Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



terça-feira, 1 de outubro de 2013

Economia paralela: recurso ou má-fé?

A economia paralela já supera, em Portugal, os 44 mil milhões de euros, significando cerca de 26% da riqueza produzida no país e que foge aos impostos. Segundo um estudo da faculdade de economia do Porto, as razões para este fenómeno são o aumento da carga fiscal e o desemprego.

A economia paralela manifesta-se nos seguintes setores e campos de atividade: produção ilegal, produção oculta (subdeclarada ou subterrânea), produção informal, produção para autoconsumo e produção encoberta...atingindo comércio e serviços, indústria e agricultura…

Bastará referir que a economia paralela, em Portugal, era de 9,3% em 1970 e atingiu 26,74%, em 2012. A média da OCDE, em 2010, era de 16,5%!...

Segundo ainda o estudo que citamos são apontadas algumas propostas de combate à economia paralela nos seguintes aspetos: necessidade de maior transparência na gestão de recursos públicos, educação da sociedade civil, justiça rápida e eficaz, combate à fraude empresarial, incentivo à utilização de meios eletrónicos e combate ao branqueamento de capitais…
- Mesmo que de forma inconsciente todos nós somos ou podemos ser fautores de alguma economia paralela, bastará não pedirmos fatura, recolhendo benesses para pagar (ilusoriamente) menos, irmos na conversa de alguém que nos ilude com descontos mais ou menos falsos… Por certo cado um de nós já colaborou nesta grande empresa de fuga aos impostos nem que não seja de forma indireta ou tácita.
- Como poderemos, então, combater este cancro da nossa cultura e, sobretudo, da nossa economia? Quais são ou devem ser as etapas de luta contra este inimigo comum subterrâneo do nosso eu coletivo? Não podemos assobiar para o lado como se não tivéssemos nada a ver com isto, pois, em cada um de nós, portuguesmente falando, há como que uma espécie de aldabrão disfarçado!...

- Atendendo à complexidade deste ‘nosso’ fenómeno da economia paralela, temos de propor medidas que façam com que sintamos a vida comum do país e com que sejamos educados para a construção do bem comum, onde cada um de nós procura estar ao serviço dos outros e em que todos vivamos numa intercomunhão de interesses e não subjugados às mesquinhezes pessoais, ideológicas ou de grupo.
- Para mal do nosso presente e como que hipotecando ainda o futuro coletivo, não tivemos de nos unir para reconstruirmos o nosso país como a maior da parte dos países da Europa no após-segunda guerra mundial, onde os impostos e a força de trabalho foram colocados ao serviço dos outros. A psicologia de minifúndio – mais mental e cultural do que simplesmente económica e territorial – tem minado a nossa atenção uns para com os outros, pois vivemos acentuadamente num egoísmo demasiado estrutural e cultural.
- Embora tentemos fazer do Estado uma espécie de ‘pai previdente’, a sistemática fuga aos impostos é algo revelador da nossa cultura e mentalidade, manifestando-se em múltiplas consequências… Com efeito, criou-se, em Portugal, uma certa tendência de que o Estado – sobretudo na concretização executiva do governo – deve fazer quase tudo, levando, muitas vezes, pessoas e instituições, coletividades e empresas, indivíduos e associações… a serem mais reclamantes do que contribuintes para o bem-estar de todos, escondendo-se, porventura, sob a capa de uma maior ou menor consciência das tarefas que lhes são acometidas… desde que recebam muito e paguem o mínimo ou nada.

-Se dissermos que o ‘nosso’ montante da fuga aos impostos na economia paralela corresponde a metade da verba com que temos estado a ser ajudados pelas entidades estrangeiras, que nos emprestaram dinheiro para sobrevivermos com alguma dignidade e pagarmos as nossas despesas públicas, então, teremos de compreender que nos exijam o pagamento com juros altos, pois quem não sabe cuidar do que é seu como poderá ser de confiança no tocante aos bens alheios?

 

António Sílvio Couto (asilviocouto@gmail.com)

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Saber queixar-se… à portuguesa


Faz quase parte da nossa psicologia de portugueses uma certa ‘arte’ de queixume. Nas ruas e nos espaços privados escutamos tantas vezes pessoas que desfiam as suas lamúrias… fazendo-o de forma sincera ou com a arte de cativar a atenção alheia, criando um certo ambiente dalguma negatividade, seja na componente social, seja na perspetiva familiar, tanto quando as coisas correm em registo escuro, como nas ocasiões em que se está (ou pode estar) mais aliviado… Culturalmente os portugueses vivem mais ao sabor da melancolia – veja-se a vivência estrutural do fado… como expressão cultural e musical – do que das energias positivas, que o sol lhe deveria comunicar…

- Há, no entanto, uma atitude que nem sempre colhe no relacionamento com os outros: se alguém não se queixar não consegue atrair a atenção dos outros e poderá, mesmo que de forma inconsciente, funcionar como alguém que se pretenda colocar num patamar de superioridade que, em maré menos benéfica, reverterá contra essa espécie de sobranceria.

- Normalmente a atitude de vítima ou de vitimização – seja como ‘coitadinho’, seja nas garras dalguma pobreza explorada – conquista mais adeptos do que quem joga na equipa da sinceridade. Estes podem tentar disfarçar mas sobrevivem, enquanto aqueles flutuam mesmo que à custa de mentiras e de dislates… conjunturais ou estruturais.

- Se alguém ousar não dizer ou desfiar as suas ‘desgraças’ poderá ser (pretensamente) entendido como um tanto presunçoso, seja porque se considera acima dos outros, seja porque não se ‘irmana’ na miséria, pois esses têm uma posição que pode atrair a atenção e – tal como se diz nos adágios populares – ‘quem não chora não mama’!... Só nesta vivência poderemos entender que somos um povo propenso a viver mais no desgraçadismo do que na correta visão do que somos sem mazelas nem rótulos!

= Para uma visão cristã do cuidado… dos outros

Enquanto cristãos vemos os outros como irmãos na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, nos bons como nos maus momentos… descobrindo e expondo-nos uns aos outros – sempre numa correta visão do pudor e do respeito – tanto na presença em família como nos círculos de amizade, numa intercomunhão que sabe (e procura saber) mais o que nos edifica do que aquilo que nos pode escandalizar.

Nesta época do virtual há quem se esconda por trás de imagens de facebook, de considerações de ‘gosto’ (‘like’) ou ‘não gosto’… numa espécie de exibição da privacidade onde o buraco da fechadura foi substituído pelo clique do computador ou a manipulação do que se quer mostrar… às vezes sem tino nem senso!

- Ora, na componente mais básica de uma visão cristão de nós mesmos e dos outros precisamos de viver na verdade, sobretudo para com aqueles que connosco caminham, dando-nos a conhecer sem vitimizações nem disfarces. Se não permitimos ser amados – mesmo nas nossas fragilidades e fragilizações – como poderemos criar confiança para amar? Se não nos damos a conhecer na verdade como poderemos aceitar que nos amem sem medos nem preconceitos?

- Na recorrente do pensamento do Papa Francisco recordamos essa nota de cuidarmos dos outros e de nos deixarmos cuidar… pois só desta forma viveremos a partilha não dos aspetos negativos ou até negativizados, mas das marcas de simplicidade da nossa história e nas estórias dos outros que Deus coloca no nosso caminho… Com mais simplicidade de vida poderíamos ser mais felizes e criaríamos outros círculos de felicidade à nossa volta!

- Pelo que vamos conhecendo de nós mesmos – tanto das fragilidades como das boas prestações – e dos outros com quem vivemos, torna-se urgente gerar uma arte de benevolência, de compaixão e de pacificação, provindas do nosso interior espiritual – particularmente cristão – pacificado, seja pelo perdão dado e recebido, seja pela comunhão em Cristo e com Cristo uns para com os outros.

Afinal, a vida não se resume àquelas vertentes da «salve rainha»: ‘gemendo e chorando neste vale de lágrimas’. Que as há, há… mas não são tudo nem sequer o mais importante!   
 

António Sílvio Couto
(asilviocouto@gmail.com

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Escândalo dos alimentos desperdiçados


Segundo dados da FAO (organização para a alimentação e agricultura), um terço dos alimentos produzidos em todo o mundo é desperdiçado. Este desperdício corresponde a 1,3 mil milhões de toneladas de alimentos e tem um custo global de 570 mil milhões de euros… o equivalente ao produto interno bruto da Suíça. Por seu turno, no mundo 870 milhões de pessoas passam fome todos os dias…

Em tempos recentes assistimos a um episódio global que pode ser bem elucidativo da falta de vontade em resolver o problema da fome no mundo: quando as entidades bancárias entraram numa espécie de colapso, logo os mais diversos governos – sobretudo os mais poderosos – injetaram dinheiro para salvaguardar aquelas fontes de prosperidade… Ao tempo foi dito que os fundos disponibilizados correspondiam à verba necessária e suficiente para acabar com a fome no mundo! De algum modo poderemos interrogar-nos sobre se haverá interesse fundado e capaz para deixarmos de assistir à tragédia de tanta gente que morre de fome! Será que o tema da fome condiciona as respostas sem prejuízo dos métodos usados no seu prolongamento? 

Porque acreditamos que a fome – esse flagelo desumano tanto ou mais mortífero do que a guerra – pode ser evitada, se houver novas atitudes dos humanos uns para com os outros, ousamos sugerir pequenas propostas para a combatermos de forma ativa, consciente e consequente: 

- Saber alimentar-se pode ser, desde logo, uma forma de comunhão com quem não tem o necessário para sobreviver, passando fome ou vivendo em subnutrição. Neste aspeto de saber alimentar-se se inserem os cuidados para com a obesidade e ainda o não comer por excesso ou por defeito o que pode fazer mal ao equilíbrio somático-psíquico-espiritual. Quantas vezes é o corpo que paga as debilidades desequilibradas do nosso inconsciente! Se fossemos mais equilibrados naquilo que comemos outros poderiam ter o suficiente para viverem!

- Educar o desperdício logo desde o prato em que comemos, sabendo ser moderado nos apetites, desde os mais simples até aos mais condimentados, tanto no uso do sal como de outros aperitivos… até às compras que fazemos, pois, senão estivermos atentos aos prazos e às quantidades dos artigos de alimentação bem depressa estarão fora de validade e irão escusadamente para o lixo. Por vezes as promoções das grandes superfícies são meras artimanhas que seduzem, mas que nos levam a estragar a curto e a médio prazos…  

- Cultivar a caridade com gestos que ultrapassem a mera conjuntura – repare-se nas campanhas do ‘Banco alimentar contra a fome’ ou alguma outra iniciativa local, nacional ou esporádica – mas que tenham o cuidado dos outros como tarefa de sensibilidade cultural… Há um esforço pedagógico que deve ser semeado logo nas crianças, fomentado na idade da adolescência/juventude e cimentado em projetos de compromisso com os outros na idade adulta, sem nunca tratarmos os outros como (meros) necessitados, mas como participantes na sua dignificação… atual e futuramente. Não fosse o tecido capilar de tantas instituições – muitas delas ligadas à Igreja católica – e o fenómeno da fome seria, neste momento, em Portugal, um drama de consequências quase incomportáveis! A caridade também é uma forma de viver a justiça e a solidariedade na vida prática.   

= Desafios políticos da fome

Mais do que um problema social, a fome é um problema político, que uns tantos usam para manipular os outros, tornando-os seus lacaios e servidores, pois pela boca os fazem escravos. Até quando teremos fazedores da política a ralharem com a barriga cheia, enquanto os seus votantes se entretêm com migalhas que lhe são lançadas da mesa opulenta da avareza, da vaidade e da cobiça?

Mais do que nunca o slogan: ‘pão e jogos’ está hoje em vigor, pois se há pão, os jogos servem de disfarce para a incompetência de tantos e se há jogos, o pão pode servir de arma para conquistar novos apaniguados… até que descubram o logro em que foram induzidos.

 
António Sílvio Couto (asilviocouto@gmail.com)

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Arte de praticar a democracia

Um autarca não candidato às próximas eleições, numa espécie de balanço dos mandatos exercidos, referiu recentemente: «é fácil dizer-se democrata mas praticar a democracia é uma arte e nem sempre os políticos têm essa arte».

Atendendo ao que pode estar subjacente a esta a afirmação e dadas as lutas em vista das eleições autárquicas do final deste mês, poderemos tecer alguns comentários, tendo em conta a necessidade de que os eleitos sejam os melhores e não (meramente) os menos maus.

= Conceito de ‘democrata’… partidário ou servidor?

Tempos houve, em Portugal, em que o conceito de ‘democrata’ se tornou um adjetivo de rótulo para distinguir algumas fações político-sociais, dependendo de quem usava tal epíteto. Aliás, ‘democrata’ era uma espécie de preconceito – normalmente de uma certa esquerda – de quem discordava do regime anterior ao 25A74. Parece que ainda hoje subsiste esta pretensão, nalgumas mentes, de que quem não é dos meus é dos outros… por isso, não ‘democrata’!

Em certos sectores da nossa vida sindical e empresarial ainda há quem viva (ou talvez sobreviva) à custa de ideias ‘democratas’, desde que digam e façam o que dá mais gosto a quem contesta. Veja-se o que se passa com o Tribunal Constitucional, onde uns tantos – na sua maioria devedores das famílias ideológicas/partidárias – servem uma certa democracia de quem se revê nuns tantos conceitos de há quarenta anos e não evoluiu para um mundo onde já não há ‘muros de Berlim’ nem barreiras semelhantes e tão pouco blocos sociais que se constroem à sombra da guerra fria… entre leste e oeste.  

Temos ainda um razoável caminho a fazer na aceitação das ideias dos outros, pois nem sempre temos a absoluta certeza da (nossa) verdade, mas antes aprendemos a fazê-la com pequenos gestos, dando aos outros também sinais de aceitação e de respeito pelas suas ideias…

Ser democrata não é viver na artimanha de rotular os outros nem de os enganar com ataques mais ou menos subtis, mas antes em saber crescer na diversidade dos outros… respeitando-os e sendo respeitado!

= Democracia: o menos mau dos regimes?

Há quem atribuía a Winston Churchill a frase de que ‘a democracia é o menos mau dos regimes políticos’.

Respigamos de um almanaque uma descrição de três figuras políticas dum passado recente e deixamos ao critério de quem nos leia o juízo.

Figura 1: Sabe-se que esteve associado a políticos corruptos, que consultava regularmente astrólogos, teve duas amantes, fumava que nem uma chaminé e bebia cerca de dez martinis por dia.

Figura 2: Foi despedido de dois empregos, costumava dormir até ao meio dia, fumou ópio na universidade e bebia um quarto de garrafa de whisky todas as noites.

Figura 3: foi um herói de guerra, teve várias condecorações, era vegetariano e não fumava, bebia ocasionalmente uma cerveja e nunca teve relações extraconjugais.

Quem serão estas figuras… do passado? Que têm em comum?

Figura um – Winston Churchill, primeiro-ministro inglês duas vezes, orador, estadista, escritor, artista, oficial do exército e responsável pela recuperação da Inglaterra após a segunda guerra mundial.

Figura dois – Franklim Roosevelt, presidente dos EUA entre 1933 e 1945.

Figura três – Adolfo Hitler, chefe da Alemanha na segunda guerra mundial e responsável pela morte, em extermínio, de milhões de polacos, judeus, ciganos, deficientes… em campos de concentração nazis.

Agora que somos chamados a escolher que saibamos exercer a arte da democracia, praticando-a em pequenos gestos, que podem trazermos bons ou maus resultados a curto e a médio prazo. Temos de nos pronunciar, pois se o não fizermos poderão surgir pequenos ditadores… e amanhã já pode ser tarde. Porque ainda podemos escolher não deixemos a outros o que é da nossa total responsabilidade, agora!

 

António Sílvio Couto

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Cuidar e deixar-se cuidar


«Cuidar, guardar requer bondade, requer ser praticado com ternura (...) Ternura não é a virtude dos fracos, antes denota fortaleza de ânimo e capacidade de solicitude, de compaixão, de verdadeira abertura ao outro, de amor. Não devemos ter medo da bondade, da ternura».

Estas palavras foram proferidas pelo Papa Francisco na missa inaugural do seu pontificado, no dia 19 de março passado, na Basílica de São Pedro do Vaticano, na cidade de Roma.

Sem pretendermos reduzir o ministério do nosso Papa a uma frase ou tão pouco a uma palavra, poderemos considerar (até agora) que a expressão ‘cuidar’ – tanto de si mesmo, como dos outros e até da natureza – pode ser uma chave de leitura do Papa Francisco nas mais diferentes vertentes e funções dele e nossas.

Atendendo ainda a uma certa ‘cultura do descarte’ – a expressão é também do Papa Francisco – podemos e devemos reflectir sobre o conceito de ‘cuidar’ seja na dimensão activa, seja na relação (dita) passiva.

Na leitura sobre a ‘cultura do descarte’ – onde se pode ver que o descartável (isto é, o usa e deita fora) é algo com que somos diariamente seduzidos – o Papa refere: «esta cultura do descarte tornou-nos insensíveis aos desperdícios e aos restos alimentares», sendo como que «uma mentalidade comum, que nos contagia»...

Vejamos, então, tonalidades do cuidar e do deixar-se cuidar:

= Cuidar de nós mesmos, isto é, vigiar sobre os nossos sentimentos e sobre o nosso coração. Isto parece ser um tanto diferente da cultura, entretanto bem organizada, da auto-estima, pois esta faz-nos voltar sobre nós mesmos, enquanto o cuidar de nós mesmos nos faz reconhecer a nossa fragilidade – quantas vezes mais viva com o passar dos anos! – e a dimensão de abertura ao reconhecimento de que precisamos uns dos outros... nas pequenas como nas grandes coisas, nos momentos importantes como nos de banalidade.

O cuidar de nós mesmos repercute-se desde a atenção à saúde física e psicológica até à dimensão espiritual pessoal e comunitária. Com dizia alguém: a higiene pessoal é respeito pelos outros, pois do bom convívio connosco mesmos se criará um bom ambiente social e humano. 

= Cuidar dos outros é essoutra vertente que exige atenção e descentramento do nosso egoísmo, dando aos outros o tempo e o espaço de que precisam... muito para além daquilo que nós lhes queremos dar.

Numa intervenção simples e breve o Papa Francisco disse, na noite que precedeu o início do seu pontificado aos diocesanos argentinos reunidos em oração: «vivam o desejo de cuidar uns dos outros». Com efeito, aqui pode estar contido um programa de vida: desejar que os outros – em família, na sociedade, nas relações profissionais, na Igreja ou mesmo na cultura – sejam cuidados com atenção a eles/elas e não a nós que cuidamos deles/delas...

Que dizer de alguém que não recebeu, na devida conta e hora, gestos, palavras e sinais de carinho. Poderá essa pessoa cuidar e deixar-se cuidar sem medo nem preconceitos?

Que dizer ainda de alguém que foi educado mais na repressão do que no incentivo das coisas positivas. Poderá essa pessoa não ser desconfiada quando lhe dão mais atenção do que a menor valoriozação de si e das suas qualidades? 

= Vivemos num mundo – interior e exterior – onde nem sempre cuidamos de nós mesmos e tão pouco uns dos outros. Por isso, a linguagem e os sinais com que o Papa Francisco nos têm desafiado apresentam algo que tem tanto de simples como de surpreendente... embora sintamos que é disso que precisamos: humanizar as nossas relações culturais com o essencial sem disfarces nem exoterismos.

Sem moralismos nem odores de sacristia, tentemos cativar os outros sem os prendermos a nós e façamos deste cuidado mútuo um programa de vida cristã... a começar pelos que nos são mais próximos! Nós merecemos e eles/elas também!

 

António Sílvio Couto

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Interpretando assuntos... deste verão


Diz o nosso povo na sua sabedoria prática e multissecular: ande o verão por onde andar, pelo são João cá vem parar!... Os festejos sanjoaninos já foram há quase dois meses. No entanto, o verão deste ano trouxe-nos os mesmos ingredientes como nos anos transactos: fogos e acidentes, festas e festivais, praias e luxos, férias e devaneios, tricas partidárias e campanhas eleitorais... Talvez tenha sido neste último ítem que possa ter havido alguma diferença, pois, no último domingo de setembro, somos chamados a votar para novos órgãos autárquicos!

Procurando ter, apesar de tudo, das situações e das pessoas uma visão (minimamente) positiva, queremos, no entanto, deixar alguns aspectos que nos devem – como cidadãos cristãos – fazer reflectir não só tendo em conta o presente, mas atendendo ao futuro.

= Fogos e acidentes

Houve momentos em que o país real – isto é, onde vive o povo que sofre e luta e não para uns tantos ‘citadinos’ acomodados (*) – esteve a ferro e fogo: centenas de incêndios, bombeiros que morreram de forma directa ou indirecta no combate às chamas, povoações em risco e haveres consumidos, múltiplos meios de socorro... milhares e milhares de hectares de floresta ardidos e alguns incendiários (uns tantos reincidentes) apanhados na rede... mas talvez nunca sejam castigados. Por seu turno, as estradas – sobretudo as não pagas através de portagens – encheram-se de veículos. Houve dias em que, no mesmo percurso, morreu quase uma dezena de pessoas. Nem o policiamento mais apertado em certos dias ou tão pouco as multas cada vez mais elevadas conseguiram disciplinar os condutores... Parece que as pessoas não aprendem com os erros alheios nem sequer com os próprios! Quem não se cuidar na estrada corre sério risco de vida, tais são as manobras perigosas e as pressas de uns tantos habilidosos na arte de mal conduzir... E não são só os outros!

Tem sido um verão de luto. Até quando teremos de suportar tanta inconsciência colectiva?

 

= Festas e festivais... mais futebóis

Podem dizer que o dinheiro está curto e que há crise, mas os mais variados festivais de música (de norte a sul e com pequenos intervalos) estão cheios de gente e os custos – directos e indirectos – são razoáveis. Talvez seja hoje – para algumas pessoas – uma espécie de estatuto de estar ‘in’, quando vão ou dizerem ir, bem como permitirem que os filhos vão... a tais acontecimentos ‘religiosos’. Parece que de uma ‘religião’ se trata nesse ritual dos festivais, sejam ou não patrocinados por empresas de telecomunicação ou entidades fornecedoras de bebidas... Importa estar por lá ou, ao menos, vir sujo de pó (o próprio ou o carro) e com algum adereço que faça pensar numa nova intelectualidade... de fachada!

Agora que começou a época desportiva, é bom de ver os estádios a encherem-se de adeptos, questionando os resultados e discutindo as táticas... Dizem que não há dinheiro, mas para a bola sempre se arranja umas notas, porque de trocos estamos falados!

= Em tempo de campanha... férias e praias

Já vemos os cartazes para as próximas eleições autárquicas. Uns mais sérios, outros mais apelativos; uns com mais gente, outros só com as figuras mais visíveis; uns mais coloridos, outros já parecem desbotados... No entanto, há um novo ‘adereço’ – desculpem o epíteto, mas de pouco mais nos apraz registar – nesses cartazes que é confrangedor: todos metem uma ou outra mulher... por entre uma maioria de homens já conhecidos ou a despontar para as lides da votação. Dizem que é por causa das quotas da ‘lei da paridade’, onde por cada dois homens tem de estar uma mulher. Desgraçada lei, que usa as pessoas (mulheres) e os que as usam (homens) pouco se importam de as exporem ao ridículo... ou assim parece!

Pelo grande e elevado respeito que me merecem as mulheres – senhoras, mães, filhas, irmãs, esposas, etc. – não gosto de vê-las a serem usadas como se fossem material publicitário em maré de degradação social e cultural. Por isso, mulheres façam-se respeitar e mais do que objectos sejam pessoas com dignidade, já!

(*) Não vimos nem ouvimos a dizerem nada sobre a vaga de fogos: o Presidente da República, o Primeiro Ministro, os líderes partidários de qualquer quadrante, os dirigentes sindicais... nem os responsáveis da Igreja!

 

 

António Sílvio Couto (asilviocouto@gmail.com)

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Um monumento a Nossa Senhora... no espaço público


Dentro de dias, a 8 de setembro, vai cumprir-se um desejo da Moita do Ribatejo – incluindo cristãos e cidadãos, crentes ou simpatizantes, autoridades e povo – a inauguração de um monumento a Nossa Senhora da Boa Viagem, padroeira desta vila... com cerca de sete anos de projecto, mas mais dinamizado nos últimos dois anos.

O monumento apresenta uma estátua em mármore de Nossa Senhora com quase dois metros de altura, sobre um bote em ferro, o qual emerge das águas do rio Tejo, que está a cerca de vinte metros de distância do local onde o monumento será colocado. O bote será pintado com as cores típicas das embarcações (anteriormente de trabalho e agora de recreio) das gentes da Moita.

Os custos da obra – num total que ronda os sete mil euros – são todos suportados pelos fiéis católicos e por outras pessoas que se quiseram associar ao acontecimento, tendo havido angariações de recursos com peditórios, espectáculos de música e a oferta de alguns donativos de empresas e mesmo de casas comerciais. 

= Fé na rua... com sinais cristãos

Sem pretender tecer loas em causa própria a esta iniciativa, teremos de nos situar em que estamos num espaço territorial português onde nem sempre é fácil assumir-se como crente cristão, sobretudo se se tem de ir para a rua, dando a cara ou assumindo-se como católico. Apesar de tudo – com muito respeito e solenidade – há manifestações religiosas nesta área da diocese de Setúbal, em que normalmente cada terra (freguesia, concelho ou pequena localidade) tem os seus actos de devoção tradicionais, tais como procissões, momentos  de festa e mesmo via-sacras ou peregrinações... na rua!

Nota-se, no entanto, a falta de sinais religiosos nos espaços públicos. Aliás foi este um dos obstáculos criados por alguns autarcas – que ainda estão no poder – para que fosse aceite a pretensão em ser colocado um monumento a Nossa Senhora da Boa Viagem numa artéria da Moita.

Agora que foram ultrapassadas algumas das dificuldades – das autoridades a melhor e, diga-se, a mais importante, ajuda que nos foi dada, foi a de não criar problemas, pois os meios económicos quase nunca foram solicitados – esperamos que o monumento dignifique a Moita e as suas gentes, criando uma simbiose com as raízes mais profundas do seu ser psicológico, espiritual e cultural.

= Desafios em ‘Ano da fé’... ao testemunho de contra-corrente

Novamente sem pretendermos qualquer diferenciação, nem na forma e tão pouco no conteúdo, sentimos que a possibilidade de ser erigido um monumento em honra de Nossa Senhora – aqui na invocação de ‘Boa Viagem’ – em espaço público torna-se numa oportunidade de assumpção da fé católica em dinâmica de testemunho, pois, num tempo marcado pela privatização da fé, conseguir expor-se na vi(d)a pública é como que uma ousadia e uma espécie de exposição à possibilidade de incorrer num certo ridículo... para uns tantos intelectuais e benquistos duma certa cultura cristofóbica... e/ou anti-espiritual.

Quando nalguns lugares se tentaram recauchutar peregrinações e romarias, noutras oportunidades rotulou como símbolo da fé o que estava prestes a cair de velho, aqui, neste espaço ao sul do Tejo – que tem tanto de simbólico, quanto de taprobánico – fomos tentando deixar marcos que poderão ser reveladores da fé – senão comunitária pelo menos inquietante, inquietada e inquietadora – de uma porção do povo de Deus que reza, celebra e tenta viver em comunhão de Igreja católica!...

 
= Em jeito de mensagem

Deixamos agora um breve acróstido de ‘Nossa Senhora da Boa Viagem’... com leituras e propostas:

Neste dia de festa e de alegria, na Moita

Olhamos, Mãe bondosa, o vosso rosto,

Sentimos a vossa presença gloriosa,

Saboreando a vossa ternura harmoniosa

Agora e nos momentos de tristeza.
 
 
Sentimo-nos mais amparados

Em cada dia da nossa vida,

Num diálogo de mãe e de filhos.

Hoje queremos renovar nossa confiança,

Onde entregamos nossas dores,

Recebendo conforto e carinho

Amando e sendo amados.


Da vossa imagem vemos os sinais de vida,

Apresentados na caravela e no vosso Filho 
 

Bendita seja a força de fé do nosso povo,

Onde se revelam segredos de heroicidade,

Ajudando-nos a crescer mais na fidelidade.
 

Vemos mártires, confessores e pastores

Imitamos santos, virtudes e intercessores.

Anunciamos com a vida em Igreja

Grandes e pequenos projectos de missão

Em cada momento sentimos a necessidade

Multiforme de testemunho cristão no mundo.

 

António Sílvio Couto
(asilviocouto@gmail.com