Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



sexta-feira, 31 de maio de 2013

Das crianças em risco... às situações arriscadas


Por estes dias foram anunciados os números atendidos nas comissões de protecção de crianças e jovens, relativos ao ano passado, ao nível nacional. Foram lidados cerca de 69 mil casos, muitos deles já vinham de anos transactos e mais de 29 mil foram situações novas... com uma larga fatia de casos de risco.

Com o alargamento da escolaridade obrigatória do 9.º para o 12.º ano e, consequentemente, das idades abrangidas pela ‘infantilização’ dos atingidos dos 15 para os 18 anos, passou a haver mais casos que estão sob tutela deste âmbito social... tendo crescido os casos de incumprimento da ida à escola e, portanto, sendo colocados sob a alçada de abandono, absentismo ou de insucesso escolar... Houve um aumento de 69% de processos instaurados em 2012. O perfil dos menores acompanhados nas comissões também cresceu na idade, sendo agora na sua maioria entre os 15 e os 21 anos, em vez dos menores de quinze anos, que anteriormente tinham maior expressão e referência.

As situações mais agravadas foram as que estão relacionadas com a exposição dos jovens a comportamentos que podem comprometer a sua saúde, segurança e bem-estar... tais como são as de violência doméstica, de consumo de álcool ou de estupefacientes.

Diminuiram as situações sinalizadas como de maus tratos físicos e psicológicos, de mendicidade ou de exploração do trabalho infantil, mas aumentaram as situações de abuso sexual. Por seu turno, aumentou significativamente (65% dos casos) o número de crianças e de jovens sinalizados em comportamentos que afectam o seu desenvolvimento e a sua saúde, tais como os comportamentos anti-sociais mais graves, actos de indisciplina ou de bulling, de consumo de drogas ou de álcool.

Poderemos, então, colocar breves questões, embora não expliquem nem fechem a abordagem do problema:

Que responsabilidade tem ou pode ter, neste campo, a situação de crise económica? Poder-se-ão explicar as crianças em risco também com riscos morais e éticos, para além dos físicos e psicológicos? A geração dos pais destes filhos terá sido educada à luz do carinho ou da pancada? Até onde vai a responsabilidade das crianças e a responsabilização dos adultos/pais/educadores? O regime de paparicos educa ou infantiliza?

= Que pais/educadores numa cultura tendencialmente estatizante?

Nos tempos mais recentes temos visto e ouvido situações de tutelagem do Estado sobre as pessoas que quase roça a nacionalização dos filhos, pois, certas entidades julgam-se quase donas dos filhos/as dos outros, criando momentos de dramática conjuntura, onde se intrometem não para defender os mais novos mas para como que acusar os mais velhos. Nota-se ainda em certos serviços do Estado uma espécie de abuso de poder, bastando o caso cair sob a sua alçada e as pessoas como que passam a ser tratadas como menores... para o resto da vida!

De referir que os técnicos dos serviços são cada vez mais capazes, com dedicação e – segundo os responsáveis – com mais meios, mas parece que ainda falta maior coordenação entre tantos e tão variados intervenientes em favor das crianças e dos adolescentes em risco. Sabemo-lo por contacto próximo que, muitas vezes, a fragilidade mais básica se situa na família e que, rompidos os laços de estância essencial, sobretudo os mais novos ficarão ainda mais vulneráveis...

Num tempo onde se têm que coordenar sinergias seria (ou será) de mau gosto querer reivindicar protagonismos, quando o que está em causa é o futuro do nosso país, pois se as crianças e os jovens estiverem fragilizados todos iremos pagar a factura da desconjunção da sociedade. E nem se pense que as estruturas que servem os valores espirituais podem ficar de fora, pois seria um grave erro se tal acontecesse. Cuidem, por isso, os responsáveis da protecção de crianças e de jovens em risco em incluir – ao menos por estratégia mínima – as igrejas e as associações de índole cristã, pois todos teremos muito a ganhar agora e no futuro próximo.

Afinal, a quem servimos, os outros ou andamos a tentar promover-nos a nós mesmos?

António Sílvio Couto

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Certas sobrancerias... à portuguesa


Num destes dias discutia-se, num canal televisivo, uma afirmação de um alto responsável da Nação sobre a coincidência entre a aprovação positiva dos nossos credores externos e a (possível) intervenção de Nossa Senhora de Fátima, quando um dos participantes referiu que, em Portugal, só quem se diz ateu e excluir a fé da vida pública é que tem razão... os outros – isto é, os que possam dizer ou afirmar cristãos, de forma tácita ou explícita – são excluídos da discussão e como que vistos ainda numa certa menoridade, senão intelectual, pelo menos, cultural... pelos tais pretensos referenciais da normalidade, mesmo assim, minoritária. Até certos intelectuais da revolução – mentores da ínclita constituição ideologicamente ultrapassada no tempo e na história – afinam as garras para invectivar quem se possa assumir como mais ou menos crente... cristão!



= De facto, há certos paladinos da liberdade que só a entendem como e quando esta for contra Deus ou, pelo menos, anti-cristã. Notam-se ainda certos laivos de que ser esquerdista – o que não bem o mesmo que pretender ser de ‘esquerda’ social e política – laicista, jacobino ou ateu confesso são como que prerrogativas para vingar neste país de preconceitos e até de um proteccionismo anti-religioso mais primário... Como se a verdade só tenha uma cor, desde que seja de matiz contestatário! Em certas épocas da história este vingaram, enquanto os outros não se vingaram: daqueles os manuais deixarão notas de rodapé, destes far-se-ão capítulos de eloquência e de heroicidade. O tempo dirá quem tem, afinal, razão!
= Há, por vezes, discussões onde o mais assanhado complexo de erradicar a dimensão espiritual da pessoa humana está entranhado na alma – note-se esta espécie de contra-senso! – dos contendores... Como se nós fossemos capazes de viver sem ideais e estes são, normalmente, de teor espiritual mais ou menos difuso! Que haja pessoas que não aceitem a dimensão espiritual da pessoa humana, isso não lhe dá o direito de reduzir a o pó – seja da cremação seja da desmemorização – quem tenha outras crenças, diferentes formas religiosas de vida ou se norteie por ideais de índole espiritual pessoal e comunitária. A fronteira não está no crente/não crente, mas na superficialidade/profundidade sobre si e para com os outros!
= Em certos momentos vemos que há grupos profissionais – militares e forças de segurança, sectores da advocacia e da justiça, do desporto (sobretudo do futebol), até do meio (dito) artístico e mesmo algumas áreas eclesiásticas – que se consideram (quase) intocáveis, mais parecendo uns novos brâmanes da vida social lusa... diante da falange de párias do resto do país, que é o povo, tanto na sua expressão cívica, como na vivência ética. Com efeito, há regalias que cheiram a feudalismo, seja ele militarista, justicialista, religioso ou mesmo desportista. Na pirâmide dos que mandam nem sempre podem impor-se regras aos que têm obedecem. Por muito que tenham feito pelos outros – estes ou outros intérpretes – devem estar ao serviço e não a servir-se dos lugares... para promoção e numa certa vanglória!
= Sem pretendermos lançar suspeita sobre a legitimidade das vitórias, não deixou de ser esquisito que, estando ainda em disputa os jogos, já estivessem, no palco do jogo de quem ganhou o campeonato de futebol maior português, as medalhas e todos os adereços de consagração. E se o resultado não tivesse sido a vitória – bastaria ter-se verificado um empate, quanto mais a derrota! – os que estavam a mais de trezentos quilómetros de distância não teriam tido tal consagração, pois os ingredientes já estavam noutra sintonia. Valha-nos a verdade – desportiva, moral e até intelectual – e não faríamos a figura de que já havia campeão antes do jogo jogado. Não está em causa a vitória, mas a sobranceria com que são tratados os que não pensam nem agem como os que estão, normalmente, por cima... nos últimos anos!
= Agora que já se sabe com certeza quem é o próximo patriarca de Lisboa, fica a pairar no ar – etéreo, mas nem sempre diáfano – que poderemos suspeitar sobre uns tantos jogos de poder: notou-se a conspiração de certas campanhas; parece que podem ter havido certos golpes palacianos; criaram-se cenários de vencedores e de vencidos... Foi algo a roçar o medievalesco, desde a sacristia até ao altar, passando pelas instâncias de discernimento... Quando vemos uns tantos habilidosos a vingar, sentimos que as sobrancerias não têm credo nem diferença de actuação, seja qual for o campo ou o espaço de intervenção!.. E o resto não é paisagem!
António Sílvio Couto (asilviocouto@gmail.com)

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Candidatos autárquicos: jogadores ou mandados?


Lá para o fim do terceiro trimestre deste ano civil, isto é, por finais de Setembro ou o mais tardar no início de Outubro, seremos chamados a votar novos órgãos autárquicos – assembleias de freguesia/juntas; assembleias municipais e edis... sob o signo dos emblemas partidários ou na tutela dos interesses (ditos) independentes.

Estando a cerca de três meses da (tal) votação, vemos já perfilarem-se figuras e figurões, entidades e promoções, classes e camaleões... numa espécie de concorrência onde, desgraçadamentte, os mais apontados deixam muito a desejar e, possivelmente, os mais aptos se escondem sob a capa de outras ocupações... profissionais ou de objecção à visibilidade em favor dos outros!

Depois de quase quatro décadas de ‘poder autárquico’ temos visto muitas figuras a surgirem e a desaparecerem; outras a terem um prazo mínimo de validade; muitos outros a prolongarem-se – até criaram uma palavra para os designarem: dinossaurios – o mais tempo que lhes foi possível... agora têm de sair em razão da lei. Nestas variadas situações o ‘poder autárquico’ foi criando uns certos tiques de caciquismo – esse mesmo que acusavam ao regime anterior! – e foram-nos ainda dados referenciais de popularidade quase invejável e, embora sendo poucos, têm, hoje, poder na suas localidades e junto do poder central... tal é (ou parece ser) a influência com que actuam, dentro e fora dos espaços de decisão.

= Autarcas jogam no xadrez político?

Atendendo a que estão mais próximos das populações e emergindo de entre os votantes como os (pretensamente) mais capazes, os autarcas sabem como conduzir tantas questões, colhendo disso os favores do povo e dando, em contrapartida, espaço a outros ganharem ascendência na hora das eleições. Na maior parte dos casos não se está de má-fé, mas, noutras situações, nota-se um certo aproveitamento dos lugares de mando, pois mais não seja para conquistarem prestígio social e político. Com efeito, é no xadrez político – sobretudo na condição de partidário – que os autarcas podem ser usados ou até podem ser manipulados, se não estiverem atentos... em todos os sentidos.

Talvez seja pouco abonador da nossa democracia que poucos autarcas tenham chegado aos postos de poder no governo da Nação, pois teriam outra sensibilidade aos problemas das pessoas. No entanto, os poucos que lá chegaram depressa deixaram a autarquia numa espécie de orfandade e eles sentindo-se como peixes fora da água não vitaminada pelos seus aduladores.

A contestação à nova lei autárquica – que ainda não se sabe que será implementada -- não revelou mais interesses em defender o posto de comando do que a lógica do bem serviço às populações? Como poderemos progredir se tudo está parado ao sabor de quem governa a seu bel-prazer?

= Autarcas jogados em favores partidários?

Por outro lado, podemos ver os autarcas – de freguesia ou de concelho – a servirem de tropa dos partidos políticos, pois é nas bases que se constroem – pelo voto ou pela promessa de maior protagonismo – as aspirações a conseguir um posto melhor. Vive-se, neste momento no nosso país, numa sociedade piramidal, onde os debaixo só conseguem ascender a algo melhor se forem da simpatia de quem governa e estes têm de receber algum sinal de concordância para que os súbditos possam (vir a) ser promovidos...

Neste aspecto porque serão as câmaras municipais os maiores empregadores, na maioria dos concelhos? A quem interessa ter esse poder sobre as pessoas e o seu futuro? Como se poderá sacudir esta ditadura sem liberdade de contraditório?

Como as pessoas precisam do emprego para terem pão para a boca, esta fecha-se num silêncio ensurdecedor e, por vezes, cúmplice, pois quem manda pode-nos cortar a linha de possibilidade de melhor posto...

Agora que se preparam as listas para as eleições é bom de ver o corropio nas sedes partidárias, pois é o futuro dos filhos e netos que está em causa. Também neste campo é preciso bom senso e espírito de serviço aos outros. Os autarcas merecem melhor e nós todos merecemos os melhores... assim eles apareçam!



António Sílvio Couto

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Reclusos de luxo... ou velhos de lixo?


Os dados estão aí: cada recluso custa ao Estado, em média, cinquenta euros por dia, com despesas de alimentação, saúde, ensino e formação profissional... Enquanto, por parte da tutela sobre a área social, onde se incluem os mais velhos, a comparticipação financeira para ‘estrutura residencial para pessoas idosas’ (vulgarmente dito, lar) é de 355 euros por mês o que dá cerca de doze euros por dia!

Tentemos esmiúçar números, possíveis razões e, por que não, ousarmos apontar erros e (até) incongruências... de todos nós.

= Números e gastos... comparados

Segundo dados dos serviços prisionais, cada recluso custará ao Estado, ao final do ano, cerca de quinze mil euros. E, se nos ativermos ao número global da população reclusa em Portugal, que é de quase doze mil, teremos que o custo é de mais de 170 milhões de euros por ano.

Não deixará de tornar-se, no entanto, preocupante que um largo leque dos ocupantes das prisões são jovens... estando muitos deles em idade de trabalho activo. Neste particular a droga – sobretudo na vertente da traficância – é a principal fornecedora do capital humano em reclusão.

Por seu turno, os dados sobre os custos globais do idoso em ‘estrutura residencial’ (lar) cifra-se em cerca de novecentos euros por pessoa ao mês – numa estimativa razoável e sem inflacionamento de serviços ou de prestações – embora possa atingir outras verbas mais elevadas. Se atendermos a que há registo, em Portugal, de 2.900 lares para idosos poderemos encontrar uma larga percentagem da população neste sector de actividade humana... directa ou indirectamente com ela relacionada. O ranking dos distritos com mais lares – e, por conseguinte com mais idosos neles residentes – é o seguinte: Lisboa com quase oitocentos lares, Porto com mais de três centenas e meia e de Setúbal com mais de duas centenas de lares.

 
= Nova linguagem para novos desafios: sim, não, talvez...
 
Quando vemos crescer o número da população mais velha, inclusive com a cunhagem de uma nova designação: ‘grande idade’ – que envolve os velhos com mais de oitenta anos – temos de questionar uma quantidade de ideias pré-concebidas com que a sociedade capitalista (e não só) tem rotulado sectores essenciais da nossa cultura, bem como teremos de reflectir sobre conceitos que muitos de nós não tínhamos há poucos anos... atrás.

De facto, há cerca de meio século era quase normal dizer que morria velho quem falecesse com cerca de sessenta anos. Hoje, com esta idade, é-se ainda novo, tanto para ser arrumado, como para deixar o mundo do trabalho. A longevidade criou novos problemas, pois a qualidade de vida e, sobretudo, de cuidados de saúde gerou uma população com mais nível de exigência e até de possibilidades de intervenção na vida social e cívica.

- Quantas associações e colectividades são hoje espaços de convívio para homens e mulheres que já não se limitam a arrastar-se, mas que têm ainda muito a dar em favor dos outros e na valorização de si mesmos.

- Quantas iniciativas de ocupação têm de rever os conceitos de entretenimento, pois já não só velhos/as à espera da hora do descanso, mas antes pessoas muito válidas e com um depósito de experiência que não pode ser ignorado ou menosprezado.

- De pouco adiantará regatear o aumento da idade da reforma se virmos que os mais novos escasseiam para suportarem as regalias do ‘estado social’ e, particularmente, os descontos para os que ainda agora estão em tempo de trabalho. Fomos nós que criámos as condições do ‘inverno demográfico’, que já consome as raízes da nossa sociedade empobrecida e até apodrecida.

Porque acreditamos no bom senso de actuais e futuros governantes, queremos desejar que se há-de fazer tudo pelo bem comum, tratando os mais velhos com maior dignidade do que os reclusos e fazendo com que estes possam tornar-se cidadãos conscientes numa sociedada cada vez mais pluralista e exigente... para todos!



António Sílvio Couto

(asilviocouto@gmail.com)

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Cultura das redes sociais: desafios e possibilidades


«A cultura das redes sociais e as mudanças nas formas e estilos da comunicação colocam sérios desafios àqueles que querem falar de verdades e valores (...) O desafio, que as redes sociais têm de enfrentar, é o de serem verdadeiramente abrangentes: então beneficiarão da plena participação dos fiéis que desejam partilhar a Mensagem de Jesus e os valores da dignidade humana que a sua doutrina promove» .

Este excerto da mensagem para o 47.º dia mundial das comunicações sociais, que ocorre no próximo dia 12, tem por tema – ‘Redes sociais: portais de verdade e de fé; novos espaços de evangelização’.

Embora tenha sido proposta já pelo Papa Bento XVI, no dia de São Francisco de Sales (24 de janeiro), acolhemo-la com a mesma abertura e novidade, pois a Igreja é una na sua doutrina...

Respigando algumas das ideias do texto, tentaremos fazer a nossa leitura narrativa e interpelativa. 
= Espaços de diálogo, de debate e de informação

«Estes espaços [as redes sociais], quando bem e equilibradamente valorizados, contribuem para favorecer formas de diálogo e debate ... A troca de informações pode transformar-se numa verdadeira comunicação».

Não bastará dizer banalidades nem expor meras futilidades, mas temos de congregar esforços e de partilhar ideias, onde a força humana e espiritual esteja ao serviço dos valores... mais genuínos e sinceros.

= Campo de evangelização e meio evangelizador

«Os fiéis dão-se conta cada vez mais de que, se a Boa Nova não for dada a conhecer também no ambiente digital, poderá ficar fora do alcance da experiência de muitos que consideram importante este espaço existencial».

Dito em linguagem simples e directa, poderemos fazer deste meio de presença aos outros e dos outros como encontro de presença, espaços de anúncio da mensagem actualizada de Jesus... Saber fazê-lo é uma arte!
 
= Utilização de novas linguagens

«No ambiente digital, a palavra escrita aparece muitas vezes acompanhada por imagens e sons. Uma comunicação eficaz, como as parábolas de Jesus, necessita do envolvimento da imaginação e da sensibilidade afectiva daqueles que queremos convidar para um encontro com o mistério do amor de Deus. Aliás sabemos que a tradição cristã sempre foi rica de sinais e símbolos: penso, por exemplo, na cruz, nos ícones, nas imagens da Virgem Maria, no presépio, nos vitrais e nos quadros das igrejas. Uma parte consistente do património artístico da humanidade foi realizado por artistas e músicos que procuraram exprimir as verdades da fé».

Os espaços digitais são, hoje, como que as parábolas de Jesus no Evangelho, ou as entendemos ou perdemos o que Ele nos quer dizer. Afinal, só temos de aprender – humilde e continuamente – as novas linguagens compreensíveis aos nossos contemporâneos... propondo e não impondo!
= Questões de sempre... com uma resposta eterna

«Para aqueles que acolheram de coração aberto o dom da fé, a resposta mais radical às questões do homem sobre o amor, a verdade e o sentido da vida – questões estas que não estão de modo algum ausentes das redes sociais – encontra-se na pessoa de Jesus Cristo».

Ele é a solução... mesmo que certas forças O tentem extirpar na vida e da ética de tantos outros. A pessoa humana é a mesma, a forma de responder é que pode (e deve) variar. Já aprendemos isto, em Igreja católica?

= Oportunidades de fé e de oração

«No ambiente digital, existem redes sociais que oferecem ao homem actual oportunidades de oração, meditação ou partilha da Palavra de Deus. Mas estas redes podem também abrir as portas a outras dimensões da fé».

Nada está fora do coração de Deus. Temos de saber levar Deus aos outros e de colocar os outros em Deus.

António Sílvio Couto (asilviocouto@gmail.com)

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Leituras políticas... inquietadas


Por estes dias temos vivido sinais preocupantes da nossa vida político/social: avanços e recuos em matéria de constrangimento económico/financeiro; declarações e acusações de intervenientes na esfera partidária; discursos sindicalistas incendiários e quase terceiro-mundistas; comentários e comentadores que nada têm de sérios nem independentes... ideológicos.

Diante deste panorama controverso ficam-nos algumas inquietantes perguntas: serão estes intérpretes capazes de cuidar do país ou estarão, antes, a destruir o que resta da nação? Estarão preparados para as funções ou são, antes, empurrados pelas circunstâncias? Onde é que começa a responsabilidade e acaba o oportunismo? Até onde irá a capacidade de aguentar o menos mau, quando está quase tudo tão péssimo? O nível cultural – embora aparentemente instruído! – ainda poderá descer mais ou o fosso não tem fundo?

Mesmo que, em forma de tópicos, deixamos breves leituras políticas, isto é, de cuidado pela salvaguarda da cidade numa proposta de inquietação cívica e (até) cristã:

- Quando ouvimos e vemos Soares e Seguro – com mais de trinta anos de diferença na idade... mas não na mentalidade! – a usarem os mesmo clichés... numa narrativa dejà vu, não estaremos atrasados no conteúdo e na forma de tratarmos o país e as questões essenciais, que não só as de visão partidária e ideológica? Onde está pressa de chegar ao poder, se não está preparado... minimamente?

- Quando vemos, ouvimos e (quase) não percebemos que há, em Portugal, um tribunal – dito ‘constitucional’ – que fiscaliza as regras/leis/ditames/etc. segundo os parâmetros da Constituição da República, mas ele mesmo é composto por juízes não julgáveis – como se fossem infalíveis – mas indicados pelos partidos que compõem o espectro partidário... e de pois não se julgam pressionados, mas actuam segundo as regras das querelas da partidarite. Quem pode julgar e ser julgador, se as leis lhe estão sempre favoráveis? Porque hão-de os juízes do TC poderem reformar-se aos quarenta anos – só com dez de serviço – se o resto do povo (normal) tem de trabalhar até aos sessenta e cinco/sete?

- Quando governo e oposições usam as mesmas palavras, embora com significados diversos, não estaremos a querer enganar o povo e, por isso, a colocando-o fora da participação política activa?

- Quando vemos aguerridos combatentes aos lucros capitalistas em paraísos fiscais, que tão fervorosamente constestam as regras para o resgate da dívida em Chipre... como que somos levados a desconfiar que têm muito mais de cem mil euros para não serem taxados como parecem defender para os outros... não para eles!

- Quando vemos surgirem certos figurões no écran da opinião – qual noiva ofendida com os agravos dos seus pundunores ofensores! – como que nos sentimos numa espécie de ridicularização sobre a nossa capacidade intelectual e num congestionamento de não-ofensa à raiva, pois quem tanto mal nos fez parou o filme – quase dois anos – e agora surge a proferir tais dislates que mais parecem elogios aos antepassados da vergonha... embora possam surgir como entendidos na solução aos vindouros mais incautos...

- Quando olhamos certas carpideiras da economia estatizada – sob o signo de modelos que já faliram noutras paragens, mas que ainda têm algumas raízes neste país de brandos costumes -- a lançarem lágrimas sobre os Estaleiros de Viana do Castelo como que sentimos que aquele feudo está prestes a escapar ao controle de certas forças – ditas trabalhadoras, progressistas e reivindicativas – que foram afundando na negligência um certo estrato da sociedade e da região... que, embora privilegiado, está falido e quase amorfo.

- Quando vemos serem cerceados alguns temas éticos mais elementares, por parte de uma certa comunicação social – só porque lhes cheira a cristianismo, senão na teoria ao menos na prática – talvez nos pareça ainda estarmos sob a custódia de um tal jacobino bolorento da primeira república, onde quem não pensa(va) como eles... logo se torna(va) inimigo.

- Quando se nos afigura uma tal proclamação do consumismo – embora falido ainda tem muitos seguidores endivididos – como se fosse a solução das questões, quando não passa da causa de muitos problemas, então urge reflectir sobre quais são os valores nos quais estamos a construir a nossa história pessoal e colectiva.

Afinal o civismo – onde também a dimensão política se insere – está a construir-se, hoje como ontem e amanhã!


António Sílvio Couto (asilviocouto@gmail.com)

terça-feira, 16 de abril de 2013

Que família (cristã) para este tempo?


A Conferência Episcopal Portuguesa publicou, no final da última reunião plenária, no dia 11 de abril, uma nota pastoral intitulada: ‘A força da família em tempos de crise’. Neste texto os nossos bispos fazem-nos reflectir sobre alguns aspectos essenciais da família. Respigaremos breves excertos, tentando respeitar os subtítulos do documento, e acrescentaremos umas tantas perguntas... que nos parecem úteis.

1. Família: bem social A família representa um bem público, um bem social. Podemos encará-la na perspetiva do seu relevo privado, como um bem para a realização pessoal, no plano afetivo, espiritual ou outros, de cada um dos seus membros. Mas devemos também encará-la na perspetiva do seu relevo social, do bem que representa para a sociedade no seu todo. (...) A saúde e coesão de uma sociedade dependem, por isso, da saúde e coesão da família.
Só a família concebida a partir do compromisso definitivo entre um homem e uma mulher pode desempenhar esta função social. As alterações legislativas que, entre nós como noutros países, vêm redefinindo o casamento de forma a nele incluir uniões de pessoas do mesmo sexo, esquecem esta verdade fundamental.

(...)
A família é o santuário da vida e do amor, lugar da manifestação de uma grande ternura. - A quem interessa confundir as noções de ‘família’ senão àqueles que sobrevivem nas confusões, sejam elas terminológicas ou sejam morais/éticas ou pseudo-culturais?
- Como poderemos vencer os lóbis anti-família, se a esta não for dado significado e afirmação positiva?
- Porque se escondem, mesmo noticiosamente, tantas tribulações – desde a agressividade até ao crime – das ditas famílias homossexuais?
2. Importância da família Na família respeita-se a dignidade da pessoa humana, esta é encarada como ser único e irrepetível. Nela não há lugar para o anonimato. Nela a pessoa é acolhida e amada pelo que é, não pelo que faz ou pelo que produz. Por isso, o contexto familiar é aquele em que os mais vulneráveis, incluindo os doentes e portadores de deficiência, não deixam de ser valorizados.
A família é a primeira e mais básica escola de sociabilidade. Nela se aprende a convivência com o outro e o diferente; o homem é diferente da mulher, os irmãos nunca são iguais, e os filhos nunca são o reflexo da imagem dos pais.
(...) Na família a autoridade é exercida como serviço e por amor.
A renovação das gerações no seio da família também permite a mais harmoniosa aliança entre a tradição e a novidade.
(...) Num outro aspeto a família representa o contexto mais adequado e harmonioso para o crescimento e educação das novas gerações. A família nasce da unidade e complementaridade das dimensões masculina e feminina, que cooperam, nessa unidade e complementaridade, para a integridade da educação humana.
- Quando vemos proliferar situações de famílias mono-parentais não estará um tanto em risco o equilíbrio das pessoas, sobretudo dos mais frágeis?
- Quando vemos ser questionada – anárquica, abusiva e acintosamente – a autoridade dos pais como poderemos ter cidadãos felizes e saudáveis?
- Quando aos velhos são substraídos os elementos mais básicos como poderemos sobreviver civicamente?
3. Crise económica e social com repercussão na família A crise económica e social que o nosso país atravessa vem evidenciando, precisamente, a riqueza que representa a família. Tem sido a solidariedade familiar, que se traduz em solidariedade entre gerações, em muitos casos, o primeiro e mais seguro apoio de quem se vê a braços com o desemprego, ou a queda abrupta de rendimentos, com a consequente incapacidade de fazer face a compromissos assumidos que se destinam à satisfação de necessidades familiares essenciais, como a da habitação. (...) Na raiz da crise que atravessamos estão fracassos de um modelo económico assente na maximização do lucro e do consumo. (...) A gratuidade típica das relações familiares deve servir de modelo para este novo paradigma de desenvolvimento económico.
- Perante certas (ditas) ajudas -- sociais, políticas e/ou assistenciais -- estaremos a dignificar ou a desvalorizar a família?
- Até onde irá a subsidio-dependência em tantos contextos familiares degradados, que, por vezes, se tornam degradantes?
- Os laços familiares já aprenderam a gerar novas formas de partilha e de inter-comunhão... muito para além da ajuda circunstancial?
4. Abertura à vida na família... com critérios cristãos Talvez o mais eloquente sinal de que a crise da instituição familiar se traduz em malefícios sociais seja o da crise demográfica, que muitos consideram o mais grave dos problemas sociais das sociedades europeias, numa perspetiva do seu futuro mais ou menos próximo. As últimas estatísticas apontam Portugal como um dos países com mais baixa taxa de natalidade em todo o mundo.
A família abre-se, por desígnio natural, à vida.
(...) É claro o bem que representa hoje a maior longevidade, o facto de os idosos viverem mais tempo do que noutras épocas. O que é problemático não é isso; não há idosos “a mais”, porque estes são sempre uma riqueza, e nunca um peso. O que é problemático e causa desequilíbrios é que não nasçam crianças. (...) Ajudam a combater a crise da natalidade medidas fiscais, que promovam o emprego juvenil, ou que facilitem a conciliação entre o trabalho e a vida familiar. Mas o contributo decisivo para vencer a crise demográfica situa-se no plano da cultura e da mentalidade.
- De facto, como poderemos acreditar que o Estado/governo são ‘pessoas de bem’ se protegem quem combate a vida, matando-a ainda antes de nascer?
- Quando se paga, repetidamente, o recurso ao método do aborto e não se ajuda quem quer ter filhos, ainda estaremos a salvaguardar o nosso futuro?
- Como poderemos defender o ‘estado social’ se as comparticipações legais nos fazem pagar métodos anti-vida e não são apoiados gestos de amor responsáveis?
5. Família: projeto duradouro... com percalços
Para vencer a crise demográfica, como em relação a muitos outros aspetos relativos à sua função social, há que acreditar na família como um projeto duradouro, assente num compromisso de doação total e não na volatilidade dos sentimentos. Só nesse contexto é razoável a decisão de ter filhos. Se a saúde e coesão da sociedade dependem da saúde e coesão da família, esta está estritamente ligada à sua estabilidade.
Vai-se generalizando, porém, a opção por formas de convivência marital precária, que recusam esse compromisso; tal como é cada vez mais frequente o recurso ao divórcio, o que a legislação vigente também não deixa de facilitar em extremo.
(...) Não é demais lembrar a responsabilidade que representa a preparação, mais remota e mais próxima, para o casamento. Uma preparação que envolve as famílias, as instâncias educativas e a Igreja. - Quando vemos, sentimos e escutamos um certo descrédito sobre a estabilidade do matrimónio – ou mais vulgarmente na etapa do casamento – ainda poderemos acreditar na sanidade dos aventureiros em fazê-lo... para além da festa e das prendas?
- No contexto da preparação próxima – cursos e reuniões – para o casamento/matrimónio como poderemos refazer a linguagem, quando mais de metade dos candidatos já vive em conjunto e/ou com filhos?
- Depois de certas vivências mal-sucedidas – onde o divórcio se torna ferida – como deve a mãe-Igreja acolher e tratar compassivamente os re-casados e as vítimas da separação não-culpável?
6. A sociedade à imagem da família Os valores que se vivem na família – a pessoa amada e acolhida como ser único e irrepetível, o amor gratuito, a solidariedade espontânea, a autoridade como serviço, o valor do doente e do idoso, a aliança da tradição e da inovação, a unidade e complementaridade das dimensões masculina e feminina, a fidelidade e o compromisso – devem estender-se, por seu intermédio, a toda a sociedade: às empresas, aos serviços públicos, às escolas e hospitais, às comunidades eclesiais, às associações. A família é o modelo, o dever ser de qualquer convivência humana.
- Não será verdade que a sociedade está em colapso porque a família está doente?
- Quando entenderemos que a razão mais funda da nossa crise não se situa em coisas materiais mas em situações culturais?
- Já fez o chec-up da sua família para entender melhor os males da nossa sociedade?



António Sílvio Couto