Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

God bless America!

É habitual ouvirmos, no final de cada comunicação ao país, o Presidente dos EUA dizer, de forma clara e concisa, aos seus concidadãos: ‘God bless America’ (Deus abençoe (ou salve) a América), numa alusão à força de bênção e de proteção que ele, enquanto o mais alto magistrado, faz e atualiza. Embora fundada esta expressão numa canção do início do século passado é considerada a mesma quase o hino não-oficial dos Estados Unidos.

O que aconteceria, em Portugal, se o Presidente da República usasse tal linguagem ou ousasse colocar Deus presente na realização dos seus atos e na proclamação dos seus discursos? Quem não se lembra duma (quase) ridicularização que foi, há uns tempos atrás, uma leve ironia do atual Presidente quando fez uma breve alusão a Nossa Senhora e às questões da dívida e da austeridade!...

Vem isto a propósito das dificuldades que sentimos em ver Deus ser colocado nas coisas públicas – ‘res publica’ – e de os intérpretes dessas mesmas coisas assumirem a sua fé. Dado que, em breve, se vão perfilar candidatos a candidatos para a Presidência da República convirá que saibamos quem são os ditos, quais os valores que defendem e mesmo quem é que os empurra… de forma clara ou tácita!

Fique, desde já salvaguardado, que a crença – sobretudo de índole cristã – nem sempre funciona como garantia de bom exercício do ministério e nem quem seja (ou se pretenda assumir) agnóstico nos poderá (totalmente) afiançar que será menos bom no exercício de tal tarefa. Com efeito, as pessoas fazem o cargo, mas, muitas vezes, o cargo também molda as pessoas!

Não vamos conjeturar sobre os que já andam na boca e na escrita de alguma comunicação social. Muito menos queremos que estejam, naquele posto, bajuladores da nossa vivência de fé cristã, pois podem tornar-se (ainda) mais perigosos do que os que são (ou pretendem ser) contrários.

= Cidadãos de duas cidades… compenetradas

Na linguagem do cristianismo sempre houve uma forte e clara leitura da dupla cidadania dos batizados: cidadãos/membros da cidade terrena e da cidade celeste. Temos, nos primeiros séculos do cristianismo, um belíssimo texto, que se faz eco desta consciência de pertença: a chamada ‘Epístola A Diogneto’, onde, nos capítulos cinco e seis, se faz uma leitura teológica, espiritual e cultural desta riqueza de ser cristão, não de uma condição meramente terreste, mas, paradoxalmente, também celeste.   

No Concílio Vaticano II temos um excelente documento que retoma esta leitura dos cristãos no mundo, que é a Constituição pastoral ‘Gaudium et spes’ sobre a Igreja no mundo atual. É digno de registo que, embora siga quase a par e par aquele documento dos primeiros séculos do cristianismo, nunca é citado de forma explícita, sobretudo, nos capítulos terceiro e quarto da primeira parte da ‘Gaudium et spes’.

Porque sentimos e vemos que, em muitos casos, os cristãos como que se refugiam – ou cedem à tentação de se refugiarem – no templo, esquecendo os compromissos do mundo/tempo e porque, em não menos situações, encontramos pessoas que tentam confundir a sua fé nas reivindicações do mundo, obnubilando o templo, é que consideramos ser oportuno colocar algumas questões para que a nossa fé seja incomodada e a nossa ação seja mais cristãmente espiritualizadora:

- Para nós trabalho é meio de santificação? O local de emprego é exercício de sacerdócio e de profecia?

- Quando rezamos, queremos um certo idílio religioso ou entregamos a vida amassada com lágrimas e dores?

- Construímos nas nossas assembleias de fé pessoas com valores ou geramos pieguices sem miolo?

- Quando votamos sabemos escolher em razão dos valores ou da fachada (simpática) dos candidatos?

- Esclarecemo-nos para votar em consciência ou limitamo-nos a reproduzir uns tantos oportunistas que nos fazem favores…interesseiros?

- Entregamos a outros o que a nós compete decidir em ordem a mundo mais justo, mais humano e, por isso, mais cristão?

Que Deus abençoe Portugal, quer quem nos governa, quer quem é governado… na verdade e na justiça!

 

António Sílvio Couto
(asilviocouto@gmail.com)

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Escutar o silêncio


Foi com surpresa que, por estes dias, li um comentário sobre a necessidade – nalguns casos mesmo exigência – do silêncio em concertos de música, seja dita clássica, seja nos concertos rock, seja ainda nos espetáculos de música popular.

A questão é tanto mais acutilante quanto alguns dos músicos, dizem que se sentem incomodados quer com as fotos, quer com os comentários dos espectadores ou ainda da (excessiva) interação através das (ditas) redes sociais, pelos posts colocados ao tempo em direto…

Se esta reação é inesperada, pois o escutar da música como que provoca nas pessoas uma certa sintonia, o que dizer da ausência de silêncio em tantos momentos e lugares de envolvência pública.

Vejamos breves exemplos… um tanto paradigmáticos:

- Na Assembleia da República é impressionante a quantidade de comentários aos discursos ou intervenções dos adversários, que, mesmo sem o microfone ligado, se ouvem os mais díspares impropérios e, casos houve, de pateado e quase de insurreição.

- Repare-se na confusão que são os programas televisivos onde se tenta discutir um tema: os intervenientes não se escutam e, por conseguinte, não se fazem ouvir… tal a barulheira em concorrência… e se for sobre futebol a coisa azeda, quase só faltando chegarem a vias de fato.

- Atenda-se também ao ambiente de almoços/jantares… com música de fundo à mistura, onde a conversa se faz aos pares e quase nunca os comensais da mesma mesa interagem, pois a conversa não é diálogo.

Outros campos poderíamos elencar para percebermos que o silêncio não é uma das melhores caraterísticas dos nossos dias…Quem não tem nada a dizer, fala, fala muito e alto… ou é surdo sem se ter apercebido!

= Não haverá medo do silêncio?

Deixamos uma simples estória, que certamente já muito terão refletido, mas útil no nosso dia-a-dia. 

Um dia um pensador indiano fez a seguinte pergunta aos seus discípulos:

- Porque gritam as pessoas, quando estão aborrecidas?

Um disse: gritamos porque perdemos a calma. Outro retorquiu: porque desejamos que a outra pessoa nos ouça.

O pensador respondeu:

- Sabem porque se grita com uma pessoa, quando se está aborrecida? A razão é que, quando duas pessoas estão aborrecidas, os seus corações afastam-se muito e para poderem cobrir essa distância precisam de gritar de modo a poderem escutar-se mutuamente. Quanto mais aborrecidas estiverem mais fortemente têm de gritar para se ouvirem uma à outra através da grande distância...

Por outro lado, sabem o que sucede quando duas pessoas estão enamoradas? Não gritam, falam suavemente! E por quê? Porque seus corações estão mais perto, a distância entre eles é pequena e, às vezes, os seus corações estão tão próximos que nem falam, só sussurram. Aliás, quando o amor é muito intenso nem sequer é preciso sussurrar, basta apenas olhar, pois os seus corações entendem-se... porque estão muito próximos!

= Aprender o silêncio, hoje

De fato, o silêncio não é ausência de barulho, mas antes espaço livre para escutar o outro e não para lhe impor o nosso falar… assim poderá haver diálogo. Mas porque estamos excessivamente cheio de nada, há confusão às mínimas palavras, podendo gerar-se conflitos de interesses egoístas ou guerras de solidões.

Biblicamente diz-se de Maria: ‘Quanto a Maria, conservava todas estas coisas, ponderando-as no seu coração… Sua Mãe guardava todas estas coisas no seu coração’! Ora, quem mais tinha coisas para dizer e ficava no silêncio! Quem mais tinha boas notícias para comunicar e ficava em silêncio saboreando tudo em seu coração! Quem como Maria tinha tanto a falar e estava contemplando em seu coração o seu Deus!

Não tenhamos medo do silêncio verdadeiro, mas antes temamos o excesso de barulho, que, por vezes esconde a superficialidade e a falta de consistência do que se pretende dizer… de vazio, inútil e oco!

 

António Sílvio Couto (asilviocouto@gmail.com)

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Do sorriso à alegria e vice-versa


Foi notícia por estes dias: uma cantora norte-americana, Miley Cyrus, de vinte e um anos, reconheceu que costuma deitar a língua de fora por não saber sorrir. Dizia: ‘fico tão envergonhada de as pessoas me tirarem fotos, que não sei como sorrir. Isso acaba por me deixar incomodada, pelo que deito a língua de fora, porque não me ocorre outra coisa’.

Ainda em contexto natalício, por entre tantas campanhas, havia uma intitulada: ‘missão sorriso’, onde se uniram uma cadeia de grande superfície comercial e uma entidade promotora de benemerência… em ordem a recolherem alimentos para famílias mais carenciadas… com transmissões televisivas de permeio… a sorrir!

= Por que é que se insiste tanto nesta dimensão do sorriso, será porque as pessoas parecem tão tristes? Será o sorriso uma qualidade humana ou ato do homem/mulher? Haverá verdade em muitos dos sorrisos com que nos cruzamos? Como se pode e se deve sorrir sem usar os outros? Podemos acreditar em todo o sorriso? Não haverá sorrisos falsos e falsos que se encobrem no sorriso? Não haverá algum cinismo em tantos dos sorrisos? Qual a raiz do verdadeiro e autêntico sorriso? Se atendermos ao contexto cristão/católico veremos alguma diferença? Serão os cristãos sinais diferentes ou tão iguais que (quase) nada dizem aos que não têm fé? Seremos anunciadores, pela vida e pelo testemunho, de uma mensagem alegre? O nosso rosto não será demasiado triste para que o sorriso não disfarce a falta de sorriso? 


= Dizem os entendidos que sorrir liberta muito mais do que se vivermos em atitude de tristeza. Para colocar uma fácies triste concorrem mais músculos em contração do que os que manifestam alegria em distensão … tornando as pessoas, com tendências de tristeza, um rosto mais pesado, agastado e mesmo envelhecido.
 

Como diz o Papa Francisco, na exortação Alegria do evangelho: «compreendo as pessoas que se vergam à tristeza por causa das graves dificuldades que têm que suportar, mas aos poucos é preciso permitir que a alegria da fé comece a despertar, como uma secreta mas firme confiança, mesmo no meio das piores angústias» (n.º 7).

Será que podemos criar uma nova cultura, onde a alegria seja marca e o sorriso uma distinção? Quais serão, então, os sinais necessários para que essa cultura se manifeste sem medo nem vã interpretação? Como poderemos ser mais alegres e não vivermos na desconfiança dos menos sorridentes?

Eis cinco breves propostas:

- Tornar a alegria dom e serviço aos outros, sobretudo, àqueles que não têm fé, pois, se pela alegria/sorriso, conseguirmos evangelizar, estaremos a tornar Jesus presente em tantas vidas que nos parecem vazias.

- Falar pela positiva e, por todas as formas, exorcizar os vendedores de tristezas e de maledicência… mesmo que isso implique denúncia profética.

- Criar círculos de boa influência, seja no espaço da família até no local de trabalho, bem como noutras instâncias de presença, tornando esses lugares (humanos, sociais e culturais) oportunidades de boa vontade e de boa harmonia entre todos e, onde os que pretendam ser más influências, sejam vencidos pela compreensão e pelo carinho fraterno.

- Propor e viver mais em conformidade com a credibilidade dos atos e não ao sabor das (boas) intenções… que facilmente se esboroam nos atritos de cada dia.

- Aprender a ter uma boa estória, anedota ou graça saudável, procurando fazer rir (ou ao menos sorrir) sem superficialidade, mas numa construção atenta ao bem alheio e não ao nosso interesse de protagonismo.

São só breves sugestões, que bem gostaria de poder viver como atitude de vida e não como ansiado projeto, pois da alegria (verdadeira) nos fala Jesus e nos ensina (sempre) o Espírito Santo…ontem como hoje!              

 

António Sílvio Couto

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Fraternidade – caminho para a paz


Na sua primeira mensagem para o próximo (47.º) dia mundial da paz, 1 de janeiro, o Papa Francisco faz uma longa dissertação sobre o tema: ‘Fraternidade, fundamento e caminho para a paz’.

Respigamos breves excertos e tentaremos colher algumas lições.

- A família é a fonte de toda a fraternidade.

- Num mundo caracterizado pela globalização da indiferença… lentamente nos faz habituar ao sofrimento alheio, fechando-nos em nós mesmos.

- A globalização torna-nos vizinhos, mas não nos faz irmãos…[numa] ausência duma cultura de solidariedade.

- As novas ideologias, caracterizadas por generalizado individualismo, egocentrismo e consumismo materialista, debilitam os laços sociais, alimentando aquela mentalidade do descartável que induz ao desprezo e abandono dos mais fracos, daqueles que são considerados inúteis. Assim, a convivência humana assemelha-se sempre mais a um mero ‘do ut des’ [dou para que dês] pragmático e egoísta.

- A humanidade traz inscrita em si mesma uma vocação à fraternidade, mas também a possibilidade dramática da sua traição.

- A raiz da fraternidade está contida na paternidade de Deus.

- A fraternidade humana foi regenerada em e por Jesus Cristo, com a sua morte e ressurreição.

- Em Cristo, o outro é acolhido como filho ou filha de Deus, como irmão ou irmã e não como um estranho, menos ainda como um antagonista ou até um inimigo.

- A paz ou é bem de todos ou não o é de ninguém.

- Há uma forma de promover a fraternidade é o desapego vivido por quem escolhe estilos de vida sóbrios e essenciais, por quem, partilhando as suas riquezas, consegue assim experimentar a comunhão fraterna com os outros.

- As graves crises financeiras e económicas dos nossos dias impeliram muitas pessoas a buscar o bem-estar, a felicidade e a segurança no consumo e no lucro fora de toda a lógica duma economia saudável.

- As sucessivas crises económicas devem levar a repensar adequadamente os modelos de desenvolvimento económico e a mudar os estilos de vida.

- É precisa uma conversão do coração que permita a cada um reconhecer no outro um irmão do qual cuidar e com o qual trabalhar para, juntos, construírem uma vida em plenitude para todos.

- A fraternidade gera paz social, porque cria um equilíbrio entre liberdade e justiça, entre responsabilidade pessoal e solidariedade, entre bem dos indivíduos e bem comum.

- A natureza está à nossa disposição, mas somos chamados a administrá-la responsavelmente… De que modo usamos os recursos da terra?

- O serviço é a alma da fraternidade que edifica a paz.

= Tentativas de respostas às perguntas de sempre

Através desta mensagem o Papa Francisco, numa vertente típica do santo que fundamenta o seu nome – Francisco de Assis – aborda a temática da paz pela raiz da fraternidade, que nos faz a todos irmãos sem diferença de prerrogativas, mas antes idênticos na comunhão.

É mergulhando na essência da nossa pessoa humana – criada por Deus, em comunhão com a natureza, regenerada em Cristo e na vivência comunitária em Igreja – que a fraternidade se torna outro rosto da paz e ainda como compromisso político com os outros. Com efeito, muitos dos egoísmos e individualismos que nos tentam, acontecem pelo afastamento de Deus e do diálogo de uns para com os outros.

Por vezes tentamos encontrar desculpas para o nosso viver superficial, mas o que nos falta é a consciência de pertença à família humana e às suas mais diversas comunhões… mesmo que isso nos custe viver e testemunhar na verdade, na simplicidade e lealdade. A paz é possível, pois todos somos filhos de Deus e irmãos/as em Cristo!

 

António Sílvio Couto

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Para uma família ao ritmo de Jesus, Maria e José


Com a proximidade ao Natal surgem-nos momentos de reflexão – cultural, social e religiosa – onde se podem interpretar os vários intervenientes do quadro deste mistério cristão. Num primeiro momento apresentamos algumas reflexões sobre cada uma das personagens atuais da família e, posteriormente, deixamos uma breve proposta, em jeito de oração, diante das figuras da Sagrada Família de Nazaré. 

* Aprendizagem para hoje

Num tempo em que a temática da família é tão maltratada, torna-se urgente perceber como podemos e, sobretudo, como devemos, hoje, viver em conformidade com o projeto sumariado por Jesus, Maria e José.

= Jesus como filho torna os filhos mais agradecidos aos pais, na medida em que estes o cuidam, cultivam e acarinham. De fato, muitos dos filhos de hoje não têm o carinho nem o cuidado dos pais… tais são as preocupações em ganharem dinheiro para os sustentarem, que o tempo falta para o essencial…

Como se nota um certo abandono dos filhos, mesmo que se lhes dê coisas, se não se dá cuidado, eles sentir-se-ão joguetes ou armas de arremesso na hora da disputa e/ou do conflito. Reparemos em tantos filhos de pais separados. Olhemos com atenção para os filhos em circunstâncias de vulnerabilidade – os teus, os meus e os nossos! – e, tantas vezes, sem as mínimas referências de estabilidade emocional.

Jesus, o filho amado, cuide dos filhos em desamor e à deriva… mesmo anafados de bijuterias sentimentais!

= Maria na função de mãe como que exalta a ternura; na tarefa de esposa como que enaltece a vida; na dimensão de companheira como que nos faz entender a força na fraqueza; na vertente de filha e/avó como que nos situa na perspetiva de elo contínuo de gratidão e de longevidade… muito para além das raízes que se veem… naturalmente.

Maria, Mãe divina e intercessora nossa, ela nos ampara, cuidando de tantas mães que nem sempre exercem a sua função feminina, materna e maternal.

= José, na complexa visão da sua paternidade, simboliza o que de melhor se espera de um pai: trabalhador, atento, sereno e segurança da família… dando a cada um dos outros elementos familiares a certeza que ele está ali vigiando e sendo suporte da condição de todos com os olhos postos em Deus e em abertura aos outros.

Por José entregamos tantos progenitores que não são, verdadeiramente, pais, confiando-os à sua proteção e conselho. Por José queremos aprender, hoje, as lições da paternidade responsável e afetuosa, correta e terna, na medida em que os pais se tornem rostos da autêntica paternidade divina…em condição humana.

* Lições interpelativas

Quando celebramos a Sagrada Família de Nazaré, em contexto de Natal, podemos e devemos contemplar Jesus, Maria e José como modelo e protótipo do verdadeiro amor onde está presente o espírito de serviço para todas as famílias.
Olhamos e deixamo-nos contemplar por Jesus, Maria e José, naquilo que cada um viveu ou vive em família e nas lições que deles podemos recolher para cada um de nós neste tempo e segundo as nossas diversas circunstâncias:
- Em Jesus vemos o modelo de filho: obediente, amável, trabalhador, correto para com os pais, em sintonia com Deus...que ama e se deixa amar, tanto pelo pai como pela mãe!
- Com Maria podemos perceber o testemunho de presença da vida, de santuário da paz, de mestra na dedicação, de esposa atenta, de mãe terna, de companheira espiritual...amando e sendo amada! Maria é o modelo de serviço e de compreensão bem como de todas as virtudes humanas, disposta sempre a cumprir com toda a exatidão a vontade de Deus.
- Por José podemos ver o sinal de pai para todos os tempos: no serviço aos outros, na dedicação ao trabalho, na presença e proteção à mãe e ao filho, sobretudo nas horas de maior dificuldade.
- Sagrada Família de Nazaré intercedei, protegei, abençoai e conduzi as nossas famílias, particularmente as que possam estar em maior dificuldade, hoje.

 

  António Sílvio Couto (asilviocouto@gmail.com)

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Humildade – lição essencial do Natal




Diante da azáfama das coisas do Natal, há (ou pode haver) algumas distrações que não se compaginam com a profundidade do mistério celebrado: o nascimento de Jesus.

Duma forma mais ou menos assumida vai-se interiorizando a necessidade de centrarmos no essencial estas coisas dos festejos natalícios: menos luzes (nas ruas e em casa), maior frugalidade nas despesas (de presentes/prendas, de comidas e bebidas, de brinquedos e afins, de deslocações e viagens, etc.)…numa tentativa de entender as razões daquilo que celebramos e, nós, cristãos, procuramos viver.

Para além das marcas sociais e económicas, o Natal tem marcas de índole psicológica e espiritual. Para além da festa da família, o Natal necessita de ser vivido com motivações mais do que meramente humanistas. Para além do aproveitamento das vertentes materialistas, o Natal deve criar condições pessoais e familiares onde o renascimento de Jesus se possa dar… tendo lugar na nossa casa, seja em mesmos, com os nossos, seja no ambiente em que habitamos, isto é, aquilo que fazemos e aqueloutro que me faz ser o que sou.

= Como será, então, viver a preparação e o próprio Natal em humildade?

Desde logo será conveniente dizer que não é humilde somente quem quer, mas a quem Deus concede essa graça… embora para se ser humilde tenha de haver esforço, pois esta faceta da nossa personalidade humana não é muito vendável, nos tempos que correm. Na preparação e na vivência do Natal temos alguém que vive, por excelência, a dinâmica da humildade: isso mesmo podemos ver tão belamente em Maria, nossa senhora. Ela é quem se faz – ou melhor, se deixa fazer – humilde para que Jesus tenha condições de nascimento, aconchegando-o em seu coração e depois afagando-o em seus braços e regaço.

Por outro lado, para se ser humilde e viver como tal só o conseguimos na medida em que aceitamos a profunda realidade do pecado, tanto em nós mesmos como à nossa volta. Aliás, este é o melhor caminho para nos reconhecermos como meros instrumentos nas mãos de Deus, isto é, numa humildade que nos torna agradecidos pelo perdão que Deus nos concede para celebrarmos condignamente Jesus, que renasce pelo perdão sacramental. Não deixa de ser revelador duma certa apatia a reduzida frequência do sacramento da penitência, no Advento, quando comparada com a participação no mesmo por ocasião da Quaresma. Ouvi, uma vez do recém-falecido D. António Marcelino, uma frase que atesta este aspeto: o Natal gera mais fraternidade do que conversão!

Ora, viver com humildade exige uma grande e profunda capacidade de despojamento, mesmo intelectual. E nem sempre é fácil ver como sabemos tão pouco, quer diante dos outros, quer na vivência à luz da sabedoria do Espírito Santo. Quantas vezes o nosso ‘orgulho intelectual’ nos impede que sejamos capazes de nos assumirmos na nossa ignorância, isto é, necessitados de aprender e, por conseguinte, aptos a fazermos, na humildade, um caminho de aprendizagem, seja no enriquecimento humano, seja na abertura aos outros e até no reconhecimento da nossa pequenez diante de Deus. Vejamos o percurso de humildade de São José, o servo sem palavras, mas rico de atitudes de seguimento da vontade de Deus. Não é uma mera casualidade que o Papa tenha proposto a invocação deste grande santo como patrono da Igreja: há de ser pela sua humildade que havemos de aprender a ser humildes, de verdade!

Numa palavra: estar disponível para fazer o caminho da humildade exige pureza de coração e simplicidade de vida. Com efeito, há sempre um longo caminho a percorrer… pois a humildade faz-nos mergulhar no húmus da nossa contingência mais profunda, aprendendo aceitar-nos para nos deixarmos converter cada vez mais radicalmente. Quem melhor do que Jesus viveu em caminho de abaixamento ao fazer-se homem e assim salvar-nos? Por isso, celebrar Jesus, no Natal, é fazer com Ele idêntico percurso na fé e no testemunho de vida, hoje.

 

António Sílvio Couto

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Carta aberta aos meus irmãos, padres!


Estimados irmãos,

Depois da mais recente exortação apostólica do Papa Francisco, A alegria do evangelho e perante a generalidade da nossa figura – visual, simbólica e humana – senti-me impulsionado a partilhar convosco algo que – progressiva, amadurecida e preocupantemente – me tem vindo a inquietar.

Para quem não me conheça, apresento-me: tenho quase cinquenta e cinco anos de idade e mais de trinta de ordenação sacerdotal; nasci na região do Minho, mas estou há mais de dezasseis anos em atividade pastoral na região de Setúbal; tenho uma certa tendência para escrever e, talvez, um hábito de pensar por escrito; gosto muito, no exercício, do ministério sacerdotal, da dimensão eucarística, numa dinâmica pneumatológica; encontrou-me numa descoberta da dimensão mariana…pessoal e eclesialmente.

Ora, no passado dia de Cristo Rei, participei no encerramento do ‘Ano da fé’, na diocese de Setúbal, que decorreu em Almada. Reparei que a maioria – senão mesmo a totalidade – dos rostos dos (nossos) padres denotavam alguma tristeza… talvez ansiedade, inquietação… e, sei lá: desânimo!

Diz o nosso povo, na sua sábia e acrisolada sabedoria, algo que aqui se pode citar: ‘o mal e o bem ao rosto vem!’ Ora, se aquilo que se vê é triste, como não será de tristeza a nossa difusão disso, mesmo a um tempo que se manifesta cada vez mais entristecido…

- Sabem, tão bem ou melhor do que eu, que os problemas das pessoas se repercutem em nós. As dificuldades das pessoas deixam marcas em nós. As dores dos nossos irmãos e irmãs deixam-nos em comunhão com os seus sofrimentos…por mais ou menos tempo!

- Nós falamos de ressurreição, mas nem sempre da forma mais alegre e entusiasmada. Nós falamos de esperança, mas parece que ela não nos envolve de verdade. Nós difundimos o amor – sobretudo na vertente mais divina e divinizante da caridade – e das suas manifestações, mas talvez nem sempre o testemunhemos afetiva e efetivamente…

- É certo que, por vezes, não temos a devida ressonância das nossas propostas nem das que a diocese nos coloca. Talvez os que nos acompanham e com quem caminhamos, sobretudo, nas paróquias não se empenham nem se comprometem como gostaríamos. De fato, esbarramos com alguma indiferença, apatia e desinteresse. Por vezes podemos ser tentados a nivelar as propostas pelo menor denominador comum, gerindo uma pregação light ou até propondo uma religião amolecida…

- Deixo, por isso, em jeito de propostas breves achegas para o tempo do Advento:

* Se o nascimento de Jesus é mensagem de alegria, temos de celebrá-lo com novo entusiasmo. Podemos não converter muitos, mas que consigamos pelo menos um novo cristão mais consciente e alegre.

* Se a celebração do Natal gera fraternidade, tentemos fraternizar o nosso ambiente, a começar pelos nossos vizinhos e familiares.

* Se não podemos recristianizar o Natal, tentemos ter dois ou três gestos que possam levar Jesus à vida daqueles que nos foram confiados pela Igreja como campo de evangelização e de missão.

 Queiram-me desculpar o que vos escrevi, mas tudo isto é primeiramente para mim. Se vos for útil aproveitem.

Com estima e amizade,

 

António Sílvio Couto