Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



quinta-feira, 12 de abril de 2012

Quatro agressões, em média, por dia nas escolas

No ano letivo de 2010/2011 houve 1121 agressões nas escolas portuguesas. Atendendo ao tempo de férias (intercalares e finais) e aos fins-de-semana em que não há atividades letivas, teremos um total de cerca de duzentos e setenta dias de aulas, ter-se-ão verificado, em média, diariamente, quatro agressões nas nossas escolas.
Segundo o ‘Observatório de segurança em meio escolar’, naquele número geral de agressões, são de salientar quase centena e meia de casos sobre professores... no ensino básico e secundário.

Se atendermos ainda aos dados do ano letivo anterior, com mais de três mil e trezentos casos, houve uma diminuição de ocorrências de agressão, cuja tipificação envolve ataques à integridade física, à honra e ao bom nome, bem como atos de vandalismo... 

= Escola retrata ou denuncia a família?

Quem tenha um mínimo de contato com as escolas pode verificar que o ambiente nem sempre é tão saudável como seria desejável. Mesmo sem com isso pretendermos diagnosticar algo de complexo, poderemos considerar que as escolas são como que a ponta do icebergue da sociedade onde os estudantes estão inseridos. Com efeito, às escolas chegam e dos locais de ensino irradiam muitas das preocupações sociais e económicas, éticas e morais, financeiras e profissionais... das famílias e das sociedades, dos grupos e das populações, tanto urbanas como rurais, atingindo os mais instruídos e os menos atentos às coisas do saber.

De fato, poderemos conhecer as famílias de onde procedem os alunos – no sentido etimológico do termo: ‘sem luz’ – se observarmos estes (pretensos) estudantes, tanto na fase de ensino pré-primário, como na etapa do ensino básico, passando pela do secundário e projetando-se no âmbito universitário. E nem sequer a democratização do ensino – tentativa criada mas não ainda conseguida com a revolução de Abril – obnubilou as realidades mais profundas... com muita dificuldade se atenuou e, quase nunca se escondem, as várias fraturas e as instâncias mais variadas dos (nossos) alunos e mesmo professores.

Só com uma correta articulação entre escola e família e vice-versa se poderá criar uma salutar harmonia de intervenientes em todo o processo educativo, assumindo cada qual a sua função sem desculpas nem acusações, tornando-se como que as duas mãos de uma mesma linguagem em favor do futuro de todos, tanto dos diretamente interessados como da sociedade em geral.

Despretensiosamente, ousamos perguntar:

- Como pode e deve a família fazer do processo de ensino um compromisso na dinâmica educativa?

- Como deve e pode a escola fazer participar a família no processo pedagógico sem desculpas nem acusações... mesmo quando acontece um certo insucesso escolar?

- Quando se unirão as duas instituições (família e escola) para serem criadas as condições mínimas e suficientes em ordem a que o ensino seja educação e o processo educativo possa ser corresponsabilidade na ação?

= Ensinar ou educar?

Aprender e ensinar são tarefas que teem de estar muito bem conjugadas, pois quem ensina aprende e quem aprende terá muito a ensinar... mesmo que de forma tácita. O valor do ensino mede-se não pelos conteúdos aprendidos, mas pelas ‘armas’ com que aquele/a que aprende é capacitado para continuar a estudar, aprendendo na escola da vida, muito mais importante do que a escola dos livros e das matérias curriculares.

Ensinar é, sobretudo, educar as faculdades da pessoa humana: inteligência, vontade/emotividade, afetividade... numa crescente capacitação para a maturidade e não de mera reprodução de conceitos, de teorias nem de esquemas... mais ou menos apreendidos ou colados à pressa.

Atendendo às progressivas técnicas de ensino/aprendizagem é cada vez mais urgente que cada estudante apreenda o seu método de estudo, sem tentar reproduzir o ‘já feito’ por outros mas não assimilado por ele. Com efeito, temos cada vez mais truques para fazer boa figura, mas a quantidade de informações nem sempre é digerida por quem as usa ou ardilosamente delas se serve... numa espécie de cultura do ‘copy-paste’.

- Neste campo de atividade como noutros precisamos mais de mestres, por onde passa traduzida a mensagem pelo testemunho do que de professores mais ou menos categorizados, mas que se esquecem de serem educadores dos seus ‘discípulos’ e não de meros alunos.

- Precisamos de professores vocacionados para a educação e não de certos formadores em matérias sem alma.

- Ensinar é educar com amor e esperança.

Nota – Para quem considera a empresa ‘parque escolar’ uma festa como se poderá explicar a inflação (para o dobro ou o triplo) de preços aquando das obras em certas escolas? Foi incompetência ou corrupção? O tempo se encarregará de esclarecer...

António Sílvio Couto

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Missiva a um (possível) discípulo de Tomé (*)

Certamente tens muitas e até variadas razões para quereres ‘ver para crer’... como São Tomé.
Talvez sejas desconfiado ou mesmo cético, tanto na forma como mesmo no conteúdo, das coisas da fé e, sobretudo, na sua expressão religiosa pela vida prática do dia a dia.
Possivelmente terás sido instruído na escola dum tal racionalismo anti-cristão... dessas que fazem moda, no nosso tempo e, particularmente, no contexto português, nas franjas de opções ideológicas jacobinas.
Poderás ainda ter sido ‘catequizado’ por uma certa comunicação social, que vê com desdém quem acredita (ou possa dar indícios de acreditar) na Vida e nos sinais da fé... em Cristo, sobretudo quando esses sinais revestem a forma católica.
Talvez podes (até) andar pelos espaços da Igreja, embora os teus sentimentos possam estar induzidos à contestação das propostas de moralidade cristã... especialmente no âmbito sexual e familiar.
Podes ser daqueles/as que votam numa certa esquerda – mais sociológica do que doutrinária – embora solicitando favores àqueles aos quais contestam em questões de compromisso pelos outros... em matérias sociais e de solidariedade.
Por todo o respeito que me mereces, como quem quer ‘ver para crer’, aceita que te faça, por isso, breves desafios... muito práticos e/ou provocatórios:
- Não fujas da celebração dos mistérios de Deus em Igreja... usufruindo uns dias de ‘férias’ por ocasião das festas pascais;
- Tenta dar a tua parte na solução e esperar que outros te ajudem a crescer também na resolução dos problemas;
- Por muito instruído que sejas ou possas ser nas coisas do mundo e do saber científico, deixa que o dom da fé tenha espaço e oportunidade em ti e ao teu redor, tentando (mesmo assim) aprender com humildade e em verdade;
- Abre o coração à misericórdia divina e à compaixão humana, pois muita coisa poderá mudar... a curto prazo;
- Tenta exorcizar de ti mesmo e à tua volta tantos sinais de pessimismo, essas interjeições de derrota, e umas tantas classificações de angústia... alimentando, pelo contrário, a salutar esperança, os incentivos à confiança e o ânimo pela vitória da paz de Deus no teu espírito, já.

Que, pelo exercício de fé de São Tomé, sejamos capazes de fazer o nosso caminho de fé pessoal, convertida e assumida neste tempo de cristandade profana.

(*)
«Na tarde daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas da casa onde os discípulos se encontravam, com medo dos judeus, veio Jesus, colocou-Se no meio deles e disse-lhes:  A paz esteja convosco. Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor. Jesus disse-lhes de novo: A paz esteja convosco. Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós. Dito isto soprou sobre eles e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo: àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes serão retidos.
Tomé, um dos Doze, chamado Dídimo, não estava com eles quando veio Jesus. Disseram-lhe os outros discípulos: Vimos o Senhor.  Mas ele respondeu-lhes: Se não vir nas suas mãos o sinal dos cravos, se não meter o dedo no lugar dos cravos e a mão no seu lado. não acreditarei. Oito dias depois, estavam os discípulos outra vez em casa e Tomé com eles. Veio Jesus, estando as portas fechadas, apresentou-Se no meio deles e disse: A paz esteja convosco. Depois disse a Tomé: Põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos; aproxima a tua mão e mete-a no meu lado; e não sejas incrédulo, mas crente. Tomé respondeu-Lhe: Meu Senhor e meu Deus! Disse-lhe Jesus: Porque Me viste acreditaste: felizes os que acreditam sem terem visto»(Jo 20,19-28).

António Sílvio Couto

terça-feira, 27 de março de 2012

Nova carta-aberta a quem da Igreja católica se afastou

Com a proximidade da celebração anual da Páscoa, sejas tu quem fores, gostaria de te apresentar certas razões para que possas voltar ao seio da Igreja tua Mãe, sem reprimendas nem lições, mas com espírito de caridade, de humildade e em confiança... tocando algumas facetas (habituais) de acusação.

- Não vou com a cara do padre!
De muitas e variadas formas escutamos esta frase. Umas vezes reportando-se a situações (mais ou menos) pessoais, noutros casos como mero boato, pelo que outros/as dizem... de alguém.
Desde logo quero dizer-te, a ti que podes ter razão de queixa de algum padre, que podes ter razão, embora não tenhas, por certo, a razão absoluta... sobre todo e qualquer padre.
Seja qual for a atividade profissional que tenhas não se poderá concluir do teu desempenho (mais ou menos correto) que todos os que têm idêntica profissão são bons, menos bons, péssimos ou maus a partir da tua cara e/ do teu profissionalismo.
Também os padres – como homens pecadores santificados – sofrem de idêntica apreciação. Por isso, julgar todos os padres por causa de um padre que te possa ter desedificado ou até escandalizado, talvez seja precipitado ou mesmo injusto.
Temos de enquadrar a vocação ao sacerdócio ministerial como uma chamamento de Deus, que se irá aprofundando na vida daqueles que Ele chamou, amadurecendo com a idade e acrisolando-se com uma espiritualidade humilde, sincera e fraterna... em Igreja.
Quero, por isso, pedir-te: tenta perdoar, desculpa e compreender esse(s) padre(s) com cuja cara não vais nem te cativa... Reza por ele e ele rezará, certamente, por ti, entregando-te a Deus em cada missa que celebrará!

- Confesso-me a Deus e não aos padres!
Estoutra frase é recorrente, sobretudo, nesta época de absoluto relativo, onde cada um se considera intocável e, por isso, não-pecador, sem precisar de arrependimento nem de perdão, tanto divino como humano.
A ti, que podes ter uma experiência não muito boa da confissão sacramental, quero deixar-te uma certeza: se te é difícil submeter os teus pecados à misericórdia de Deus, pela entrega deles na acusação a um padre, podes ter a certeza que não é menos desagradável, em experiência de fé, escutar os outros, nas suas falhas e debilidades. É uma questão de confiança e de humildade... em Deus e em nós mesmos.
Certamente acreditarás – se nisso não creres dificilmente compreenderás este ‘poder dado aos homens’ de perdoar ! – que é a Deus que te confessas, mesmo que tenhas de te aproximar de um padre... pecador como tu, antes de ser ministro do sacramento do perdão de Deus na Igreja católica.
Se hoje é tão preciso ter com quem partilhar as nossas mágoas e feridas, Deus deixou-nos esta graça em Igreja. Se os gabinetes de psicólogos e de psiquiatras proliferam, em muitos dos casos foi porque se fecharam os confessionários. Naqueles temos de pagar, nestes tudo é gratuito e pura graça divina.
Mesmo que estejas ressentido com alguma coisa que possa não ter corrido tão bem como desejavas, em tempos passados, tenta deixar que a misericórdia de Deus te recupere para a graça d’Ele em Igreja, abeirando-te do sacramento da penitência e reconciliação... e a paz de Deus tomará o teu coração!

- Com certas exigências a Igreja está a perder fiéis!
Por vezes, diante de casos um tanto ‘normais’ – como situações de divorciados recasados, uma parte divorciada sem culpa, pessoas desenquadradas da prática habitual da fé – é comum ouvirmos: tenho direito a ser feliz e a Igreja não me compreende, não tive culpa em gostar de alguém que já foi casado, não me revejo na minha paróquia onde moro...
A ti que vives e já ouvistes estas e outras observações quero dizer-te: antes da felicidade (meramente pessoal) é preciso viver a fidelidade a Deus e uns para com os outros. De fato, a Igreja, tua e minha mãe, não exclui ninguém do seu regaço compassivo, mas temos de compreender que, tal como dizia São Paulo, tudo me é lícito, mas nem tudo me é permitido.
Certamente poderás reconhecer que não é possível viver sem o mínimo de regras e de leis na nossa vida do dia a dia. Assim, no trato da Igreja católica, teremos de entrar no espírito da lei e de não querermos fazer uma excepção para a nossa condição particular.
É com dor que vemos tais situações, mas temos de acreditar que é pela escuta e pel tentativa de nos conformarmos com a Palavra de Deus que poderemos viver a dinâmica da fé, mesmo que ela possa ter de passar pela purificação.

Seremos, verdadeiramente, fiéis quando sentirmos a Igreja como mãe na comunhão com um Deus que é Pai e nos faz irmãos em Cristo pela sintonia no Espírito Santo.
Para todos uma boa Páscoa de Ressurreição com Jesus!

António Sílvio Couto

segunda-feira, 19 de março de 2012

Só 20% das famílias faz poupança

Quase noventa por cento da poupança das famílias portuguesas é feita por apenas vinte por cento dos agregados familiares. Esta conclusão é resultado de um estudo da Associação portuguesa de seguradores que chegou ainda à conclusão de que trinta por cento das famílias lusas apresentam uma poupança negativa, isto é, gastam mais do que aquilo que ganham.
Ainda, segundo o estudo citado, há três contributos que o Estado português deveria apresentar para ajudar a fomentar a poupança e, assim, revitalizar a economia nacional:
- o Estado  deverá ele próprio poupar;
- todas as medidas de política económica devem ter em consideração o seu impacto sobre a poupança;
- a defesa da estabilidade e previsibilidade das políticas de promoção de poupança.

= Assumir-nos como povo... sem rumo
Depois de quase duas décadas (anos 80 e 90) de destempero nas coisas das finanças – pessoais, familiares, autárquicas, sociais, do Estado, dos governos e outras – eis chegado o momento de sermos mais autênticos e comedidos, seja nas aspirações, seja nos gastos e até nos projetos... atuais e futuros.
Somos, de fato, um povo de extremos: ora vivemos na penúria e na resignação, ora na ostentação e no esbanjamento. Parece que nos deixamos seduzir pela euforia, caindo, ao mais pequeno contra-tempo, na depressão (pessoal e coletiva)... confrangedora.
De alguma forma até parece que gostamos de quem nos iluda e (quase) abjuramos quem nos diga a verdade... mesmo que ela seja evidente. Veja-se a apreciação que se vai fazendo dos mais recentes governos da Nação: quem nos enganou até parece que já está perdoado por nos ter afundado na mais grave crise económica e social nos últimos quarenta anos! No entanto, quem nos chama à realidade parece tornar-se inimigo público – pelo menos para uns tantos perdedores no último ato eleitoral – surgindo certos paladinos da desgraça como mentores da revolução... usando ou instrumentalizando, inclusivé, armas e forças armadas. Quem representa esse tal ‘herói’ que tais impropérios patrocina? Será que alguém ainda o leva a sério nas suas diatribes revolucionárias? Se não é considerado doente – se for declarado sem responsabilidade no que diz, poderá ser inimputável – não deverá ser criminalizado pelos vitupérios que ostenta?
Efetivamente, temos de aprender a viver com o que temos, honrando as nossas dívidas e pagando a quem nos ajuda. Basta de caloteiros ingratos, altivos e anónimos!

= Educar (urgentemente) para a poupança
Reportando-nos ao estudo citado cremos que é chegada a hora de assumirmos uma nova atitude de vida: para além da austeridade imposta pelas circunstâncias, temos de optar por uma poupança assumida, consciente e ousada. Explicando:
- Poupança assumida – ninguém no-la impõe, somos nós que a aceitamos porque sabemos, conhecemos e vivemos segundo as nossas posses e não sob a imposição do consumismo explorador da nossa identidade pessoal e coletiva.
 - Poupança consciente – antes de nos metermos em qualquer empreendimento fazemos bem as contas e não nos fiámos na benesses – muitas delas enganosas e encapotadas em publicidade falseadora – de quem nos empresta dinheiro para vivermos acima das nossas possibilidades.
- Poupança ousada – calculando os riscos não ficamos a invetivar quem possa ter melhores meios de vida do que nós, mas tentamos fazer algo de mais válido e até valioso, deixando – com se diz no espírito escutista – este mundo um pouco melhor do que o encontramos.
Terminamos com uma breve anedota (adaptada), que lemos há dias: À porta da empresa estamos dois operários. Um era alemão e o outro era português. O alemão, vendo passar o patrão num grande bmw, diz: ‘ainda hei-de ter um daqueles’. O português ripostou, vendo passar o seu patrão num mercedes: ‘anda sacana, que ainda hás-de andar a pé como eu’!
Numa palavra: é uma questão de mentalidade... e de cultura!


António Sílvio Couto
(asilviocouto@gmail.com)

terça-feira, 13 de março de 2012

Carta-aberta a quem se afastou da Igreja... católica

A quem quer tu que sejas, aceita que, nesta proximidade à celebração anual da Páscoa, te possa apresentar algumas das razões para que possas voltar ao seio da Igreja tua Mãe (e não mera madrasta), sem lições nem reprimendas... mas com esperança e espírito de caridade.

- Cristo sim, Igreja não!
Muitas vezes e de variadas formas escutamos esta frase: nalguns casos de formas clara, noutros de modo implícito... por muitas pessoas que, não tendo prática religiosa habitual – serão talvez ‘católicos intermitentes’ – terão, no entanto, algum conhecimento e/ou vivência mais ou menos cristã... de circunstância.
A estes gostaríamos de desafiar a saírem dos seus preconceitos – mais ou menos fundados ou (in)conscientes – para fazerem parte do caminho de fé com os outros... que hão-de descobrir como irmãos/irmãs em Cristo.

- Não me interessa misturar-me com essa gente!
Numa espécie de desdém há quem considere, por vezes, que os que andam pela igreja não são melhores do que os nem lá vão. Para isso apontam certos defeitos – nalguns casos com razão, noutras situações como desculpa – aos (ditos) praticantes, numa espécie cruzada de exigência de (quase) santidade.
Por muitas e sinceras razões que possais ter, talvez vos seja melhor sair desse conforto crítico e misturar-vos com os demais, apreciando também as qualidades, os dons e os carismas... deles e delas, pois ninguém tem tanto de bom que não possa aprender nada nem terá tanto de mau que não possa partilhar alguma coisa. Afinal, somos uma santa Igreja de pecadores!

- Eu cá tenho a minha fé!
Outra frase bastante habitual é esta que reduz a fé a uma expressão individual, talvez egoísta e, por vezes, meramente intimista. Numa tentativa de compreendermos quem assim se exprime, parece-nos que lhe faltará um mínimo de dimensão comunitária e/ou social... Ora, se tivermos em conta, que o ser cristão tem por essência a vivência comunitária da fé em Jesus Cristo, assumida de forma pessoal e com implicações com os outros membros da Igreja, seja qual o âmbito da sua expressão: de grupo, em paróquia, como diocese e em dimensão universal (católica), diremos que uma tal fé individual está condenada ao fracasso.
A quem possa viver como se a sua fé fosse individual deixamos um pequeno exemplo: que diríamos de alguém, que diz gostar, por exemplo, de futebol, mas só vai ver o jogo – se ele pudesse existir! – sózinho, sem ninguém no estádio... e, assim, alimentaria a sua mística e do seu clube! Talvez se possa considerar um tanto ridículo um comportamento deste jeito. E na fé não será idêntica a classificação?
Por isso, se tens a tua fé não a podes viver nem alimentar sozinho e, muito menos, sem os outros ou à sua rebelia! Tenta ultrapassar as feridas que te fizeram e vem ajudar a construir a Igreja... sinceramente!

- São todos iguais, andam todos ao mesmo!
Numa avaliação (ou talvez seja juízo!) dos outros há quem considere que, os que andam na e pela igreja, querem é protagonismo e isso será como que uma forma de aparecer e de achar-se importante... sobretudo na terras mais pequenas, seja em dimensão física e de território, seja até na mentalidade.
É possível – muito mais do que seria desejável – que se possam verificar tais pretensões, entre os participantes nas coisas da Igreja. Isso pode ser resultado da falta de um processo evangelizador coerente e consequente, mas, se tal existir, todos se sentirão irmãos e, por isso, servidores dos outros e não em busca dos seus interesses.
A ti, que sentes tais melindres e tens uma leitura exigente para com os outros, deixo-te um convite: vem participar com os teus dons e qualidades, ajudando a purificar as intenções dos outros e também as tuas pelo compromisso com a Verdade. Tenta colocar o dom da exigência ao serviço da caridade e todos poderemos viver mais em conformidade com o Evangelho de Jesus, que espero que conheças, leias e medites... neste caminho para a Páscoa... cristã e não meramente sociológica.
Sem lições quisemos deixar breves sugestões para quantos/as que possam ter deixado – por estas ou outras ‘razões’ – de participar na Igreja – comunidade e templo – na expetativa de que, nesta Páscoa, possamos celebrar Jesus Ressuscitado em maior comunhão e paz.
Notas
- Neste texto referimos situações reais com pessoas fitícias e pessoas reais em casos fitícios;
- Na proximidade à celebração da Páscoa voltaremos a abordar outras perspetivas – acusatórias e não só! – de quem se possa ter afastado da Igreja...

António Sílvio Couto

terça-feira, 6 de março de 2012

Longevidade: condições e consequências

Iniciamos a escrever este texto no dia em que D. Eurico Nogueira – arcebispo emérito de Braga – completa oitenta e nove anos de vida. Nesta ocasião vem-nos à memória outras grandes figuras da (nossa) vida pública que também atingiram uma razoável longevidade...
Mesmo que de forma breve como que podemos interrogar-nos sobre o crescente melhoramento da qualidade de vida, sobretudo, se tivermos em conta os longos anos de existência... e a notória velhice – com equilíbrio mental e emocional, com alguma autonomia e sentido de gratidão – de muitos dos intervenientes.
Quais os fatores para a longevidade de alguns e a precoce partida de outros... mesmo da própria família? O que é que marca a diferença entre uns e outros, ontem como hoje? Haverá condições endógenas e exógenas para esta distinção? Como tratar condignamente quem viveu agruras na vida e vingou na idade? Como serão os filhos e netos de amanhã, quando agora veem os pais a abandonarem – física, psicológica e até espiritualmente – os seus progenitores? Poderemos esperar idêntica longevidade com tantas preocupações sobre o presente e, sobretudo, o futuro?
= Diagnóstico... angustiado
Esteve, recentemente, em Portugal, um professor catedrático inglês da área da saúde pública, que, dirigindo-se a profissionais da saúde, teceu algumas considerações sobre a diferença de longevidade entre certos países, dentro do próprio país e até na mesma cidade, apontando algumas das causas e perspetivando umas tantas razões. Citamos:
-  A esperança média de vida de uma mulher no Zimbabwe é de 42 anos e a de uma japonesa é de 80 anos, uma diferença de 42 anos;  um queniano morre em média aos 47 anos e um sueco pode chegar aos 82;
- Na cidade de Londres a diferença entre o mais rico e o mais pobre dos habitantes é de 17 anos;
- O aumento em 1% da taxa de desemprego faz subir em 0,8% a taxa de suicídios e 0,8% a de homicídios... 
- O desemprego leva ao suicídio e a matar outras pessoas;
- As mortes por acidentes de viação descem 1,4%, circula-se menos porque há menos dinheiro para a gasolina;
- As maiores taxas de fumadores encontram-se entre os mais pobres e esta é uma causa objectiva que está na origem de maior doença, o cancro do pulmão.
Este mesmo especialista sugere caminhos ou áreas principais que podem e devem ser objecto de acção política tendentes a esbater estas diferenças: o desenvolvimento infantil, a educação e formação ao longo da vida, as condições de emprego, o rendimento, a existência de locais saudáveis e sustentáveis na comunidade e o combate a factores como o tabagismo, o consumo de álcool, a obesidade...

= Situação dos mais velhos... ao nível nacional
Entretanto, segundo dados da Guarda nacional republicana, há vinte e um mil velhos a viver sozinhos ou isolados, em Portugal. Estes dados foram recolhidos pela ‘operação censos senior’, que decorreu, no âmbito daquela guarda até final do mês de Fevereiro terminado.
Do ano passado para este ano aumentaram os casos de velhos isolados ou sozinhos em mais de sete mil situações. Os distritos onde se verificaram mais casos foram: Bragança (2.442), Santarém (2.131), Évora (2.037), Guarda (1.912), Castelo Branco (1.810) e Viseu (1.897)... portanto, localidades do interior e em acentuada desertificação humana.
Embora possamos estar diante de muitas pessoas com grande longevidade, vemo-las confrontadas com um razoável abandono familiar, social, político e (talvez) religioso. Cresce, deste modo, a necessidade em refletir sobre o futuro que estamos a dar aos nossos mais velhos... que amanhã seremos, razoavelmente, nós.

= Prognóstico... reservado
Se o diagnóstico era angustiado, o prognóstico é muito reservado da saúde psicológica deste país e, talvez seja sem nos darmos conta, apresenta-se com um futuro muito sombrio... na contagem dos dias que passam.
- Nem as tentativas de serem criadas condições para que os velhos vivam em lares – nalguns casos serão quase um eufemismo para o conceito dos asilos de outrora! – confortáveis e com as condições mínimas de sobrevivência... podem aligeirar as famílias a sua responsabilidade para com os seus ascendentes nem eximi-las das regras mais básicas da gratidão.
- Num tempo em que a longevidade – pelos mais elementares cuidados para com os ‘nossos’ velhos – vai ganhando foro de cidadania e por consequência de novas regras de vida, urge acompanhar esta nova etapa da evolução da sociedade com critérios onde a pessoa toda seja tida em conta e não só a dimensão físico-biológica, mas também as vertentes de índole psicológico, moral e espiritual.
- Torna-se fundamental dar aos mais velhos – pois também nós, se Deus quiser, para lá iremos – uma envolvência divina com gestos, palavras e sinais, que traduzam Deus presente, aconchegando-os e acolhendo-os não na mortalha fúnebre, mas na ternura do Pai por Jesus Jesus Cristo no Espírito Santo.    

António Sílvio Couto

sábado, 3 de março de 2012

Nas tuas mãos, Senhor, coloco as minhas...

Nas Tuas mãos, Senhor, coloco as minhas,
Junto de Ti repousa o meu ser.
À tua vida entrego a minha vida.
À Tua vontade eu uno o meu querer...
Nas Tuas mãos, Jesus, coloco as minhas,
Venho para Te contemplar
Preciso de Te conhecer, em silêncio, Te amar!
É ao ritmo deste cântico que iniciamos esta nossa partilha/reflexão em época de caminhada de Quaresma. Numa tentativa de interpretarmos a linguagem das mãos e o modo como ela se exprime, sobretudo, na paixão de Cristo pela via-sacra.

De fato, nós falamos com mãos e as mãos falam daquilo que nós somos, isto é, a nossa forma de expressão oral é complementada com a expressão gestual. Mesmo de forma sucinta vamos tentar resumir algumas das formas de linguagem gestual e a sua possível interpretação antropológico/teológica.
«A mão simboliza uma acção ou uma obra e encerra a magia do coração; por isso transmite os seus sentimentos. As mãos amam, falam (por gestos) e acariciam, tocam e deixam-se tocar; as mãos tranquilizam e agridem, desejam e repelem; comunicam amor e agressão, serviço e domínio sobre o outro. Por isso a nossa língua [o português] é rica em expressões acerca da mão.
No que se refere a Deus, a mão direita simboliza a protecção, o poder criador e providente, que liberta o seu povoe o acompanha pelo deserto, castigando os inimigos com a mão esquerda para o proteger. As mãos impostas sobre alguém transmitem poder ou o Espírito Santo. As mãos levantadas são símbolo de um coração suplicante que sobe até Deus. No mundo, Jesus tornou-se a mão de Deus Pai estendida a todos os pequeninos e pecadores. Com a sua mão Ele acaricia as crianças, consola os tristes, acolhe e cura os doentes, perdoa os pecadores… Apesar disso, as suas mãos foram violentamente pregadas numa cruz, como se fossem de um ladrão e assassino» (1).
É diante desta riqueza de linguagem das mãos, que nós nos queremos enfrentar, tentando caracterizar essa vivência, sobretudo, no contexto da Via-sacra... deste ano de 2012, intitulada: ‘Via sacra nas mãos de Deus pelas mãos dos homens’ e que foi publicada pela Paulinas Editora.

= Linguagem das mãos... em contexto bíblico
Eis uma breve tipificação da linguagem das mãos, partindo de expressões da Bíblia:
- Apertar a mão é fazer um acordo;
- Dar a mão à palmatória é reconhecer a culpa;
- De mão beijada significa receber de graça;
- Deitar a mão é apoderar-se;
- Estar em boas mãos significa estar na posse de pessoa capaz;
- Estender a mão é símbolo de ameaça;
- Levantar a mão (sobretudo a direita) significa jurar;
- Mãos abertas revelam generosidade;
- Mão forte manifesta assistência a alguém;
- Mão-de-obra significa trabalho;
- Mãos limpas manifesta ser honrado;
- Cair nas mãos de… é ficar em seu poder;
- Lavar as mãos diante de alguém é símbolo de inocência;
- Pela mão significa através ou por meio de alguém.

= Simbologia das mãos na Via-sacra
De entre os vários intervenientes na caminhada da Via-sacra – segundo a sugestão do Papa João Paulo II –  deixamos um pequeno esboço da linguagem das mãos... numa tentativa, sempre necessária e útil, de actualização:
1. Jesus em agonia no Jardim das Oliveiras - uma mão aberta em súplica
2. Jesus, traído por Judas, é preso - mãos presas
3. Jesus é condenado pelo sinédrio - mãos caídas... em juízo
4. Jesus é renegado, três vezes, por Pedro - mãos (punhos) fechados
5. Jesus é julgado por Pilatos - dedo de uma mão... acusando
6. Jesus é flagelado e coroado de espinhos - duas mãos com coroa de espinhos
7. Jesus é carregado com a cruz - mãos em gestos agressivos
8. Jesus é ajudado pelo Cireneu a levar a cruz - mãos a levantar... alguém
9. Jesus encontra as mulheres de Jerusalém - mãos estendidas... a ajudar
10. Jesus é crucificado - mãos abertas... em aceitação
11. Jesus promete o seu reino ao «ladrão arrependido» - mãos apontando a saída
12. Jesus na cruz: a mãe e o discípulo - mãos de duas pessoas... em ajuda
13. Jesus morre na cruz - mãos desfalecidas... em derrota
14. Jesus é colocado no sepulcro - mãos entrelaçadas... de medo e morte
Final – mãos levantadas... em louvor...rumo à Ressurreição!
Porque cada um de nós faz parte deste percurso de via-sacra, cremos que é preciso participar neste diálogo entre Jesus e cada um de nós e uns com os outros…

1. Cfr. Herculano Alves, Símbolos na Bíblia, Lisboa, Difusora Bíblica, 2001, p. 205.
 
António Sílvio Couto