Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



segunda-feira, 4 de julho de 2016

Degradação (possível) das tatuagens


Numa espécie de fuga à vulgaridade da apresentação/exposição do corpo humano vamos vendo uma certa proliferação das tatuagens…nessa outra tentativa de fazer alguma ‘arte’ com sinais e interpretações que têm tanto de simbólico como de exotérico… ou até provocador e acintoso… ridículo e quase nojento.

Embora se pretenda ‘vender’ o recurso à tatuagem como algo ‘evoluído’ dentro duma tal cultura urbana, ela já tem mais de 3500 anos de aspiração a ser afirmação entre tribos e clãs e como fator distintivo de grupo…ontem como hoje!

Envolvendo e sendo envolvida na linguagem iniciática de certos setores em idade de puberdade e de juventude, o recurso às tatuagens foi sendo disseminado entre grupos de marinheiros (e mais amplificada nas hostes militares), entre presidiários e noutros sectores de regime fechado e grupal… não devendo ser esquecidas as marcas tatuadas nos prisioneiros nazis com tantas distinções aberrantes e racistas… Quem pensará nisto na hora de ir à loja tattoo mais próxima?

Digamos que certas modas e seus apetrechos têm tanto de fácil quanto de manipulado e incoerente com as implicações que tais iniciativas e gestos comportam!

São às dezenas as hipóteses de recurso às tatuagens – águia e âncora, aves e borboletas, bruxas e coroas, corações e corujas, cruzes e estrelas, diamantes e flores, gatos e leões, orquídeas e rosas, sois e tigres, religiosas e de dragões – e em cada uma e para todas há uma leitura que deve ser entendida e, sobretudo, explicada. 

= Já repararam que Cristiano Ronaldo – essa espécie de Adónis do século XXI – não ostenta qualquer tatuagem no (esbelto) corpo de atleta e de (quase) culturista? Será coincidência ou foi uma nítida opção… dele ou de quem conduz a sua ‘imagem’? O dito rapaz das favelas madeirenses é mais esperto do que os outros jogadores e ‘celebridades’ do mundo do futebol? Como terá ele aprendido a resguardar-se da moda das tatuagens? Será coincidência que seja dos corpos mais limpos das tatuagens… numa aprendizagem amadurecida e mais sensata?

Porque será que certos ‘atores’ – de ação cinematográfica ou de âmbito mais público – recorrem a este subterfúgio da tatuagem para se apresentarem nas lides de exposição publicitada? Foram induzidos no engano ou deixaram-se ir na onda… irreversível e (quase) inestética pela exposição do corpo humano? 

= Porque para um cristão nada pode ou deve escapar ao discernimento do significado daquilo que faz e de como se comporta, devemos enquadrar mais este fenómeno do recurso às tatuagens na linguagem bíblica e da sua interpretação. A marcação do número de pertença aos que são dos servidores da ‘besta’ faz a diferença dos assinalados com o sinal do Cordeiro… estes serão designados para a vitória no Reino final, enquanto aqueles que receberam o impacto do ferrete do inimigo, irão sofrer a derrota pela força do Santo sem marca nem distinção.

Quantos dos símbolos por agora difundidos – mesmo nas tatuagens mais vulgares – são uma espécie de culto ao ‘dragão’ (= inimigo do Cordeiro imolado) e seus adoradores.

Não temos dúvida que, uma grande parte dos tattoos da moda, são tendencialmente anticristãos. Muitos deles, de forma capciosa ou mais explícita, pretendem difundir uma cultura de neopaganismo, com muitos dos recursos numa luta sem quartel nem exército explícito contra a cultura cristã mais ou menos difusa… 

= Embora respeitemos essa ‘arte’ das tatuagens, não gostamos de ver uma razoável exploração da ignorância de tantos/as dos que recorrem a este expediente de neopaganismo camuflado e insidioso para com alguns mais novos e incautos… A quem serve esta difusão em degradação das tatuagens, muitas delas em sociedades (quase) ignorantes, mas cultivadoras duma certa moda popular e atraente?

Cuidemos com respeito da presença de Deus no nosso corpo… de batizados, agora e sempre!       

   

António Sílvio Couto 



sexta-feira, 1 de julho de 2016

Futebol, ópio do povo. Claro!


Após nova vitória sofrida da seleção nacional de futebol, no europeu da modalidade em França, dizia alguém ao lado: ‘é mais um ben-u-ron para o povo’! Querendo dizer que, por mais uns tempos (horas ou dias), o povo fica – teórica e momentaneamente – um pouco aliviado nas agruras da vida… até que volte a cair na realidade: dura, sofrida e continuada.

De facto, o futebol tem servido para atenuar a visão concreta dos problemas da vida, tais como a falta ou a redução do emprego, o custo de vida, as nuvens de castigo que se adivinham vindas das instâncias europeias, a competição entre economias, as dificuldades das famílias, as mazelas do serviço nacional de saúde, as magras reformas, os custos da segurança social, etc.

Sobretudo desde o início de junho passado, temos estado a viver uma espécie de narcotização coletiva – mais acentuada na proximidade aos jogos da equipa nacional – onde quase tudo gira em volta do futebol, com maior ou menor capacidade de vencer, mas sempre polarizados pela bola que corre e, sobretudo, que entra na baliza…

Mal ou bem o futebol tem servido os intentos coletivos de estarmos, por momentos, unidos por algo que faz uma imensa maioria acreditar que os sucessos dos nossos representantes poderão ser a solução para os problemas pessoais e familiares… Se bem que as multidões vibrem com os resultados, não faltam – como sempre – os ‘velhos do Restelo’ que vaticinam desgraças, mesmo que possa haver alguma coisa que contradiga tal posição. 

Efetiva e afetivamente o futebol é um jogo de massas, com muitas paixões e emoções, que tem funcionado quase sempre como alienador para tempos mais difíceis e conturbados. Isto mesmo tem sido, por estes dias, uma espécie de bolha flutuante para os nossos governantes – bastará ver o entusiasmo com que participam – dando-lhes algum alívio e distração para terem de enfrentar o que está prestes a desabar sobre o nosso futuro próximo.

Num tempo de rápida difusão noticiosa, cada vitória ou derrota pode converter-se numa onda positiva ou negativa de toda uma Nação – tanto no retângulo à beira-mar plantado como nos da diáspora – unidos por um hino, uma bandeira e uma seleção. Parece que o futebol – cíclica e rapidamente – tem feito mais pelos sinais coletivos de identificação do que todas as aulas de cidadania e o ensino do respeito pela nossa identidade nacional. Os ‘professores’ desta façanha não estudaram muito, mas são artistas da bola, ganhadores de fortunas e embaixadores pelo mundo fora da nossa portugalidade… Honra lhes seja prestada, mas não façamos como noutras ocasiões, tornando-os de bestiais em bestas demasiado depressa!

Mesmo que forma simples gostaria de perguntar: por onde pára a tal campanha do cantautor de óculos escuros? Foi um erro de casting a escolha e o estilo ou as pessoas perceberam que essa manobra era só ideológica? Duma coisa parece que não há dúvidas: o tema está esquecido e o famigerado promotor enterrado… mesmo com os sucessos da equipa!  

Em resumo: o futebol é uma arma que qualquer governante – em democracia como em ditadura – gosta de usar para distrair os seus concidadãos… instruídos ou não. Umas vezes é feita de forma explícita, noutras tacitamente é aceite e tolerado… Até quando?  

 

António Sílvio Couto



segunda-feira, 27 de junho de 2016

Microfone ao charco


Foi um episódio relacionado com o ‘europeu de futebol’ que tem estado a decorrer em França: o capitão da seleção portuguesa – sem mais nem quê – pega no microfone duma televisão e lanço-o ao lago… decorria um passeio – dizem – que de descontração e, sentindo-se importunado por uma pergunta – ao que parece não estava previsto que pudessem ser feitas – rapou do dito e água com ele…

Houve milhentas interpretações – lá como cá – sobre a atitude do jogador, nalguns casos os intérpretes eram mais juízes em causa própria do que pessoas de bom-senso e comedidas nas possíveis razões para tal ação tão intempestiva e talvez menos bem-educada.

Soube-se depois que, nas vésperas daquele episódio, o tal canal televisivo/jornal terá passado uma estória pouco abonatória da família do dito capitão… aliando isso a quezílias anteriores, tivemos aquele espetáculo pouco agradável e benéfico seja para quem for! 

= Por momentos quase será necessário perpassar outras situações onde certos jornaleiros – sim, porque os jornalistas não são nem devem ser aquilo que uns tantos e outras mais fazem daquilo que devia ser uma profissão com ética e respeito por todos – se comportam de forma menos consentânea com os direitos, liberdades e garantias de todos os cidadãos… de forma igual e com idêntico trato de educação.

Recordo um momento em que (ao tempo patriarca de Lisboa), D. José Policarpo respondeu a uma jornalista: ó menina, isso é pergunta que se faça? Com efeito, certos ‘pés de microfone’ são pouco respeitadores das pessoas e inconvenientes nas situações em que elas se encontram. De facto, terá algum sentido perguntar a alguém que está a viver um momento de tristeza ou de tragédia: como é que se sente? Até onde poderá ir a capacidade de informar e/ou de incomodar? 

= Como se nem tudo se pode dizer também nem tudo se deve perguntar. Cremos que se todos tivéssemos presente esta perspetiva não andaríamos por aí a escarafunchar a vida alheia nem certas publicações e emissões televisivas ou de redes sociais seriam tanto como são: esse espaço de desonra ou de bisbilhotice da vida dos outros. Não há desculpa alguma para que tenhamos de ser continuamente provocados por pessoas cujas vida é tão banal que só têm visibilidade se disserem mal dos outros ou se inventarem ‘casos’ e ‘situações’ onde os outros são ofendidos no seu bom nome e honra… e – pior – não se podem defender, pois não têm as armas que são usadas contra eles. 

= Há, de verdade, momentos em que atirar o microfone ao charco poderá ser a melhor forma de calar certas vozes e de submeter certas opiniões àquilo que são: lixo informativo e manipulação abusiva, indecente e vendida. Ouvimos com alguma estranheza uma ‘senhora jornaleira’ num canal português a opinar sobre as eleições em Espanha sobre os resultados – falava quando só tinham saído sondagens – do ‘Podemos’, argumentando que o voto nesta mescla partidária era a manifestação do voto de eleitores cultos, esclarecidos e comprometidos… Ora, decorridas umas breves horas a altissonante opinião foi contrariada pelos reais resultados, pois os ditos perderam votos e deputados e não creio que, quem neles não votou, seja menos culto, menor de esclarecimento e talvez menos bem informado para com os destinos que quer para o seu país. A quem interessa promover, assim, pessoas com visões tão ‘progressistas’? Será que estava a ler pela cartilha dalgum grupo à portuguesa? É bom que dispam a capa ideológica, quando emitem notícias!

É perigoso que andemos a fazer esta figura de ‘intelectuais’ só num dos lados da barricada, julgando com a sua esperteza sem contar com a inteligência dos outros! Honestidade e ética a quanto obrigarias! 

= Outro setor onde o microfone devia ser atirado para a lama mais mal cheirosa é quando se ouvem as opiniões no mundo do desporto e do futebol em particular. Nota-se uma clubite tal que se torna abjeto escutar certos figurões. Isto é tanto mais grave quando vemos pessoas com instrução – mas pelas posições e palavras usadas denotam pouca educação e senso! – a descerem ao nível das tabernas mais esconsas dalgum lugar tenebroso… É tempo de dizer basta a quem não respeita a capacidade reflexiva dos outros!    

António Sílvio Couto




segunda-feira, 20 de junho de 2016

Dói muito?


Por ocasião do falecimento de alguém, que nos é querido, ouvimos palavras e frases que nos fazem pensar e refletir… sobre nós mesmos e em relação aos outros.

No dia seguinte ao sepultamento recente de minha mãe, o meu irmão mais novo chegou a casa e referiu a pergunta – dói muito? – que um vizinho lhe tinha feito minutos antes. Este tem os pais octogenários e que sentiram a partida, quase rápida e inesperada de minha mãe… parecendo desta forma estar a preparar-se para o golpe duplo que, em breve, irá vivenciar.

Com efeito, na nossa vida vamos tendo experiências que nos ajudam a amadurecer na existência e a aquilatar do valor da nossa fé. Por vezes, sinto que a fé (enquanto dom e virtude) não é grande coisa, mas é em momentos como este que ela ganha mais sentido e valor… não para levar à alienação, mas para nos confortar nas dimensões mais profundas daquilo que somos – e é muito pouco – e do que valemos – que é ainda menos – enquanto peregrinamos sob esta Terra.

Apesar de ter ficado órfão de pai, fez este ano já quarenta anos, a perda da mãe é mais uma provação que dói e custa muito… psicológica e até espiritualmente. 

= Cada um de nós vive e reage à sua maneira em momentos mais ou menos difíceis de enquadrar na nossa peregrinação humana e espiritual. Neste sentido a fé cristã aponta-nos horizontes que nos podem ajudar a ‘compreender’ o mistério da vida, onde a morte é certeza imprevisível. Se há aspetos que podemos antecipar, muitos outros serão irremediavelmente inesperados. Porque é a negação da vida – e nós somos seres para a vida – a morte carrega a penumbra do silêncio e do silenciamento. Com efeito, ver prostrado no caixão alguém com quem falamos, com quem convivemos ou de quem escutamos algo que nos alimentou na vida, é, sobretudo, o reconhecimento máximo da fragilidade e faz-nos humilhar na nossa fragilização… Isto dói física, psicológica, emocional e espiritualmente…

. Quantas vezes as lágrimas – nossas e dos outros – lavam a alma da amargura que percorre o nosso interior, quase vazio e cheio de interrogações.

. Quantas vezes as palavras ouvidas e ditas soam a ricochete de correção para com a atenção nem sempre dada de uns para com os outros.

. Quantas vezes é preferível mais estar calado do que verbalizar seja o que for, pois na disponibilidade à escuta se pode exercitar a interpretação do nosso mistério… seja qual for a etapa de vida pessoal ou de quem faleceu. 

= É recorrente afirmar-se que, se pensássemos mais na morte, saberíamos melhor conduzir-nos na vida. Sim, é verdade. Pois, será quando vemos fragilidade daquilo que somos – e os outros no-lo recordam pela sua passagem – que podemos entender, um tanto melhor, aquilo que valorizamos, verdadeiramente. Não será de questionar a nossa capacidade de perdão, quando nos nivelamos pela morte vivida e a viver? Não será que muito daquilo que acentuamos na diferença, caduca na hora da morte? De que adianta andarmos a torturar-nos uns aos outros, com zangas e afrontas, se tudo passa e nada deixamos…por mais valor que julgamos ser ou pelos valores que pretendamos ter?

Tal como repetidas vezes o Papa Francisco tem dito: a mortalha não tem bolsos nem nos seguem carros de segurança… com os valores económicos, no funeral.

Apesar da minha pouca fé, vejo que ainda há muitos cristãos – talvez sejam tão católicos/as que ultrapassam os parâmetros da canonização…em vida – para os quais a morte não amolece as resistências à compreensão fraterna e à reconciliação… mesmo humana e eclesial.

E se as flores que entregamos em honra dos falecidos pudessem ser trocadas por boas obras de paz e de reconciliação!

E se as manifestações de carinho e de amizade pudessem ser cultivadas como a melhor herança de quem partiu!

E se todos nos colocássemos – mesmo por breves momentos – no lugar do falecido/a, não seríamos mais humildes e sinceros?

 

António Sílvio Couto 

sábado, 18 de junho de 2016

Coisas duma banca…desgovernada


Já desde a crise de 2008 que temos vindo – tanto por cá como pelo resto do mundo – a verificar muitos e díspares problemas que têm atingido o setor bancário, desde a gestão até à condução de fundos, passando pelos riscos e erros, confusões e acusações, privatizações ou nacionalizações… onde muitos perderam quase tudo e poucos foram responsabilizados pelo que fizeram de menos bom, de mau ou de (possivelmente) criminoso.

Para nos cingirmos à nossa realidade lusa, não houve nenhum governo nestes últimos oito a dez anos que não tenha tido o ’seu banco-problema’, umas vezes assumida e rapidamente aceite, outras vezes só após longo tempo de fuga à responsabilização, tanto política como economicamente. Há casos que se têm vindo a arrastar tanto na justiça que uma grande parte dos factos (quase) vão prescrevendo. Noutras situações a embrulhada é tal que – publica e notoriamente – se vão confundindo os papéis de acusados e acusadores, de réus e vítimas, de beneficiados e de lesados… num corrupio de encenações dignas de algum filme de terror e não de entretenimento. 

= O que mais custa a aceitar é que os conluios político-partidários vão sentindo que têm espaço de manobra para todo este espetáculo degradante, pois o labéu sobre um qualquer executivo anterior pode muito bem ser encarnado pelas recriminações sobre a má gestão de algum banco, desde que se possa encontrar por lá, direta ou indiretamente, alguém do partido – ou fação deste – que se opõe a quem acusa…

Vemos, entretanto, surgirem mais e mais nuvens de desconfiança entre os diversos depositantes (privados ou associações), para com os gestores das instituições bancárias e quase que envolvendo os funcionários de cada balcão… Depois de muitos dos lesados terem trazido para a praça pública o logro em que foram enganados, como que cresce a principal razão pela qual se investem as economias – em tantos casos de toda uma vida – neste e não naquele banco: a confiança nas pessoas e naquilo que elas representam. Nota-se uma crescente apreensão sobre o que nos querem vender, quando nos pretendem comprar o nosso dinheiro por um certo valor. Funcionários e clientes como que rompem essa ténue ligação mais básica da conduta humana: acreditar que não nos enganam nem queremos enganar. 

= Vislumbram-se, por outro lado, sinais inquietantes sobre a nossa (sempre) frágil economia, onde o sistema bancário foi passando de motor de desenvolvimento a ‘elo mais fraco’ de empresas e mesmo de pessoas individuais. Cresce, então, toda uma espécie de degradação e de desacreditação político-ideológica, onde emergem certas garras de forças (pretensamente) anticapitalistas, aliadas a interesses corporativos de incrementação dum coletivismo ressabiado e onde as renacionalizações lançam tentáculos em ordem a manterem o monopólio do Estado e à neocoletivização da economia…

Temos visto, ouvido e lido que alguns dos que foram derrotados noutras latitudes – sobretudo na Europa de Leste e na América Latina – parece que encontrar no nosso país o lastro suficiente e capaz de ensaiar reclamações para com a UE – menosprezando até as lições recentes dos gregos – e auspiciando contestar o mais possível nem que para isso seja preciso aniquilar o modelo que lhes permite reivindicar e afundar aquilo que os alimenta e suporta… 

= Não deixa de ser ofensivo e preocupante que seja o povo – contribuinte e trabalhador, anónimo e empreendedor – quem sempre paga a fatura da má-sorte, pois se algo correr mal são os mesmos a serem sacrificados e espoliados, mas se algo possa correr melhor (ou menos mal) a repercussão dos benefícios leva muito tempo a ser recebida na base popular… emergindo no topo dos quadros reinantes.

De pouco importa dizerem que não iremos ser novamente chamados a mais e mais austeridade, se as situações continuarem a caírem em catadupa no moinho acelerado que tritura os grãos ritmados na grande mó da exigência e do rigor… na Europa que tutela tudo isto.

A banca tem sido o retrato mais aproximado da realidade do país: vivemos acima das nossas possibilidades e não conseguimos converter a prosápia de ricos e aprendizagens de contenção e verdade. Basta de mentira!       

 

António Sílvio Couto




terça-feira, 14 de junho de 2016

Nova vaga de frenologia…à portuguesa?


Frenologia foi uma ‘ciência’ que pretendia ser capaz de determinar o caráter, as caraterísticas de personalidade e até algum grau de criminalidade pela forma da cabeça.

Teve grande importância no século XIX, mas que agora está desacreditada e considerada uma pseudociência. Em certos momentos da história até serviu para decretar uma espécie de eugenia, isto é, da seleção dos melhores para a purificação da raça.

Os princípios da frenologia eram que o cérebro é o órgão da mente e essa mente teria um jogo de diferentes faculdades mentais e de comportamento, sendo que cada sentido em particular tem a sua representação numa parte diferente do cérebro… 

= Por ocasião da primeira república, em Portugal, houve tentativas duma espécie de frenologia, colocando sob suspeita, a partir da medida da cabeça e da respetiva análise, os que a tal pretenso método eram submetidos. Não foram só os doentes do foro psiquiátrico que tiveram esse tratamento, mas também alguns setores religiosos como que tiveram de estar mais ou menos sob inquérito… sendo colocados muitos deles numa quase subalternização e menosprezo.

Nem sempre se fala da condução desta ‘ciência’ como eivada com propósitos menos humanos, mas, pelas leituras da história do século passado, podemos ver muita mais gente do que parece a alicerçar as suas motivações sociais pela frenologia tácita ou declarada. Vejamos os vários ‘ismos’ a que estivemos submetidos em vários momentos e partes da Europa. Não terão sido tentativas – mesmo que capciosas – de colocar em prática o acento nas leituras de caráter e de personalidade eivadas de preconceito ideológico… desde que fosse diferente de quem reinava? Porventura os sinais de perseguição em certas matérias não poderão andar associados a uma certa frenologia mais ou menos incipiente? 

= Agora que estamos na terceira república parece que têm vindo a ser ressuscitados certos fantasmas que vigoraram na primeira república. Atendamos, mesmo que de forma breve, ao que temos visto na área da educação nos tempos mais recentes. Parece que, quem não seja pela escola estatal, tem de ser submetido a algum exame de teor patológico, pois não será de igual inteligência com quem seja acérrimo defensor da dita estatização do ensino/aprendizagem. Parece que pouco mais falta de que venham medir a cabeça – caraterísticas, aptidões ou personalidade – dos que não tenham sido formados exclusivamente pela ‘escola pública’…

Dá até a impressão que certos gurus da primeira república – estudiosos, historiadores e militantes de forças antirreligiosas – que influenciam o pensamento dalguns governantes estão a marcar o ritmo de quem depois decide. Dá a impressão que algum eugenismo intelectual perpassa pela programação dos estudos nas escolas básicas e secundárias. Nota-se uma tentativa de condicionar – para já de forma económica – a liberdade de ensino e de escolha que os pais possam ter para com os seus filhos, pois estes são como que nacionalizados na forma e, em breve, no conteúdo. 

= Perante tais sinais urge, antes de mais, denunciar as tentativas com querer reduzir ao silencia os que pensam de forma diferente e que não seguem pela mesma cartilha… maioritária. É preciso refletir com maior consistência sobre as razões da nossa liberdade e não tanto andarmos a reagir só quando nos atingem ou atacam… mesmo que de soslaio.

Porque há valores que são inegociáveis, temos de unir-nos para que não se ande ao sabor dos ditames de maiorias políticas circunstanciais. Porque não é com chavões ou frases-feitas que se resolvem os problemas essenciais, precisamos de saber com quem contamos não só na hora da vitória, mas também nos momentos de insucesso.      

Algum otimismo é bom e salutar, mas continuar a insistir nele como ilusão, só engana o próprio e os outros… E de mentiras já estamos todos mais do que cheios. Queira Deus que saibamos aprender com as lições do passado!   

António Sílvio Couto




terça-feira, 7 de junho de 2016

14 acidentes (rodoviários) por hora…


São dados dos primeiros cinco meses deste ano – de 1 de janeiro a 31 de maio – houve 52 mil acidentes rodoviários… que em análise com resultados do mesmo tempo, no ano passado, corresponde a mais 3.400 acidentes, embora tenha diminuído o número de vítimas mortais, num total, este ano, de 159 mortos.

Se fizermos as contas poderemos concluir que aquele número inicial de ‘casos’ – 52 mil – poderá dar-nos: cerca de 340 acidentes por dia e consequentemente mais ou menos catorze situações de acidente (colisão, despiste, atropelamento, ferimentos, etc.) na estrada por hora… em qualquer parte do país e envolvendo alguém que possa andar na estrada como condutor ou até como peão. 

= Embora a ‘guerra’ da estrada tenha vindo a diminuir ainda podemos constatar uma espécie de drama que faz de cada viagem – mais longa ou mais breve – uma espécie de odisseia sobre rodas, tendo em contas as contingências de cada um dos condutores e da situação das vias.

Nota-se uma crescente consciência dos perigos de andarmos na batalha de cada dia e seja lá qual for a regularidade com que conduzimos algum veículo, bem como o seu estado de conservação e mesmo de inspeção. 

= Por estes dias teve início uma nova forma de controlo/vigilância dos condutores – muito para além do seu estado físico e psicológico – com a implementação da dita ‘carta por pontos’ – doze no total e com a possibilidade de somar mais três se não se verificarem anomalias decorridos três anos – sendo registadas as infrações e diminuídos os pontos até se obrigatório um novo exame de condução…

Poder-se-á dizer que as contraordenações ao código da estrada – atinentes à nova fórmula da ‘carta por pontos’ – incluem erros básicos e elementares: excessos de velocidade, condução sob o efeito de matérias estupefacientes, como o álcool e substâncias psicotrópicas, ultrapassagens antes ou nas passagens para peões e velocípedes… envolvendo infrações graves (com a retirada em média de dois pontos em cada uma delas) ou muito graves (com a substração de quatro a cinco pontos), conjugando as multas (coimas) e a possível inibição imediata de conduzir…

Antes de entrar em vigor este novo sistema de controlo sobre os condutores – mais uma vez – certa comunicação social quis fazer dos portugueses e dos condutores em particular uma espécie de entes desprovidos do mínimo de inteligência e quase incapazes de nos sabermos adaptar às mudanças… tendo-se socorrido de exemplos de outros países onde o assunto é tão simples e benéfico para a paz nas estradas… mas só nós é que parecemos mais uma espécie de australopitecos – isto é, pessoas sem evolução e diminuídas na compreensão – em fase lusitana retardada… De facto, já vimos estas cenas em episódios anteriores e com situações tão básicas que mais uma vez dá pejo ser assim tratado por quem se julga mais esperto, pois de inteligentes estamos falados! 

= Deixamos breves questões sobre alguns dos aspetos considerados:

- Não teremos de aprender a ser educados antes de irmos para a estrada para que os acidentes sejam prevenidos e não meramente tolerados?

- Não teremos de saber conjugar muito melhor a aprendizagem do respeito do que termos de conviver com a repressão e as multas?

- Até onde poderá ir a ação fiscalizadora e que seja mais do que uma caça à multa e à infração?

- Com os números da ‘guerra civil na estrada’ poderemos andar sossegados e em segurança?

- Será ainda fiável andar na estrada sem temermos novas formas de ‘terrorismo’ exibicionista de novos-ricos – onde o carrão é prolongamento psicológico freudiano – sem regras nem princípios?

- Para quando a introdução – em igualdade de circunstâncias, em caso de infração – sobre o uso do telemóvel e do fumar a conduzir?

É urgente mudar o comportamento ao volante, sem que o medo da multa (e as respetivas coimas) possa ser agravante da boa cidadania e salutar convivência.       

 

António Sílvio Couto