Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Uma certa insegurança... social

No ano passado verificaram-se, nas cidades de Lisboa e do Porto, todos os dias, noventa assaltos a casas e a carros. No conjunto foram denunciados duzentos mil crimes nas duas cidades, tendo sido roubados vinte e dois mil veículos. Os furtos em casas (onze mil) e o roubo de carteiras (nove mil) continuam o role de irregularidades... só naquelas duas cidades cidades/metrópoles.
Vivemos, infelizmente, sob uma espécie de suspeita contínua, preparando-nos para podermos vir a ser as próximas vítimas. Esta atitude/sensação pode criar em nós e à nossa volta um ambiente menos saudável, gerando desconfiança e até pode colocar-nos à defesa para com os nossos interlocutores ou mesmo aqueles/as com quem nos cruzamos... na rua!
Vai crescendo, com efeito, uma certa cultura de medo, no trato entre as pessoas e naquilo que se refere às coisas e bens. Sem descurarmos as diferentes situações de vulnerabilidade em que nos encontramos, pois não sabemos com certeza diante de quem estamos, podendo ser um dos nossos atacantes ou até um possível disfarçado para tirar proveito da nossa condição de menos previnidos... Cada vez mais podemos estar à mercê de alguém que se pode pretender fazer-se ‘nosso próximo’, mas que poderá dar-nos algum golpe... físico, psicológico ou moral.

= Crise: mãe da criminalidade?
Temos vindo a ouvir que a vaga de assaltos a pessoas e bens se ‘deve’ à crise. Talvez seja devida, antes, à crise moral, muito mais do que à crise material... embora uma e outra estejam conexas e interdependentes. Temos vindo a assistir, por outro lado, ao crescimento de ações em favor dos mais desfavorecidos – sobretudo – na dimensão dos cuidados do bem-estar/mal-estar económico. Há quem pretenda vincular essas anomalias sociais numa visão redutiva e redutora do trabalho, em vez de inserir esses fatores de perturbação num âmbito mais alargado na área da economia. Esta é muito mais do que mero trabalho – numa visão marxista de ‘força de produção’ – pois abrange saber governar a casa – o significado etimológico da palavra ‘economia’ é esse mesmo de ‘governo da casa’! – e só depois pretender estar no governo de outras coisas...
Ora, se alguém não aprendeu a governar a sua casa, também não será capaz de saber gerir o fruto do seu trabalho – vulgarmente dito ‘salário’ – na medida em que poderá ser tentado a viver na psicologia do ‘chapa ganha, chapa gasta’...
É urgente aprendermos a gerir as nossas economias, pois, como diz o povo: ‘quem não tem dinheiro não tem vícios... nem alimenta modas’. É isto que está em causa, neste momento, tanto em Portugal como no resto da Europa. De pouco servirá que certos figurões – políticos, militares, professores, sindicalistas, etc. – venham dizer que lhes parece ofensivo dizer que ‘Portugal não é a Grécia’, pois, não será adiando o cumprimento das obrigações para com certas caloteirices, que seremos dignos na nossa vida e neste país endividado.

= Honrar compromissos... hoje e no futuro
Diante de certos fenómenos de facilitismo com que nos foram (des)governando, temos agora de reunir forças para sermos capazes de levantar o país da fase de prostração em que certos irresponsáveis nos colocaram.
- É preciso dizer a verdade e só a verdade,  não tentando assobiar para o lado e pensando que outros virão fazer por nós aquilo que nos compete.
- É preciso deixar de alimentar uns tantos preguiçosos com subsídios, sejam da segurança social ou de direitos adquiridos por regalias de injustiça... em setores, que têm levado o país à desgraça.
- É preciso educar para a esperança, sem enganos nem subtilezas de uma certa baixa moral ou de duvidosa formação...humana e inteletual, mesmo à sombra de rituais religiosos e sociais de auto-idolatria.
- É preciso darmos as mãos em vez de cerrarmos os punhos – como vemos em certas manifestações e linguagens de comícios cíclicos e organizados – pois, quando temos as mãos abertas, damos e recebemos e, de punhos fechados, poderemos cair na tentação da violência e da agressividade... assumida ou tácita.

Da insegurança social, livrai-nos, Senhor! Dos parasitas da sociedade, defendei-nos, Senhor! Da lavagem do crime, acudei-nos, Senhor!
António Sílvio Couto

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Reuniões menorizam os participantes?

Segundo um estudo feito numa escola superior americana, citado pelo jornal ‘Daily mail’, chegou-se à conclusão de que as reuniões de trabalho – assim denominadas, mas talvez nem sempre eficazes, de fato – têm um impacto negativo no coeficiente de inteligência (QI) dos trabalhadores. Com efeito, o (dito) trabalho em equipa faz com que as pessoas tenham piores resultados em testes de inteligência, dado que o cérebro está mais preocupado com a imagem, isto é, em fazer boa figura perante o grupo... do que em manifestar quem é realmente. Do mesmo estudo se pode ainda concluir que as reuniões tornam como que os cérebros inertes, manifestando, nalguns dos participantes nesta amostra de trabalho, dificuldade em revelarem as suas capacidades em contexto social.
É atribuída a um ex-governante português a frase: ‘se quiser resolver, eu decido; se quiser adiar nomeio uma comissão’!
Partindo da análise um tanto negativa do citado estudo, queremos, no entanto, tentar abordar aspetos que reportamos de importantes a partir da vivência da reunião... detetando o que há de positivo e denunciando aquilo que pode ser (mais) negativo.

= Reunir – uma graça de comunhão?
Se atendermos à composição da palavra ‘reunião’ podemos encontrar o prefixo ‘re’ e o termo ‘união’, podendo significar: voltar à união, criar laços... As razões para a reunião podem ser: debater questões, tomar decisões, trocar impressões, gerar consensos, celebrar algum acontecimento, seja humano, seja cultural ou mesmo religioso... As consequências da reunião podem ser: gerar novo espírito entre os participantes, fortalecer os laços da amizade e de comunhão, envolver todos nos projetos comuns...
Partindo cada qual da sua experiência – tendo em conta os vários tipos de reuniões – qual é a nossa avaliação das reuniões em que participamos? Será que aprendemos algo com as reuniões e nas reuniões? Haverá sinceridade nas reuniões? Saberemos conduzir e deixar-nos conduzir nas reuniões? Acreditamos que as reuniões são perda ou ganho de tempo no presente e para o futuro? Cristamente: acreditamos que as reuniões são momentos da revelação de Deus para nós e de uns para com os outros?
Estas e outras questões podem fazer do tempo de uma reunião como que um espaço de aprendizagem com utilidade para todos os participantes ou simplesmente uma escola de cinismo e mesmo de maledicência...

= Força da reunião: processo e etapas
Por que acreditamos que uma reunião – com os necessários efeitos psicológicos e espirituais – tem de ter critérios e modos de ser feita corretamente, apresentamos breves propostas para o desenrolar de uma reunião, como algo de divino em condição humana.
- Traçar objetivos precisos, concisos e exequíveis;
- Marcar hora de começo e de termo, podendo e/ou devendo haver um relógio bem visível para todos;
- Convocar as pessoas – as necessárias e suficientes – que podem fazer da reunião algo mais do que mero passatempo;
- Quem conduz a reunião deve explicar, com clareza, os objetivos a atingir;
- Acolher as opiniões de todos, sabendo distinguir entre quem propõe e é capaz de fazer (se tal lhe for proposto) e quem propõe para que outros façam... ficando-se pelas palavras;
- Registar a reunião para memória, através de acta ou de outro registo;
- Avaliar o processo desenvolvido e quais as consequências... após esse momento de reunião.
Certamente teremos sempre de distinguir o que é uma reunião e um tempo de convívio ou de simples confraternização, bem como um ato religioso, tanto celebrativo como sacramental... Com efeito, nada que envolve situações humanas pode ser desperdiçado... sem deixar marca em quem nele participa, ou será futilidade sem nexo nem interesse!
 
António Sílvio Couto

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

O Carnaval ‘possível’... deste ano

Habituados como estamos a ‘brincar’ ao (dito) Carnaval como que soou a brincadeira a não-tolerância de ponto – nunca foi declaradamente feriado, embora seja vivido como tal! – com que o governo português brindou os funcionários públicos e, por arrastamento, o setor privado.
Houve impropérios e reclamações, tanto de autarcas como de comerciantes, ofendidos e detratores, locais e nacionais... e, (repare-se!) poucos apoiantes – convictos, assumidos e esclarecidos – da iniciativa governamental.
Com efeito, ouvimos ou fomos captando, mesmo que em surdina, certas questões: então, o povo não pode divertir-se? Como se vai recuperar o investimento – autárquico e simbólico – já feito? Querem prejudicar o (já) debilitado setor turístico? Os direitos adquiridos não se sobrepõem à crise? Não será preciso um certo descanso, diante das (atuais) agruras da vida?

= Cultura, tradição ou alienação... de Carnaval
Reconheço que não fui educado – sobretudo na idade das influências mais inconscientes – na cultura do Carnaval. Vivi, no entanto, por razões exclusivamente de ordem pastoral, numa zona onde o Carnaval começa(va) em Novembro e termina(va) já depois da entrada na Quaresma. Com efeito, em Sesimbra, o rufar dos tambores começava pelos ‘Santos’ (celebração de Todos-os-Santos, a 1 de Novembro) e durava, pelo menos, três meses... com todas as condicionantes que implicavam tolerância, ritmo e até desculpas... nas coisas da Igreja, senão queríamos ter problemas!
Para quem não se identificava com essa ‘cultura’, algo estava em confronto. Para quem saía em contra-golpe, quando os foliões entravam, algo motivava. Para quem pouco lhe dizia essa época... Fui percebendo que nem tudo era tão malicioso, como parecia. Fui entendendo que havia muito trabalho, suor e arte nas preocupações de tanta gente... mais ou menos assumida e identificada com a festa popular.
Foi com alguma ousadia que, em 2003, até tivemos a transmissão em direto de uma missa, pela televisão, apresentando motivos do Carnaval. De fato, nem tudo correu como era expectável, isto é, com os intervenientes, as decorações e até as músicas mais cuidadas... No entanto, quisemos servir à difusão, ao vivo, dessa manifestação cultural numa pretensão em ir muito para além das barreiras da concha mental e psicológica... daquela povoação. Cremos – apesar de tudo! – ter aprendido muito com os ritmos daquele carnaval...Talvez nem sempre todos tenham aproveitado as oportunidades oferecidas.

= Que fazer por si sem esperar (só) dos outros?
É diante deste panorama que as decisões governamentais, que fazem do Carnaval um tempo de trabalho e não tanto uma ocasião de lazer, que ousamos sugerir algumas linhas de conduta... em tempo de contenção e inseridos na (dita) crise:
- Às autarquias, que promovem, patrocinam ou usufruem do Carnaval, criem condições sociais para continuarem a viver a vossa festa e não se refugiem na mera contestação... só porque não vos deram a boleia da tolerância de ponto. Porque têm muito a ganhar, criem o vosso espaço cultural e social. Por isso, decretem feriado encapotado de tolerância de ponto e tudo correrá bem... para o vosso lado.
- Às entidades promotoras do Carnaval não tentem ludibriar certos incautos com acusações de pouco rendimento, pois, muitas vezes, nem prestam contas dos lucros auferidos... sabe lá para que fins. Por isso, não tentem encontrar desculpa para a vossa administração... sem lucros.
- Aos participantes nos enredos carnavalescos – mais parece que serão enrosquedos! – que seria para a  vossa ‘imaginação’ senão fossem as fífias de certos políticos e/ou os erros dos adversários... Por isso, continuem na linha do escárnio e do maldizer tão portuguesa, corrigindo os costumes, alfinetando os adversários e tentando ‘moralizar’ alguns dos comportamentos... coletivos.
Tanto, quanto possível, vivamos o Carnaval a sério... e a Quaresma terá nova vivência na fé!

António Sílvio Couto

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

‘Famílias com esperança’ – projeto e desafio

Atendendo às circunstâncias dos nossos dias e, sobretudo, aos momentos de debilidade em que muitas das famílias se encontram, surgiu, em consonância com a auscultação daqueles problemas, um projeto de resposta, intitulado: ‘famílias com esperança’.
Tem este projeto um espaço concreto: a Moita (paróquia, concelho e, talvez, a sua envolvência sócio-cultural)... embora aberto e, tanto quanto exequivelmente, atento à realidade  expectante...
Embora possa não trazer grandes inovações, poderá, no entanto, colocar lembranças noutros grupos – sobretudo relacionados com as questões da família, tanto movimentos como iniciativas esporadicamente organizadas – em ordem a sabermos interpretar o mais ousadamente possível os sinais de cada tempo e a necessidades de cada lugar.

= Linhas do projeto
Partindo do diagnóstico feito às questões relacionadas com a família, o projeto ‘Famílias com esperança’ pretende apoiar famílias carenciadas com crianças até aos cinco anos, envolvendo ainda mães jovens e/ou adolescentes, através da oferta ou empréstimo de bens materiais para bebé e criança, bem como apoio jurídico, moral e espiritual.
Constituem ‘Famílias com esperança’ aquelas pessoas que sentiram a necessidade de dar resposta às carências de determinadas famílias com crianças e com problemas de solução mais adequada.
Bens que podem/devem ser entregues, doados ou emprestados: cama de bebé/criança, alcofa de bebé, banco de automóvel, calçado, roupa, carrinho de bebé/criança, material escolar, descartáveis, etc. Em geral, aqueles bens que ainda se encontram em bom estado e que sobram dos mais pequenos, que, entretanto, crescem...
A forma de participar neste projeto de ‘Famílias com esperança’ pode acontecer através da entrega e doação de bens, empréstimo, com donativos em dinheiro ou disponibilizando algum do seu tempo.

= Caridade inventiva e interventiva
Na linha dos ensinamentos do magistério da Igreja católica, este e outros projetos podem inserir-se na perspetiva da caridade inventiva, pois se os problemas são, cada vez mais, diversificados, também as respostas podem e devem ser melhoradas, tendo em conta os desafios de cada tempo, de cada terra e, mesmo, de cada sensibilização aos problemas próprios e alheios.
Temos – urgente, serena e habilmente – de criar novos espaços em que a linguagem da proximidade seja capaz de fazer milagres, pois, do coração atento, surgirão sempre novos sinais de caridade à maneira dos primeiros cristãos... tinham tudo em comum e não havia necessitados entre eles.
- Em cada rua temos de estar mais atentos uns aos outros, respeitando a vida de cada, mas interessando-nos muito para além do mero egoísmo bisbilhoteiro.
- Em cada prédio precisamos de viver mais em consonância – muito para além dos interesses do condomínio ou do controlo do barulho fora de horas – com as pequenas proximidades de vizinhança, dando e recebendo sem nada esperar em troca.
- Se tentarmos resolver os problemas à nossa porta, toda a aldeia, vila ou cidade poderá ser mais harmoniosa, pois do bem-estar de todos também nós colhemos os frutos e do sucesso alheio pode beneficiar cada um.

Não resistimos a citar, mesmo que de cor, esse pensamento lapidar do Padre Américo, da obra da rua: cuide cada terra dos seus pobres... e teremos menos empobrecidos!
Basta de fazer do Estado o pai – mal-amado, defunto e enterrado – coletivo e social, pois com tal padrasto continuaremos a ser mal-tratados e andaremos em resmungice permamente.
 
António Sílvio Couto

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Crédito (quase) mínimo para a (nossa) democracia

Mais de sessenta por cento de um razoável leque de inquiridos consideram-se insatifestos com a forma como funciona a democracia em Portugal. Este resultado foi recolhido por um inquérito designado ‘Barómetro da qualidade da democracia’, recentemente apresentado em Lisboa.
Tendo em conta os mais de mil e duzentos inquiridos, maiores de dezoito anos, recolhemos como informação que quase cinquenta por cento não se sente representada pelos partidos políticos... atuais, enquanto quase um quarto dos que responderam ainda confiam no Presidente da República, acrescentando que 11,9% confiam nos ‘movimentos sociais de protesto’, negligenciando, por seu turno, os partidos (10,3%), os sindicatos (9,5%), as Igrejas (7,3%) e os autarcas (2,7%).
 Mesmo que forma sucinta apresentamos, quase por contraste, cinco aspetos positivos e cinco outros negativos do estado da nossa democracia... portuguesa.

= Cinco sinais positivos da (nossa) democracia:
+ Liberdade pessoal e responsabilidade coletiva... nas decisões,
+ Participação de todos (maioria em razão dos votos expressos) nas questões públicas,
+ Consciência dos direitos políticos, sociais e culturais,
+ Interdependência dos bens materiais, da natureza e do trabalho,
+ Sentido da pertença em razão dos valores humanos... mais ou menos claros, esclarecidos e assumidos.

= Cinco sinais de deficiência... de funcionamento na (nossa) democracia:
- Egoísmo pessoal e grupal... por vezes transversal em questões de minorias e mesmo de alguns lóbis,
- Desinteresse pelas coisas públicas, desde que não se seja prejudicado nos direitos adquiridos... mesmo que possam ser injustificados,
- Pouca vivência das obrigações sociais, políticas e profissionais, acentuando, antes, a reivindicação,
- Satisfação, sobretudo, dos seus interesses... mesmo que à custa dos direitos dos outros, que são vistos mais como adversários do que como companheiros,
- Relativismo em questões de índole moral, religiosa e culturais... onde a maioria nem sempre perfaz a vontade coletiva.

O juízo sobre cada um destes aspetos deixámo-lo ao critério de quem nos lê... embora em democracia a capacidade de ter pensamento, atitude e compromisso político próprio e assumido seja algo pouco valorizado na hora de fazer carreira ou até de fazer alguma escolha eleitoral.
Democracia: a quanto obrigas, em Portugal!

António Sílvio Couto

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Crianças apadrinham os mais velhos

No ano passado havia – segundo dados das forças de segurança – cerca de dezasseis mil velhos, em Portugal, a viver sozinhos ou isolados. Embora estejam, por estes dias, a ser atualizados os dados, através da ‘Operação censos sénior’, poderemos tentar encontrar algumas das causas deste fenómeno de ‘abandono’ dos nossos mais velhos, queremos sugerir breves desafios...
Recorrendo, novamente, aos dados publicados, os distritos onde há mais velhos sós ou abandonados são: Santarém, Porto, Castelo Branco, Braga, Bragança, Vila Real e Aveiro... com mais de mil velhos em situação de abandono total ou parcial, em cada um dos distritos. Por seu turno, a ilha do Corvo, nos Açores, é o distrito onde este fenómeno tem menor expressão, somente catorze!
Quais são as causas mais profundas para que os mais velhos sejam, deste modo, abandonados ou neglicenciados? Com que fatores (internos, exteriores, culturais ou mesmo espirituais) temos de contar para tentarmos explicar o agravamento deste abandono? Será isto resultado de um estilo de vida ou de uma vida sem estilo humano? Como podem ter contribuído os mais velhos para que este fenómeno se tenha generalizado? Como serão tratados os filhos que assim abandonam os pais? Serão os (ditos) cristãos diferentes no seu comportamento?
Estas e muitas outras perguntas nos assaltam ao vermos o tratamento dado a tantos dos nossos mais velhos, andando em busca de propostas que possam atenuar esta chaga da nossa sociedade, cada vez mais materialista. Por isso, a proposta que apresentamos tem tanto de simples quanto de circunstancial, pois, tendo nós a  responsabilidade – em razão do ofício e do ministério – dum lar de idosos e, conjuntamente, de um jardim-de-infância, queremos tão simplesmente deixar pistas neste ‘ano europeu do envelhecimento’.

= Diálogo entre crianças e velhos: lições e projetos
Certamente já teremos visto um avô ou uma avó em conversa um neto ou uma neta ou vice-versa. O momento é ainda mais enternecedor quando o mais novo é muito pequeno, pois a distância física – pelo tamanho, pela diferença e até pel linguagem – se atenua nas condições psicológicas.
Quando assistimos à saída das crianças do jardim de infância e são os avós quem os procura podemos viver toda uma ressonância de mensagens mais ou menos perceptíveis... entre comunhões de sangue.
Sabemos como hoje muitas das nossas crianças são – agradavelmente – a companhia para os seus avós e estes sentem-se úteis pela ajuda que prestam a seus filhos/as... pais. Felizmente nem distinguimos a atitude de avô ou de avó... ambos sentem-se colaboradores nas dificuldades. Vivendo nesta sintonia vamos humanizando as relações entre gerações... onde os pais correm o risco de serem menos interventivos e até participantes no processo de educação.

= Crianças apadrinham/amadrinham... os mais velhos
Partindo das respostas sociais dos nossos centros paroquiais poderemos criar sinergias entre estas duas etapas do desenvolvimento humano: as crianças (tanto da creche como do jardim-de-infância ou mesmo do centro de atividades de tempos livres) poderiam assumir algum cuidado para com os mais velhos... muitos deles acima dos oitenta anos e, por isso, no estádio de ‘grandes velhos’, quais bisavós ou tetravós sociais e espirituais.
Se cada sala assumisse o cuidado de um certo número – entre seis e oito, num leque de vinte e cinco crianças  – de velhos do lar ou de centro de dia poderíamos ir humanizando as nossas respostas sociais, envolvendo nessa aproximação os pais e outros participantes no processo educativo, bem como gerando proximidade e tempo de escuta para com muitos dos nossos velhos, que se vão fechando no seu mundo ou até são relegados para o limbo do esquecimento... mesmo que estejam com outros ao seu lado.
Numa espécie de contestação às vozes agoirentas que semeiam sinais da desgraça e do desespero, queremos lançar pétalas de boa harmonia entre os mais novos e mais velhos, tentando fazer com que adolescentes, jovens e adultos façam parte da solução positiva entre o berço e a bengala, aconchegando uns e amparando outros... terna e fraternamente.
Luz de serenidade e de ousadia a quanto obrigas... sempre em fidelidade ao Espírito de Deus em cada tempo e nos mais diversos lugares!

 António Sílvio Couto

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Tente sorrir, ainda está, em Portugal!

Tem vindo a diminuir, entre os portugueses, a capacidade de sorrir. Este é o resultado do balanço de um estudo, que está a decorrer desde 2003, e que, perante as fotos publicadas nos jornais, no último semestre do ano findo, nos fazem perceber que o rosto dos portugueses – sobretudo no masculino – andam mais tristes e fechados.
Ainda segundo este estudo de uma universidade portuguesa, são sobretudo os homens com mais de sessenta anos aqueles que se apresentam mais sisudos, enquanto as crianças – como não podia deixar de ser! – são as que apresentam sorrisos mais abertos.
Quais serão as razões para que alguém manifeste ou não um sorriso? Seguindo, novamente, os dados do estudo citado, o sorriso é uma reação que se desenvolve em situações que envolvam o bem-estar e a felicidade, e, quando tal não se verifica, por motivos externos, o sorriso torna-se mais inibido e até mesmo recalcado.

= De onde vem a felicidade, de dentro ou de fora? De si ou dos outros?
Nesta breve reflexão sobre o sorriso e, possivelmente, o impato que este revela da nossa (possível) felicidade, talvez seja oportuno contar esse ‘episódio’, ocorrido, segundo parece, num seminário para casais.
Estava o conferencista a discorrer sobre o tema da felicidade, quando perguntou a uma senhora: ‘O seu marido fá-la feliz?’. O marido estava um tanto distante da senhora e, por isso, ficou apreensivo sobre a resposta que ela iria dar. Ao que ela respondeu: ‘não, o meu marido não me faz feliz!’. Inquiriu, novamente, o conferencista: ‘Mas porque é que o seu marido não a faz feliz?’. É que – respondeu ela – se eu não for feliz, ele não me pode fazer feliz’.
Efetivamente, a felicidade não é coisa que os outros nos podem dar, se nós próprios não a tivermos em nós mesmos, embora eles possam ser felizes connosco e nós com eles. De fato, a descoberta da felicidade – espelhada ou não na atitude de sorriso, que é muito mais do que mera gargalhada! – terá de emergir de nós mesmos ou andaremos em busca de compensações – mais ou menos fúteis e/ou admissíveis – para tentarmos ser felizes e em fachada de sorriso... oco e forçado!

= Seriedade versus serenidade... para a infelicidade?
Quando tanta gente faz depender a sua felicidade – com mais ou menos sorrisos de circunstância – das coisas materiais, poderemos compreender que a (dita) crise social tem vindo a fechar – o rosto e o comportamento – as pessoas ao essencial, tentando fazer valer o ‘ter’ mais do que o ‘ser’. Talvez esteja correlativo, então, o processo de menos sorriso com a caducidade dos valores materialistas em que estava assente a vida de tantas pessoas!...
Somos – desgradaça e efetivamente – resultado de um certo projeto de felicidade onde até as pessoas são usadas num aproveitamento maior ou menor dos outros em favor dos (nossos) intentos egoístas e interesseiros. Esta época do descartável tem vindo a envenenar as relações entre as pessoas – mesmo no seio das famílias – fazendo-as peças de um certo jogo, onde todos temos a perder, pois deixamos de contar pelo que somos para sermos explorados pelo que parecemos ter...

= Desafios pessoais e coletivos
Enquanto o governo não se lembra de taxar com imposto máximo (iva, irs ou irc, etc.) a possibilidade de sorrirmos, em Portugal, tentemos encontrar sinais e possibilidades de dar um sorriso àqueles/as com quem nos cruzarmos, no nosso dia a dia... a começar por quem está mais perto de nós.
De fato, o mundo será diferente se formos capazes de semear um sorriso sincero e solícito, leal e libertador, puro e santo... Queira Deus fazer-nos sorrir para os outros como Ele o faz para com cada um de nós, seus filhos muito amados!

António Sílvio Couto