Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



quinta-feira, 10 de maio de 2012

Em elogio do silêncio... sincero e verdadeiro


O silêncio é parte integrante da comunicação e, sem ele, não há palavras densas de conteúdo. No silêncio, escutamo-nos e conhecemo-nos melhor a nós mesmos, nasce e aprofunda-se o pensamento, compreendemos com maior clareza o que queremos dizer ou aquilo que ouvimos do outro, discernimos como exprimir-nos.
Calando, permite-se à outra pessoa que fale e se exprima a si mesma, e permite-nos a nós não ficarmos presos, por falta da adequada confrontação, às nossas palavras e ideias. Deste modo abre-se um espaço de escuta recíproca e torna-se possível uma relação humana mais plena.
É no silêncio, por exemplo, que se identificam os momentos mais autênticos da comunicação entre aqueles que se amam: o gesto, a expressão do rosto, o corpo enquanto sinais que manifestam a pessoa.
No silêncio, falam a alegria, as preocupações, o sofrimento, que encontram, precisamente nele, uma forma particularmente intensa de expressão. Por isso, do silêncio, deriva uma comunicação ainda mais exigente, que faz apelo à sensibilidade e àquela capacidade de escuta que frequentemente revela a medida e a natureza dos laços.
Quando as mensagens e a informação são abundantes, torna-se essencial o silêncio para discernir o que é importante daquilo que é inútil ou acessório.

Este é um excerto da Mensagem do Papa Bento XVI para o dia mundial das comunicações sociais, que se celebra no domingo da Ascensão, intitulado: ‘Silêncio e palavra: caminho de evangelização’.

Embora o texto citado não tenha a disposição gráfica colocada, apresentamos, a partir destes ítens, breves propostas – partindo daquilo que diz o Papa, sendo ele mesmo um protótipo daquilo que partilha neste texto – em ordem a aprendermos a viver a comunicação do silêncio e a apreciar o silêncio na comunicação:

* Silêncio na comunicação
Num tempo em que se vive a inflação da palavra, urge dar oportunidade ao silêncio, que é muito mais do que estar calado. Quanta verborreia impede a comunicação. Quantas vezes temos de gritar, mesmo que o interlocutor possa estar ao pé de nós, e não nos fazemos ouvir. Quantas vezes o silêncio nos pode atraiçoar pelo vazio do que não dizemos.

* No silêncio conhecemo-nos... melhor, dando lugar ao outro em escuta
É preciso parar e dar conteúdo àquilo que dizemos, sendo muito mais exigentes connosco mesmos do que para com os outros. Por vezes falar é mais do que dizer palavras... ocas, desconexas ou, até, impensadas. Quem tem pouco a dizer corre o risco de falar muito... e não dizer nada, deixando, assim, a nu uma vacuidade!
Com efeito, o diálogo gera-se entre, pelo menos, duas pessoas que se escutam reciprocamente. Na troca de palavras entre um e outro tem de haver momentos de silêncio, por forma a que não se atropelem os intervenientes. Poderíamos dizer que o silênico é mais do que o semáforo do diálogo; é, pelo contrário, o cimento de uma boa e frutuosa conversa... tenha o assunto que possa ter... no interesse entre os participantes.

* Pelo silêncio atendemos aos sinais
Sem qualquer visão negativa da não-palavra podemos inferir que o silêncio é como que um permanente desafio à descoberta dos sinais com que o nosso interlocutor nos fala sem dizer e se nos revela na sua mais profunda sensibilidade àquilo que somos muito para além do que dizemos... Quantas vezes uma expressão facial nos comunica – mesmo que de forma inconsciente – o que vai na mente e na psicologia daquele com quem estamos em conversa... e de nós mesmos aos outros!

* Com o silêncio vivemos em intercomunicação
Quantas vezes a nossa comunicação é feita muito para além das palavras expressas – ditas ou subentendidas – no trato uns para com os outros. Quantas vezes na fácies do nosso interlocutor captamos e também ele percebe em nós concordância ou desacordo com as palavras que dizemos. O silêncio fala por nós e fala de nós. O silêncio exprime o que somos e dá-nos capacidade de entender os outros. Quantas vezes nos entendemos pelo silêncio e pelas suas variadas interjeições. O silêncio exercita a nossa capacidade de escuta sincera, verdadeira e respeitosa... sobretudo daqueles que amámos. Efetiva e afetivamente o silêncio nos obriga e nos abriga!

* Do silêncio aprendemos o discernimento
A força do silêncio pode levar-nos a discernir o conteúdo e a forma daquilo que dizemos, do que queremos dizer e de tantas outras linguagens que, com alguma dificuldade, nos tentamos exprimir. Por isso, o silêncio é (ou pode ser) o fiel da balança da aferição do dito, do não dito e do desejável em dizer. Com efeito, quando acabam as palavras, como que resta o silêncio – não o vazio mas aquele que está prenhe de comunicação e ávido de se dar a conhecer – onde um simples olhar, as mãos dadas ou um trejeito de cumplicidade faz toda a diferença.


 Se tudo isto, quanto ao silêncio, é importante no trato das pessoas umas com as outras, quanto mais o deve ser na comunicação social, onde palavra e silêncio se complementam... na devida correlação ativa e passiva!



António Sílvio Couto



segunda-feira, 7 de maio de 2012

Num país de Maria’s & Rodrigo’s...

Vivemos num país onde proliferam as Maria’s (mais de cinco mil registos) e ganham os Rodrigo’s (superior a 2500 situações)... atendendo aos dados da onomástica, no ano passado... em Portugal.
Para quem não gosta do nome que tem há (quase) sempre a possibilidade de  mudar. No ano de 2011 houve um pouco mais de nove centenas que requereram a mudança do nome... no entanto, um pouco abaixo dos mil e cem requerimentos do ano de 2010.
O motivo mais frequente do pedido de alteração de nome próprio tem a ver com as pessoas nascidas no estrangeiro que pretendem fixar, em Portugal, o nome próprio aceite no registo civil local...
Para que estes casos possam ser ativados há, normalmente, um custo de cerca de duzentos euros para apresentar o requerimento, invocando ainda os motivos para a mudança pretendida.

= ‘Nome’ – uma identidade pretensa, desejada ou assumida?
Todos sabemos mais ou menos conscientemente que o nome que nos foi dado – seja qual for a razão, a origem ou a motivação – envolve um tanto a nossa identidade, seja na vertente de personalidade, seja na prossecução do nosso ‘eu’ pessoal ou em expressão coletiva.
Quantas vezes carregamos (ou podemos carregar) um ‘nome’ de inspiração familiar – de pais para filhos, como netos ou em função dos padrinhos – ou, noutras vezes, suportamos uma identificação da moda – os figurantes/atores de telenovela foram campo de cooptação em certas épocas – ou talvez uma qualquer bizarria de quem quis que fôssemos quem, talvez, não deixaram que fossem... e assim foram/são chamados durante a sua/nossa vida terrena.
Como estamos (tão) longe da percepção bíblica da atribuição do nome, na medida em que lhe estava adstrita uma missão mais divina do que uma certa moda humana!... Cada nome bíblico tem, normalmente, uma referência à missão prospetiva de cada pessoa na leitura da linguagem divina. Com efeito, no contexto bíblico dar o nome, como por exemplo, de ‘Abraão’ (pai de muitos povos), de ‘Moisés’ (salvo das águas), de ‘Jesus’ (Deus salva), de ‘Pedro’ (pedra, fundamento) ou de ‘Paulo’... era muito mais do que um fonema minimamente bem soante... tinha, antes de mais, uma envolvência da realidade divina da pessoa e de tudo aquilo que Deus desejava dele e para ele...
Temos ainda a considerar essa corruptela de vermos atribuídos nomes de pessoas a animais e de vermos ainda certos animais com nomes que até malbaratam a sua colação com pessoas... seja no junção com opções políticas, seja na provocação aos humanos por desdém ou até por ofensa. Não queremos exemplificar qualquer destas situações para não usarmos casos que conhecemos e que poderiram ser mal interpretados... embora nos mereçam uma certa condenação mínima.

= ‘Nome’ – desafio à santidade atual e futura
Mesmo que de forma suscinta parece-nos urgente retomar a iniciativa com que a Igreja – sobretudo na hora de conferir o nome no ato do batismo – nos convidava a colocar ao neófito um nome, tanto quanto possível, de um santo para que o batizado tenha um intercessor e ainda alguém com quem se possa identificar na sua caminhada de vida em santidade.
Por vezes era sugerido que o santo/a pudesse ser aquele/a do dia do nascimento ou outro qualquer de maior devoção da família ou como o orago do local de nascimento.
Também neste particular podemos/devemos retomar as fontes da nossa inspiração cristã sem medo nem rebusco de estar fora de moda... desde que isso signifique mais do que um certo revivalismo, mas antes um programa de vida e de anúncio cristão.

Tenhas o nome que tiveres, queira Deus que possas interpretar a misssão que Deus te concede e que possas viver a tua vocação com humildade e confiança, diante de Deus e para com os homens.

António Sílvio Couto

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Engrandecimento da mãe

Na proximidade ao ‘dia da mãe’ gostaria de envolver num grande preito de agradecimento e de engrandecimento todas as mães pelo muito que fizeram pelo mundo... seja no seu espaço mais próximo, seja pelas implicações mais abrangentes em maternidade:

Dom de Deus, vós sois o que há-de mais terno e que nos fala do divino,
Indicando a fonte da vida, sois o receptáculo do amor, feito pessoa em cada filho/a,
Apontais para a meta onde Deus vive e reina... eternamente.

De cada momento de entrega, recebemos maior ternura,
Ao longo do nosso existir somos aquilo que foi gerado em vosso seio...

Mulher, filha, amiga, esposa... é, sobretudo, como mãe que a vossa tarefa é sublime:
Amparai-nos em vosso regaço, nas horas de tristeza, de dúvida ou de alegria,
Envolvendo-nos na confiança da maternidade ... sempre nova e em esperança!

Obrigado a todas as mães que o foram  e o são
e perdão para todas as que ofenderam este dom de Deus.
Com Maria, mãe de Jesus e nossa mãe,
engrandecemos as que hão-de sê-lo com consciência e em serviço à vida.

António Sílvio Couto

terça-feira, 24 de abril de 2012

Aborto repetido cresceu... em cinco anos


Segundo dados disponíveis da Direção geral de saúde e do Instituto nacional de estatística, desde a entrada da nova lei do aborto, de 2007, com cobertura (ou discriminalização) até às dez semanas, podemos encontrar que:

- Desde 2005, terá havido – nos números de uma associação pró-vida – 80 mil ‘interrupções da gravidez’ em espaços legalizados, sendo 13.500 repetições;

- No entanto, outros números ‘oficiais’ apontam para outros dados: em 2008 verificaram-se 15 mil casos; em 2009 são reportados 34 mil situações; em 2010 houve 54 mil ‘interrupções’, sendo 4651 repetições, das quais 978 são dois ou mais abortos.

- Embora se tenha verificado – ou assim se diz, mas porque não há dados oficiais credíveis, tudo poderá não passar de conjetura! – uma diminuição do (dito) aborto clandestinado, estes números teem de nos fazer refletir, bem como àqueles que tanto lutaram pela salvaguarda da vida e da (pretensa) saúde da mulher...

Se olharmos esta questão pelo lado económico, quanto pode custar uma (dita) ‘interrupção voluntária da gravidez’ de forma legal e num espaço legalizado? Segundo dados, que fomos recolhendo, pode custar, em média, mil euros cada ato... Agora é só fazer as contas sobre os gastos suportados – normalmente – pelo erário público, nestes anos, por esta (pretensa) descriminalização do aborto!

***
Tendo na devida conta estas informações podemos/devemos – sem qualquer intuito fundamentalista nem sequer acusatório – questionar quem defende tanto a vida e a sua qualidade, quem diz defender a mulher e a sua promoção, quem, de forma capciosa, se diz progressista (só) porque defende a morte... mesmo que com ‘qualidade’.

= O aborto não terá passado a ser uma espécie de controle da natalidade em vez de ser um processo de educação para a responsabilidade dos mais novos e, sobretudo, dos  mais velhos?

= Para onde caminha este país que mata mais do que defende os indefesos?

= Como poderemos ter uma segurança social sustentável se gastamos milhares de euros em espaços de não-vida em vez de incentivarmos a correta sexualidade e a sua sustentação?

= Mesmo sem decreto não estaremos já sob a ditadura do filho único, que muitas vezes, não passa de um problema intolerável?

= Com certos projetos de ‘família’ – sobretudo no (pretenso) aparelhamento de pessoas do mesmo género – não estaremos a engrossar ainda mais os números abortivos?


***


Pelo que conhecemos dalgumas situações, parece que, nesta questão do aborto, se tem falado em excesso a partir da perspetiva da mulher, relegando o homem para uma instância de somenos importância. Por isso, seria útil que fossem trazidos à luz da memória – com todos os confrontos psicológicos atinentes – os traumas de homens que foram usados – direta ou inconscientemente – em situações abortivas.

Conhecemos, pelo menos dois casos, já falecidos, em que a vida desses homens se tornou insuportável depois de as (ditas) namoradas terem abortados sem o seu consentimento. Quer num quer noutro dos casos, esses homens deixaram degradar a sua personalidade... até ao ponto da morte precoce.

Torna-se, por isso, urgente exorcizar uns tantos fantasmas feministas ou até de outros falsos defensores da mulher, quando não a escutam da referência à dor da perda e da mágoa... para consigo mesma e para sempre.

Afinal, abortar ainda é matar... mesmo que tenha sido discriminalizado!



António Sílvio Couto

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Portugal entre os mais alcoolizados... da Europa

Portugal é um dos dez países da Europa onde mais se bebe álcool: estamos em nono lugar entre trinta e quatro países europeus. A média anual ‘per capita’ de consumo entre os portugueses anda pelos treze litros e, tendo ainda em conta o nível de abstémios, que é bastante significativo, agrava-se mais o número de alcoolizados.
Atendendo a estes dados, recentemente publicitados, podemos ainda reconhecer que os adultos europeus consomem três bebidas alcoólicas por dia e que Portugal é dos poucos países da Europa a permitir a venda de bebidas alcoólicas a menores de dezoito anos.
Tendo em conta estes dados não ou menos credíveis ficamos a saber que, no contexto europeu, há mais de quarenta problemas de saúde relacionados com o consumo de álcool... normal ou em excesso.
- Quando vemos ser sugerida a diminuição da taxa de alcoolemia (de 0,5 para 0,2 gramas/litro) para conduzir entre os jovens, estaremos a ser sérios ou a adiar um problema social e de segurança rodoviária?
- Quando vemos certas campanhas de ‘jovem cool’, estaremos a enfrentar a questão ou a iludir-nos com medidas avulsas e quase inconsequentes?
- Quando se tenta promover a iniciativa de facultar táxis para que os jovens não conduzam embriagados, estaremos a dissuadir o consumo ou a promovê-lo de forma capciosa?
- Quando em festas e convívios – tradicionais ou importados – onde o álcool (nos vários derivados) é vendido ao desbarato, estaremos a combater ou a acicatar os mais novos a consumirem bebidas, cada vez mais cedo, e de forma concorrencial uns com os outros?
- Quando a promoção da bebedeira tem foro duma espécie de afirmação social, económica e sexual – veja-se a forma intencional como o sexo feminino, desde as idades mais primárias, tem vindo a entrar neste capítulo – como poderemos acreditar num futuro saudável?

***
É pena é que só nos lamentemos das consequências e não tentemos atalhar, mais afoita, crítica  e racionalmente, as causas desta alcoolização... mais ou menos generalizada.
Agora que se aproximam as ditas ‘festas académicas’ – com cortejos, desfiles e espetáculos – como podemos esperar que as ruas não se entulhem de restos de recipientes vazios de conteúdo bebido em excesso!
Ao ritmo de consumo de tantas e tão diversificadas bebidas – muito para além do razoável vinho! – as gerações vindouras poderão trazer-nos doenças (já) irradicadas, como a tuberculose, as hepatites e as cirroses e tudo o mais que o exagero nos servirá... a curto e médio prazos.
Talvez tenhamos de encontrar nas raízes mais profundas do nosso ser coletivo o eptíteto de país alcoolizado: não basta beber para esquecer nem bebericar para celebrar, mas precisamos de nos encontrar com a sabedoria do nosso conhecimento pessoal, familiar, social e religioso, fazendo a festa sem exageros nem falsos moralismos tanto em casa como na rua...

Sobriedade a quantos obrigas, já!

António Sílvio Couto

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Quatro agressões, em média, por dia nas escolas

No ano letivo de 2010/2011 houve 1121 agressões nas escolas portuguesas. Atendendo ao tempo de férias (intercalares e finais) e aos fins-de-semana em que não há atividades letivas, teremos um total de cerca de duzentos e setenta dias de aulas, ter-se-ão verificado, em média, diariamente, quatro agressões nas nossas escolas.
Segundo o ‘Observatório de segurança em meio escolar’, naquele número geral de agressões, são de salientar quase centena e meia de casos sobre professores... no ensino básico e secundário.

Se atendermos ainda aos dados do ano letivo anterior, com mais de três mil e trezentos casos, houve uma diminuição de ocorrências de agressão, cuja tipificação envolve ataques à integridade física, à honra e ao bom nome, bem como atos de vandalismo... 

= Escola retrata ou denuncia a família?

Quem tenha um mínimo de contato com as escolas pode verificar que o ambiente nem sempre é tão saudável como seria desejável. Mesmo sem com isso pretendermos diagnosticar algo de complexo, poderemos considerar que as escolas são como que a ponta do icebergue da sociedade onde os estudantes estão inseridos. Com efeito, às escolas chegam e dos locais de ensino irradiam muitas das preocupações sociais e económicas, éticas e morais, financeiras e profissionais... das famílias e das sociedades, dos grupos e das populações, tanto urbanas como rurais, atingindo os mais instruídos e os menos atentos às coisas do saber.

De fato, poderemos conhecer as famílias de onde procedem os alunos – no sentido etimológico do termo: ‘sem luz’ – se observarmos estes (pretensos) estudantes, tanto na fase de ensino pré-primário, como na etapa do ensino básico, passando pela do secundário e projetando-se no âmbito universitário. E nem sequer a democratização do ensino – tentativa criada mas não ainda conseguida com a revolução de Abril – obnubilou as realidades mais profundas... com muita dificuldade se atenuou e, quase nunca se escondem, as várias fraturas e as instâncias mais variadas dos (nossos) alunos e mesmo professores.

Só com uma correta articulação entre escola e família e vice-versa se poderá criar uma salutar harmonia de intervenientes em todo o processo educativo, assumindo cada qual a sua função sem desculpas nem acusações, tornando-se como que as duas mãos de uma mesma linguagem em favor do futuro de todos, tanto dos diretamente interessados como da sociedade em geral.

Despretensiosamente, ousamos perguntar:

- Como pode e deve a família fazer do processo de ensino um compromisso na dinâmica educativa?

- Como deve e pode a escola fazer participar a família no processo pedagógico sem desculpas nem acusações... mesmo quando acontece um certo insucesso escolar?

- Quando se unirão as duas instituições (família e escola) para serem criadas as condições mínimas e suficientes em ordem a que o ensino seja educação e o processo educativo possa ser corresponsabilidade na ação?

= Ensinar ou educar?

Aprender e ensinar são tarefas que teem de estar muito bem conjugadas, pois quem ensina aprende e quem aprende terá muito a ensinar... mesmo que de forma tácita. O valor do ensino mede-se não pelos conteúdos aprendidos, mas pelas ‘armas’ com que aquele/a que aprende é capacitado para continuar a estudar, aprendendo na escola da vida, muito mais importante do que a escola dos livros e das matérias curriculares.

Ensinar é, sobretudo, educar as faculdades da pessoa humana: inteligência, vontade/emotividade, afetividade... numa crescente capacitação para a maturidade e não de mera reprodução de conceitos, de teorias nem de esquemas... mais ou menos apreendidos ou colados à pressa.

Atendendo às progressivas técnicas de ensino/aprendizagem é cada vez mais urgente que cada estudante apreenda o seu método de estudo, sem tentar reproduzir o ‘já feito’ por outros mas não assimilado por ele. Com efeito, temos cada vez mais truques para fazer boa figura, mas a quantidade de informações nem sempre é digerida por quem as usa ou ardilosamente delas se serve... numa espécie de cultura do ‘copy-paste’.

- Neste campo de atividade como noutros precisamos mais de mestres, por onde passa traduzida a mensagem pelo testemunho do que de professores mais ou menos categorizados, mas que se esquecem de serem educadores dos seus ‘discípulos’ e não de meros alunos.

- Precisamos de professores vocacionados para a educação e não de certos formadores em matérias sem alma.

- Ensinar é educar com amor e esperança.

Nota – Para quem considera a empresa ‘parque escolar’ uma festa como se poderá explicar a inflação (para o dobro ou o triplo) de preços aquando das obras em certas escolas? Foi incompetência ou corrupção? O tempo se encarregará de esclarecer...

António Sílvio Couto

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Missiva a um (possível) discípulo de Tomé (*)

Certamente tens muitas e até variadas razões para quereres ‘ver para crer’... como São Tomé.
Talvez sejas desconfiado ou mesmo cético, tanto na forma como mesmo no conteúdo, das coisas da fé e, sobretudo, na sua expressão religiosa pela vida prática do dia a dia.
Possivelmente terás sido instruído na escola dum tal racionalismo anti-cristão... dessas que fazem moda, no nosso tempo e, particularmente, no contexto português, nas franjas de opções ideológicas jacobinas.
Poderás ainda ter sido ‘catequizado’ por uma certa comunicação social, que vê com desdém quem acredita (ou possa dar indícios de acreditar) na Vida e nos sinais da fé... em Cristo, sobretudo quando esses sinais revestem a forma católica.
Talvez podes (até) andar pelos espaços da Igreja, embora os teus sentimentos possam estar induzidos à contestação das propostas de moralidade cristã... especialmente no âmbito sexual e familiar.
Podes ser daqueles/as que votam numa certa esquerda – mais sociológica do que doutrinária – embora solicitando favores àqueles aos quais contestam em questões de compromisso pelos outros... em matérias sociais e de solidariedade.
Por todo o respeito que me mereces, como quem quer ‘ver para crer’, aceita que te faça, por isso, breves desafios... muito práticos e/ou provocatórios:
- Não fujas da celebração dos mistérios de Deus em Igreja... usufruindo uns dias de ‘férias’ por ocasião das festas pascais;
- Tenta dar a tua parte na solução e esperar que outros te ajudem a crescer também na resolução dos problemas;
- Por muito instruído que sejas ou possas ser nas coisas do mundo e do saber científico, deixa que o dom da fé tenha espaço e oportunidade em ti e ao teu redor, tentando (mesmo assim) aprender com humildade e em verdade;
- Abre o coração à misericórdia divina e à compaixão humana, pois muita coisa poderá mudar... a curto prazo;
- Tenta exorcizar de ti mesmo e à tua volta tantos sinais de pessimismo, essas interjeições de derrota, e umas tantas classificações de angústia... alimentando, pelo contrário, a salutar esperança, os incentivos à confiança e o ânimo pela vitória da paz de Deus no teu espírito, já.

Que, pelo exercício de fé de São Tomé, sejamos capazes de fazer o nosso caminho de fé pessoal, convertida e assumida neste tempo de cristandade profana.

(*)
«Na tarde daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas da casa onde os discípulos se encontravam, com medo dos judeus, veio Jesus, colocou-Se no meio deles e disse-lhes:  A paz esteja convosco. Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor. Jesus disse-lhes de novo: A paz esteja convosco. Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós. Dito isto soprou sobre eles e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo: àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes serão retidos.
Tomé, um dos Doze, chamado Dídimo, não estava com eles quando veio Jesus. Disseram-lhe os outros discípulos: Vimos o Senhor.  Mas ele respondeu-lhes: Se não vir nas suas mãos o sinal dos cravos, se não meter o dedo no lugar dos cravos e a mão no seu lado. não acreditarei. Oito dias depois, estavam os discípulos outra vez em casa e Tomé com eles. Veio Jesus, estando as portas fechadas, apresentou-Se no meio deles e disse: A paz esteja convosco. Depois disse a Tomé: Põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos; aproxima a tua mão e mete-a no meu lado; e não sejas incrédulo, mas crente. Tomé respondeu-Lhe: Meu Senhor e meu Deus! Disse-lhe Jesus: Porque Me viste acreditaste: felizes os que acreditam sem terem visto»(Jo 20,19-28).

António Sílvio Couto