Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Olhar… em dinâmica de Quaresma


Uma das facetas mais originais da nossa personalidade humana – física, psicológica e mesmo espiritual – é o nosso olhar, revelado e compreendido nos nossos olhos, pois através deles, como diz sabiamente o nosso povo: ‘os olhos são as janelas da alma’ e ‘ o mal e o bem ao rosto/olhar vem’!

O olho – também o de Deus – reflete, segundo a Bíblia, a vida da alma, sendo-lhe atribuídos determinados afetos, tais como: desejo, esperança, humildade, compaixão… soberba, dureza, lascívia, inveja!

Se atendermos mais em exclusivo ao Novo Testamento podemos considerar que ‘abrir os olhos a alguém’ é curá-lo da cegueira; enquanto em sentido espiritual poderá significar libertá-lo da prisão ou da escuridão.

Em sentido figurado ‘olho’ pode significar espírito, o conhecimento, a intenção, o julgamento, a mentalidade… Por seu turno, ser bom ou ruim aos olhos de alguém – inclusive de Deus – poderá ser-lhe agradável ou desagradável. Por outro lado, a expressão ‘achar graça aos olhos de alguém’ (mesmo de Deus) como que implica uma oração que é atendida.

Com referência a uma vida agradável a Deus, Jesus designa o olho como ‘a lâmpada do corpo’ (cfr. Mt 6,22s), podendo o órgão da vista tornar-se também a figura de atitude espiritual (cfr. Mt 5,29). 

São João, sobretudo no Evangelho, recorre várias vezes (cfr. Jo 6,40; 14,9.19) à expressão ‘ver’ a Deus, ‘ver’ a Cristo no sentido da fé ou de um conhecimento sobrenatural. Cristo, porém, vê a Deus de um modo que lhe é exclusivamente próprio, como Filho e revelador (cfr. Jo 3,11.32; 6,48; 8,38).

Ao nível da arte, a representação, na Idade Média, da Igreja (Novo Testamento) e da Sinagoga (Antigo Testamento), mostra a primeira com olho claro e iluminado e a segunda é apresentada de olhos fechados e vendados. Os humanistas usavam um só olho como sinal-símbolo para Deus, para a propriedade da vigilância e para o pronunciamento do direito. Só após a Reforma é que aparece o triângulo com o olho brilhante como símbolo da Santíssima Trindade, com a sua omnipotência e omnisciência. Esta representação – o olho de Deus – aparece-nos, a partir do século XVIII no ponto superior dos altares-mores e dos púlpitos…

De referir ainda que aos batizados foi dada, nos primeiros séculos do cristianismo, a designação de ’iluminados’, como aqueles que, tendo recebido o batismo como iluminação divina, eram, por isso, enviados a serem a luz de Deus no mundo.  

 = O olhar em contexto da Via-sacra

Tentando ler os diversos intervenientes na Via-sacra de Jesus (*), parece-nos que diante d’Ele os vários olhares são diferentes e certamente o olhar de Jesus será diverso para com cada um dos participantes no drama da Paixão do Senhor: na agonia – olhar apreensivo; na traição de Judas – olhar desconfiado; perante o Sinédrio – olhar julgador; nas negações de Pedro – olhar arrependido; no julgamento de Pilatos – olhar acusador; na flagelação e coroação de espinhos – olhar de raiva; no carregamento da cruz – olhar magoado; na ajuda de Cireneu – olhar de compaixão; no encontro com as mulheres – olhar de misericórdia; na crucifixão – olhar semicerrado; no diálogo com o ladrão – olhar de perdão; no diálogo com a Mãe e o discípulo – olhar materno/filial; na morte – olhar em meditação; no sepultamento – olhar de fé.

Nestes vários momentos reveladores de Jesus aos outros e da revelação dos vários intérpretes a Jesus, podemos encontrar algo mais do que palavras, mas uma mensagem intensa de Deus para connosco e de nós para com Ele: o cruzamento de olhares fala-nos, penetra-nos, manifesta-nos… o mistério de Deus para connosco e nosso para com Deus.
 

Na medida em que a nossa vivência da Quaresma pode e deve estar sob o olhar de Jesus, assim podemos descobrir cada uma das vertentes do nosso olhar e do olhar de Jesus, hoje, para connosco. Será na troca de olhares que descobriremos o amor de Deus para connosco e a nossa ternura para com os outros… a começar pelos que nos são mais próximos.

 
(*) Ver Na via-sacra olhamos… na Via lucis somos olhados, Paulinas, 2014.

 

António Sílvio Couto (asilviocouto@gmail.com)

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Mensagem a uma mãe… que teve de abortar


Há dias escrevi numa mensagem de tlm: ‘Quem nos ama, cuida de nós e nós deixamo-nos cuidar por quem nos ama’!

Agora compreendo um tanto melhor o que queria, de verdade, dizer, tentando explicitar o que tal frase/pensamento queria significar.

Tenho ainda por suporte de análise um acontecimento que me foi dado conhecer: o recurso à interrupção (voluntária) da gravidez de uma mãe, que, estando em risco de vida, até foi contra as suas convicções… embora agora esteja a viver as dificuldades de algo que a perturba psicológica e espiritualmente.

Nestas questões da vida há valores que se sobrepõem, sendo a vida um valor maior, teremos de saber discernir qual é esse bem maior, sobretudo se estiver em causa a vida, a saúde e a sobrevivência da própria mãe. Foi isto que aconteceu no caso que temos estado a acompanhar… com amizade e dolorosamente. Embora não seja fácil o processo psicológico de um tempo de luto, tudo foi de uma grande luta. Por isso, muitas das campanhas antiabortivas correm o risco de meterem no mesmo saco questões de leviandade e erros de adolescente com processos complexos de escolha entre valores éticos e espirituais.

Muito embora o recurso ao aborto até possa ter-se tornado uma espécie de plano anticoncetivo para certas pessoas, noutros casos terá de perceber-se qual é o seu significado sem rótulos nem juízos. Cada caso é uma situação, que deverá ser acompanhada com ternura e misericórdia, tendo em conta os vários fatores, as diversas consequências e não meramente as causas… mais ou menos conhecidas, aceites ou aceitáveis.
 
= Questões, desafios e propostas

Quando tanto se evoluiu no campo médico-sanitário e científico, tudo isto nos leva a colocar questões sobre a mais básica das virtualidades humanas: a geração, gestação e nascimento de uma pessoa. Quando tudo parece fácil e natural, algo põe em risco tantas e tão profundas convicções das pessoas… tornando a vida o mais vulnerável dos valores. Se as raízes são tão frágeis e tão profundas como não poderemos deixar de envolver Deus nisso que é tão belo e sensível, psicológico e afetivo, profundo e espiritual.

Porque têm ainda medo as pessoas de reconhecer que Deus também conta nas questões da vida? Será ignorância ou (só) envolve orgulho? Até onde irá a capacidade de fazer bem e de confiar na condução divina? Não será que as feridas – mesmo neste campo da ética da vida e de outros temas que lhe estão atinentes – têm de ser curadas com a confiança em Deus e nos outros como irmãos na mesma fé?

Quando o desenrolar da nossa existência nos coloca a necessidade de opções sobre questões da vida nem sempre é fácil decidir sozinho… até porque não somos seres isolados e muito menos solitários, sendo necessário encontrar ambientes onde sejamos ajudados a ultrapassar os momentos de conflito, as vivências mais complexas e, quantas vezes, a dirimir os nossos erros, falhas e até pecados.

Será que os nossos espaços de fé – paróquias, movimentos, associações ou qualquer outra possibilidade de partilha – nos permitem ser acolhidos, aceites e reconfortados? Nas horas de maior prova temos um ombro onde chorar ou um peito – fraterno, materno/paterno, eclesial ou espiritual – onde desabafar sem acusações nem reprimendas? Não será que, quando e quanto vivermos isso, poderemos estar mais despertos para propormos isso aos outros? Como poderemos ajudar quem sofre se não tivermos a sensibilidade de sermos acolhidos quando sofremos?


Na conciliação teológica, espiritual e católica da samaritana e do samaritano poderemos ter um coração e uma mente saudáveis para sermos, hoje, os evangelizadores e os profetas de Jesus pela vida, como dom e como mistério: aquela acolheu Jesus e deixou-se converter, este fez-se próximo, aproximando-se fraternalmente. De fato, quanta gente sofre porque não conhece Jesus, porque não há quem lh’O anuncie e tantos outros sofrem porque não há quem deles se aproxime de mão estendida e de coração aberto à partilha.

Aquela mãe, que teve de abortar, precisa de um samaritano para viver a dinâmica da samaritana, hoje!  

 

António Sílvio Couto

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

4 milhões ‘vivem’ da segurança social


Em finais de 2013, a Segurança social tinha cerca de quatro milhões de beneficiários num total de mais de cinco milhões de subsídios… tendo em conta os apoios (alguns cumulativos) de abono de família, de subsídio de desemprego, de pensão de velhice ou de sobrevivência…

Entre 2008 e o final do ano passado, a Segurança social perdeu 350 mil contribuintes, ganhando, no entanto, quase duzentos mil novos pensionistas.

Há outros dados que nos devem fazer refletir: naquele período de tempo foram ‘destruídos’ quase setecentos mil empregos… Os gastos gerais de transferência do Orçamento de Estado para a Segurança social cresceu dois mil milhões de euros! Há cerca de três milhões de pensionistas, segundo os dados de 2013.

= Diante destes dados sobre a sustentabilidade da ‘pretensa’ Segurança social – bem como de outros pilares do (dito) Estado-social – torna-se urgente rever critérios, aferir condutas e mesmo mudar comportamentos ideológicos de uma coletivização das pessoas e das instituições.

Desde já uma declaração de princípios: nada me leva a acreditar que o Estado – seja qual for o governo ou a governação – faz melhor pelas pessoas, pois muitas vezes estas só contam como peças de um puzzle de interesses de forças mais ou menos assumidas na prossecução dos objetivos de obrigar todos ao menor denominador comum e favorecendo uns tantos… sobretudo se forem da mesma ideologia e/ou servindo lóbis idênticos.

= A criação dos setores de ação social do Estado teve por incremento o tempo após-segunda guerra mundial, gerando meios para que as populações tivessem boas condições de vida – saúde, segurança, educação, assistência social, etc. – perante as agruras que exigiam a união de esforços para a reconstrução dos países devastados pelas consequências da guerra. Isto aconteceu com a Europa do Norte e noutros países do centro do continente… Mas no sul – sobretudo no caso português – nem todos os países entraram na guerra e os meios de ação social não foram tão difundidos. E, em Portugal, só na sequência da revolução de Abril/74, é que foram colocadas as linhas-força para o tal Estado-social… Uma coisa são os desejos, outros são os meios. Estes nem sempre estiveram conjugados com aqueles… nestes últimos quarenta anos.


= Decorrido este tempo, foi-se gerando a sensação que já não é mais possível continuar a beneficiar de idênticas regalias com uma baixa acentuada de natalidade, com um grave envelhecimento da população, com uma cada vez maior dependência da falta de emprego estável e duradouro, com um empobrecimento de muitos e um razoável enriquecimento de uma minoria. Estamos a viver um certo inverno geracional, onde a falta de substituição de gerações não permitirá que continuemos a ter os mesmos direitos, pois interrompemos a capacidade de que as ações de âmbito social possam continuar como se tudo estivesse a ser normal. Por isso, está na hora de fazer novas opções para que as mais básicas situações de bem-estar social possam continuar por mais tempo, com condições de exequibilidade, de justiça e de verdade.
 

= As gerações mais novas precisam de aprender a valorizar o que os seus antepassados lhes transmitiram, mesmo que de forma incipiente, mas que lhes podem ter facilitado o apreciar do que têm (ainda) atualmente Há, hoje, comodidades que têm amolecido os mais novos, gerando neles quase um direito de usufruir o que não lhe deu qualquer trabalho a conquistar. Da mesma forma que muitos dos mais velhos – sobretudo no contexto de minifúndio rural e da agricultura de subsistência familiar – receberam pensões e subsídios para os quais não realizaram trabalho em descontos ou em participação nas coisas do bem comum, assim muitos dos mais novos têm de conseguir, pelo trabalho sério e esforçado, a prossecução de tais benefícios… sociais generalizados para o futuro.

Talvez tenha de chegar, em breve, ao fim a profissão ‘reformado’ – pelo menos como é hoje –, pois os fundos não são inesgotáveis e a mentalidade tem de ser educada para a cultura do trabalho e não da preguiça…a longo prazo!  

 

António Sílvio Couto (asilviocouto@gmail.com)

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Crianças nascidas fora do casamento


Quase 46% das crianças portuguesas nascem fora do casamento. Este dado foi publicitado por estes dias através dos serviços oficiais de estatística, que dizem, por seu turno, que, em Espanha, os casos de filhos extracasamento tem menos dez pontos percentuais… isto segundo dados de 2012.

A quebra do casamento, entre 2003 e 2012, nos dois países ibéricos, situa-se na média de três vírgula cinco por cada mil casos… sendo a descida mais acentuada no caso luso. As causas sociológicas para a quebra da valorização do casamento têm a ver, entre outras, com a crise, a emigração, o envelhecimento progressivo da população, a diminuição progressiva da fecundidade e até o declínio da autoridade religiosa… não esquecendo ainda o desligar da sexualidade do plano e compromisso conjugal, isto é, as pessoas deixam de ter de casar para poderem viver juntas e poderem ter filhos.


- Num tempo em que a instituição ‘casamento’ – tenha ou não a versão matrimónio – é colocada em causa por múltiplos fatores de risco, temos de saber encontrar as causas deste colapso, mais do que andarmos a esmiuçar as consequências de uma mudança que tem tanto de complexa quanto de (quase) irreversível. Com efeito, foram dados passos assaz demolidores de toda a corresponsabilidade entre pessoas – dizemo-lo de forma clara e concisa, sobretudo, entre um homem e uma mulher – que podiam e deviam ser ajudadas a cumprirem as suas tarefas em favor de si mesmas e para com a sociedade.
 

- Desacreditar o casamento tem sido um plano bem urdido por certos lóbis mais ou menos assumidos para que a própria família caísse no descrédito, senão na forma pelo menos no conteúdo. Embora os resultados se estejam (já) acolher, as sementes foram lançadas no após-segunda guerra mundial, com tantos fenómenos de libertação, que mais não foram do que promoção de uma certa libertinagem nas ideias e nos comportamentos… Decorridas duas gerações eis os resultados mais visíveis!
 

- Dum modo intensamente organizado foram colocadas as traves-mestras para que o afundamento do casamento fosse conseguido sem grande estertor, quer por partes das Igrejas – onde a católica foi sendo ridicularizada e alguns dos seus ‘enfeites’ usados como disfarce – quer ainda por parte dos Estados – ditos democráticos – que foram dando regalias (direitos) idênticas a quem não queria responsabilidades (obriga-ções) semelhantes, desde o fator dos impostos até às pretensões igualitárias entre géneros e outros benefícios.

= Que fazer, então, com tantos sinais de aviso?

+ Urge educar para os valores da família e da responsabilidade, desde a mais tenra idade. Há fatores que não podem ser desculpa, mas antes de temos saber investir no que é essencial, onde pai e mãe vivam o que são e façam valer a sua autoridade pela disponibilidade para o amor feito oblação e/ou compromisso.

+ Quando tantos brincam ao prazer, urge educar para a vida, onde cada pessoa vale pelo que é e não tanto pelo que pretende mostrar. A ética da vida não está ao sabor dos caprichos mais ou menos materialistas, pois as crianças não podem ser objetos decorativos nem tornarem-se compensação de traumas não resolvidos.

+ Certas adoções – ou mesmo co/adoções – de género não passam de fait-divers de circunstância… e, em muitos dos casos, como que se tornam numa espécie de máquina de refrigerante a pataco… tal como o foi/é o preservativo de vão de escada ou à entrada dalgum lugar público de diversão ou mesmo farmácia!  

 = Porque acreditamos no futuro, ousamos propor que não se desista da valorização do casamento estável entre um homem e uma mulher para que a sociedade se regenere e se construa como um mundo mais humano, onde a família seja uma instituição respeitada, favorecida e amada.

= Porque acreditamos na força do amor, da amizade e da caridade na família e na sociedade, queremos que mesmo os filhos nascidos fora da estabilidade do casamento possamos aprender a amar e a serem amados, a cuidar e a serem cuidados como carinho, estima e ternura, hoje e sempre.

 

António Sílvio Couto

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Respeito e consagração



Por estes dias têm ocupado as notícias matérias das quais se esperava algum consenso e até ponderação, mas o que acontecido é o contrário. As praxes universitárias e o Panteão nacional têm sido muito falados, mas nem sempre pelas melhores razões… As praxes pelos exageros e possíveis atropelos à dignidade e ao respeito pelas pessoas. Por seu turno, o Panteão como que serviu para que a ideologia republicana tentasse impor as suas motivações mais profundas… mesmo nas entrelinhas de uns tantos.

= Do significado do Panteão…

A ideia de ‘panteonizar’ figuras ilustres é já de meados do século XIX, no contexto da revolução liberal, mas só concretizada na vigência da primeira República. Atualmente o Panteão está instalado na Igreja de Santa Engrácia, Lisboa, recebendo os restos mortais de quatro Presidentes da República: Manuel Arriaga, Óscar Carmona, Sidónio Pais e Teófilo Braga; quatro escritores: Almeida Garrett, Aquilino Ribeiro, Guerra Junqueiro e João de Deus; um político, Humberto Delgado; uma artista, Amália Rodrigues… Para breve parece estar a trasladação para o Panteão dos restos mortais de Sofia de Mello Breyner Andersen, escritora.

Atendendo a que o sepultamento no Panteão pretende ‘homenagear e perpetuar a memória dos cidadãos que se distinguiram por serviços prestados ao país, no exercício de altos cargos públicos, altos serviços militares, na expansão da cultura portuguesa, na criação literária, científica e artística ou na defesa dos valores da civilização, em prol da dignificação da pessoa humana e da causa da liberdade’… teremos de ser comedidos e sensatos ao recorrer a este tipo de consagração após a morte, pois muitos aproveitamentos podem ocorrer… como aqueles que temos visto e ouvido nalgumas das declarações e falecimentos mais recentes!

= Às preocupações das praxes…

Só mais de um mês após um trágico acidente, que vitimou seis jovens estudantes universitários, numa praia, de noite, é que houve coragem para destampar a panela efervescente daquilo que parecia algo académico… mas que talvez tenha outros contornos, motivações e significados.

De rito iniciático às mais soezes tropelias à dignidade humana, pareceu haver de tudo… misturando-se relatos de vítimas silenciadas, à espreita de fazerem o mesmo (ou pior) na hora própria da vingança. Sem lançar suspeitas da inteligência dos promotores – o chefe costuma ser o mais repetente na faculdade ou escola – choca-me ver jovens a serem tratados na categoria mais baixa da sua condição humana, tornada quase animalesca, senão na forma pelo menos no conteúdo. Se aquilo acontecesse numa escola de ensino básico tais atitudes teriam a condenação de pais, educadores e autoridades, mas como parece que se está num estabelecimento de ensino superior todos encolhem os ombros em atitude de desdém e/ou de vergonha?

Não basta trazer o assunto à ribalta, importa tomar atitudes enérgicas para que não se promova o faz-de-conta com que tantas vezes tratamos certos problemas. Agir, já e de forma consistente, é preciso!

= Propostas para a mudança

Porque estes assuntos são matérias de índole civilizacional, parece-nos que temos a obrigação de colocar questões ao modelo de sociedade que queremos no futuro, pois o do presente parece estar podre e vazio.

- Educar para os valores desde a mais tenra idade, colocando a instrução universitária (ou superior) num espaço cultural de serviço à pessoa humana e não à promoção dos outros para meu proveito… seja ele qual for, agora ou no futuro.

- Semear fraternidade e não exploração, pois somos confrontados com sinais de egoísmo e processos de imposição da vontade de minorias aos outros, isto é, temos de reconquistar a confiança uns nos outros, através de gestos e de palavras de verdade e de humildade.

- Proporcionar conquistas de serviço aos outros e não exibir-(se) em projetos mais ou menos interessantes, mas que só conseguirão vencer se forem participados por muitos e não aproveitados por uns tantos.

Respeito por si mesmo exige consagração de vida dedicada aos outros… porque eles são meus irmãos!

 

António Sílvio Couto

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Metade da riqueza mundial nas mãos de 85 pessoas


A riqueza de 85 pessoas do mundo corresponde à soma das posses de quase metade da população mundial, isto é, um por cento das famílias concentram 110 biliões de dólares, sessenta e cinco vezes a riqueza total da metade mais pobre da população mundial.

Esta conclusão faz parte de um relatório de uma organização não-governamental britânica a apresentar no ‘Fórum económico mundial’, que reúne, por estes dias, na Suíça. Este relatório refere ainda que, no último ano, mais de duzentas pessoas tornaram-se milionárias…

- Quando de tantas e tão variadas formas vemos as pessoas a viver em volta do dinheiro, podemos ficar estarrecidos com a concentração de tantos recursos nas mãos de tão poucos, criando uma espécie de injustiça agravada…

- Quando no nosso tempo as pessoas são valorizadas pelo que ostentam e não por aquilo que são, o abuso de poder económico torna-se uma conduta bem mais subtil do que aquilo que podemos reconhecer. Com efeito, há pessoas que valorizam o ‘ter’ em vez do ‘ser’ e o ‘parecer’ em vez da autenticidade e verdade.

- De muitas e diversas formas temos vindo a ser ‘educados’ para que o fator dinheiro valha mais do que a cultura, levando, por vezes, os mais novos a exigirem o que se torna quase incomportável para os pais e educadores. De fato, há fatores de distinção que flutuam ao sabor da vulgaridade de quem se promove e faz parecer importante, mas, de verdade, mais não é do que oco e vazio… tanto na prática como na teoria.

- Desgraçadamente vivemos numa cultura onde a preguiça – ‘ser rico e não fazer nada’ – ganhou estatuto de elogio, fazendo com que os mais ricos aviltem os mais pobres com exageros e com exibições nada consentâneas com a dignidade humana. Se atendermos à promoção de certas iniciativas de bem-fazer podemos ver uma espécie de psicologia do anzol, temos os outros presos pela boca e damos para que nos agradeçam… Esta tentação pode até passear-se pelos corredores das nossas igrejas ou estar guardada em armário nas sacristias ou, por que não, mais ou menos presente nos espaços de ação socio-caritativa! 

= Caridade: dom e mistério… na fé e na vida

Diante de muitas ações de filantropia como que sentimos alguma tristeza, pois nem sempre as pessoas contam, a sério, para serem ajudadas. Algumas das que recorrem à ajuda também vão aprendendo a arte de subsistir, adaptando-se às circunstâncias e aos lugares, podendo tornarem-se (quase) profissionais da pedinchice e /ou da subsidiodependência.

Já lá vai o tempo de as famílias – sobretudo mais ricas e endinheiradas ou com bens de raiz – terem os ‘seus pobres’ a quem ajudavam para serem consideradas boas pessoas ou até se destacarem no contexto social (normalmente rural) e /ou religioso. Hoje, com o anonimato do tecido urbano, as pessoas estão mais deixadas ao seu destino, crescendo a multidão dos excluídos e as franjas dos marginalizados. Se não fossem algumas iniciativas de âmbito socio-religioso… substitutas do (pretenso) ‘Estado social’, a fome seria mais grave no nosso país e no mundo e as assimetrias criariam ainda mais revoltados e empobrecidos.

A Igreja católica tem uma doutrina e uma prática muito avançada – mesmo em relação a certas teorias e ideologias (pretensamente) de esquerda – criando, gerando e gerindo a partilha entre todos, não em razão das leis exteriores – como no coletivismo de Estado, no socialismo (dito) democrático ou na desejada social-democracia – mas a partir do interior e da convicção das pessoas: não somos obrigados a pôr em comum, mas colocamos em comum em razão da fé, que nos irmana e nos conduz. O risco será quando se institucionaliza a tentativa de igualdade sem fraternidade e não se educa a força de comunhão, tanto entre as pessoas como com as associações, coletividades e agremiações. Quem não conhece a força (espiritual) das irmandades? Como não reconhecer o poder (moral) das misericórdias? Como esquecer a capacidade de mobilização da fé e da caridade em tantas ações de bem comum?

Quando a ignorância se torna atrevida é comum assistirmos ao labéu sobre as riquezas da Igreja católica. Mas porque não se faz idêntica campanha com as riquezas de tantos Estados e mesmo de certas organizações transnacionais? A quem interessa colocar sob fogo a Igreja e esconder outros poderios bem mais fortes e influentes? A História, normalmente, se encarrega de fazer justiça… nem que leve muito tempo!  

 

António Sílvio Couto (asilviocouto@gmail.com)

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

‘Esta é a voz’!...


Eis o som identificativo de um programa televisivo de um canal em sinal aberto. Edição após edição, este programa suplanta a concorrência e tem-se tornado dos poucos temas transversais na sociedade e na dita cultura popular… pelo menos a fiar-nos nas amostragens de audiência!

Não está em causa formular de modo exaustivo algum juízo de valor – muitos há, desde a linguagem até às insinuações, das tiradas com sentido malicioso até ao comportamento de quase promiscuidade, passando pela malcriadez de concorrentes e mesmo da apresentadora – sobre os conteúdos nem sobre os participantes do referido programa, mas antes tentar refletir sobre aquela expressão: ‘esta é a voz’, pois pode tornar-se algo mais do que uma imagem de marca, mas antes uma situação cuja imagem poderá distorcer outros contextos em que expressão igual ou idêntica seja utilizada.

Não fui nem sou seguidor regular do programa. No entanto, não recuso ter gasto algum tempo para saber do que se tratava. Não sei os nomes dos concorrentes e confundo-os/as nas personagens… Fico-me, por isso, naquela frase que motiva esta reflexão – espero que entendam que não se trata de procurar resquícios de maledicência, mas antes a procura de uma nova forma de entender quais são as vozes que se nos impõem e fazem ouvir ou confundir, crentes ou não-crentes…

= Ainda recentemente, na liturgia do tempo do Natal, escutamos essa expressão sobre João Batista: quem és tu? Ao que ele respondeu: ‘eu sou a voz do que brada no deserto’! Não será que, quem via aquele programa, sorria com a expressão dita por João? Onde e como podemos discernir a diferença sem acrescentarmos alguma semelhança ou mesmo proximidade?

= Se atendermos a que a tal ‘voz’ não passa disso, pois não se lhe conhece o rosto, como poderemos não baralhar os mais novos se lhes dissermos que, da voz de Deus não temos o rosto, mas só uma voz que nos fala? Não andará por aqui algo que nos pode exigir mais do que banalidades sem recorrermos a frases feitas ou a chavões doutros tempos?

= A ‘voz’ do programa dá ordens, corrige, adverte, castiga… consola, premeia, introduz novas tarefas…confronta as pessoas quando desavindas, reconcilia, promove os seus ‘valores’… numa panóplia de missões, dentro e fora do confessionário. Reparemos na quantidade de clichés religiosos de âmbito cristão/católico! De fato, a imaginação dos promotores do programa tentou servir-se do quadro religioso tradicional do povo português… criando confusão ou aproveitamento! Nesta polivalência de conceitos parece que houve intenção de gerar novos critérios e condutas, senão na teoria pelo menos na prática!

= Como poderemos articular a ‘voz’ exterior com a ‘voz’ interior, que também é dita como sendo a ‘voz da consciência’? Haverá alguma concordância e conciliação? Acertaremos na mais adequada?

+ Questões essenciais de índole espiritual/cristã

Diante desta temática como que sentimos alguma urgência em mergulhar nas ondas da ‘Voz’ – isto é, de Deus – que nos fala e nos interpela, nos conduz e nos educa, nos mostra o caminho e nos faz converter à luz da Sua Palavra, que é Jesus e que está escrita na Sagrada Escritura.

Precisamos com necessidade educada e educativa de saber distinguir as vozes que nos seduzem das vozes que nos conduzem, as vozes que nos amordaçam das vozes que nos libertam, as vozes que, embora melodiosas, são maliciosas, tanto no conteúdo como na forma… clara ou capciosa.

Porque nem sempre é fácil distinguir o essencial do secundário, precisamos que nos ajudem a fazer um caminho de humildade e de serenidade, onde os outros nos acompanham nesse acreditar, pois Deus fala-nos por eles e que não efabulamos o que pretendemos ser a ‘voz de Deus’ num sentido subjetivo da compreensão humana… Se até os grandes santos se submeteram ao discernimento da ‘voz de Deus’ pela condução dos irmãos, quem somos nós para pretendermos fazer caminho diverso? Cuidado: não escutemos só os que connosco concordam, pois, podem ser antes de ajuda, estorvo ou adulação do mal.

Aprendamos a escutar e escutemos a ‘Voz de Deus’ no mais íntimo de nós mesmos e na palavra da Igreja.

 

António Sílvio Couto