Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



terça-feira, 5 de abril de 2016

O sentido das setas


Todos os partidos políticos têm símbolos que falam de si mesmos, tanto para os seus militantes como na relação com os seus adversários. Se bem elaborados na forma e no conteúdo devem ter significado mesmo ideológico e até as cores escolhidas têm carga e caraterizam os seus seguidores, adeptos ou simpatizantes.

Tem havido casos – dignos de estudo e de aprofundamento da identidade – que introduzem modificações ou até transformações que, na maior parte das vezes, correm mal aos ‘fautores’ de ocasião ou de arribação…

Independentemente da afinidade ou repulsa – tendo em conta o mais recente congresso (36.º) – será que as pessoas identificam o significado das setas do partido social-democrata? Por que razão tem aquela coloração a bandeira e qual o objetivo das três setas – mais ou menos constantes – na história de quatro décadas de existência? A que se deve a diferença com outras forças do nosso espetro partidário-ideológico?  

= Por uma questão de princípio fique claro que nada me move de exclusiva simpatia ou de qualquer aversão para com este partido… até porque gostaria de voltar a este tema com outras agremiações, que merecem ser esmiuçadas e aferidas ao que são, àquilo que fazem e, sobretudo, ao modo como se conduzem… agora que – segundo consta, ao menos na teoria – estamos numa fase de reflexão urgente de tudo e de todos… tentando salvaguardar o que ainda resta de democracia…nacional e/ou europeia. Sem sabermos quem somos, poderá ser mais fácil estar ao sabor da manipulação e de tantos tentáculos de ditadura, tenha ela a cor que tiver ou lhe convier!

 = A cor de laranja é uma cor quente matizada de entre as cores mais fortes – sobretudo o vermelho – de outros partidos no espectro mais à esquerda ideológica, de luta, de confronto e com meios mais interventivos pela força entre as classes sociais, laborais e económicas. A cor laranja tornou-se, assim, uma espécie de referência à social-democracia já vigente noutros países, particularmente, europeus.

As três setas – preta, vermelha e branca – fazem referência aos valores da social-democracia de liberdade, igualdade e solidariedade, envolvendo: a cor preta os movimentos libertários do século passado; a cor vermelha as lutas de classes trabalhadoras e dos seus movimentos de massas, enquanto a cor branca é uma referência aos valores humanistas, consubstanciados no personalismo, nalguns casos de influência cristã… Tudo rumo a uma sociedade nova, onde haja e possa haver justiça e liberdade das pessoas e das instituições.

 = Se as setas nos apontam caminho, como não poderemos sentir que algo que tem andado desorientado neste país, muitas das vezes acolhendo mais as promessas que são feitas ao estômago e menos à capacidade de inteligência e de emotividade. Se quiséssemos parafrasear um livro de Camilo Castelo Branco – ‘Coração, cabeça e estômago’, de 1862 – há mais interesse em exaltar o que se come com maior ou menor gosto e sabor – mesmo que nem sempre alimente – do que aquilo que faz ter sentido de vida, que obriga a pensar, questionando-se e desafia a olhar muito mais para a frente e menos para o presente, que depressa é expelido em lixo e estrume!

 = O sentido das setas – servimo-nos por agora das do símbolo gráfico deste partido, mas haveremos de ver, muito em breve, a tendência das mãos, abertas ou cerradas, egoístas ou em agressividade – obriga-nos a fazer um forte exame de consciência sobre tantos dos nossos servidores da vida pública – partidária, autárquica, associativa ou mesmo em contexto de fés e de igrejas – que, atendendo aos percursos realizados, pouco trarão, se continuarem nesta atitude individualista, de benfazejo à nossa sociedade…tão precisada de gente que faça do serviço altruísta algo mais do que uma bandeira de circunstância ou para aparecer nas fotos da comunicação social de serviço.

Apesar de sermos descendentes dos que ficaram – quais ‘velhos do Restelo’ – quando outros foram descobrir novos mundos, ainda acreditamos que as setas – aquelas ou outras – apontam para o alto, para mais longe e, sobretudo, para maior dádiva de vida e de ideais.

 

António Sílvio Couto

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Que felicidade entre os adolescentes?



Um estudo de âmbito mundial, envolvendo mais de 200 mil jovens, em 42 países da Europa e da América do Norte, revela que o fumo, o álcool, questões de saúde (obesidade e excesso de peso), problemas de desigualdade em razão do sexo… são questões de teor geral, enquanto nos rapazes se nota alguma propensão para brigas e consequentes lesões e nas raparigas revela-se alguma tendência a começarem a beber e a fumar cada vez mais cedo…

Embora estes estudos sejam algo generalistas, neles podemos encontrar aspetos e vertentes que revelam por onde anda o nosso futuro humano e cultural, na medida em que se está a semear o que muito em breve dará os seus frutos. Também é digno de ser referido que aquilo que se semeia é feito por quem hoje faz a escolha das sementes, bem como quem seleciona aquilo que se querer colher, tendo ainda em conta o modo como se prepara o terreno para que seja arroteado…

De facto, em muitas situações dos nossos dias – especialmente vemo-lo no nosso país – quem está em crise e à deriva são os adultos, muitos deles que eram adolescentes à ocasião da revolução do 25 de abril. Com efeito, alguma confusão moral – dir-se-ia quase duma certa amoral – foi semeado nesse tempo, trazendo hoje aos filhos e mesmo aos netos alguma perplexidade naquilo que tem de mais básico, isto é, nas questões dos valores e dos critérios de vida. Veja-se o trato dos problemas relacionados com a sexualidade, os temas da ética, as questões (pretensamente) fraturantes de género e de educação, de direitos, de liberdades e de garantias pessoais ou sociais, de assuntos laborais e políticos, etc.

Nestas situações tão diversas o que temos vindo a constatar é o desinteresse, a desmotivação e algum desleixo dos mais velhos, que se propagam – quase visceralmente – aos mais novos e que deixam em perigo o futuro da sociedade, enquanto corpo orgânico, estruturado e organizado, onde todos devem sentir os outros e interessarem-se, genuinamente, por eles. 

= Nota-se, no entanto, em quase todos os estudos e inquéritos, que se evita a abordagem ao tema da espiritualidade, ficando, na maior parte dos casos, reduzida a pessoa humana a elementos de natureza mais física e, nalgumas exceções, com breves resquícios de âmbito psicológico-emocional. Parece que há, por parte de alguns sectores intelectuais e (ditos) culturais, algum receio em tocar, mesmo que levemente, na dimensão mais específica humana: a sua espiritualidade. Embora haja quem considere que a vertente espiritual é, mesmo em caso de doença, um dos fatores de mais-valia para a enfrentar, aceitar e recuperar, há ainda correntes que se recusam, claramente, incluir na terapia da saúde a condição de espiritualidade da pessoa e da sua envolvência, familiar, hospitalar ou de sociedade… mesmo da Igreja!  

= Perante estas considerações e, tendo em conta, os dados do estudo supra citado, talvez seja urgente que saibamos investir na educação participativa dos adolescentes, tendo em conta as aspirações humanas, emocionais e espirituais, sem deixar de cuidar dos aspetos mais relevantes da sua construção na sociedade, que será deles a muito curto prazo.

. Não podemos continuar a deixar só à escola a educação para os valores éticos dos nossos adolescentes. Eles precisam de ser estimulados naquilo que têm de mais genuíno: o sonho de algo melhor, onde sejam intervenientes conscientes, ativos e criativos.

. Não podemos deixar que a sua felicidade (ou a mostra dela) se meça pela exibição de coisas (tlm, roupa, calçado, adereços e arrebiques), que causam ‘boa impressão’ nos outros, mas teremos de tentar cativá-los para ações em favor dos outros… e como são capazes, quando bem ajudados e orientados.

. Precisamos de lançar a semente de Deus nos nossos adolescentes, dando-lhes oportunidades de se fazerem um tanto felizes sem terem de chafurdar nos vícios e nas experiências que deixam marcas para o resto da vida… direta ou indiretamente.

Numa palavra: temos de ser pacientes para com os adolescentes, como outros o foram – à sua maneira – para connosco, quando fomos também adolescentes. Adultos amadurecidos, precisam-se!   
 

António Sílvio Couto



terça-feira, 22 de março de 2016

Páscoa – celebrar ou gozar a Vida?


Dizem os noticiadores – isto é, os que fazem e fornecem as notícias, que é muito mais do que os factos reais – que os hotéis da capital e do norte do país estão esgotados para as ‘férias da Páscoa’… com nacionais e estrangeiros, numa simbiose de interesses e de sucessos.

Sobre este fenómeno crescente de ‘férias’ por ocasião da Páscoa, poderemos elencar algumas questões: isto significa que se está a criar uma nova onda de recuperação económica ou está-se a lançar mais um estado de descontração psicológica? Tenta-se arranjar distrações humanas e ‘culturais’ ou divergem-se as fontes de ocupação do tempo, quando Deus pode não ter espaço nem oportunidade? Estar-se-á a fazer uma cultura sem culto ou a gerir um culto à revelia duma certa cultura cristã?

Num mundo algo atemorizado com manifestações de terrorismo em várias latitudes e confrontos, este nosso país ainda vai usufruindo dalguma pacatez, servindo quase de alternativa a outros destinos mais apetecíveis, mas, por agora, perigosos. Até a confusão político-social do Brasil se conjuga para que as nossas terras sirvam de refúgio para os mais acautelados…

Dizem que os mais díspares espaços de lazer (com praias incluídas) estão preenchidos quase na totalidade, tanto dentro como fora do país… Parece que não há crise nem as contenções mínimas têm lugar para uma razoável maioria… de cidadãos normais.

= Certamente todos sabemos como se calcula a data da celebração da Páscoa, em contexto católico! Recordamos: ocorre no primeiro domingo depois da lua cheia após o equinócio da primavera (no hemisfério norte)…tendo como data mínima o dia 22 de março e como máxima o dia 25 de abril. Por isso, se verifica a variação e as contingências climatéricas, aliadas às razões mais ou menos espirituais, sociais, culturais e/ou circunstâncias de cada lugar ou em cada tempo.

Com que facilidade vemos surgirem simbologias que se referem à vida, como os ovos (pintados ou com outros adereços e significações), pululam coelhos…numa representação da vida nova e da fertilidade. Outros símbolos configuram uma leitura mais religiosa, como o cordeiro – numa alusão ao ‘cordeiro pascal’ da páscoa judaica – e até como elemento de culinária; também as velas – círio pascal ou velas batismais – nos fornecem elementos de reflexão e com conteúdo espiritual… Até mesmos as doçarias têm algo a ver com a festa e a confraternização humana… Poderemos ainda incluir na lista de símbolos pascais, com incidência mais cristã, a cruz – sobretudo florida, sinal de amor e de ressurreição – pão e vinho, bem como outros sinais de conteúdo cristão e católico em particular…

= Por agora vamos sentindo uma nota de algum afastamento das pessoas (ditas) praticantes da sua fé, sobretudo, em contexto de vida paroquial mais ou menos habitual. Por estes dias um senhor bispo até referiu que a páscoa não se pode reduzir a amêndoas e folares!...

Tudo isto soaria a prevenção, se as pessoas escutassem as advertências, mas como uma parte significativa vive ao seu ritmo religioso, escutando mais as memórias de experiências passadas do que se deixa conduzir pelo compromisso de vida cristã comunitária, vemos esvaziarem-se as paróquias, escoarem-se os mais novos, inventarem-se ocupações e diversões… para estes dias, que deveriam ser fundamentais para celebração da Vida em Cristo na Igreja.    

Deixamos, por isso, algumas inquietações sobre se a celebração da Páscoa, este ano em particular, é para celebrar a Vida – a de Jesus por nós e a nossa de uns pelos outros – ou se preferimos gozar a vida, mais como vidinha imediata e hedonista – mesmo que nos fervores religiosos mais ou menos individuais e talvez egoístas – que vai dando sinais complicados e delicados.

E, se de repente, tivéssemos de mudar os nossos projetos pessoais, se algo de grave acontecesse, como uma calamidade, um atentado terrorista, um acidente, uma doença… Talvez ao vermos isso ao perto ou ao longe tenhamos de questionar-nos muito mais do que, habitualmente, fazemos.

Celebrar a Páscoa é, essencialmente, celebrar a vida como dom e como mistério!

 
António Sílvio Couto


segunda-feira, 21 de março de 2016

Celebrar a Páscoa




Ao entrarmos na Semana Santa – a ‘semana maior’ como é designada nalgumas situações e liturgias – podemos e devemos deixar-nos iluminar pela luz da meta, isto é, a Páscoa da Ressurreição, que o tríduo pascal nos ajuda a viver, aprofundar e celebrar… comunitariamente.

. O que é, então, celebrar a Páscoa, numa vivência preparada pela Quaresma e prosseguida no eterno Tempo Pascal?

. Com que sinais podemos e devemos celebrar, neste ‘ano jubilar da misericórdia’, a verdadeira Páscoa da Ressurreição de Jesus e nossa?

. Os ‘aleluias’ – e nalgumas regiões o estralejar dos foguetes e campainhas – festivos da Páscoa significam, verdadeiramente, essa explosão de alegria com que vivemos pessoal e comunitariamente a Páscoa do Senhor?

. Com tantas sugestões exteriores – sociais e de lazer, mais de passeio e menos de comunhão em fé – ainda será fácil celebrar a Páscoa, onde O festejado seja o centro e não a mera oportunidade de fruição hedonista?

. Temos já uma consciência de cristãos fiéis, que sabem escolher o essencial, sem se deixarem seduzir pelo secundário mais ou menos imediatista?

= Agora, olhando para a meta da eterna Páscoa, ousamos considerar que:

- Celebrar a Páscoa é deixar-se tocar pelo poder de Jesus, vivo e ressuscitado;
- Celebrar a Páscoa é desafio a deixar o túmulo do comodismo e correr o risco de viver na vida reconciliada e reconciliadora;
- Celebrar a Páscoa torna-se uma experiência de passagem do espaço do medo para a entrega ao serviço de Deus, na força do Espírito Santo;
- Celebrar a Páscoa implica viver a alegria da ressurreição, que derrota as múltiplas peias do mal em nós e à nossa volta;
- Celebrar a Páscoa exige que nos submetamos em obediência à força do amor contra as insídias do mal e do pecado… claro ou difuso, pessoal ou social, interior ou exterior;
- Celebrar a Páscoa é assinar um pacto com a vida, com o perdão e a com a confiança...em Deus e nos irmãos em comunidade;
- Celebrar a Páscoa é estar presente e disponível sempre...para a Igreja do Senhor;

- Celebrar a Páscoa é deixar-se tocar, no mais íntimo e profundo do nosso ser, pela razão essencial da fé cristã: passar da morte para a vida… assumindo o mais fácil e o mais difícil;

- Celebrar a Páscoa é fazer esse caminho simples e exigente de passar do meu egoísmo e subjetivismo – mesmo religioso e mais ou menos de conforto – para a caminhada comunitária… mesmo que incómoda e não tanto acomodada ao ritmo do que me dá gosto;

- Celebrar a Páscoa é dispor-se a sair dum certo casulo religioso com os ‘meus’ mais próximos para estar à disposição dos outros menos agradáveis e com quem me confronto na caminhada…de vida num espaço, numa Igreja e num tempo concreto, que é este que estamos a viver.

= Será na vivência do percurso do tríduo pascal – Paixão, Morte e Ressurreição – de Jesus em Igreja católica que poderemos apreciar a espiritualidade anual e semanal destes mistérios de fé, pela esperança e na caridade.

Para conseguirmos viver e celebrar a Páscoa, com genuíno espírito cristão, temos de estar em contínua capacidade de conversão, sem menosprezarmos quaisquer sinais que Deus nos dá para sabermos aferir a nossa fé à fé dos outros, tendo por critério a Tradição da Igreja e empenhando-nos em construir uma renovada comunidade inquieta sem ser irrequieta, inquietada pelo Espírito Santo sem se deixar acomodar ao já visto ou feito… mesmo que com proveito noutras épocas.

Páscoa é vida e esta faz-se vivendo ao ritmo de Deus em nós e nos outros!


António Sílvio Couto




segunda-feira, 14 de março de 2016

Reverter o reverter


Depois que tomou posse – após semanas e semanas de tentativas para a sua correta e admissível constituição – o atual governo português tentou ‘reverter’ sofregamente tudo o que anteriormente tinha sido (mais ou menos) feito…

Houve situações que foram revertidas e ainda nem sequer se sabia quem era o titular da pasta ou tinha tomado posse… por exemplo na área da educação com a supressão intempestiva de exames e de avaliações trocadas à pressa… Em matérias de benefícios – alguns quase ridículos, como uns cêntimos nas reformas da segurança social – foram dados passos sem se perceber se havia fundos para continuar para além dos primeiros dados… No campo dos conselhos e aconselhamentos tivemos um responsável a dizer que, se queríamos beneficiar do anunciado, tínhamos de deixar de fumar e de não andar de carro, mas era nesses setores que previam recolher impostos e, não havendo gastos, os proventos não teriam efeito…

Por estes dias deu-se um assomo de nacionalismo, quando um senhor da área da economia disse para não irmos – quem possa – abastecer de combustíveis a Espanha, pois estaríamos a pagar impostos no país vizinho… No campo da saúde foram revertidas taxas moderadoras – com efeitos quase irrisórios – mas com leitura ideológica e sensacional em matéria de aborto… gratuito… Na justiça foi claro de ver declarações a tentarem retomar tudo e o resto anterior à governação…em exercício.

= Desculpando a imagem rural – as nossas raízes podem ser fatores profundos dalguma cultura – ao ver, ouvir e sentir tanto ‘reverter’ com efeitos quase insignificantes, vem-me à memória a imagem de uma galinha, que exercendo o seu múnus de poedeira – no tempo em que os ovos não vinham do supermercado, mas diretamente da produção – lá ia ao local do costume, passava o tempo necessário, cacarejava como se tivesse posto ovo, mas, quando íamos ver, não havia nada… dizíamos, então, que ‘pôs ar’… Assim avalio os meses – parcos embora, mas barulhentos quanto baste de intenções e reversões – da atual governação: ar e mais ar, sem efeito nem frutos palpáveis para além da sublimação freudiana do ‘ego’ dalguns bem-falantes e servidores do avental! Muito barulho e para tão pouco resultado!

= Dado que é preciso atenuar um certo afã desconexo e à deriva dalguns intervenientes na atual vida política – pública ou privada – deixo uma sugestão que ouvi por estes dias. Aconteceu numa cidade do Brasil, onde sempre que se confrontavam as equipas da cidade, havia até mortos entre as claques rivais… tal era a agressividade e conflitualidade. Alguém sugeriu que, num dos jogos entre eles, fossem chamadas, como convidadas, a estarem no estádio, em lugar visível, as mães dos membros daquelas claques visceralmente rivais. Assim aconteceu: estando as mães presentes, no estádio, os filhos não criaram distúrbios nem houve problemas… como era habitual!

Gostaria de sugerir: convidem as mães dos nossos parlamentares para estarem, nas galerias da Assembleia, a assistirem à prestação inflamada e, por vezes, irrascível, dos filhos nas bancadas… Talvez sejam mais educados ou deixarão as progenitoras – que pensamos serem pessoas de bem e com o mínimo de educação – menos bem colocadas com os princípios que verão exercidos. Talvez possam ver mais de perto o que eles/elas fazem e lhes possam, posteriormente, corrigir o que as transmissões televisivas por vezes coartam ou manipulam… Talvez possam pôr-lhes tento na língua e no comportamento de quem, sendo maior, por vezes, se comporta como menor mimado/a…

O mesmo sugiro para outras instâncias de intervenção pública, como governo, autarquias, associações e coletividades e mesmo no âmbito da Igreja… Se as mães fossem mais respeitadas – longe de mim o prolongamento dalgum complexo de Agripina pela vida fora – talvez a sociedade fosse mais humana e compreensiva.

Afinal, o reverter do reverter pode não solucionar nada, mas deveríamos ser todos muito mais responsáveis e respeitadores daquilo que outros fizeram… É escusado tentarmos contar só com a nossa esperteza, sem termos em conta a inteligência dos outros! Bom-senso, precisa-se!


António Sílvio Couto



quinta-feira, 10 de março de 2016

Neste nacional-porreirismo…


O ambiente criado em volta da tomada de posse – e consequente início de atividade – do novo Presidente da República, no dia 9 de março, poder-se-á considerar que trouxe à tona da vida mais ou menos coletiva portuguesa uma nova sensação: o nacional-porreirismo.

Agora parece que todos estamos a dar-nos bem, pois o inquilino do palácio de Belém fez saltar de alegria quantos andavam cabisbaixos, tristes e até mesmo – segundo se diz correntemente – crispados.

Nalguns casos pretendem enterrar uns certos machados de guerra, fazendo crer que nada se passa e que será preciso esquecer, rapidamente, agravos, ofensas e achaques. Outros tentam fazer acreditar que temos de ser todos ‘boas pessoas’, pois as diferenças só conseguirão atrair mais azedume.

O discurso académico-popular do recém-empossado Presidente tentou tocar focos de identidades, que pareciam ter sido esquecidas nas refregas eleitorais mais recentes… duas em menos de quatro meses. Se bem que uns tantos não assumiram os gestos da educação mais elementar, continuando a fazer a sua travessia no deserto da vitória presidencial…

= Ao longo dos dias precedentes à tomada de posse, vieram-me à consciência algumas questões… agravadas com outros momentos decorridos no próprio dia de ‘festa’:

- Que esperamos deste ambiente? Será que iremos iniciar uma nova etapa de tratamento ou continuaremos a fazer-de-conta que se está no intervalo de algo mais sério?

- Poderemos dar já por adquirido que será com estes episódios que faremos do país uma pátria saudável e benfazeja?

- Os auspícios de que tudo corra bem será conciliável com a prosperidade, o compromisso e o trabalho comum e articulado com a justiça, a solidariedade e a paz?

- Até onde irá a bonomia de quem agora assume a mais alta magistratura de Nação, se o governo tiver de tomar, a curto ou médio prazo, medidas de austeridade?

- Ser por todos e não contra ninguém, chegará para criar consensos na hora de maior tensão entre os componentes das forças parlamentares de apoio à governação?

- Será entendido como diálogo inter-religioso aquilo que reuniu representantes dos diversos credos, na mesquita de Lisboa, ou não será, antes, entendido como mescla de fés à custa de sinais confusos e algo controversos?

- As pessoas serão tão desmemoriadas – desde os concorrentes até aos adversários – que irão esquecer o que disseram antes desta nova fase da vida política nacional, concretamente da volatilidade do vencedor?

= Há, no entanto, aspetos que gostaria de ver respondidos e que foram, em meu entendimento, sagazmente ignorados pela maior parte dos participantes.

- Por onde andou a referência à cultura cristã/católica, tanto do Presidente empossado como de outros apoiantes e sequazes? Houve medo ou foi estratégia?

- Para quem até já fez comentários litúrgicos, deixou um pouco a desejar que não tenhamos ouvido alguma alusão à dimensão mais comprometida da crença, que é muito mais do que espiritualidade ou referência aos mitos, seja o de Ourique ou das conquistas à época dos descobrimentos!

- Houve uma forte denúncia da qualidade social da intervenção cívica – com a pobreza e a ação das instituições de caráter social – mas isso terá repercussão junto do setor do governo, que nem sempre tem atendido às urgências no terreno?

. Uma coisa é começar com boa aceitação popular – pudera assim não ser, dado que muito disso tem a ver com cobertura da comunicação social, normalmente, favorável já antes! – outra bem distinta será querer não criar ondas. Com efeito, a magistratura da palavra pode e deve ser acutilante, séria e profética… sem ser morna, recorrente e deixando-se ir na crista popular!

Nem tudo está bem, quando dizem só bem de nós – refere Jesus no Evangelho… O tempo dirá se este nacional-porreirismo vai tornar-se moda e por quanto tempo!


António Sílvio Couto


segunda-feira, 7 de março de 2016

Pirâmide ou círculo?


Na catequese quaresmal que, neste domingo, proferiu, em Cristo Rei (Almada), o senhor Bispo de Setúbal questionou a assembleia ouvinte: que modelo de Igreja queremos – uma Igreja-pirâmide ou uma Igreja-círculo?

D. José Ornelas falava para uma assembleia de mais de sete centenas de pessoas, que escutaram um aprofundamento teológico-pastoral da passagem bíblica do lava-pés (cfr. Jo 13,1-17).

Esta iniciativa das ‘catequeses quaresmais’ tem percorrido as igrejas jubilares do ano da misericórdia na diocese de Setúbal, abordando o senhor Bispo facetas da sua cruz-peitoral e das insígnias do seu báculo.

= Respigamos algumas referências da catequese de D. José sobre o serviço, simbolizado no trecho do lava-pés:

- O lava-pés exprime o sentido da vida e da morte de Jesus, é um gesto de afeto e de serviço;

- Os discípulos não estão preparados para acolher o Messias que serve, que entende servir quem manda;

- A grandeza está em colocar-se ao serviço dos outros;

- Ajoelhar diante de Deus, em adoração, e diante dos irmãos para lhes lavarmos os pés;

- Jesus não pode com a nossa inatividade, tem de contar connosco, ultrapassando a apatia e a indiferença, fechando-nos aos outros ou com a desilusão por sermos incompreendidos;

- Não vale a pena desculpar-nos com os erros dos outros, temos de colaborar na busca de soluções, temos de aprender a colaborar;

- Serviço ou poder? Da pirâmide do poder ao círculo de irmãos;

- Temos de superar a ‘lei da selva’ – os mais fortes vencendo os mais fracos – pois a violência é a atitude diabólica por excelência;

- Na discussão sobre quem era o maior, Jesus coloca nesse círculo uma criança: o serviço de Deus passa pelo serviço aos irmãos;

- Ultrapassar o dogmatismo de grupos, quando um grupo se apodera do poder;

- Administrar os dons ao serviço de Deus;

- Atitude de serviço e de misericórdia: a importância está em mim ou na comunidade, que somos chamados a servir?

- Espetadores, utentes, consumidores… ou ativos ao serviço dos outros;

- Eu sirvo para servir? Decidir o estilo da nossa participação…

= De facto, temos de saber discernir que Igreja somos e que modelo queremos prosseguir. Podemos ter andado a falar duma coisa e a fazer o seu contrário. Podemos ter boas ideias, mas parece que temos dificuldade em concretizar os ideais. Podemos (até) ter andado a fomentar um certo ajoelhar de forma incorreta…

Mais de meio século após o Concílio Vaticano II dá a impressão que não deixamos fermentar o modelo de Igreja-comunhão, podendo ter ficado meramente na discrição duma Igreja popular, mas não convertida aos desafios do lava-pés. Podemos até fazer a ‘cerimónia do lava-pés’, na Quinta-feira santa sem termos ainda entrado no espírito de serviço do Messias servo e mestre.

= Atendendo às vertentes das ‘catequeses quaresmais’ de D. José Ornelas parece-me que ainda não entramos, na sua maioria, no sentido profundo e verdadeiro desta iniciativa, dado que não temos sido capazes de secundarizar as nossas ações paroquiais para entrarmos numa sintonia diocesana em volta do nosso Bispo. Esta graça de podermos fazer um caminho comum e complementar precisa de ser mais cuidada por todos… mesmo pelos padres e responsáveis de movimentos da Igreja…Não basta estar quando devo por razão de que a minha vigararia/paróquia ou movimento tem de estar, é preciso perceber o quadro geral desta formação diocesana, aprendendo a saber servir segundo os dons, carismas e qualidades… A Igreja de Setúbal merece e precisa!


António Sílvio Couto