Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



quinta-feira, 13 de março de 2014

Entre José e Francisco… a nossa caminhada


Um faleceu na véspera em que o outro celebrava o primeiro ano de funções: D. José Policarpo morreu, com 78 anos, no dia 12 de março e o Papa Francisco celebrou o primeiro ano de ministério petrino no dia 13 deste mês. O primeiro esteve mesmo na eleição do segundo há um ano atrás e agora vivemos todos numa atitude de interpelação à nossa caminhada em tempo de quaresma.

Para mim tudo isto acontece num contexto de retiro anual e, com muito maior razão, estes momentos servem de reflexão sobre a nossa vida nos mais diversos aspetos em que ela se desenrola…
 

- Na casa de retiro onde estou – quando escrevo esta partilha – está uma bonita tapeçaria que tem inscrito o lema de episcopado do defunto Patriarca: ‘per obedientiam ad libertatem’ (da obediência à liberdade)…até porque foi na vigência do seu pontificado que este edifício – como tantos outros – foi erigido, como sinal de uma das facetas de D. José no diálogo entre a fé e a cultura, tanto na dimensão cristã como humanista.

Agora – como acontece quando alguém morre – tecem-se elogios, rasgam-se encómios e recordam-se etapas de proximidade com quem vemos anteceder-nos na partida. Quantas pessoas irão recordar o bem que Deus fez através de D. José. De quantas formas Deus se serviu para Se comunicar através dele. Quanto bem pode ter sido feito porque ele procurou ser fiel a Deus na Igreja, pela Igreja e com a Igreja…

A história de cada pessoa está cheia de sinais de Deus. A vida de cada pessoa tece-se com imensos fios de grandeza e entrecruza-se com linhas de pequenez. Cada um de nós pode e deve sentir-se grato ao Deus da vida e fazer com que a sua existência – longa ou breve – seja um hino de bênção do amor de Deus em cada etapa da nossa caminhada de fé, em esperança e pela caridade.

- ‘Da surpresa à interrogação’ como que poderá ser a caraterização do primeiro do ministério do Papa Francisco na condução da Igreja católica. Vindo do outro lado do mundo, Francisco criou um novo estilo, disse coisas que nem todos estavam à espera, gerou sinergias que o mundo (laico, indiferente e acristão) não previa. Digamos que o Papa Francisco colocou muitas das questões da fé num nível quase inesperado, trazendo à liça problemas que andavam em surdina e provocando temas que pareciam (quase) perdidos para a iluminação do Evangelho.

Homem do inesperado – bem diferente do mero improvisado – o Papa Francisco tornou-se um fenómeno de estudo, pois saiu do (quase) anonimato para ser uma das figuras mais marcantes na história do mundo atual. Quando anteriormente – como dizia há dias alguém – o Papa falava e se mudava logo de canal, agora, se é o Papa Francisco que diz, atende-se ao que está proferir ou pretende apresentar: ele tem, de verdade, a terna e eterna novidade do Evangelho de Jesus Cristo.


= Quais podem ser, então, os desafios, destas figuras de Deus na Igreja, que nos são colocados? Como devemos ler e interpretar as suas palavras e gestos? Onde está a linguagem de Deus a querermos conduzir, hoje?


. Desde logo mais do que loas a quem parte, temos de dar graças pelo que dele recebemos, seja nas qualidades, seja mesmo nos possíveis defeitos… e não nos estamos a reduzir ao patriarca emérito falecido. Todos somos suscetíveis de conversão, tanto mais que estamos em dinâmica quaresmal… rumo à Páscoa de Cristo. Conhecer-se é reconhecer-se digno diante de Deus e humilde perante os homens em cada tempo.

. Somos instrumentos de Deus para louvor da sua glória, deste modo, só aferindo a nossa caminhada ao Cristo do Evangelho poderemos ser instrumentos da ação de Deus em nós e d’Ele através de nós. Queremos e acreditamos que, na medida da luz de Cristo e na fidelidade ao Espírito Santo, poderemos construir um mundo mais irmanado nas possibilidades de bom convívio, de salutar fraternidade e de atenta comunhão, tanto nas alegrias como nas amarguras.
 
A memória de quem partiu merece, o ministério de quem serve se engrandece.
       

António Sílvio Couto (asilviocouto@gmail.com)

sexta-feira, 7 de março de 2014

Viver na paciência


Dei comigo a refletir sobre uma palavra, que tem tanto de simples quanto de complexa: paciência. As pessoas dizem-se sem paciência. Os mais velhos perderam a paciência para com os novos. Estes, não o dizem, mas comportam-se como tal: sem paciência para com os mais velhos.

Que será, então, a paciência? Como podemos aferir que a temos? Em que circunstâncias a manifestamos, pela positiva ou negativamente? Antes de tudo ‘paciência’ pode decompor-se em ‘ciência’ da ‘paz’… isto é, ‘ciência da paz’. Creio que é isso que estou a precisar, mas também poderá ser isso que a pode alimentar a viver as provações que tem estado a viver… sobretudo na sua condição mais recente. Muitas vezes entendemos a ‘paciência’ como uma espécie de resignação, de desistência, de deixar correr… Mas ‘paciência’ é ativa na caridade, na fé e na esperança, pois nos faz viver no amor, na confiança e em atitude positiva em Deus e uns para com os outros. Sobretudo, a paciência é fruto do Espírito Santo… em nós.

 = Modalidades de paciência

De fato, há várias modalidades de paciência: a de Deus, a dos outros e aquela para connosco mesmos… Outras formas poderemos encontrar para falar desta caraterística dos nossos dias: a impaciência, manifestada em tantos e diversos momentos e situações.

- Paciência para connosco

Esta faceta da paciência é muito mais difícil do que possa parecer, pois exige de nós mesmos conhecimento, aceitação e maturidade. Conhecer a si mesmo é exigente e traz, por vezes, ligados aspetos de vida nem sempre fáceis de digerir, sobretudo quando isso tem ligado aspetos de sofrimento. A aceitação com paciência tem ligação a tudo quanto (positivo ou negativo) se viveu no passado, com a própria história pessoal e familiar e outros aspetos nem sempre fáceis de enquadrar, hoje. A maturidade que a paciência revela e faz crescer em maior maturidade ainda pode nem ter a ver só com a idade, mas com a disposição em enquadrar o que se vive no presente, numa abertura à sensibilidade de Deus no futuro. Digamos que a paciência para connosco mesmos tem ligação ao abandono à Providência divina, nem sempre fácil de viver numa época tão marcada pela pressa, pela superficialidade e pelo consumismo.

 - Paciência para com os outros

Esta vertente da paciência leva-nos a compreender nos outros o que nos custa a nós a viver, sendo mais exigentes para connosco e compreensivos para as debilidades e dificuldades dos outros. Quantas vezes os erros que apontamos aos outros mais não são do que os nossos próprios defeitos. Por isso, se sabemos o que nos custa corrigir-nos também nos fará ter paciência para com os outros sejam eles os mais próximos ou os que connosco se cruzam ocasionalmente. Como seria diferente o nosso espaço e o ambiente em que vivemos e existimos, se fossemos mais compreensivos e pacientes uns para com os outros. 

- Paciência de Deus… e (até) para com Deus

Como dizia recentemente o Papa Francisco: «a paciência de uma pessoa adulta [perante as provações], a paciência de Deus que nos carrega aos ombros é a paciência do povo». Com efeito, Deus é tão paciente para connosco, pois dando-nos tantos dons e graças, bênçãos e benefícios… mesmo sem os merecermos, continua à espera que correspondamos a tudo quanto Ele nos concede com misericórdia e amor.

Não será uma heresia dizer: ‘temos de ter paciência para com Deus’? Por certo se levarmos à letra que somos nós que devemos compreender o que Deus quer e não que seja Ele a entender o que nós queremos. No entanto, há tantas vezes que temos de pedir a paciência de Deus para entrarmos na lógica do que Ele quer, pois o seu tempo não é o nosso e os nossos critérios estão tantas vezes desfasados dos Seus. Deste modo podemos e devemos aprender a viver segundo do fruto do Espírito Santo, manifestado na paciência.

 

Na medida em que formos aprendendo a arte da paz – paciência – seremos capazes de construir a paz em nós mesmos, com os outros, porque a recebemos de Deus, que nos pacifica e faz caminhar na paciência… neste mundo conturbado, barulhento e perplexo.

 

António Sílvio Couto

terça-feira, 4 de março de 2014

Aprender a elogiar…com verdade


«A admiração mútua gera respeito e cria maior admiração por quem amamos e nos ama»!

Esta frase, que li por estes dias, foi complementada com o que ouvi, num programa de rádio (de âmbito nacional), em que andam à procura de situações nas pessoas queiram (pelas mais diferentes e saudáveis razões) elogiar os outros… É verdade que não consegui ainda ouvir nenhum desses programas, mas certamente tem sido um sucesso… até porque o tema está associado a uma cadeia de grande distribuição alimentar e continua a estar em antena!

Agora que estamos prestes a viver em tempo de dinâmica quaresmal: onde é que elogio rima com penitência? Como é que a conversão – atendendo às diversas tentações – pode ser conjugada com o apreciar os outros positivamente? Não será que dizer a verdade é uma outra forma de valorizar os outros e não servindo a maledicência?

Mesmo que o tempo da quaresma não seja já uma oportunidade de estar só quarenta dias – de 5 de março a 12 de abril – em contenção moral, em exercício espiritual e (até) numa tensão de conversão espiritual… ele pode (e deve) ser comparado ao tempo do ramadão islâmico, onde se pode sentir – ao menos de forma exterior – a vivência das condições religiosas em espaço social e cultural. Muito mal estaremos – como já aconteceu em França – se tivermos de dizer que ‘a quaresma é o ramadão cristão’, pois isso nos faria perceber que eles – os muçulmanos – vivem a sério o que nós, cristãos, vivemos numa espécie de faz-de-conta!

= Por que se tem (tanto) medo do elogio?

É caraterístico (quase) congénito do povo português desconfiar de quem e como elogia, pois, na maior parte dos casos não passa duma espécie de adulação ou de tentativa de conquistar o elogiado, embora sob alguma roupagem de falta de verdade do elogiador. Neste sentido vemos, normalmente, com olhos de dúvida que se faça o elogio de quem quer que seja, pois isso pode soar a oco e a intriguismo.

Gera-se, então, um clima de maledicência, onde o quanto pior (parece ser) melhor, mesmo que o contrário fosse o mais verdadeiro. Olhemos a dimensão política com exemplos da vida mais recente (ao tempo em que escrevemos… mas que facilmente surgirão outros fatos quando isto for lido) do nosso ‘eu coletivo’:

- Quem ainda está no governo quer fazer (sincera ou habilidosamente?) acordo para o tempo após-troika… logo a desconfiança da oposição estende as garras, pois pode soar a falso ou ser interesseiro… Como se, alguém que pretende ser alternativa de governação, não deveria ser parte da solução e não só do problema, mesmo que este possa ser – para já – uma questão de quem ocupa a cadeira do mando. Que miopia esta de canapé, onde nem se é capaz de participar e muito menos de se comprometer quem agora precisa de ajuda para (tentar) fazer melhor! Verdadeiramente o que temos é gente sem qualidades de perceber a quem serve, mas antes se serve dos outros para atingir os seus maquiavélicos interesses sem objetivos de serviço, embora se insinue que tal deseja…só não sabemos é quando!

- Se alguém pretende aceder – nem que seja na rotatividade ou alternância – ao poder terá de saber aproveitar os momentos de participação, para que mais não seja, quem for mais tarde votar, já perceba que as alternativas não são de promessa, mas antes foram testadas com medidas adequadas e exequíveis, percebendo o que lhes espera e não tendo de andar meses e anos a descobrir o significado das coisas, desde o vocabulário até aos meandros das decisões. Ora não é isso que temos visto por parte de quem aspira a ser primeiro, pois mais parece um aprendiz de ilusionismo do que um governante (e equipa) com projetos. Tudo parece muito feito em reação e não alicerçado em modelos sócio/políticos alternativos. Já basta de ineptos a mandar. Também temos de saber dar tempo para desenvolver o programa de quatro anos… Basta de cortar, ao fim de dois anos, o que se pretendia desenvolver com sequência… e futuro, sendo, então, avaliado no devido tempo.

Como país temos muito a aprender no campo do elogio feito com sinceridade e alicerçado na competência e não na adulação. Mais do que oportunistas precisamos de cidadãos que sejam servidores do bem comum, colocando ao serviço dos outros as qualidades recebidas numa atitude de bem-fazer e de fazer bem!

 

António Sílvio Couto (asilviocouto@gmail.com)

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Olhar… em dinâmica de Quaresma


Uma das facetas mais originais da nossa personalidade humana – física, psicológica e mesmo espiritual – é o nosso olhar, revelado e compreendido nos nossos olhos, pois através deles, como diz sabiamente o nosso povo: ‘os olhos são as janelas da alma’ e ‘ o mal e o bem ao rosto/olhar vem’!

O olho – também o de Deus – reflete, segundo a Bíblia, a vida da alma, sendo-lhe atribuídos determinados afetos, tais como: desejo, esperança, humildade, compaixão… soberba, dureza, lascívia, inveja!

Se atendermos mais em exclusivo ao Novo Testamento podemos considerar que ‘abrir os olhos a alguém’ é curá-lo da cegueira; enquanto em sentido espiritual poderá significar libertá-lo da prisão ou da escuridão.

Em sentido figurado ‘olho’ pode significar espírito, o conhecimento, a intenção, o julgamento, a mentalidade… Por seu turno, ser bom ou ruim aos olhos de alguém – inclusive de Deus – poderá ser-lhe agradável ou desagradável. Por outro lado, a expressão ‘achar graça aos olhos de alguém’ (mesmo de Deus) como que implica uma oração que é atendida.

Com referência a uma vida agradável a Deus, Jesus designa o olho como ‘a lâmpada do corpo’ (cfr. Mt 6,22s), podendo o órgão da vista tornar-se também a figura de atitude espiritual (cfr. Mt 5,29). 

São João, sobretudo no Evangelho, recorre várias vezes (cfr. Jo 6,40; 14,9.19) à expressão ‘ver’ a Deus, ‘ver’ a Cristo no sentido da fé ou de um conhecimento sobrenatural. Cristo, porém, vê a Deus de um modo que lhe é exclusivamente próprio, como Filho e revelador (cfr. Jo 3,11.32; 6,48; 8,38).

Ao nível da arte, a representação, na Idade Média, da Igreja (Novo Testamento) e da Sinagoga (Antigo Testamento), mostra a primeira com olho claro e iluminado e a segunda é apresentada de olhos fechados e vendados. Os humanistas usavam um só olho como sinal-símbolo para Deus, para a propriedade da vigilância e para o pronunciamento do direito. Só após a Reforma é que aparece o triângulo com o olho brilhante como símbolo da Santíssima Trindade, com a sua omnipotência e omnisciência. Esta representação – o olho de Deus – aparece-nos, a partir do século XVIII no ponto superior dos altares-mores e dos púlpitos…

De referir ainda que aos batizados foi dada, nos primeiros séculos do cristianismo, a designação de ’iluminados’, como aqueles que, tendo recebido o batismo como iluminação divina, eram, por isso, enviados a serem a luz de Deus no mundo.  

 = O olhar em contexto da Via-sacra

Tentando ler os diversos intervenientes na Via-sacra de Jesus (*), parece-nos que diante d’Ele os vários olhares são diferentes e certamente o olhar de Jesus será diverso para com cada um dos participantes no drama da Paixão do Senhor: na agonia – olhar apreensivo; na traição de Judas – olhar desconfiado; perante o Sinédrio – olhar julgador; nas negações de Pedro – olhar arrependido; no julgamento de Pilatos – olhar acusador; na flagelação e coroação de espinhos – olhar de raiva; no carregamento da cruz – olhar magoado; na ajuda de Cireneu – olhar de compaixão; no encontro com as mulheres – olhar de misericórdia; na crucifixão – olhar semicerrado; no diálogo com o ladrão – olhar de perdão; no diálogo com a Mãe e o discípulo – olhar materno/filial; na morte – olhar em meditação; no sepultamento – olhar de fé.

Nestes vários momentos reveladores de Jesus aos outros e da revelação dos vários intérpretes a Jesus, podemos encontrar algo mais do que palavras, mas uma mensagem intensa de Deus para connosco e de nós para com Ele: o cruzamento de olhares fala-nos, penetra-nos, manifesta-nos… o mistério de Deus para connosco e nosso para com Deus.
 

Na medida em que a nossa vivência da Quaresma pode e deve estar sob o olhar de Jesus, assim podemos descobrir cada uma das vertentes do nosso olhar e do olhar de Jesus, hoje, para connosco. Será na troca de olhares que descobriremos o amor de Deus para connosco e a nossa ternura para com os outros… a começar pelos que nos são mais próximos.

 
(*) Ver Na via-sacra olhamos… na Via lucis somos olhados, Paulinas, 2014.

 

António Sílvio Couto (asilviocouto@gmail.com)

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Mensagem a uma mãe… que teve de abortar


Há dias escrevi numa mensagem de tlm: ‘Quem nos ama, cuida de nós e nós deixamo-nos cuidar por quem nos ama’!

Agora compreendo um tanto melhor o que queria, de verdade, dizer, tentando explicitar o que tal frase/pensamento queria significar.

Tenho ainda por suporte de análise um acontecimento que me foi dado conhecer: o recurso à interrupção (voluntária) da gravidez de uma mãe, que, estando em risco de vida, até foi contra as suas convicções… embora agora esteja a viver as dificuldades de algo que a perturba psicológica e espiritualmente.

Nestas questões da vida há valores que se sobrepõem, sendo a vida um valor maior, teremos de saber discernir qual é esse bem maior, sobretudo se estiver em causa a vida, a saúde e a sobrevivência da própria mãe. Foi isto que aconteceu no caso que temos estado a acompanhar… com amizade e dolorosamente. Embora não seja fácil o processo psicológico de um tempo de luto, tudo foi de uma grande luta. Por isso, muitas das campanhas antiabortivas correm o risco de meterem no mesmo saco questões de leviandade e erros de adolescente com processos complexos de escolha entre valores éticos e espirituais.

Muito embora o recurso ao aborto até possa ter-se tornado uma espécie de plano anticoncetivo para certas pessoas, noutros casos terá de perceber-se qual é o seu significado sem rótulos nem juízos. Cada caso é uma situação, que deverá ser acompanhada com ternura e misericórdia, tendo em conta os vários fatores, as diversas consequências e não meramente as causas… mais ou menos conhecidas, aceites ou aceitáveis.
 
= Questões, desafios e propostas

Quando tanto se evoluiu no campo médico-sanitário e científico, tudo isto nos leva a colocar questões sobre a mais básica das virtualidades humanas: a geração, gestação e nascimento de uma pessoa. Quando tudo parece fácil e natural, algo põe em risco tantas e tão profundas convicções das pessoas… tornando a vida o mais vulnerável dos valores. Se as raízes são tão frágeis e tão profundas como não poderemos deixar de envolver Deus nisso que é tão belo e sensível, psicológico e afetivo, profundo e espiritual.

Porque têm ainda medo as pessoas de reconhecer que Deus também conta nas questões da vida? Será ignorância ou (só) envolve orgulho? Até onde irá a capacidade de fazer bem e de confiar na condução divina? Não será que as feridas – mesmo neste campo da ética da vida e de outros temas que lhe estão atinentes – têm de ser curadas com a confiança em Deus e nos outros como irmãos na mesma fé?

Quando o desenrolar da nossa existência nos coloca a necessidade de opções sobre questões da vida nem sempre é fácil decidir sozinho… até porque não somos seres isolados e muito menos solitários, sendo necessário encontrar ambientes onde sejamos ajudados a ultrapassar os momentos de conflito, as vivências mais complexas e, quantas vezes, a dirimir os nossos erros, falhas e até pecados.

Será que os nossos espaços de fé – paróquias, movimentos, associações ou qualquer outra possibilidade de partilha – nos permitem ser acolhidos, aceites e reconfortados? Nas horas de maior prova temos um ombro onde chorar ou um peito – fraterno, materno/paterno, eclesial ou espiritual – onde desabafar sem acusações nem reprimendas? Não será que, quando e quanto vivermos isso, poderemos estar mais despertos para propormos isso aos outros? Como poderemos ajudar quem sofre se não tivermos a sensibilidade de sermos acolhidos quando sofremos?


Na conciliação teológica, espiritual e católica da samaritana e do samaritano poderemos ter um coração e uma mente saudáveis para sermos, hoje, os evangelizadores e os profetas de Jesus pela vida, como dom e como mistério: aquela acolheu Jesus e deixou-se converter, este fez-se próximo, aproximando-se fraternalmente. De fato, quanta gente sofre porque não conhece Jesus, porque não há quem lh’O anuncie e tantos outros sofrem porque não há quem deles se aproxime de mão estendida e de coração aberto à partilha.

Aquela mãe, que teve de abortar, precisa de um samaritano para viver a dinâmica da samaritana, hoje!  

 

António Sílvio Couto

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

4 milhões ‘vivem’ da segurança social


Em finais de 2013, a Segurança social tinha cerca de quatro milhões de beneficiários num total de mais de cinco milhões de subsídios… tendo em conta os apoios (alguns cumulativos) de abono de família, de subsídio de desemprego, de pensão de velhice ou de sobrevivência…

Entre 2008 e o final do ano passado, a Segurança social perdeu 350 mil contribuintes, ganhando, no entanto, quase duzentos mil novos pensionistas.

Há outros dados que nos devem fazer refletir: naquele período de tempo foram ‘destruídos’ quase setecentos mil empregos… Os gastos gerais de transferência do Orçamento de Estado para a Segurança social cresceu dois mil milhões de euros! Há cerca de três milhões de pensionistas, segundo os dados de 2013.

= Diante destes dados sobre a sustentabilidade da ‘pretensa’ Segurança social – bem como de outros pilares do (dito) Estado-social – torna-se urgente rever critérios, aferir condutas e mesmo mudar comportamentos ideológicos de uma coletivização das pessoas e das instituições.

Desde já uma declaração de princípios: nada me leva a acreditar que o Estado – seja qual for o governo ou a governação – faz melhor pelas pessoas, pois muitas vezes estas só contam como peças de um puzzle de interesses de forças mais ou menos assumidas na prossecução dos objetivos de obrigar todos ao menor denominador comum e favorecendo uns tantos… sobretudo se forem da mesma ideologia e/ou servindo lóbis idênticos.

= A criação dos setores de ação social do Estado teve por incremento o tempo após-segunda guerra mundial, gerando meios para que as populações tivessem boas condições de vida – saúde, segurança, educação, assistência social, etc. – perante as agruras que exigiam a união de esforços para a reconstrução dos países devastados pelas consequências da guerra. Isto aconteceu com a Europa do Norte e noutros países do centro do continente… Mas no sul – sobretudo no caso português – nem todos os países entraram na guerra e os meios de ação social não foram tão difundidos. E, em Portugal, só na sequência da revolução de Abril/74, é que foram colocadas as linhas-força para o tal Estado-social… Uma coisa são os desejos, outros são os meios. Estes nem sempre estiveram conjugados com aqueles… nestes últimos quarenta anos.


= Decorrido este tempo, foi-se gerando a sensação que já não é mais possível continuar a beneficiar de idênticas regalias com uma baixa acentuada de natalidade, com um grave envelhecimento da população, com uma cada vez maior dependência da falta de emprego estável e duradouro, com um empobrecimento de muitos e um razoável enriquecimento de uma minoria. Estamos a viver um certo inverno geracional, onde a falta de substituição de gerações não permitirá que continuemos a ter os mesmos direitos, pois interrompemos a capacidade de que as ações de âmbito social possam continuar como se tudo estivesse a ser normal. Por isso, está na hora de fazer novas opções para que as mais básicas situações de bem-estar social possam continuar por mais tempo, com condições de exequibilidade, de justiça e de verdade.
 

= As gerações mais novas precisam de aprender a valorizar o que os seus antepassados lhes transmitiram, mesmo que de forma incipiente, mas que lhes podem ter facilitado o apreciar do que têm (ainda) atualmente Há, hoje, comodidades que têm amolecido os mais novos, gerando neles quase um direito de usufruir o que não lhe deu qualquer trabalho a conquistar. Da mesma forma que muitos dos mais velhos – sobretudo no contexto de minifúndio rural e da agricultura de subsistência familiar – receberam pensões e subsídios para os quais não realizaram trabalho em descontos ou em participação nas coisas do bem comum, assim muitos dos mais novos têm de conseguir, pelo trabalho sério e esforçado, a prossecução de tais benefícios… sociais generalizados para o futuro.

Talvez tenha de chegar, em breve, ao fim a profissão ‘reformado’ – pelo menos como é hoje –, pois os fundos não são inesgotáveis e a mentalidade tem de ser educada para a cultura do trabalho e não da preguiça…a longo prazo!  

 

António Sílvio Couto (asilviocouto@gmail.com)

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Crianças nascidas fora do casamento


Quase 46% das crianças portuguesas nascem fora do casamento. Este dado foi publicitado por estes dias através dos serviços oficiais de estatística, que dizem, por seu turno, que, em Espanha, os casos de filhos extracasamento tem menos dez pontos percentuais… isto segundo dados de 2012.

A quebra do casamento, entre 2003 e 2012, nos dois países ibéricos, situa-se na média de três vírgula cinco por cada mil casos… sendo a descida mais acentuada no caso luso. As causas sociológicas para a quebra da valorização do casamento têm a ver, entre outras, com a crise, a emigração, o envelhecimento progressivo da população, a diminuição progressiva da fecundidade e até o declínio da autoridade religiosa… não esquecendo ainda o desligar da sexualidade do plano e compromisso conjugal, isto é, as pessoas deixam de ter de casar para poderem viver juntas e poderem ter filhos.


- Num tempo em que a instituição ‘casamento’ – tenha ou não a versão matrimónio – é colocada em causa por múltiplos fatores de risco, temos de saber encontrar as causas deste colapso, mais do que andarmos a esmiuçar as consequências de uma mudança que tem tanto de complexa quanto de (quase) irreversível. Com efeito, foram dados passos assaz demolidores de toda a corresponsabilidade entre pessoas – dizemo-lo de forma clara e concisa, sobretudo, entre um homem e uma mulher – que podiam e deviam ser ajudadas a cumprirem as suas tarefas em favor de si mesmas e para com a sociedade.
 

- Desacreditar o casamento tem sido um plano bem urdido por certos lóbis mais ou menos assumidos para que a própria família caísse no descrédito, senão na forma pelo menos no conteúdo. Embora os resultados se estejam (já) acolher, as sementes foram lançadas no após-segunda guerra mundial, com tantos fenómenos de libertação, que mais não foram do que promoção de uma certa libertinagem nas ideias e nos comportamentos… Decorridas duas gerações eis os resultados mais visíveis!
 

- Dum modo intensamente organizado foram colocadas as traves-mestras para que o afundamento do casamento fosse conseguido sem grande estertor, quer por partes das Igrejas – onde a católica foi sendo ridicularizada e alguns dos seus ‘enfeites’ usados como disfarce – quer ainda por parte dos Estados – ditos democráticos – que foram dando regalias (direitos) idênticas a quem não queria responsabilidades (obriga-ções) semelhantes, desde o fator dos impostos até às pretensões igualitárias entre géneros e outros benefícios.

= Que fazer, então, com tantos sinais de aviso?

+ Urge educar para os valores da família e da responsabilidade, desde a mais tenra idade. Há fatores que não podem ser desculpa, mas antes de temos saber investir no que é essencial, onde pai e mãe vivam o que são e façam valer a sua autoridade pela disponibilidade para o amor feito oblação e/ou compromisso.

+ Quando tantos brincam ao prazer, urge educar para a vida, onde cada pessoa vale pelo que é e não tanto pelo que pretende mostrar. A ética da vida não está ao sabor dos caprichos mais ou menos materialistas, pois as crianças não podem ser objetos decorativos nem tornarem-se compensação de traumas não resolvidos.

+ Certas adoções – ou mesmo co/adoções – de género não passam de fait-divers de circunstância… e, em muitos dos casos, como que se tornam numa espécie de máquina de refrigerante a pataco… tal como o foi/é o preservativo de vão de escada ou à entrada dalgum lugar público de diversão ou mesmo farmácia!  

 = Porque acreditamos no futuro, ousamos propor que não se desista da valorização do casamento estável entre um homem e uma mulher para que a sociedade se regenere e se construa como um mundo mais humano, onde a família seja uma instituição respeitada, favorecida e amada.

= Porque acreditamos na força do amor, da amizade e da caridade na família e na sociedade, queremos que mesmo os filhos nascidos fora da estabilidade do casamento possamos aprender a amar e a serem amados, a cuidar e a serem cuidados como carinho, estima e ternura, hoje e sempre.

 

António Sílvio Couto