Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



quarta-feira, 26 de junho de 2013

Comer a prova!


Por estes dias foi notícia: um determinado inquirido, em processo de investigação, quando realizavam buscas a sua casa, terá tirado das mãos do inspector um papel que terá comido... inviabilizando as recolha de provas.

Não nos importa o caso judicial nem tão pouco as pessoas envolvidas e muito menos o que envolveria o (tal) papel comido, mas tão somente, pretendemos aproveitar aquele episódio – o comer da prova – para reflectirmos sobre outros aspectos da nossa conduta diária, pessoal, social, política, etc... onde o que comemos – sobretudo na índole intelectual/cultural – diz do que somos e manifesta o que podemos ser, de verdade.

= Do comer o livro...

Quem conhece minimamente algumas referências bíblicas sabe que, tanto no Antigo Testamento como no Novo Testamento, nos aparecem textos em que o profeta, no caso de Ezequiel e quem recebe a revelação no Apocalipse, João, são desafiados a ‘comer o livro’, numa expressão de assimilar a mensagem que deve ser proferida. Diga-se que, na linguagem bíblica, este ‘comer o livro’ ou algo parecido, significava ser investido numa missão, a de profeta ou de mensageiro de Deus. Por isso, o enviado/profeta tem de adequar o que diz em palavras – agora diz-se ‘narrativa’, comunicação ou mesmo profecia – humanas àquilo que o emissário divino lhe concede ou investe que faça.

Ora, numa época de inflação da palavra ou até de bastante, torna-se exigente saber o que se diz, como se diz, a quem se dirige ou mesmo como deve ser dito. Com efeito, há termos e expressões que já não passam no código deste tempo... embora se possa ainda verificar uma disfunção de mensagem entre o emissor e o receptor... eclesial e, particularmente, eclesiástico. Será que esta desconexão explica um certo afastamento das pessoas à prática da fé cristã/católica? Não será que os documentos e comunicações da hierarquia – notas pastorais, homilias e sermões – ou no simples acolhimento/recepção a quem se aproxima dos serviços da Igreja e se usa num certo âmbito eclesiástico, mas que muitos leigos não entendem? Ou não será que a inteligência precisa de se saber adaptar a quem ouve e não ficar no código de quem fala? Já percebemos que o nível cultural não está só junto do altar, no púlpito e no confessionário?

= ... À capacidade de diálogo

Agora que passam cinquenta anos sobre a eleição do Papa Paulo VI – esse venerável homem de Deus e da Igreja, que teve de levar à prática o Concílio Vaticano II – talvez seja oportuno recuperar as formas de diálogo que progessivo e respeitoso com que ele nos quis desafiar, na encíclica ‘Ecclesiam suam’ de 6 de agosto de 1964, ao propor-nos os quatro círculos de diálogo: com tudo o que é humano, com os crentes em Deus, com os cristãos - irmãos separados e no interior da própria Igreja católica.

Certamente que já podemos reconhecer que há passos percorridos, mas tantos outros ainda precisam de ser andados, na confiança e na aceitação... da diversidade para a unidade, sobretudo dentro da Igreja católica.

Dizia o Papa a terminar aquele documento: «Alegramo-nos e sentimo-nos confortados ao observar que o diálogo no interior da Igreja, e com os de fora que lhe estão mais próximos, se vai já praticando: a Igreja está hoje mais do que nunca viva! Mas, reparando bem, parece que tudo está ainda por fazer, o trabalho começa hoje e não acaba nunca. É lei da nossa peregrinação na terra e no tempo» (n. 68).

Será já verdade este sentimento na nossa Igreja católica? Como poderemos crescer no diálogo quando ainda há tantos quintais nas nossas paróquias? Até onde poderá ir a ousadia para derrubar barreiras em vez de construir muros ou de construir pontes em vez de simular degraus?

Temos de ‘comer a prova’, isto é, de viver mais sinceramente da Palavra da Deus e menos de rituais de religiosidade – valiosos e festivos, mas tantas vezes ocos e com pouco nexo – popular, agora que as (ditas) festas populares pululam por tudo quanto é canto e esquina. O povo precisa de festa, mas tê-la-á mais viva se a festa estiver esclarecida e amadurecida. Assim, mereçamos ser dignos da confiança que em nós depositam!


António Sílvio Couto

terça-feira, 18 de junho de 2013

Complexos e cumplicidades da democracia... à portuguesa


No contexto sócio-político que estamos a viver, há situações que precisam de ser denunciadas porque cheiram a abuso da paciência alheia e de serem feitas propostas para que certos defeitos da nossa democracia sejam corrigidos e alguns dos seus intérpretes colocados no seu devido lugar.

Nota-se, quase quarenta anos depois do 25A, que há ideologias que podem dizer tudo o que lhes apetece e os outros não têm o mesmo espaço de exposição. Há figuras a quem (quase) tudo é consentido e aos adversários não se lhes dá o mínimo lugar. Há forças sociais e económicas a quem não se pode tocar (nem com uma flor) e outras que estão (quase) sempre sob suspeita.. àquelas se confia os destinos do país, a outros têm se provar que estão de boa intenção.

Sem pretendermos fazer um diagnóstico sobre todos campos e espaços de actividade, mas há sectores onde a força da reivindicação ocupa mais tempo do que o compromisso na construção do destino comum.

- Há certas figuras que não se respeitam nem se fazem respeitar, pois continuam a viver num passado que nem foi glorioso, mas que agora querem dar lições, que já estão desadequadas no tempo. Vejamos os que viveram e fizeram viver a crise de 1983: lá deixaram o país na bancarrota, na austeridade, endividado, sem trabalho e com fome... agora querem propor idênticos paliativos anacrónicos. Será tão curta memória colectiva ou haverá mais interesse em esconder os culpados e os que hoje os aplaudem?

Nota-se, em certos momentos, que há pessoas que, a seus olhos, se consideram imprescindíveis, quando o que são é recicláveis. Até algumas ideologias – velhas ou recauchutadas -- totalitárias e/ou anarquistas, que se tentam apresentar como solução, quando, afinal, fazem é parte do problema... Porque não enxergam o ridículo? Até onde irá a presunção?
- Há temas e áreas de actividade que se tornaram tabu serem referidos senão se estiver na onda mais ou menos difundida – o que não quer dizer a mais aceite – no contexto público. Referimo-nos à família, à educação e mesmo à cultura... bem como outras vertentes que tenham a ver com a dimensão espiritual da pessoa humana.

* Da família o que vemos é a difusão de um conceito anti-família judeo-cristã, isto é, fundada numa união estável entre um homem e uma mulher. O que interessa expor é tudo o que possa estar contra esta vivência de salvaguarda da própria sociedade. Quem não for, mesmo que tacitamente, pelas uniões (ocasionais, de facto, por contrato) entre pessoas do mesmo género, logo é rotulado de conservador, retrógado, antiquado... e outros epítetos de ofensa à opinião alheia. As discussões – quando as há, como vimos em recentes votações no Parlamento – têm de ter o mesmo resultado: ser contra a família tradicional... porque tem raízes cristãs!

* Sobre a educação vemos agentes activos e participativos; muitos com desejo de servir as gerações mais novas, mas outros a defenderem os seus interesses; podemos encontrar pessoas com espírito de serviço aos outros, mas tantos sem qualidade humana mínima... e tudo inserido no sector mais estatizado da nossa vida colectiva, pois o Estado deixa pouco espaço para a iniciativa privada e, quando a permite, fá-lo de forma razoavelmente, condicionada aos seus intuitos e interesses. Certas reivindicações (greves e outros adereços) a quem servem: aos estudantes ou ao corpo docente?

* A área da cultura move-se por bastantes clichés de maior ou menor capacidade de protecção aos que são do sistema, excluindo quem dele destoar, mesmo que possa ter qualidade, se não têm quem os promova ficam nas prateleiras e nas estantes... sob pó e bolor. Os sub-sectores da escrita (literatura, jornalismo, opinion makers), da comunicação (televisão, rádio, internet), do espectáculo (teatro, cançonetismo, desporto)... têm de estar na corrente reinante, pois, se não estiver terá uma classificação pouco ou nada cultural. Até, mais recentemente, se tem vindo a impor uma nova cultura: a do clube (sobretudo de futebol), que faz ganhar protagonismo ou entrar no descrédito... para sempre!

Com uma democracia assim, quem poderá governar e/ou ser governado, em Portugal?



António Sílvio Couto

terça-feira, 11 de junho de 2013

Aprendendo a agradecer e a desculpar


A atitude de 'saber agradecer' é uma das vertentes com que revelamos quer a nossa educação quer a nossa capacidade de atenção aos outros. Quando dizemos 'obrigado' a alguém estamos a envolver e a deixar-nos envolver por este sinal de que a outra pessoa é para nós e a quem dizemos 'obrigado', sendo digna da nossa estima e da nossa correlação com ele. Aliás, o uso da palavra 'obrigado' é o resumo dessa frase mais longa: 'sinto-me muito obrigado a agradecer'. Deste modo, dizer 'obrigado' não é uma expressão de obrigação, mas manifesta a nossa dedicação a esse/a a quem dizemos simplesmente 'obrigado'.

Para ilustrar o clima social em que vivemos – normalmente fora da narrativa do saber agradecer – deixamos uma breve estória, que anda espalhada por várias publicações...

Uma criança já (minimamente) crescida fez uma lista das ‘contas’, que no seu conceito, a mãe lhe devia e que esta encontrou à cabeceira da cama, onde se lia: de cortar a relva do jardim – dois euros; por limpar o meu quarto durante a semana – dois euros; por cuidar do meu irmãozinho enquanto foi às compras – um euro; por limpar e varrer o quintal todos dias da semana – cinco euros. Total da dívida – dez euros!

Por seu turno, a mãe ao ver tal lista, enumerou as suas ‘despesas’, que atentamente anotou e deixou à cabeceira do filho tão ‘exigente’: por te levar nove meses em meu ventre e por te dar a vida – nada; por tantas noites sem dormir, por te trazer ao colo e por te dar de comer – nada; por te limpar, te vestir e te adormecer – nada; pela comida, as roupas e os brinquedos que te dei e arrumei – nada; por tudo o que fiz e terei de fazer para fazer de ti um homem – nada. Custo total e global: nada!

Ao acordar o filho ‘reivindicativo’ leu as contas da sua mãe e foi-lhe pedir desculpa...


De facto, hoje vivemos, infeliz e desgraçadamente, marcados pela ausência em dizer ‘obrigado’ e em ‘pedir desculpa’... uns aos outros. Parece que estes dois mínimos conceitos e actos de educação foram banidos do nosso trato social... Quem os exercita, a começar em sua casa, no trabalho e no convívio social? Quem os cultiva para com os outros? Haverá honrosas excepções!



1.Mesmo que de forma simples poderemos apresentar alguns aspectos para uma cultura do saber agradecer:

. Gratidão – ser grato é uma qualidade que exprime o reconhecimento daquilo que nos fazem, de forma directa ou indirecta, pois a ingratidão é, hoje, mais cultivada do que a gratidão pelos peqeunos ou pelos grandes gestos, feitos e factos.

. Simplicidade – para quem recebe gestos e sinais de carinho, desde os mais simples até aos mais complexos, agradecendo a Deus o que d’Ele vamos recebendo e da descoberta de como Ele nos ama... mesmo sem disso estarmos totalmente conscientes, quando Ele se esconde nos rostos de quem nos rodeia.

. Atenção aos outros – na medida em que pensamos mais neles do que em nós mesmos, atendendo mais às suas necessidades e qualidades do que, como acontece agora, nas nossas ‘virtudes’ e aos seus defeitos.

. Valorização mútua – quando agradecemos olhamos mais para aquilo que recebemos do que para aquilo que damos, e, na medida em que damos é para que o que recebemos seja para maior contentamento dos nossos interlocutores habituais, ocasionais ou de convívio mais difícil.

2. Ao agradecimento está conexa a atitude em pedir desculpa, valorizando a quem podemos ter desagradado ou mesmo ofendido. Também aqui há vertentes simples para que ‘pedir desculpa’ possa ser natural no nosso dia a dia:

- Humildade em reconhecer os seus erros, aceitando-os e querendo corrigi-los com a ajuda dos outros;

- Sinceridade no trato sem hipocrisias nem aproveitamento dos outros;

- Verdade sem nada esconder nem fazer-se vítima ou réu, sendo leal e vivendo de cabeça levantada por nada ter a esconder a não ser a boa harmonia para com todos... a começar pelos que nos estão mais próximos.

= Será que ainda vamos a tempo de reconstruir a sociedade, dizendo ‘obrigado’ e pedindo ‘desculpa’?


António Sílvio Couto (asilviocouto@gmail.com)

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Do direito ao emprego... à obrigação do trabalho


Não deixa de ser interessante e, sobremaneira, preocupante que em vários quadrantes da nossa vida pública – social, sindical, política, financeira, religiosa e eclesial – se façam declarações de grande eloquência sobre o ‘direito ao trabalho’, como claúsula de um articulado de regras e de prerrogativas constitucionais. Há números e estatísticas – para todos os gostos e feitios, sensibilidades e correntes – sempre reclamando o direito ao trabalho, mas quase nunca se fala da obrigação em trabalhar, tanto como vocação e até missão.

Nota-se nalgumas cabeças e, sobretudo, no comportamento de certas pessoas, alguma confusão entre ‘emprego’ e ‘trabalho’, fazendo com que este seja subjugado por aquele, embora reclamando do grande direito ao trabalho... sabe lá com que custo. Há conceitos que têm uma forte conotação ideológica e, em muitos casos, o ‘trabalho’ tem sofrido de uma leitura marcadamente ideológica e com razoável matiz marxista, senão de forma explícita, pelo menos de modo tácito.

Diante desta breve distinção poderemos apresentar algumas questões – pois fazer afirmações poderá suscitar outros problemas – e mesmo sugestões, onde trabalho e emprego se entrecruzam, embora não se possam excluir, mas antes complementar.

- Que dizer do trabalho voluntário se não é – teoricamente – emprego, mesmo que ocupando o tempo de tantas pessoas?

- Como se poderá classificar a acção de tantos intervenientes – como por exemplo as mães nos trabalhos domésticos ou os cuidados de alguém debilitado na saúde e pela idade – em que não há dinheiro algum que paga a trabalho executado?

- Em quantas situações há dedicação a um trabalho de ajuda aos outros e, muitas vezes, a paga é um sorriso ou uma simples palavra de agradecimento, como ‘obrigado’, ‘Deus lhe pague’, etc.

- Em quantos momentos da nossa vida te(re)mos já vivido a sensação de termos participado em acções em favor dos outros e, nas quais, o trabalho realizado motiva outros, os faz crescer e, sem nos darmos conta, contribuímos para a valorização daqueles/as que Deus põe no nosso caminho.

Num tempo tão marcado pelo egoísmo – pessoal, de classe, de grupo ou de lóbi, de auto-adulação ou mesmo de interesseirismo – as questões do trabalho confundem-se com matéria de valores, de questões éticas, mesmo de ideais e, porque não ainda, de critérios espirituais.

. Quando vemos serem marcadas greves – sobretudo em sectores como os transportes, a saúde, a educação, a segurança ou rotuladas de ‘gerais’ – como que sentimos que os interesses alheios são tantas vezes sonegados às reivindicações ou até aos despiques ideológicos... num ritmo de protagonismo em vista de ascensão ao poder, a curto ou médio prazo. A quem interessa afundar mais o país? Como se poderá criar riqueza ou cativar investimento se não há tranquilidade social? Quem nos vê em (tantos) desfiles e (múltiplas) manifestações – num ritual cíclico e orquestrado -- ter-nos-ão, por essa Europa fora, por trabalhadores ou, antes, por fomentadores do emprego sem esforço no trabalho? Quando os nossos trabalhadores emigram são dos melhores, porque razão lá fora produzem e aqui não se vê idêntica categorização do trabalho efectuado? Será uma questão de estatuto social ou antes de mentalidade nacional?

. Quando vemos aumenta a tensão social – estamos entre os sete países do mundo com maior tensão, diz a OIT – fica-nos a sensação de que os factores de produção estão em risco e quem pode querer investir o seu dinheiro – seja qual foi o capitalismo ou a máscara de neo-liberalismo – não nos terá em boa conta. Neste momento histórico Portugal caminha para a radicalização dos actos, pois a das palavras já não pode crescer mais... Os incendiários sociais – alguns deles deveriam calar-se ou serem calados – terão interesses não claros, mas o bom senso é preciso, mesmo entre as figuras eclesiásticas com maior ou menor relevo. Denunciar tem um tempo, enquanto a dimensão profética só se valoriza quando faz crescer o compromisso com a paz e a harmonia... Estar de braços cruzados e muitos menos de punhos cerrados não resolve nada, pois o grande Profeta (Jesus) construiu algo de novo de braços abertos, na Cruz... para sempre!

António Sílvio Couto


 

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Das crianças em risco... às situações arriscadas


Por estes dias foram anunciados os números atendidos nas comissões de protecção de crianças e jovens, relativos ao ano passado, ao nível nacional. Foram lidados cerca de 69 mil casos, muitos deles já vinham de anos transactos e mais de 29 mil foram situações novas... com uma larga fatia de casos de risco.

Com o alargamento da escolaridade obrigatória do 9.º para o 12.º ano e, consequentemente, das idades abrangidas pela ‘infantilização’ dos atingidos dos 15 para os 18 anos, passou a haver mais casos que estão sob tutela deste âmbito social... tendo crescido os casos de incumprimento da ida à escola e, portanto, sendo colocados sob a alçada de abandono, absentismo ou de insucesso escolar... Houve um aumento de 69% de processos instaurados em 2012. O perfil dos menores acompanhados nas comissões também cresceu na idade, sendo agora na sua maioria entre os 15 e os 21 anos, em vez dos menores de quinze anos, que anteriormente tinham maior expressão e referência.

As situações mais agravadas foram as que estão relacionadas com a exposição dos jovens a comportamentos que podem comprometer a sua saúde, segurança e bem-estar... tais como são as de violência doméstica, de consumo de álcool ou de estupefacientes.

Diminuiram as situações sinalizadas como de maus tratos físicos e psicológicos, de mendicidade ou de exploração do trabalho infantil, mas aumentaram as situações de abuso sexual. Por seu turno, aumentou significativamente (65% dos casos) o número de crianças e de jovens sinalizados em comportamentos que afectam o seu desenvolvimento e a sua saúde, tais como os comportamentos anti-sociais mais graves, actos de indisciplina ou de bulling, de consumo de drogas ou de álcool.

Poderemos, então, colocar breves questões, embora não expliquem nem fechem a abordagem do problema:

Que responsabilidade tem ou pode ter, neste campo, a situação de crise económica? Poder-se-ão explicar as crianças em risco também com riscos morais e éticos, para além dos físicos e psicológicos? A geração dos pais destes filhos terá sido educada à luz do carinho ou da pancada? Até onde vai a responsabilidade das crianças e a responsabilização dos adultos/pais/educadores? O regime de paparicos educa ou infantiliza?

= Que pais/educadores numa cultura tendencialmente estatizante?

Nos tempos mais recentes temos visto e ouvido situações de tutelagem do Estado sobre as pessoas que quase roça a nacionalização dos filhos, pois, certas entidades julgam-se quase donas dos filhos/as dos outros, criando momentos de dramática conjuntura, onde se intrometem não para defender os mais novos mas para como que acusar os mais velhos. Nota-se ainda em certos serviços do Estado uma espécie de abuso de poder, bastando o caso cair sob a sua alçada e as pessoas como que passam a ser tratadas como menores... para o resto da vida!

De referir que os técnicos dos serviços são cada vez mais capazes, com dedicação e – segundo os responsáveis – com mais meios, mas parece que ainda falta maior coordenação entre tantos e tão variados intervenientes em favor das crianças e dos adolescentes em risco. Sabemo-lo por contacto próximo que, muitas vezes, a fragilidade mais básica se situa na família e que, rompidos os laços de estância essencial, sobretudo os mais novos ficarão ainda mais vulneráveis...

Num tempo onde se têm que coordenar sinergias seria (ou será) de mau gosto querer reivindicar protagonismos, quando o que está em causa é o futuro do nosso país, pois se as crianças e os jovens estiverem fragilizados todos iremos pagar a factura da desconjunção da sociedade. E nem se pense que as estruturas que servem os valores espirituais podem ficar de fora, pois seria um grave erro se tal acontecesse. Cuidem, por isso, os responsáveis da protecção de crianças e de jovens em risco em incluir – ao menos por estratégia mínima – as igrejas e as associações de índole cristã, pois todos teremos muito a ganhar agora e no futuro próximo.

Afinal, a quem servimos, os outros ou andamos a tentar promover-nos a nós mesmos?

António Sílvio Couto

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Certas sobrancerias... à portuguesa


Num destes dias discutia-se, num canal televisivo, uma afirmação de um alto responsável da Nação sobre a coincidência entre a aprovação positiva dos nossos credores externos e a (possível) intervenção de Nossa Senhora de Fátima, quando um dos participantes referiu que, em Portugal, só quem se diz ateu e excluir a fé da vida pública é que tem razão... os outros – isto é, os que possam dizer ou afirmar cristãos, de forma tácita ou explícita – são excluídos da discussão e como que vistos ainda numa certa menoridade, senão intelectual, pelo menos, cultural... pelos tais pretensos referenciais da normalidade, mesmo assim, minoritária. Até certos intelectuais da revolução – mentores da ínclita constituição ideologicamente ultrapassada no tempo e na história – afinam as garras para invectivar quem se possa assumir como mais ou menos crente... cristão!



= De facto, há certos paladinos da liberdade que só a entendem como e quando esta for contra Deus ou, pelo menos, anti-cristã. Notam-se ainda certos laivos de que ser esquerdista – o que não bem o mesmo que pretender ser de ‘esquerda’ social e política – laicista, jacobino ou ateu confesso são como que prerrogativas para vingar neste país de preconceitos e até de um proteccionismo anti-religioso mais primário... Como se a verdade só tenha uma cor, desde que seja de matiz contestatário! Em certas épocas da história este vingaram, enquanto os outros não se vingaram: daqueles os manuais deixarão notas de rodapé, destes far-se-ão capítulos de eloquência e de heroicidade. O tempo dirá quem tem, afinal, razão!
= Há, por vezes, discussões onde o mais assanhado complexo de erradicar a dimensão espiritual da pessoa humana está entranhado na alma – note-se esta espécie de contra-senso! – dos contendores... Como se nós fossemos capazes de viver sem ideais e estes são, normalmente, de teor espiritual mais ou menos difuso! Que haja pessoas que não aceitem a dimensão espiritual da pessoa humana, isso não lhe dá o direito de reduzir a o pó – seja da cremação seja da desmemorização – quem tenha outras crenças, diferentes formas religiosas de vida ou se norteie por ideais de índole espiritual pessoal e comunitária. A fronteira não está no crente/não crente, mas na superficialidade/profundidade sobre si e para com os outros!
= Em certos momentos vemos que há grupos profissionais – militares e forças de segurança, sectores da advocacia e da justiça, do desporto (sobretudo do futebol), até do meio (dito) artístico e mesmo algumas áreas eclesiásticas – que se consideram (quase) intocáveis, mais parecendo uns novos brâmanes da vida social lusa... diante da falange de párias do resto do país, que é o povo, tanto na sua expressão cívica, como na vivência ética. Com efeito, há regalias que cheiram a feudalismo, seja ele militarista, justicialista, religioso ou mesmo desportista. Na pirâmide dos que mandam nem sempre podem impor-se regras aos que têm obedecem. Por muito que tenham feito pelos outros – estes ou outros intérpretes – devem estar ao serviço e não a servir-se dos lugares... para promoção e numa certa vanglória!
= Sem pretendermos lançar suspeita sobre a legitimidade das vitórias, não deixou de ser esquisito que, estando ainda em disputa os jogos, já estivessem, no palco do jogo de quem ganhou o campeonato de futebol maior português, as medalhas e todos os adereços de consagração. E se o resultado não tivesse sido a vitória – bastaria ter-se verificado um empate, quanto mais a derrota! – os que estavam a mais de trezentos quilómetros de distância não teriam tido tal consagração, pois os ingredientes já estavam noutra sintonia. Valha-nos a verdade – desportiva, moral e até intelectual – e não faríamos a figura de que já havia campeão antes do jogo jogado. Não está em causa a vitória, mas a sobranceria com que são tratados os que não pensam nem agem como os que estão, normalmente, por cima... nos últimos anos!
= Agora que já se sabe com certeza quem é o próximo patriarca de Lisboa, fica a pairar no ar – etéreo, mas nem sempre diáfano – que poderemos suspeitar sobre uns tantos jogos de poder: notou-se a conspiração de certas campanhas; parece que podem ter havido certos golpes palacianos; criaram-se cenários de vencedores e de vencidos... Foi algo a roçar o medievalesco, desde a sacristia até ao altar, passando pelas instâncias de discernimento... Quando vemos uns tantos habilidosos a vingar, sentimos que as sobrancerias não têm credo nem diferença de actuação, seja qual for o campo ou o espaço de intervenção!.. E o resto não é paisagem!
António Sílvio Couto (asilviocouto@gmail.com)

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Candidatos autárquicos: jogadores ou mandados?


Lá para o fim do terceiro trimestre deste ano civil, isto é, por finais de Setembro ou o mais tardar no início de Outubro, seremos chamados a votar novos órgãos autárquicos – assembleias de freguesia/juntas; assembleias municipais e edis... sob o signo dos emblemas partidários ou na tutela dos interesses (ditos) independentes.

Estando a cerca de três meses da (tal) votação, vemos já perfilarem-se figuras e figurões, entidades e promoções, classes e camaleões... numa espécie de concorrência onde, desgraçadamentte, os mais apontados deixam muito a desejar e, possivelmente, os mais aptos se escondem sob a capa de outras ocupações... profissionais ou de objecção à visibilidade em favor dos outros!

Depois de quase quatro décadas de ‘poder autárquico’ temos visto muitas figuras a surgirem e a desaparecerem; outras a terem um prazo mínimo de validade; muitos outros a prolongarem-se – até criaram uma palavra para os designarem: dinossaurios – o mais tempo que lhes foi possível... agora têm de sair em razão da lei. Nestas variadas situações o ‘poder autárquico’ foi criando uns certos tiques de caciquismo – esse mesmo que acusavam ao regime anterior! – e foram-nos ainda dados referenciais de popularidade quase invejável e, embora sendo poucos, têm, hoje, poder na suas localidades e junto do poder central... tal é (ou parece ser) a influência com que actuam, dentro e fora dos espaços de decisão.

= Autarcas jogam no xadrez político?

Atendendo a que estão mais próximos das populações e emergindo de entre os votantes como os (pretensamente) mais capazes, os autarcas sabem como conduzir tantas questões, colhendo disso os favores do povo e dando, em contrapartida, espaço a outros ganharem ascendência na hora das eleições. Na maior parte dos casos não se está de má-fé, mas, noutras situações, nota-se um certo aproveitamento dos lugares de mando, pois mais não seja para conquistarem prestígio social e político. Com efeito, é no xadrez político – sobretudo na condição de partidário – que os autarcas podem ser usados ou até podem ser manipulados, se não estiverem atentos... em todos os sentidos.

Talvez seja pouco abonador da nossa democracia que poucos autarcas tenham chegado aos postos de poder no governo da Nação, pois teriam outra sensibilidade aos problemas das pessoas. No entanto, os poucos que lá chegaram depressa deixaram a autarquia numa espécie de orfandade e eles sentindo-se como peixes fora da água não vitaminada pelos seus aduladores.

A contestação à nova lei autárquica – que ainda não se sabe que será implementada -- não revelou mais interesses em defender o posto de comando do que a lógica do bem serviço às populações? Como poderemos progredir se tudo está parado ao sabor de quem governa a seu bel-prazer?

= Autarcas jogados em favores partidários?

Por outro lado, podemos ver os autarcas – de freguesia ou de concelho – a servirem de tropa dos partidos políticos, pois é nas bases que se constroem – pelo voto ou pela promessa de maior protagonismo – as aspirações a conseguir um posto melhor. Vive-se, neste momento no nosso país, numa sociedade piramidal, onde os debaixo só conseguem ascender a algo melhor se forem da simpatia de quem governa e estes têm de receber algum sinal de concordância para que os súbditos possam (vir a) ser promovidos...

Neste aspecto porque serão as câmaras municipais os maiores empregadores, na maioria dos concelhos? A quem interessa ter esse poder sobre as pessoas e o seu futuro? Como se poderá sacudir esta ditadura sem liberdade de contraditório?

Como as pessoas precisam do emprego para terem pão para a boca, esta fecha-se num silêncio ensurdecedor e, por vezes, cúmplice, pois quem manda pode-nos cortar a linha de possibilidade de melhor posto...

Agora que se preparam as listas para as eleições é bom de ver o corropio nas sedes partidárias, pois é o futuro dos filhos e netos que está em causa. Também neste campo é preciso bom senso e espírito de serviço aos outros. Os autarcas merecem melhor e nós todos merecemos os melhores... assim eles apareçam!



António Sílvio Couto