma serenidade ou consolação.

Não podemos continuar a viver nesta intoxicação de alguns órgãos de comunicação ou atos individuais de ‘cidadãos mais atrevidos’ em que por tudo e por nada se está a difundir o que há de mais macabro ou funesto. Não podemos permitir que nos queiram vender uma certa exploração dos sentimentos mais suscetíveis da nossa contingência humana e social. Não podemos querer saber tudo como se vivêssemos num varandim – de casa ou do écran (televisivo, do computador ou do tlm) – por onde desfilam as misérias dos outros e nós as vemos como meros espetadores da sua desgraça! 

= As armas de fogo têm vindo a ser substituídas pelo fogo da perceção de que ninguém está, à partida, imune a que possa ser notícia – seja qual for a razão ou o local – pelas mais abjetas razões. Com efeito, a invasão da privacidade deixou de estar reduzida à periferia da vizinhança para se estender aonde alguém possa ter acesso à informação, particularmente àquela que possa melindrar ou até ofender os outros.

Cada vez mais são precisos critérios éticos para que nos possamos conduzir neste tempo do ‘vale tudo’. Se à comunicação social se pode e deve exigir que cumpra o código deontológico, aos muitos particulares que se armam em noticiadores não parece que se possa ter idêntica capacidade de conduta… senão a de haver regras, punições e valores, tanto dos intervenientes como das autoridades, se é que as há, de verdade. 

= No quadro da União Europeia temos urgência em que se criem e ponham a funcionar apertados critérios de difusão de notícias e imagens que possam não dar de vencida armas para aqueles que têm vindo a semear o medo, usando as mais díspares armas: de guerra, de atemorização, de condicionamento… feitas por grupos organizados ou por atos individuais… com motivações assumidas ou por gestos esporádicos… atingindo setores da sociedade, organizações públicas ou pessoas indefesas e sem relação com os objetivos presumidos… sejam quais forem as fronteiras ou até mesmo as culturas.

Estamos, hoje, mais do que no passado, todos indistintamente sob a mira de tantas forças que nos podem condicionar a vida e a sua expressão normal. Será, por isso, importante saber equilibrar a liberdade com a segurança, deixando que uma e outra não se excluam, mas antes se equilibrem para o bem-estar de todos. 

= Há uma censura que todos podemos exercer: a de não visionamento ou a de não-tomada de conhecimento das notícias que nos fazem estar em maior insegurança… interior e exterior. Isto não significa abstrair-se das coisas, mas antes tentar ainda viver nalgum equilíbrio para que não sejamos todos engolidos pela ferocidade do medo e da desconfiança uns nos outros e, possivelmente, de nós mesmos.

Parece ter chegado a hora de abandonarmos a acusação de que muitos destes acontecimentos de morte e de terror são só marca da religião, pois em muitos deles a religião é meramente um fait-divers e não uma razão essencial. Aos que ainda estão nessa leitura ideológica talvez devam refletir sobre as suas razões de vida e não tentem encontrar fantasmas do passado para exorcizarem seus paradigmas já ultrapassados na História e na Cultura.

Cuidemos do nosso futuro com atitudes de verdade no presente!

 

António Sílvio Couto



segunda-feira, 25 de julho de 2016

Num certo terrorismo à la carte!


Por estes dias – digamos nas duas últimas semanas – vivemos uma espécie de terrorismo à la carte, isto é, conforme cada um quer e deseja, prevê ou interpreta, vê e consente…

O facto mais revelador desta intentona terrorista foi servido na noite da passada sexta-feira, dia 22 de julho, com as arrojadas leituras sobre um tal ato tresloucado dum rapaz com dezoito anos e com vítimas – ainda não se sabe qual o verdadeiro enquadramento – ocasionais ou escolhidas.

Foi, no entanto, patético muito daquilo que foi dito e insinuado nos canais de televisão nacionais e estrangeiros, umas vezes tentando colar o acontecimento a fações terroristas internacionais e noutras vezes alinhando pela conspiração dos nacionalismos, sobretudo, xenófobos e de extrema-direita… excluindo outras colorações partidárias e ideológicas bem mais abespinhadas e contundentes nas palavras e nas ações… A quem tentam iludir: a eles mesmos ou a nós? A quem servem nas leituras pretensamente feitas: aos donos dos órgãos de informação ou ao público em geral? A quem estão ligados os noticiadores: aos que lhes pagam ou a quem precisa de ser informado com isenção e com maior independência?

Dá a impressão que, em muitos dos relatos e reportagens sobre os acontecimentos mais recentes, se nota uma capciosa intenção de quererem que, quem ouve, quem vê e quem lê, fique com o filtro distorcido de fações noticiosas e manipuladoras… ao perto e ao longe.

Ora, nem sequer a mortandade resultante do abalroamento em Nice (França) escapa à tentativa de nos quererem dizer que o autor estaria conotado com forças mais ou menos subterrâneas… Com efeito, a exploração doentia de tais acidentes revela que ainda vivemos numa fase insípida de evolução da humanidade, a qual parece que se compraz em ver sangue e em ser explorada nos sentimentos mais básicos da nossa condição de fragilidade e de contingência… Nem nas corridas de toiros se enfatiza tanto esse filão sanguinário e sádico! 

= Desde 11 de setembro de 2001, com o ataque às ‘torres gémeas’, em Nova Iorque, que temos vindo a assistir à radicalização de muitos atentados, desde Inglaterra a Espanha, em países africanos com proximidade ao Ocidente – tanto na bacia do Mediterrâneo como na África sul-sariana – ou passando por França – vários nos últimos dois anos – e Bélgica, no próximo e no médio Oriente, acrescentando na Turquia e nos países de influência do autodenominado Daesh, sem esquecermos os múltiplos atentados evitados ou sem publicidade… temos estado a viver numa cada vez maior insegurança de pessoas e de nações, de culturas e de religiões, de povos e de condutas em pretensa democracia ou roçando as ditaduras.

Efetivamente há quem tenha excluído Deus da vida de pessoas e de comunidades, mas que foram introduzindo cada vez mais medos, que manipulam e que servem a gosto, pois assim sabem que podem controlar os mais vulneráveis e suscetíveis de serem aliciados pela causa da ‘nova era’… numa pseudolibertação da religião, mas criando outros tentáculos mais aliciantes e aliciadores… no conteúdo e na forma. 

= Este terrorismo à la carte serve bem os intentos dos mais poderosos económica e financeiramente, pois sabem que as pessoas podem ser conquistadas pela boca, isto é, por aquilo que se lhes dá de comer ou que favorecem os prazeres epicuristas reinantes. Veja-se a forma subtil com que os festivais de comida e de bebida, de música e de recursos aos desejos mais libidinosos, de musicalidade e de danceteria, de religiosidades e de festivais… vão pululando país afora. Reparemos com que (aparente) normalidade é mais fácil conquistar pessoas para programas de diversão do que de religião… nalguns casos mais tradicional do que vivencial.

Nem tudo é uniforme ao longo do país, mas, em muitos casos, parece ser mais fácil cativar público para iniciativas onde os prazeres da carne – e não estamos a falar no conceito mais moralista do termo – são servidos e exercitados do que para momentos psicológicos e espirituais onde a dignidade humana possa acrescentar algo à condição terrena da nossa vivência mais normal e natural. Tal como noutras épocas parece que nem tudo o que se diz/faz corresponde à verdade… 

 

António Sílvio Couto