Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



terça-feira, 27 de agosto de 2013

Interpretando assuntos... deste verão


Diz o nosso povo na sua sabedoria prática e multissecular: ande o verão por onde andar, pelo são João cá vem parar!... Os festejos sanjoaninos já foram há quase dois meses. No entanto, o verão deste ano trouxe-nos os mesmos ingredientes como nos anos transactos: fogos e acidentes, festas e festivais, praias e luxos, férias e devaneios, tricas partidárias e campanhas eleitorais... Talvez tenha sido neste último ítem que possa ter havido alguma diferença, pois, no último domingo de setembro, somos chamados a votar para novos órgãos autárquicos!

Procurando ter, apesar de tudo, das situações e das pessoas uma visão (minimamente) positiva, queremos, no entanto, deixar alguns aspectos que nos devem – como cidadãos cristãos – fazer reflectir não só tendo em conta o presente, mas atendendo ao futuro.

= Fogos e acidentes

Houve momentos em que o país real – isto é, onde vive o povo que sofre e luta e não para uns tantos ‘citadinos’ acomodados (*) – esteve a ferro e fogo: centenas de incêndios, bombeiros que morreram de forma directa ou indirecta no combate às chamas, povoações em risco e haveres consumidos, múltiplos meios de socorro... milhares e milhares de hectares de floresta ardidos e alguns incendiários (uns tantos reincidentes) apanhados na rede... mas talvez nunca sejam castigados. Por seu turno, as estradas – sobretudo as não pagas através de portagens – encheram-se de veículos. Houve dias em que, no mesmo percurso, morreu quase uma dezena de pessoas. Nem o policiamento mais apertado em certos dias ou tão pouco as multas cada vez mais elevadas conseguiram disciplinar os condutores... Parece que as pessoas não aprendem com os erros alheios nem sequer com os próprios! Quem não se cuidar na estrada corre sério risco de vida, tais são as manobras perigosas e as pressas de uns tantos habilidosos na arte de mal conduzir... E não são só os outros!

Tem sido um verão de luto. Até quando teremos de suportar tanta inconsciência colectiva?

 

= Festas e festivais... mais futebóis

Podem dizer que o dinheiro está curto e que há crise, mas os mais variados festivais de música (de norte a sul e com pequenos intervalos) estão cheios de gente e os custos – directos e indirectos – são razoáveis. Talvez seja hoje – para algumas pessoas – uma espécie de estatuto de estar ‘in’, quando vão ou dizerem ir, bem como permitirem que os filhos vão... a tais acontecimentos ‘religiosos’. Parece que de uma ‘religião’ se trata nesse ritual dos festivais, sejam ou não patrocinados por empresas de telecomunicação ou entidades fornecedoras de bebidas... Importa estar por lá ou, ao menos, vir sujo de pó (o próprio ou o carro) e com algum adereço que faça pensar numa nova intelectualidade... de fachada!

Agora que começou a época desportiva, é bom de ver os estádios a encherem-se de adeptos, questionando os resultados e discutindo as táticas... Dizem que não há dinheiro, mas para a bola sempre se arranja umas notas, porque de trocos estamos falados!

= Em tempo de campanha... férias e praias

Já vemos os cartazes para as próximas eleições autárquicas. Uns mais sérios, outros mais apelativos; uns com mais gente, outros só com as figuras mais visíveis; uns mais coloridos, outros já parecem desbotados... No entanto, há um novo ‘adereço’ – desculpem o epíteto, mas de pouco mais nos apraz registar – nesses cartazes que é confrangedor: todos metem uma ou outra mulher... por entre uma maioria de homens já conhecidos ou a despontar para as lides da votação. Dizem que é por causa das quotas da ‘lei da paridade’, onde por cada dois homens tem de estar uma mulher. Desgraçada lei, que usa as pessoas (mulheres) e os que as usam (homens) pouco se importam de as exporem ao ridículo... ou assim parece!

Pelo grande e elevado respeito que me merecem as mulheres – senhoras, mães, filhas, irmãs, esposas, etc. – não gosto de vê-las a serem usadas como se fossem material publicitário em maré de degradação social e cultural. Por isso, mulheres façam-se respeitar e mais do que objectos sejam pessoas com dignidade, já!

(*) Não vimos nem ouvimos a dizerem nada sobre a vaga de fogos: o Presidente da República, o Primeiro Ministro, os líderes partidários de qualquer quadrante, os dirigentes sindicais... nem os responsáveis da Igreja!

 

 

António Sílvio Couto (asilviocouto@gmail.com)

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Um monumento a Nossa Senhora... no espaço público


Dentro de dias, a 8 de setembro, vai cumprir-se um desejo da Moita do Ribatejo – incluindo cristãos e cidadãos, crentes ou simpatizantes, autoridades e povo – a inauguração de um monumento a Nossa Senhora da Boa Viagem, padroeira desta vila... com cerca de sete anos de projecto, mas mais dinamizado nos últimos dois anos.

O monumento apresenta uma estátua em mármore de Nossa Senhora com quase dois metros de altura, sobre um bote em ferro, o qual emerge das águas do rio Tejo, que está a cerca de vinte metros de distância do local onde o monumento será colocado. O bote será pintado com as cores típicas das embarcações (anteriormente de trabalho e agora de recreio) das gentes da Moita.

Os custos da obra – num total que ronda os sete mil euros – são todos suportados pelos fiéis católicos e por outras pessoas que se quiseram associar ao acontecimento, tendo havido angariações de recursos com peditórios, espectáculos de música e a oferta de alguns donativos de empresas e mesmo de casas comerciais. 

= Fé na rua... com sinais cristãos

Sem pretender tecer loas em causa própria a esta iniciativa, teremos de nos situar em que estamos num espaço territorial português onde nem sempre é fácil assumir-se como crente cristão, sobretudo se se tem de ir para a rua, dando a cara ou assumindo-se como católico. Apesar de tudo – com muito respeito e solenidade – há manifestações religiosas nesta área da diocese de Setúbal, em que normalmente cada terra (freguesia, concelho ou pequena localidade) tem os seus actos de devoção tradicionais, tais como procissões, momentos  de festa e mesmo via-sacras ou peregrinações... na rua!

Nota-se, no entanto, a falta de sinais religiosos nos espaços públicos. Aliás foi este um dos obstáculos criados por alguns autarcas – que ainda estão no poder – para que fosse aceite a pretensão em ser colocado um monumento a Nossa Senhora da Boa Viagem numa artéria da Moita.

Agora que foram ultrapassadas algumas das dificuldades – das autoridades a melhor e, diga-se, a mais importante, ajuda que nos foi dada, foi a de não criar problemas, pois os meios económicos quase nunca foram solicitados – esperamos que o monumento dignifique a Moita e as suas gentes, criando uma simbiose com as raízes mais profundas do seu ser psicológico, espiritual e cultural.

= Desafios em ‘Ano da fé’... ao testemunho de contra-corrente

Novamente sem pretendermos qualquer diferenciação, nem na forma e tão pouco no conteúdo, sentimos que a possibilidade de ser erigido um monumento em honra de Nossa Senhora – aqui na invocação de ‘Boa Viagem’ – em espaço público torna-se numa oportunidade de assumpção da fé católica em dinâmica de testemunho, pois, num tempo marcado pela privatização da fé, conseguir expor-se na vi(d)a pública é como que uma ousadia e uma espécie de exposição à possibilidade de incorrer num certo ridículo... para uns tantos intelectuais e benquistos duma certa cultura cristofóbica... e/ou anti-espiritual.

Quando nalguns lugares se tentaram recauchutar peregrinações e romarias, noutras oportunidades rotulou como símbolo da fé o que estava prestes a cair de velho, aqui, neste espaço ao sul do Tejo – que tem tanto de simbólico, quanto de taprobánico – fomos tentando deixar marcos que poderão ser reveladores da fé – senão comunitária pelo menos inquietante, inquietada e inquietadora – de uma porção do povo de Deus que reza, celebra e tenta viver em comunhão de Igreja católica!...

 
= Em jeito de mensagem

Deixamos agora um breve acróstido de ‘Nossa Senhora da Boa Viagem’... com leituras e propostas:

Neste dia de festa e de alegria, na Moita

Olhamos, Mãe bondosa, o vosso rosto,

Sentimos a vossa presença gloriosa,

Saboreando a vossa ternura harmoniosa

Agora e nos momentos de tristeza.
 
 
Sentimo-nos mais amparados

Em cada dia da nossa vida,

Num diálogo de mãe e de filhos.

Hoje queremos renovar nossa confiança,

Onde entregamos nossas dores,

Recebendo conforto e carinho

Amando e sendo amados.


Da vossa imagem vemos os sinais de vida,

Apresentados na caravela e no vosso Filho 
 

Bendita seja a força de fé do nosso povo,

Onde se revelam segredos de heroicidade,

Ajudando-nos a crescer mais na fidelidade.
 

Vemos mártires, confessores e pastores

Imitamos santos, virtudes e intercessores.

Anunciamos com a vida em Igreja

Grandes e pequenos projectos de missão

Em cada momento sentimos a necessidade

Multiforme de testemunho cristão no mundo.

 

António Sílvio Couto
(asilviocouto@gmail.com

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Que festas ‘religiosas’... em tempos de crise?


É do mais elementar bom senso que se dê ao povo – essa entidade quase anónima, mas com uma personalidade colectiva muito bem definida – momentos de descontracção, de festa ou de (inteligente) manipulação... Na panóplia de festas e de festanças vamos vendo surgirem figuras e figurões, uns à sombra de santos e de heróis, outros sob a condição de habilidosos e de concorrentes... eleitorais (autárquicos e não só) e outros mais subtis na forma e no conteúdo... de contestação!

Mais do que falarmos sobre os gastos das festas – muitos deles ultrapassando a capacidade económica dos promotores, tanto na forma como no conteúdo – e do que tentarmos descortinar os reais objectivos das festanças com a ‘cobertura’ de algum santo ou santa, interrogamo-nos sobre a visão de fé (ou a falta dela!) com que são realizadas certas festas ‘religiosas’ (as aspas já querem dizer alguma coisa!), seja qual for a parte do país em que aconteçam ou que tenham a cobertura da matiz religiosa... Agora vivo ao sul do Tejo e o modelo básico de ‘festa’ não difere muito do que era e é feito no Minho, onde nasci e fui educado!   

1. De facto, queremos questionar – sobretudo no âmbito sócio-eclesial – as intenções de algumas festas com algum patrocínio religioso e sob o alcance das temáticas cristãs... mais ou menos assumidas, toleradas ou manipuladas.

Nesta época do ano quase não há freguesia/paróquia/concelho/autarquia – a identificação começa a diluir-se ao nível administrativo, mas não no âmbito religioso – que não faça a sua festa... aproveitando o calor de verão e as necessidades dos fregueses/votantes: até os santos/as se submetem aos interesses dos festejos... com Santa Luzia em agosto e São Brás em setembro... para já não falar da senhora da Conceição em junho e do santo António quando for mais rentável pela presença dos emigrantes!

De facto, o povo precisa de festa, os mordomos/as de promoção – sobretudo neste ano de eleições autárquicas e com outras misturas de interesses – as indústrias de pirotécnia de ajuda, os cantores e cançonetistas de palco, os feirantes de oportunidade de negócio... a Igreja de espaço para não cair no esquecimento... Tudo isto por entre arremedos de (pretensa) crise e/ou de arrufos recessão.. senão para todos ao menos para alguns mais lamentadores!

 

2. Há, no entanto, sinais de vida de fé e de expressão católica, que não podem ser negligenciados, se ainda tentarmos fazer de tais manifestações populares, oportunidades de vivermos para além dos episódios de circunstância. Daquilo que vimos, vivemos e sentimos, queremos propor:

- Que as procissões sejam belas, simples e bem organizadas... não podendo outras manifestações (políticas ou sindicais) serem melhores do que a honra, a veneração e o culto que prestamos aos santos, a Nossa Senhora ou a Jesus, seja qual for a época ou a circunstância... religiosa ou popular;

- Que mais do que o desfile de pessoas e de adereços (minimamente) religiosos não tenham falta de qualidade e de sentido de dignidade, tanto na forma como no conteúdo, para além da mensagem;

- Que haja clareza nos sinais de fé cristã, desde a cruz e a sua invocação comunitária até à presença solene, simples e sincera da Palavra de Deus – pelo sermão, reflexão adequada ou simples explicação dos santos e santas que integram o desfile/procissão – numa linguagem compreensível, humilde a atraente... sem panegíricos ou em agradecimentos dispensáveis... para dentro ou para fora do contexto eclesial.  

3. Mesmo que em tempo (dito) de crise, as festas religiosas são úteis, necessárias e essenciais para que haja identidade social, nacional e cultural de tudo e para todos. Assim as façamos com sentido de fé... verdadeira!

Sobretudo em tempos de crise é que o povo precisa de se divertir, não para se alienar, mas para aliviar as agruras da vida e os sacrifícios que lhe estão adstritos. Assim, façamos das festas religiosas espaços de convívio e de partilha!

Sem perder de vista a necessidade de purificação de uns tantos ingredientes neo-pagãos, as festas religiosas são oportunidade de abertura à fé, assim todos estejam conscientes disso e o façam com dignidade... cultural!

 

António Sílvio Couto
(asilviocouto@gmail.com

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Num processo de neo-paganismo?


Como que por rápida difusão temos visto, em vários locais, do nosso país – com uma maior incidência no norte – a proliferação de manifestações pré-cristãs, seja através de festivais de música, seja na vertente etnográfica e mesmo pelo recurso a temas e a propostas que, na sua maior parte, nos levam a recuar aos tempos antes do cristianismo: celta, romanos ou até pagãos de cultura popular, rural e quase pré-crítica na dimensão civilizacional.

Aliás, não deixa de ser revelador duma certa mentalidade cultural em que nos por agora movemos, podemos perceber que até há autoridades autárquicas que participam nos desfiles... contrapondo a aceitação das gentes as festas de índole religiosa... Veja-se o festival romano, em Braga, versus o São João... no desenrolar deste ano! 

Diante destes indícios ‘culturais’ sentimos e partilhamos algumas interrogações: Qual a razão desta (quase) contraposição entre festas com algum verniz religioso cristão e outras ‘festividades’ que retomam certos ídolos ancestrais? Qual a explicação para que se verifique uma tão grande adesão popular aos ditos festivais, desfiles e cortejos – decepção da religião cristã ou revivescência de mitos não resolvidos? Porque motivo as autoridades se prontificam a estar presentes em tais manifestações misturando, inclusive, a participação com outras de teor cristão/católico, será confusão, oportunismo ou falta de bom senso? 

Citamos a título de ilustração da doutrina do magistério sobre esta matéria uma passagem da recente carta encíclica do Papa Francisco, Lumen fidei, n.º 38: «A transmissão da fé, que brilha para as pessoas de todos os lugares, passa também através do eixo do tempo, de geração em geração. Dado que a fé nasce de um encontro que acontece na história e ilumina o nosso caminho no tempo, a mesma deve ser transmitida ao longo dos séculos. É através desta cadeia ininterrupta de testemunhos que nos chega o rosto de Jesus. Como é possível isto? Como se pode estar seguro de beber no ‘verdadeiro Jesus’ através dos séculos? Se o homem fosse um indivíduo isolado, se quiséssemos partir apenas do ‘eu’ individual, que pretende  encontrar em si mesmo a firmeza do seu conhecimento, tal certeza seria impossível; não posso, por mim mesmo, ver aquilo que aconteceu numa época distante de mim (...). A própria linguagem, as palavras com que interpretamos a nossa vida e a realidade inteira chegam-nos através de outros, conservadas na memória viva de outros; o conhecimento de nós mesmos só é possível quando participamos duma memória ampla. O mesmo acontece com a fé, que leva à plenitude o modo humano de entender: o passado da fé, aquele ato de amor de Jesus que gerou no mundo uma vida nova, chega até nós na memória de outros, das testemunhas, guardado vivo naquele sujeito único de memória que é a Igreja; esta é uma Mãe que nos ensina a linguagem da fé (...). O Amor, que é o Espírito e que habita na Igreja, mantém unidos entre si todos os tempos e faz-nos contemporâneos de Jesus, tornando-se assim o guia do nosso caminho na fé».
Diante daqueles episódios de revivalismo de teor pagão e da fé cristã feita testemunho de vida como que podemos e devemos questionar:

- A capacidade de (não) evangelização actual e dum passado recente, pois ao emergirem certos fenómenos tão populistas como que são denunciados os mentores e os destinatários.. onde se verifica mais uma adaptação de verniz do que uma conversão de fundo, tanto ao nível pessoal como dimensão social.

- A confusão (quase) acrítica de recuperação de certos ritos ancestrais denuncia que há facetas de acomodação que não foram atingidos verdadeiramente pela mensagem do evangelho... Bastará recordar as obras de São Martinho de Dume ou as iniciativas do Beato Frei Bartolomeu dos Mártires para percebermos que estamos – ainda hoje – tão longe do cerne da vivência cristã.

- A erupção  mais ou menos concertada destes festivais, desfiles ou  cortejos não denunciará um plano mais subterrâneo de desacreditação da fé cristã – mesmo que não assumida, embora estimulada – mas que pretende gerar outros valores de natureza epicurista, hedonista e materialista contra a fé cristã, os seus valores mais simples e as propostas mais sérias, sensatas e ousadas?  

 
António Sílvio Couto (asilviocouto@gmail.com

Como Maria, testemunhas de fé... na vida


A Igreja católica celebra, no próximo dia 15 – ainda com feriado civil, em Portugal – a solenidade da Assunção de Nossa Senhora. A declaração dogmática da Assunção de Nossa Senhora foi feita pelo Papa Pio XII, na constituição apostólica ‘Munificentissimus Deus’, de 1 de Novembro de 1950, declarando que, ao terminar a sua missão na terra, Maria, a Imaculada Mãe de Deus, ‘foi elevada em corpo e alma à glória do Céu’, sendo assim a primeira criatura a humana a alcançar a plenitude da salvação. O Senhor confirmou que A devemos ver sempre como Mãe: Ela é intercessora e modelo da nossa caminhada neste mundo!
1.Neste ‘Ano da fé’ que nos traz de novidade (mais) esta celebração? Como podemos e devemos viver a força da Assunção de Nossa Senhora como testemunhas de fé? Até que ponto vivemos esta solenidade com dinâmica de fé ou como um certo ritual religioso e popular? Que temos nós a converter nesta celebração para além da redução de custos nas festas e festejos? Que sinais de fé se manifestam na vida do que participam nas festas, tanto como promotores como os que delas usufruem?
2. Citamos o Papa Francisco na carta encíclica ‘Lumen fidei’ n.º 58-59: «De facto, na Mãe de Jesus, a fé mostrou-se cheia de fruto e, quando a nossa vida espiritual dá fruto, enchemo-nos de alegria, que é o sinal mais claro da grandeza da fé. Na sua vida, Maria realizou a peregrinação da fé  seguindo o seu filho (...) Pelo seu vínculo com Jesus, Maria está intimamente associada àquilo que acreditamos. (...) A verdadeira maternidade de Maria garantiu, ao Filho de Deus, uma verdadeira história humana, uma verdadeira carne na qual morrerá na cruz e ressuscitará dos mortos. Maria acompanhá-lo-á até à cruz (cf. Jo 19,25), donde a sua maternidade se estenderá a todo o discípulo de seu Filho (cf. Jo 19,26-27). Estará presente também no Cenáculo, depois da ressurreição e ascensão de Jesus, para implorar com os Apóstolos o dom do Espírito (cf. At 1,14). O movimento de amor entre o Pai e o Filho na Espírito percorreu a nossa história; Cristo atrai-nos a si para nos poder salvar (cf. Jo 12,32). No centro da fé, encontra-se a confissão de Jesus, Filho de Deus, nascido de uma mulher, que nos introduz, pelo dom do Espírito Santo, na filiação adotiva (cf. Gl 4,4-6)».
3. Ao celebrarmos a Assunção de Nossa Senhora em ‘Ano da fé’ como que somos chamados a fazer com Ela o nosso percurso de fé desde a graça baptismal até à vivência na glória, onde Ela já se encontra como primícias da nova humanidade. Ora, no intervalo desta nossa caminhada de fé, em Igreja católica, nós temos à nossa disposição vários sinais para que caminhemos em função da meta: os sacramentos, a Palavra de Deus, os irmãos/irmãs, as provas e tribulações (interiores exteriores)... o bom testemunho, mas também o escândalo, quem nos compreende e quem nos pode perseguir, a consciência de sermos minoria e a alienação de pensarmos ainda ser cristandade, etc. Em tudo isto podemos ver a presença de Nossa Senhora como o protótipo da nossa fé, na medida em que, por Ela, com Ela e n’Ela, sentimos a sua intercessão. É sob o título de Mãe que os cristãos olham para Nossa Senhora e a Ela recorrem para sentir a sua protecção materna.
4. Desde a perspectiva da Assunção de Nossa Senhora somos desafiados:

. Neste tempo que nos é dado viver, temos de ser homens e mulheres de fé sólida, amadurecida e humilde;

. Precisamos de concretizar os desígnios do amor de Deus nas coisas simples do nosso dia a dia;

. Temos de viver sem nos lamentarmos quanto ao passado nem vivermos em ansiedade quanto ao futuro;

. É urgente conseguir que a maternidade seja socialmente muito mais reconhecida, pois é uma questão de memória e de justiça para todos aqueles que se aproximam de Nossa Senhora para rezar bem como para aqueles que recorrem ao amparo sob seu manto celeste.

5. Nossa Senhora da Assunção nos atraia cada vez mais para sermos sinais escatológicos de uma fé centrada no ‘verdadeiro Jesus’, numa crescente e exigente fidelidade ao Espírito Santo pela na intimidade com Deus nosso Pai e vivendo-a no contexto comunitário de Igreja católica.

 
António Sílvio Couto (asilviocouto@gmail.com

segunda-feira, 29 de julho de 2013

À luz do Pai-nosso - - sugestão de uma prece de confiança para cada dia da semana


Neste domingo (28 de julho), no texto do evangelho, foi-nos ensinado por Jesus o ‘Pai-nosso’. Se bem que tenhamos seguido a versão/narrativa de São Lucas, deixamos uma sugestão para vivermos a nossa semana ao ritmo dest oração-resumo do Evangelho do Senhor Jesus connosco.  

Se olharmos o Pai-nosso como uma oração septenária cristã poderemos fazer corresponder a cada uma das petições um dia da semana, segundo a denominação portuguesa, aferindo a nossa caminhada ao ritmo, particularmente, do tríduo pascal. 

* Domingo – ‘Pai-nosso, que estais nos Céus, santificado seja o Vosso nome’

No dia do Senhor celebramos a bondade do Pai (criação), a ressurreição de Jesus (Páscoa) e a manifestação do Espírito Santo (Pentecostes) numa sintonia de Igreja.

A eucaristia dominical é o momento por excelência desta vivência trinitária e comunitária, pois é em Igreja que sabemos dizer a Deus que Ele é nosso Pai, que está nos Céus e santificamos o seu nome nesta condição terrena... 

* 2.ª feira – ‘Venha a nós o Vosso Reino’

Na segunda féria após a celebração da fé, nós celebramos a vinda do Reino de Deus em Jesus como Igreja que O celebra comunitariamente e cada um de nós pessoalmente.

A petição da vinda do Reino faz-se no tempo de trabalho com que glorificamos a Deus e o dom da vida para a Sua glória e não só para nosso proveito. 

* 3.ª feira – ‘seja feita a Vossa vontade assim na terra como no céu’

Na terceira féria após a celebração da ressurreição do Senhor, nós nos dispomos a viver sempre mais em conformidade com a vontade de Deus enquanto estamos nesta condição terrena.

O discernimento da vontade de Deus passa pela sensibilidade a Ele e à Sua presença nos outros e na natureza que nos envolve.

 

* 4.ª feira – ‘O pão nosso de cada dia nos dai hoje’

Na quarta féria após a vivência da ressurreição do Senhor em comunidade, suplicamos -- por nós e para os outros -- o pão de cada dia, que é tanto de âmbito material, quanto da dimensão psicológica e espiritual.

O pão partilhado faz-se mesa de comunhão e sinal de participação nas necessidades dos outros... sobretudo dos que são excluídos.

De mãos abertas podemos dá-lo a quem no-lo pede e recebê-lo de quem no-lo oferece.
 

* 5.ª feira – ‘perdoai-nos as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido’

No contexto e em ressonância da quinta-feira da Semana Santa em que Jesus instituiu a eucaristia e Se fez sacramento de perdão pelo sinal do ‘lava-pés’, podemos penetrar melhor no sentido das consequências do perdão divino e humano, recebido e dado.

Na gratidão de termos connosco o Senhor Jesus que se faz bom pastor e guia do seu povo amado, podemos estender o nosso olhar para aqueles/as que precisam que lhes ofereçamos o perdão traduzido em sinais de paz e de compaixão.

 

* 6.ª feira – ‘não nos deixeis cair em tentação’

À Luz da entrega de Jesus na Cruz -- dessa intensa Sexta-feira Santa da Paixão do Senhor -- nós nos deixamos revestir da misericórdia de Jesus para connosco e em Igreja... em peregrinação neste mundo.

Pelo silêncio de vitória de Jesus sobre o sofrimento, nós vivemos a intensidade de estarmos em condi-ção de tentados, embora possamos vislumbrar na prova a que é submetida a nossa fé, a força de esperança que na Cruz está anunciada e aparecerá na manhã da Páscoa do Senhor e da Sua Igreja celeste. 

* Sábado – ‘mas livrai-nos do mal’

Da passagem de Jesus pelo túmulo ficou-nos o silêncio de Deus, mas que irrompeu das garras da morte sobre todas as forças do Mal.

Assim nós podemos com Jesus e com a Igreja vencer o mal e seremos vencedores das insídias do mal em nós e à nossa volta.

Já se anunciam os alvores da nova Páscoa, que em cada domingo renasce e nos renova, na força de sermos Igreja Povo de Deus, Corpo de Cristo e Templo do Espírito Santo.
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 Assim sejamos dignos de viver, nesta semana em concreto, o espírito e ao ritmo do Pai-nosso.

Boa caminhada,

 

António Sílvio Couto

(asilviocouto@gmail.com)

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Como ordenar os gastos... corretamente?


Há dias soube da atitude de um dirigente de uma instituição particular de solidariedade social que decidiu protelar (dentro dos parâmetros possíveis e nas datas aceitáveis) o pagamento dos vencimentos dos (seus) funcionários por uns dias para que estes não gastassem o dinheiro precipitadamente. É que havia uma festa, na localidade, no intervalo entre essa data e o final do mês, e corria-se o risco de gastarem o ordenado desordenadamente... Pior ainda, isto tinha por base uma outra experiência mal sucedida, por ocasião do Natal/fim de ano, em que, tendo pago os ordenados uns dias mais cedo do que o habitual, em dezembro, a meio de janeiro, já andavam muitos atrapalhados com a insuficiência de saldo...

Extrapolando este exemplo para o quadro do país e de muitas famílias portuguesas, poderemos apresentar breves perspectivas sobre algumas causas e outras tantas consequências… visíveis ou previsíveis.

Comecemos por fazer algumas (‘inocentes’) perguntas: Será que as pessoas não fazem contas ao que ganham e ao que podem gastar? Porque se gerou uma certa tendência despesista – tanto ao nível pessoal como na dimensão do país – em que não se faz contas às possibilidades mais básicas? Será verdade que as pessoas não fazem contas à vida e aos meios com que contam para honrar os seus compromissos, mesmo os mais essenciais? Não haverá uma tendência, cada vez mais generalizada, de pensar em que alguém, que não o devedor, há-de pagar o que gastamos sem tino nem tento?

Digo-o de forma simples, directa e sincera: fui educado a nunca gastar mais do que aquilo que se tem. Inclusive ouvia na minha família: ‘quem não tem dinheiro não inventa modas nem tem vícios’! E ainda: ‘as coisas têm de durar até que possa haver dinheiro para comprar outras’!...

= Educar para a austeridade ou ter sentido de pobreza?

Agora que o país está sob resgate do empréstimo, que nos foi concedido para termos o dinheiro mínimo em ordem às despesas gerais e, tendo-se gerado um clima de austeridade a toda a prova, urge reflectir que modelo de sociedade queremos: gastar sem olhar a meios ou saber viver com o essencial? Também, na perspectiva cristã da vida e dos valores, poderemos questionar se já aprendemos a viver com a atitude de gente pobre (andrajo, resmungão e mal agradecido) ou em espírito de pobreza sem pactuar com uma resignação preguiçosa, mas antes aferindo-se ao que é essencial?

Como povo português não temos sabido conviver com estes novos desafios, pois nos achavamo-nos numa certa Europa de ricos e julgavamos que nunca mais teríamos de viver com dificuldades. No entanto, bem depressa nos atulhamos na lama do desemprego, nas teias da subsidiodependência, nas garras da promiscuidade entre o legal e o biscate... para flutuar até ver se resulta ou em não ser descoberto!

= Do desperdício à reaprendizagem com o essencial

Sobretudo as gerações educadas nos últimos quarenta anos – muitos já nem se lembram do 25 de Abril – têm de aprender a valorizar as coisas, deixando de viver numa certa vida fácil, desde o brinquedo recebido por birra até à prenda que foi dada sem pedir nem tão pouco merecer. Neste aspecto de aprendizagem tem sido muito útil um programa ficionado televisivo sobre as dificuldades dos ‘retornados’. Aí se vê como nós, portugueses, temos estofo de lutadores e não nos resignamos ao ‘deixa correr’ e em que alguém fechará a porta quando tudo tiver acabado!

Agora que as coisas estão a mudar, precisamos que os responsáveis, tanto das instituições públicas, como as de índole privada, singulares ou colectivas – onde por excelência incluímos a Igreja católica – unam esforços numa pedagogia da assumpção dos nossos erros e numa propulsão das nossas capacidades.

Basta de tanto choradinho, que não paga dívidas. Precisamos de mudar de paradigma… mental e cultural. Urge criar outra mentalidade… mais modesta e séria. Assim sejamos dignos de criar esperança neste Portugal, que tem futuro, sabendo ordenar os nossos gastos... correta, cívica e responsavelmente.


António Sílvio Couto