Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



segunda-feira, 15 de julho de 2013

Doze euros/mês para cortar o cabelo

Por estes dias foi noticiado, primeiro num jornal diário de teor económico e depois noutros, que os trabalhadores da Carris – empresa rodoviária de transportes colectivos em Lisboa – vão solicitar – ao que parece será uma continuação e não uma reivindicação! – um subsídio mensal de doze euros para cortar o cabelo. Esta proposta pretende dar, assim, uma compensação aos ditos trabalhadores pela desactivação da rede de barbearias que serviu a empresa... até finais de 2007.
Por ser (quase) paradigmático de todo um processo reivindicativo e de outras tantas regalias adquiridas, este caso deveria merecer que atendessemos ao seu significado mais amplo... particularmente no sector do trabalho em Portugal. Com efeito, sem pretendermos exacerbar as discrepâncias entre sector público, onde quase tudo é permitido e quase nada tem retorno nem que isso possa parecer desonesto ou até imoral versus o sector privado onde, na maioria dos casos, as conquistas não têm louros de irreversibilidade... parece-nos que o preço do trabalho, no nosso país e em certas regiões urbanas, em particular, está inflacionado, dependendo de quem o vende e de quem o pretenda adquirir... sem contar com as condicionantes reivindicativas – vulgo greves, paralisações e manifestações – que a todos atingem para beneficiar (só) uns tantos!
Tentando fazer ainda um esforço de racionalidade, este pequeno ‘fait-divers’ – havia até quem desejasse, de forma irónica, obter uma ajuda idêntica para compor as sobrancelhas, referia alguém do género feminino – parece ser um pouco revelador de certas regalias (ou direitos adquiridos) que ultrapassam a normalidade das ajudas em matéria de complementos de salário. Se formos analisar outras empresas e serviços poderemos ver múltiplas alcabalas que fazem encarecer a prestação do trabalho em razão da produtividade e dos encargos sociais públicos envolvidos... à custa dos nossos implacáveis impostos.
Não deixa de ser também preocupante que o escalonamento de trabalho seja (quase) sempre em desfavor dos que vivem fora das grandes áreas metropolitanas, esses que pagam também impostos e são, muitas vezes, tratados como menores em matéria de serviços sociais, tanto da saúde, como da segurança e mesmo no âmbito cultural.
Parece, por isso, que é chegada a hora de sacudir as peias de um certo sindicalismo, que já não conhece o espaço de trabalho, mas antes parece viver, na organização de protestos e tentando arrecadar louros que não lhe pertence... embora lhe convenha em matéria de ascensão política... a curto e médio prazo.
Num tempo em que urge rejuvenescer o compromisso político – pois é ainda por aqui que passa a capacidade de decidir e de eleger – não será com tricas de mau gosto que iremos sentir que somos todos iguais perante a lei e o Estado. Os actores de todo este processo ou se tornam heróis de verdade ou sobre eles convergirá o epíteto de farsantes ou mariotas de feira em saldo... ao desbarato.
Agora que temos de dar credibilidade àqueles que nos ajudam a vencer as dificuldades de tesouraria, vermos episódios como o que serviu de partida para esta reflexão farão rir os mais conceituados comediantes na arte circense, se bem que nem todos os que intervêm usufruem do papel principal... Ora, no contexto em que vivemos, os figurantes não podem usurpar a função de actores de primeira. Vejamos a caracterização dos tempos mais recentes no palco político/partidário e choraremos quais carpideiras do nosso luto nacional.
A terminar: doze euros por mês para cortar o cabelo nem é muito, o problema será o que isso denuncia de outros favores escondidos e, possivelmente, mais caros e ardilosos... nesta como noutras empresas.

Portugal, a quanto estás obrigado a pagar... injustificadamente!

António Sílvio Couto



terça-feira, 9 de julho de 2013

Inteligência, educação e espiritualidade


Há três qualidades – humanas, culturais e mesmo cristãs – que reputo como essenciais para um bom relacionamento entre as pessoas: inteligência/educação/espiritualidade... pois, da boa conjugação de todas poderá resultar muito ou quase nada, tanto no nosso auto-conhecimento como na compreensão progressiva dos outros.

* Por
inteligência entendo a capacidade de entender as coisas, o que se diz e mesmo o que se quer dizer. Há pessoas que, mesmo sem terem um desenvolvimento intelectual e/ou um reconhecimento de instrução, têm uma inteligência acima da vulgaridade. Assim como há quem tenha estudos e cuja inteligência ficou ao nível mais rasteiro. Quantas vezes é, pela capacidade de ironia (dispensa-se o sarcasmo!), que podemos comunicar com os outros. Quantas vezes é, pela capacidade de rir-se de si mesmo, que podemos aferir pela inteligência pessoal e dos outros.

Nas questões ligados ao ensino, talvez tenhamos mais de falar de estudantes do que de alunos, pois muitos destes parece que nem sempre aproveitam o tempo para fazerem o que só deles dependem: adquirir capacidade de estudo e não mera reprodução de conhecimentos colados à pressa, mas que o tempo se encarregará de deitar a perder. Até mesmo o corpo docente seria mais valorizado se também se cultiva-se continuamente... Basta de saberes dogmáticos e ignorâncias atrevidas!

* Na dimensão da
educação está contida uma grande variedade de aspectos, desde os mais simples, como o respeito e o saber ocupar cada qual o seu lugar, até aos mais complexos, como saber estar com admiração, no contexto público ou privado, dando a entender que o outro é alguém com quem nos damos e que nos faz crescer e nunca alguém de quem nos aproveitamos para nos promovermos ou que possa ser nosso inimigo.

Esta educação a que nos referimos tem a ver com o conhecimento e a vivência dos actos de convivência social, onde há expressões que consubstanciam o mais básico: ‘por favor’, ‘com licença’,‘obrigado’ e ‘desculpe’... como regras – há quem as classifique de mágicas – de boa educação. Com efeito, muita coisa mudaria se soubessemos usar tais palavras! Muitas atitudes de uns para com os outros seriam mais humanas! Muitas quezílias e conflitos seriam evitados, resolvidos e solucionados!
* Sobre a temática da
espiritualidade – para nós que a incluímos e nos situamos num contexto cristão e católico em particular – entendemos aquilo que, em Deus se pode, deve e é entendido como plataforma onde circulam vários e distintos sinais, que nos fazem entender... na mesma sintonia não só sobre as coisas presentes, mas estando atentos ao passado e abrindo-nos ao significado do futuro... próximo ou a médio prazo em Deus.

Quantas vezes esse mesmo Deus nos faz encontrar, sintonizar, aferir e mesmo concordar... com pessoas, pela simples razão de que estamos numa idêntica espiritualidade. De quantos modos a vivência da espiritualidade – mesmo sem rótulo nem tendência de conveniência – nos faz ultrapassar barreiras culturais para que nos entendamos no essencial, mesmo que os adereços possam ser dispensados! Efectiva e afectivamente a vivência espiritual faz ‘milagres’ pois as pessoas se entendem mais pelo que as une do que por aquilo que as separa. Sem entramos numa valorização da ‘espiritualidade’ em desfavor da religião, acreditamos que é, no Espírito Santo, que nos podemos sintonizar, mesmo que, depois, nem tudo seja concorde com o que nos une e procurando aprofundar as matizes que nos fazem ser o que somos sem dividir, mas antes tentando criar laços de sincera e leal unidade. Confiemos uns nos outros e os laços surgirão e serão valorizados, ontem, como hoje e amanhã.

Assim sejamos inteligentes, com educação e descobriremos tantos sinais de espiritualidade... onde nos encontraremos mais humanos e mais espirituais... em Cristo Jesus.





António Sílvio Couto (asilviocouto@gmail.com)

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Filhos obrigados a visitar os pais

Por estes dias entrou em vigor, na China, uma lei que obriga os filhos a visitar os pais idosos. Esta legislação designada ‘Direitos dos idosos’ prevê a responsabilização dos filhos adultos para com os pais, tentando, desta forma, combater o abandono destes por aqueles e, caso tal aconteça, estão previstas multas e até, em casos extremos, penas de prisão.
A título de informação poderemos dizer que, na China, há duzentos milhões de pessoas com mais de sessenta anos e que, na próxima década e meia, o número duplicará.
Desde já queremos colocar algumas questões sobre a nossa condição e conduta (à) portuguesa nesta matéria também suficientemente importante no nosso contexto sócio-economico-espiritual: Estaríamos capazes de aceitar idêntica legislação? Como está a nossa sensibilidade para com os mais velhos? Será que os mais velhos terão investido o suficiente na humanização das relações com os seus vindouros? Até onde vai a capacidade de compreensão para com os mais velhos sem sacrificar os mais novos? Vendo doutra perspectiva: como será o relacionamento dos mais novos com os mais velhos se estes os depositaram, desde tenra idade, em experiências humanas, mas um tanto desumanizadas? Agora que o berçário, a creche e o jardim-de-infância são (pretensa) solução na idade activa o que será vir a ser cuidado por alguém que viveu isso, quando chegar à idade menos produtiva?
Estas questões podem parece teóricas ou um tanto desconexas com a realidade, mas pela vivência que termos – enquanto trabalho social de Igreja – com mais de meia centena de velhos – termo bonito e adequado para designar uma etapa de vida à qual nem todos sabemos se chegaremos – ao nosso cuidado, parece-nos que devemos reflectir sobre este assunto, tendo em conta os valores cristãos e a sua concretização em matéria de acção humana, espiritual e cristã/católica.
= Sensibilidade para com os mais velhos – numa época histórica e social em que a faixa dos que têm mais de sessenta/setenta anos cresceu de forma galopante, temos de encontrar um método de valorizar o conhecimento de vida destes que já foram designados de seniores, gerando e gerindo iniciativas que captem a sua experiência e não tentem fazer deles quais novas crianças a quem (quase) tudo se promete e pouco se lhes concede... embora lhe vão encurtando as reformas com que ainda tentam auxiliar os parcos recursos dos filhos e gerir os proventos de uma vida de sacrifícios e de trabalhos.
= Diálogo de gerações com respeito e em inter-comunhão – quando a geração dos filhos trabalha, a dos avós cuida dos netos, embora tornando estes uma espécie amada e caprichosa, pois vivem entre fogos de interesses e, nalguns casos, de dificuldade em conciliar a vida profissional com a vida familiar... podendo os avós tornarem-se como que pais a destempo por falta de paciência e de idade e os filhos avós por antecipação... mas mal preparados porque não amadurecidos pelas agruras naturais da vida.
= União ou concorrência entre infantário e lar (asilo) – atendendo à mudança terminológica cada um dos antigos utentes – tanto da fase de infância como da etapa final da velhice – passou a ser chamado pelas estruturas responsáveis do Estado de ‘clientes’, numa aferição numérica e pouco personalizada... onde se procuram inventar soluções, quando a resolução do problema está na linguagem do coração e não nas mais acomodadas perspectivas de conforto material... depreciando a dimensão espiritual e mesmo a psicológica. Não deixa de ser inquietante que muitos dos nossos mais velhos têm sido colocados em espaços que deles cuidam a peso de ouro, embora se tenham esforçado por darem a seu pais outras condições, que não a frieza e desconforto de sairem do seu ambiente. Que dizer dos filhos dos que foram educados na massa do infantário e fora do seu habitat familiar? E nem se julgue que os mais velhos – por estarem em tal estado e com a saúde enfraquecida – não sofrem, só que não entendemos, suficientemente, o que eles nos querem dizer!

Quanta gente seria multada em razão do abandono dos seus mais velhos!... Cumpra-se a lei... natural!

António Sílvio Couto (asilviocouto@gmail.com)

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Comer a prova!


Por estes dias foi notícia: um determinado inquirido, em processo de investigação, quando realizavam buscas a sua casa, terá tirado das mãos do inspector um papel que terá comido... inviabilizando as recolha de provas.

Não nos importa o caso judicial nem tão pouco as pessoas envolvidas e muito menos o que envolveria o (tal) papel comido, mas tão somente, pretendemos aproveitar aquele episódio – o comer da prova – para reflectirmos sobre outros aspectos da nossa conduta diária, pessoal, social, política, etc... onde o que comemos – sobretudo na índole intelectual/cultural – diz do que somos e manifesta o que podemos ser, de verdade.

= Do comer o livro...

Quem conhece minimamente algumas referências bíblicas sabe que, tanto no Antigo Testamento como no Novo Testamento, nos aparecem textos em que o profeta, no caso de Ezequiel e quem recebe a revelação no Apocalipse, João, são desafiados a ‘comer o livro’, numa expressão de assimilar a mensagem que deve ser proferida. Diga-se que, na linguagem bíblica, este ‘comer o livro’ ou algo parecido, significava ser investido numa missão, a de profeta ou de mensageiro de Deus. Por isso, o enviado/profeta tem de adequar o que diz em palavras – agora diz-se ‘narrativa’, comunicação ou mesmo profecia – humanas àquilo que o emissário divino lhe concede ou investe que faça.

Ora, numa época de inflação da palavra ou até de bastante, torna-se exigente saber o que se diz, como se diz, a quem se dirige ou mesmo como deve ser dito. Com efeito, há termos e expressões que já não passam no código deste tempo... embora se possa ainda verificar uma disfunção de mensagem entre o emissor e o receptor... eclesial e, particularmente, eclesiástico. Será que esta desconexão explica um certo afastamento das pessoas à prática da fé cristã/católica? Não será que os documentos e comunicações da hierarquia – notas pastorais, homilias e sermões – ou no simples acolhimento/recepção a quem se aproxima dos serviços da Igreja e se usa num certo âmbito eclesiástico, mas que muitos leigos não entendem? Ou não será que a inteligência precisa de se saber adaptar a quem ouve e não ficar no código de quem fala? Já percebemos que o nível cultural não está só junto do altar, no púlpito e no confessionário?

= ... À capacidade de diálogo

Agora que passam cinquenta anos sobre a eleição do Papa Paulo VI – esse venerável homem de Deus e da Igreja, que teve de levar à prática o Concílio Vaticano II – talvez seja oportuno recuperar as formas de diálogo que progessivo e respeitoso com que ele nos quis desafiar, na encíclica ‘Ecclesiam suam’ de 6 de agosto de 1964, ao propor-nos os quatro círculos de diálogo: com tudo o que é humano, com os crentes em Deus, com os cristãos - irmãos separados e no interior da própria Igreja católica.

Certamente que já podemos reconhecer que há passos percorridos, mas tantos outros ainda precisam de ser andados, na confiança e na aceitação... da diversidade para a unidade, sobretudo dentro da Igreja católica.

Dizia o Papa a terminar aquele documento: «Alegramo-nos e sentimo-nos confortados ao observar que o diálogo no interior da Igreja, e com os de fora que lhe estão mais próximos, se vai já praticando: a Igreja está hoje mais do que nunca viva! Mas, reparando bem, parece que tudo está ainda por fazer, o trabalho começa hoje e não acaba nunca. É lei da nossa peregrinação na terra e no tempo» (n. 68).

Será já verdade este sentimento na nossa Igreja católica? Como poderemos crescer no diálogo quando ainda há tantos quintais nas nossas paróquias? Até onde poderá ir a ousadia para derrubar barreiras em vez de construir muros ou de construir pontes em vez de simular degraus?

Temos de ‘comer a prova’, isto é, de viver mais sinceramente da Palavra da Deus e menos de rituais de religiosidade – valiosos e festivos, mas tantas vezes ocos e com pouco nexo – popular, agora que as (ditas) festas populares pululam por tudo quanto é canto e esquina. O povo precisa de festa, mas tê-la-á mais viva se a festa estiver esclarecida e amadurecida. Assim, mereçamos ser dignos da confiança que em nós depositam!


António Sílvio Couto

terça-feira, 18 de junho de 2013

Complexos e cumplicidades da democracia... à portuguesa


No contexto sócio-político que estamos a viver, há situações que precisam de ser denunciadas porque cheiram a abuso da paciência alheia e de serem feitas propostas para que certos defeitos da nossa democracia sejam corrigidos e alguns dos seus intérpretes colocados no seu devido lugar.

Nota-se, quase quarenta anos depois do 25A, que há ideologias que podem dizer tudo o que lhes apetece e os outros não têm o mesmo espaço de exposição. Há figuras a quem (quase) tudo é consentido e aos adversários não se lhes dá o mínimo lugar. Há forças sociais e económicas a quem não se pode tocar (nem com uma flor) e outras que estão (quase) sempre sob suspeita.. àquelas se confia os destinos do país, a outros têm se provar que estão de boa intenção.

Sem pretendermos fazer um diagnóstico sobre todos campos e espaços de actividade, mas há sectores onde a força da reivindicação ocupa mais tempo do que o compromisso na construção do destino comum.

- Há certas figuras que não se respeitam nem se fazem respeitar, pois continuam a viver num passado que nem foi glorioso, mas que agora querem dar lições, que já estão desadequadas no tempo. Vejamos os que viveram e fizeram viver a crise de 1983: lá deixaram o país na bancarrota, na austeridade, endividado, sem trabalho e com fome... agora querem propor idênticos paliativos anacrónicos. Será tão curta memória colectiva ou haverá mais interesse em esconder os culpados e os que hoje os aplaudem?

Nota-se, em certos momentos, que há pessoas que, a seus olhos, se consideram imprescindíveis, quando o que são é recicláveis. Até algumas ideologias – velhas ou recauchutadas -- totalitárias e/ou anarquistas, que se tentam apresentar como solução, quando, afinal, fazem é parte do problema... Porque não enxergam o ridículo? Até onde irá a presunção?
- Há temas e áreas de actividade que se tornaram tabu serem referidos senão se estiver na onda mais ou menos difundida – o que não quer dizer a mais aceite – no contexto público. Referimo-nos à família, à educação e mesmo à cultura... bem como outras vertentes que tenham a ver com a dimensão espiritual da pessoa humana.

* Da família o que vemos é a difusão de um conceito anti-família judeo-cristã, isto é, fundada numa união estável entre um homem e uma mulher. O que interessa expor é tudo o que possa estar contra esta vivência de salvaguarda da própria sociedade. Quem não for, mesmo que tacitamente, pelas uniões (ocasionais, de facto, por contrato) entre pessoas do mesmo género, logo é rotulado de conservador, retrógado, antiquado... e outros epítetos de ofensa à opinião alheia. As discussões – quando as há, como vimos em recentes votações no Parlamento – têm de ter o mesmo resultado: ser contra a família tradicional... porque tem raízes cristãs!

* Sobre a educação vemos agentes activos e participativos; muitos com desejo de servir as gerações mais novas, mas outros a defenderem os seus interesses; podemos encontrar pessoas com espírito de serviço aos outros, mas tantos sem qualidade humana mínima... e tudo inserido no sector mais estatizado da nossa vida colectiva, pois o Estado deixa pouco espaço para a iniciativa privada e, quando a permite, fá-lo de forma razoavelmente, condicionada aos seus intuitos e interesses. Certas reivindicações (greves e outros adereços) a quem servem: aos estudantes ou ao corpo docente?

* A área da cultura move-se por bastantes clichés de maior ou menor capacidade de protecção aos que são do sistema, excluindo quem dele destoar, mesmo que possa ter qualidade, se não têm quem os promova ficam nas prateleiras e nas estantes... sob pó e bolor. Os sub-sectores da escrita (literatura, jornalismo, opinion makers), da comunicação (televisão, rádio, internet), do espectáculo (teatro, cançonetismo, desporto)... têm de estar na corrente reinante, pois, se não estiver terá uma classificação pouco ou nada cultural. Até, mais recentemente, se tem vindo a impor uma nova cultura: a do clube (sobretudo de futebol), que faz ganhar protagonismo ou entrar no descrédito... para sempre!

Com uma democracia assim, quem poderá governar e/ou ser governado, em Portugal?



António Sílvio Couto

terça-feira, 11 de junho de 2013

Aprendendo a agradecer e a desculpar


A atitude de 'saber agradecer' é uma das vertentes com que revelamos quer a nossa educação quer a nossa capacidade de atenção aos outros. Quando dizemos 'obrigado' a alguém estamos a envolver e a deixar-nos envolver por este sinal de que a outra pessoa é para nós e a quem dizemos 'obrigado', sendo digna da nossa estima e da nossa correlação com ele. Aliás, o uso da palavra 'obrigado' é o resumo dessa frase mais longa: 'sinto-me muito obrigado a agradecer'. Deste modo, dizer 'obrigado' não é uma expressão de obrigação, mas manifesta a nossa dedicação a esse/a a quem dizemos simplesmente 'obrigado'.

Para ilustrar o clima social em que vivemos – normalmente fora da narrativa do saber agradecer – deixamos uma breve estória, que anda espalhada por várias publicações...

Uma criança já (minimamente) crescida fez uma lista das ‘contas’, que no seu conceito, a mãe lhe devia e que esta encontrou à cabeceira da cama, onde se lia: de cortar a relva do jardim – dois euros; por limpar o meu quarto durante a semana – dois euros; por cuidar do meu irmãozinho enquanto foi às compras – um euro; por limpar e varrer o quintal todos dias da semana – cinco euros. Total da dívida – dez euros!

Por seu turno, a mãe ao ver tal lista, enumerou as suas ‘despesas’, que atentamente anotou e deixou à cabeceira do filho tão ‘exigente’: por te levar nove meses em meu ventre e por te dar a vida – nada; por tantas noites sem dormir, por te trazer ao colo e por te dar de comer – nada; por te limpar, te vestir e te adormecer – nada; pela comida, as roupas e os brinquedos que te dei e arrumei – nada; por tudo o que fiz e terei de fazer para fazer de ti um homem – nada. Custo total e global: nada!

Ao acordar o filho ‘reivindicativo’ leu as contas da sua mãe e foi-lhe pedir desculpa...


De facto, hoje vivemos, infeliz e desgraçadamente, marcados pela ausência em dizer ‘obrigado’ e em ‘pedir desculpa’... uns aos outros. Parece que estes dois mínimos conceitos e actos de educação foram banidos do nosso trato social... Quem os exercita, a começar em sua casa, no trabalho e no convívio social? Quem os cultiva para com os outros? Haverá honrosas excepções!



1.Mesmo que de forma simples poderemos apresentar alguns aspectos para uma cultura do saber agradecer:

. Gratidão – ser grato é uma qualidade que exprime o reconhecimento daquilo que nos fazem, de forma directa ou indirecta, pois a ingratidão é, hoje, mais cultivada do que a gratidão pelos peqeunos ou pelos grandes gestos, feitos e factos.

. Simplicidade – para quem recebe gestos e sinais de carinho, desde os mais simples até aos mais complexos, agradecendo a Deus o que d’Ele vamos recebendo e da descoberta de como Ele nos ama... mesmo sem disso estarmos totalmente conscientes, quando Ele se esconde nos rostos de quem nos rodeia.

. Atenção aos outros – na medida em que pensamos mais neles do que em nós mesmos, atendendo mais às suas necessidades e qualidades do que, como acontece agora, nas nossas ‘virtudes’ e aos seus defeitos.

. Valorização mútua – quando agradecemos olhamos mais para aquilo que recebemos do que para aquilo que damos, e, na medida em que damos é para que o que recebemos seja para maior contentamento dos nossos interlocutores habituais, ocasionais ou de convívio mais difícil.

2. Ao agradecimento está conexa a atitude em pedir desculpa, valorizando a quem podemos ter desagradado ou mesmo ofendido. Também aqui há vertentes simples para que ‘pedir desculpa’ possa ser natural no nosso dia a dia:

- Humildade em reconhecer os seus erros, aceitando-os e querendo corrigi-los com a ajuda dos outros;

- Sinceridade no trato sem hipocrisias nem aproveitamento dos outros;

- Verdade sem nada esconder nem fazer-se vítima ou réu, sendo leal e vivendo de cabeça levantada por nada ter a esconder a não ser a boa harmonia para com todos... a começar pelos que nos estão mais próximos.

= Será que ainda vamos a tempo de reconstruir a sociedade, dizendo ‘obrigado’ e pedindo ‘desculpa’?


António Sílvio Couto (asilviocouto@gmail.com)

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Do direito ao emprego... à obrigação do trabalho


Não deixa de ser interessante e, sobremaneira, preocupante que em vários quadrantes da nossa vida pública – social, sindical, política, financeira, religiosa e eclesial – se façam declarações de grande eloquência sobre o ‘direito ao trabalho’, como claúsula de um articulado de regras e de prerrogativas constitucionais. Há números e estatísticas – para todos os gostos e feitios, sensibilidades e correntes – sempre reclamando o direito ao trabalho, mas quase nunca se fala da obrigação em trabalhar, tanto como vocação e até missão.

Nota-se nalgumas cabeças e, sobretudo, no comportamento de certas pessoas, alguma confusão entre ‘emprego’ e ‘trabalho’, fazendo com que este seja subjugado por aquele, embora reclamando do grande direito ao trabalho... sabe lá com que custo. Há conceitos que têm uma forte conotação ideológica e, em muitos casos, o ‘trabalho’ tem sofrido de uma leitura marcadamente ideológica e com razoável matiz marxista, senão de forma explícita, pelo menos de modo tácito.

Diante desta breve distinção poderemos apresentar algumas questões – pois fazer afirmações poderá suscitar outros problemas – e mesmo sugestões, onde trabalho e emprego se entrecruzam, embora não se possam excluir, mas antes complementar.

- Que dizer do trabalho voluntário se não é – teoricamente – emprego, mesmo que ocupando o tempo de tantas pessoas?

- Como se poderá classificar a acção de tantos intervenientes – como por exemplo as mães nos trabalhos domésticos ou os cuidados de alguém debilitado na saúde e pela idade – em que não há dinheiro algum que paga a trabalho executado?

- Em quantas situações há dedicação a um trabalho de ajuda aos outros e, muitas vezes, a paga é um sorriso ou uma simples palavra de agradecimento, como ‘obrigado’, ‘Deus lhe pague’, etc.

- Em quantos momentos da nossa vida te(re)mos já vivido a sensação de termos participado em acções em favor dos outros e, nas quais, o trabalho realizado motiva outros, os faz crescer e, sem nos darmos conta, contribuímos para a valorização daqueles/as que Deus põe no nosso caminho.

Num tempo tão marcado pelo egoísmo – pessoal, de classe, de grupo ou de lóbi, de auto-adulação ou mesmo de interesseirismo – as questões do trabalho confundem-se com matéria de valores, de questões éticas, mesmo de ideais e, porque não ainda, de critérios espirituais.

. Quando vemos serem marcadas greves – sobretudo em sectores como os transportes, a saúde, a educação, a segurança ou rotuladas de ‘gerais’ – como que sentimos que os interesses alheios são tantas vezes sonegados às reivindicações ou até aos despiques ideológicos... num ritmo de protagonismo em vista de ascensão ao poder, a curto ou médio prazo. A quem interessa afundar mais o país? Como se poderá criar riqueza ou cativar investimento se não há tranquilidade social? Quem nos vê em (tantos) desfiles e (múltiplas) manifestações – num ritual cíclico e orquestrado -- ter-nos-ão, por essa Europa fora, por trabalhadores ou, antes, por fomentadores do emprego sem esforço no trabalho? Quando os nossos trabalhadores emigram são dos melhores, porque razão lá fora produzem e aqui não se vê idêntica categorização do trabalho efectuado? Será uma questão de estatuto social ou antes de mentalidade nacional?

. Quando vemos aumenta a tensão social – estamos entre os sete países do mundo com maior tensão, diz a OIT – fica-nos a sensação de que os factores de produção estão em risco e quem pode querer investir o seu dinheiro – seja qual foi o capitalismo ou a máscara de neo-liberalismo – não nos terá em boa conta. Neste momento histórico Portugal caminha para a radicalização dos actos, pois a das palavras já não pode crescer mais... Os incendiários sociais – alguns deles deveriam calar-se ou serem calados – terão interesses não claros, mas o bom senso é preciso, mesmo entre as figuras eclesiásticas com maior ou menor relevo. Denunciar tem um tempo, enquanto a dimensão profética só se valoriza quando faz crescer o compromisso com a paz e a harmonia... Estar de braços cruzados e muitos menos de punhos cerrados não resolve nada, pois o grande Profeta (Jesus) construiu algo de novo de braços abertos, na Cruz... para sempre!

António Sílvio Couto