Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Evangelizar, preferencialmente, os ricos

É muito comum ouvirmos, na linguagem habitual da Igreja e não só, uma espécie de preferência em evangelizarmos/atendermos, preferencialmente, os pobres... como que excluindo aqueles que não entram nesta categoria económica, sociológica, política, cultural e tudo o resto que se lhe queira apensar.
De fato, os pobres servem para tudo e mais aquilo que se desejar, desde que dê bom proveito a quem deles se aproveita, mesmo sob a roupagem de seus defensores, na praça pública, mas, minimamente, detratores, em privado.
Deixando, desde já uma espécie de declaração de intenções, dizemos: sou pobre, filho de gente pobre e sem qualquer aspirações a ser rico.... embora sinta que os ricos também podem e, muitos, até são boas pessoas.
No entanto, sabemos e conhecemos que há – mesmo no contexto da Igreja católica (hierarquia e setores laicais) mais ou menos assumidos, camuflados e com outras aspirações – quem defenda os pobres, mas se banqueteie nos melhores restaurantes... pagando favores; quem se diga paladino dos pobrezinhos mas só se vista com roupa de marca... a custo da qualidade de vida; quem pretenda ser associado aos (ditos) defensores da classe operária (se ainda existir!), mas que privilegie, no seu círculo de convivência, os donos do dinheiro, pois dão estatuto e promoção... à sombra de outras tantas boas intenções.
Tendo estes fatores em conta, consideramos que é importante não setorial as preferências no campo da evangelização. E, se tal tiver de ser feito, então que se faça uma opção preferencial pela evangelização dos ricos por duas razões: são eles que podem, tocados por Deus, atenuar ou até mesmo fazer desaparecer os pobres; são eles quem, pondo ao serviço dos outros a sua riqueza, numa consciência social e até espírito de serviço do seu poder de riqueza, podem gerar novos empregos e com isso tentar fazer diminuir a indigência dos desfavorecidos pela sorte e atribulados pela pobreza.

= Dos pobremente ricos aos ricamente pobres
Passado – assim cremos e esperamos – o contexto dialético-marxista da luta de classses, temos de recriar uma nova mentalidade: os fatores de produção são mais do que a força de trabalho, as mais-valias, o capital e (até mesmo) o desfavor de uns contra outros e de todos contra uma certa minoria: a capacidade de construir um mundo onde todos sejam mais fraternos é mais do que uma utopia romântica e azeda!
Vivemos num tempo onde os conceitos já não se guiam pela mera momenclatura coletivista nem o trabalho é uma idolatria adquirida sem tribulações e novos desafios.
Estamos em constante mudança e são-nos exigidos novos métodos até para continuar a ter uma oportunidade de trabalho, que é muito mais do que emprego. Sentindo o efeito da globalização, crescem os sinais de que os nossos benefícios são a desgraça dos outros e que as nossas desgraças – com a deslocalização dos postos de trabalho e outros efeitos adjacentes – podem ser os benefícios de outros.
Vivemos uma, cada vez mais acentuada, concorrência a todos os níveis e a nossa frágil sobrevivência está em constante risco.

= Insegurança a quanto obrigas!
Neste contexto temos de apostar sobretudo, na evangelização dos ricos, pois da sua adesão aos valores do Evangelho poderá surgir uma nova sociedade: mais justa, mais fraterna, mais solidária, de mais verdade, de mais lealdade e com maior caridade... uns para com os outros.
Com efeito, se os ricos – com dinheiro, com visão e com aposta no futuro – se interessarem pelo bem comum, que é muito mais do que os seus interesses particulares – de lucro legítimo, honesto e sincero – poderão ser bons criadores de riqueza em favor dos outros, tanto através de empresas, como de projetos que dêem trabalho e sustento às pessoas e às famílias. Precisamos, urgentemente, em Portugal, de  que as pessoas saibam colocar a sua riqueza ao serviço dos outros.
 Não será com certos combates anacrónicos de algumas forças político-partidárias que esses ‘trabalhadores’, em nome de quem pretensamente contestam, irão ter emprego nem futuro. Cheira a conversa requentada o discurso de alguns sindicalistas profissionais, que mais não sabem do que lutar com armas já do século passado, mas que, afinal, só prejudicam o país e o tecido produtivo... mais elementar. Será eles não são capazes de ver isto? Até onde irá a tacanhez de certos indivíduos ou a insensatez de seus seguidores?

Está na hora de mudar de rumo, podendo inverter as prioridades, mas salvaguardando os princípios, tendo em conta um dos essenciais que é: as pessoas em primeiro lugar.

António Sílvio Couto

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Regime ou mentalidade... de poupança?

Com a assumpção do estado de crise mais ou menos generalizado vão ressurgindo no vocabulário corrente termos e expressões que andavam um tanto arredios na nossa conversa, tais como: poupar e poupança, remendar e remendado, restringir, não desperdiçar... contrastando com conceitos, vivências e comportamentos bem mais contentes na nossa história (pessoal, familiar, social, nacional) recente.
Antes de mais será preciso esclarecer se estamos em regime (temporário) de poupança ou se já assumirmos que a poupança é um bem necessário e uma urgência na mudança de mentalidade. Com efeito, o ‘regime’ poderá ser adaptado, modificado e subvertido se as condicionantes económico-financeiras se alterarem, enquanto a ‘mentalidade’ cria raízes e faz viver, sobretudo, em atitude de vida.

= Em espírito de pobreza... evangélica
Se escutarmos e tentarmos aprender o significado das coisas, lembraremos uma frase emblemática de São Paulo: «sei viver na pobreza e sei viver na abundância. Em todo o tempo e em todas as circunstâncias tenho aprendido a ter fartura e a passar fome, a viver desafogadamente e a padecer necessidade» (Flp 4,12).
De fato, nós, humanos, somos muito fáceis de nos acomodarmos às situações de conveniência, criando uma razoável tendência para o menor esforço e/ou esforçando-nos o menos possível. Por isso, qualquer aceno para o facilitismo – económico, laboral, moral ou cultural – como que têm mais adeptos do que até a aceitação da verdade, seja quanto a nós mesmos, seja na proporção de tentarmos enganar os outros.
Vivendo nós uma espécie de amorfismo subjetivo, temos de detetar quais as influências que sobre nós vão sendo tentadas para que nos acomodemos, tanto à maneira de pensar de uma maioria acrítica, quanto ao comportamento de mediocridade  mais ou menos reinante à nossa volta... Nas mais díspares situações vai-nos sendo impondo quem menos presta e para pouco serve, senão contribuindo para que se vá afundando ainda mais o nosso pouco alento... coletivo.

= Queixar-se, resignar-se, lutar ou participar?
É, hoje, recorrente ouvirmos as pessoas queixarem-se por tudo e por (quase) nada, recordando os tempos passados com tal nostalgia que até parece que estavámos – economica, social ou culturalmente – melhor do que atualmente... Fomos, de fato, instruídos – ou talvez antes manipulados – pelas conquistas democráricas, sem que tivessemos dado o nosso consciente contributo para a melhoria de vida que nos foi dado usufruir.
- A União Europeia (UE) despejou sobre o nosso país dinheiro, mas não veio idêntica cultura para o trabalho. - A mesma UE quase que fomentou nos portugueses tal sensação de irresponsabilidade que muitos dos nossos melhores campos de cultivos foram deixados ao abandono, pois era mais barato comprar o que vinha de fora do que trabalhar para comer o que era (é) por nós trabalhado.
- Até cresceu uma expetativa de espírito de impunidade para quem soubesse enganar melhor os nossos ‘benfeitores’ da UE... que sempre cobram pela ajuda.
Volvidos mais de vinte e cinco anos de adesão à UE está hora de acordar e de reconhecer que ninguém dá nada a ninguém sem esperar algo em troca.
. Temos de aprender com a falência do projeto coletivista da Europa de Leste.
. Temos de voltar a saber plantar e semear, regar e mondar, colher e debulhar... pois será, quando tirarmos da terra o nosso pão, que saberemos valorizar as ajudas que nos quiseram dar.
. Basta de queixumes e de lamúrias: mãos ao trabalho, já e em força. Não nos deixemos enganar novamente pelos mentores da coletivização – agora culturalmente desgraçadista – com que alguns senhores dos (atuais) sindicatos nos vão condicionando e até entretendo... Mandemo-los regressar aos locais de trabalho/emprego e saberemos a quem servem e para aquilo que prestam!
Portugal terá futuro, quando a poupança for mentalidade e não mero subterfúgio em maré de pouco dinheiro. Seremos ainda um povo digno dos seus heróis e antepassados?

António Sílvio Couto

sábado, 12 de novembro de 2011

Mais gastadores em maré de Natal?

Segundo um estudo, recentemente, publicado, os portugueses dizem que vão gastar quinhentos e setenta e cinco euros em compras na maré de Natal, distribuídos da seguinte forma: prendas (375 €), comida (150 €) e convívio social (50 €). A tão falada crise parece, afinal, que não é vivida (tão) a sério... ao menos por alguns, embora se possa, comparativamente, verificar uma quebra de 6,3% em relação às despesas natalícias, que ocorreram em 2009.
Tendo em conta as medidas de austeridade do governo e as dificuldades financeiras em geral seria de esperar os portugueses se contivessem nos gastos. Se colocarmos os mesmos dados de referência podemos ver que os alemães pensam gastar 430 euros e os holandeses 410 euros... em compras por ocasião da Natal deste ano.
Colocando ainda como referência aquele estudo podemos concluir que as consequências das medidas de austeridade entre os portugueses sentir-se-ão mais na forma de gastar do que no valor a dispender... recorrendo menos ao crédito, antecipando as compras – sobretudo aproveitando as promoções e os saldos – e oferecendo prendas úteis e mais baratas.

= Que futuro estamos a construir?
Apesar das preocupações quanto ao emprego e aos cortes na percentagem do subsídio de Natal, os portugueses vão sendo dos europeus mais gastadores. Será que esta atitude revela inconsciência pessoal, familiar e coletiva para entendermos as coisas? Até onde vai o real diagnóstico sobre as dificuldades que são difundidas? Não haverá uma economia subterrânea, que permite viver acima das contas submetidas às finanças? Os (ditos) sinais exteriores de riqueza como é que não são detetados e taxados correta e urgentemente?
Com efeito, estas e outras questões podem assumar à nossa inquietação ao sermos confrontados com aqueles dados supra citados. De fato nem toda a gente poderá afirmar que vai fazer tais gastos na éposa natalícia em curso. Nem os cerca de vinte mil inquiridos, que serviram de critério para gerar aqueles dados de gastadores, podem esconder que há muita gente sanguessuga no sistema económico-financeiro, que tentará subverter as medidas preconizadas pelo governo.
Efetivamente que se poderá dizer dos registos em cafés e restaurantes que nos fazem pagar – sobretudo esses que nós conhecemos e que até nos conhecem – a conta pedida, mas que se furtam a dar-nos o talão de pagamento? Como se poderá viver numa atitude de transparência de impostos, quando nos apercebemos que, na máquina registadora, se escreve uma parcela que não corresponde àquilo que temos de  pagar?
Somos, de verdade, um povo de chico-espertos, que se enconcha na sua autofagia e que vive tentando enganar o Estado, pois deste tenta difundir a noção de que ainda nos rouba mais do que as nossas espertezas inventam!

= Haverá, ainda, solução?
Diante de tantas desconfianças como que surge a tentação de desistir. Perante tantos fatos de incoerência como que somos levados a entrar na onda do ‘vale-tudo’. Castigados pela inoperância da justiça podemos entrar na lógica do ‘faz-de-conta’. Acrisolados pelo torniquete dos impostos podemos tentar fugir, aliviando a carga para os vindouros...
No entanto, temos, urgentemente, de assumir a nossa tarefa de:
- Viver na verdade, segundo critérios de autêntica pobreza... à luz das fontes do Evangelho;
- Criar condições de pacificação, assumindo cada um o seu papel de construtor do bem comum;
- Gerar amor ao trabalho mais do que à preguiça e à ditadura da subsidio-dependência;
- Gerir as economias e a poupança mais do que os créditos e as dívidas não-pagas;
- Insuflar nova esperança mais do que entrar num certo desespero e na tristeza em nós e à nossa volta.
Cristamente temos responsabilidades acrescidas. Assim as saibamos assumir e compartilhar!

António Sílvio Couto
(asilviocouto@gmail.com

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

À descoberta do sentido da pertença...

Cada um de nós vive, aceita-se e enquadra-se, mais ou menos conscientemente, segundo vários círculos – sem qualquer linguagem esotérica nem outra afetação menos clara – de relacionamento e de comportamento: nascemos numa certa família, inseridos numa determinada localidade (mais ou menos bairrista, com beleza ou sem grande atração), no contexto de um certo concelho/distrito/província – para nos enquadrarmos na divisão territorial ainda em curso – e tendo, na devida conta, o país/nação e o continente mais alargado e culturalmente significativo.
Deixem, por isso, que concretize a minha história: nasci (ainda em casa e não na maternidade) numa família de gente honesta, simples e trabalhadora, numa freguesia semi-rural, num concelho do litoral, do distrito e diocese de Braga, inserida na província do Minho, do território de Portugal, que faz parte do continente da Europa (do sul), no hemisfério norte do planeta Terra... Tudo muito normal e simples... aparentemente!
No entanto, tudo isto condiciona a minha forma de pensar, de sentir, de reagir e até de rezar, pois aprendi a ler e a escrever, em tenra idade (graças a Deus e uma razoável ajuda humana) em português – embora tenha aprendido outras línguas com maior ou menor capacidade de expressão oral, por gestos ou na escrita – que se foi cuidando, na forma e no conteúdo, acrescentando a isto o mínimo enquadramento sócio-religioso, fazendo  a descoberta de pertença, tanto às várias configurações humanas como às incidências de leitura religiosa, que, foram quase sempre vividas, no contexto católico...
Quem quer que nos leia poderá fazer o seu diagnóstico de pertença e descobrirá, certamente, razoáveis surpresas, nas quais não tinha ainda reparado, convenientemente!

= Compreender as raízes ou abjurar as pretensões?
Pela mais simples nota familiar foi-me dado a beber que o que há de mais sagrado é quem nos dá – com que sacrifícios e em atitude de entrega – a vida e dela cuida, mesmo que à custa de muito trabalhado, esforçado, mal pago, mas honesto.
Aprendi, simbolicamente falando, a não ambicionar se não posso atingir a pretensão. Aprendi a não gastar mais do que aquilo que se pode. Aprendi a viver com pouco, mesmo que isso não seja benéfico para a nossa imagem. Numa palavra: quem não tem vícios não alimenta modas!
Sem qualquer ressentimento tenho visto que, ao perto e ao longe, há quem tente fazer crer que é pelo ter que se pretende deixar boa impressão, mesmo que à custa do incumprimento das obrigações e malbaratando os favores e ajudas... até de âmbito económico.

= Tentar construir algo de novo 
Na medida em que formos capazes de aceitar as nossas contigências – mas não em mera resignação – poderemos viver num certo estado de felicidade, onde o ser – cultural, ontológico e espiritual – se aprende não pela simples reivindicação mas pela assumpção da verdade de nós mesmos. Em nada deste plano está contido esse tão típico português do deixar correr, pois outros cuidarão do nosso futuro, mas antes temos de viver em esforço de competição, em ordem a deixarmos este mundo harmonioso e fraterno...depois de por ele termos passado, mais ou menos tempo, com maior ou menor destaque, mas sempre assumindo a construção de um mundo mais humano e mais cristão.  
Acreditamos que a nossa tarefa em tentarmos civilizar – passar do estado pagão (do campo) ao de cidadão (na cidade) – este mundo passa pela interpenetração da consciência cristã de que somos cidadãos de duas cidades – a terrena e a celeste – com plena participação em ambas, respeitando a esfera de cada uma, mas fazendo crescer a cidade terrestre pela tranfiguração ativa da missão recebida rumo à cidade celeste.
Basta de excomunhões e de anátemas sobre este mundo, pois foi neste espaço e neste tempo que Deus nos fez viver agora. De pouco adiantará tentar fugir do mundo ou refugiar-se na religião, se não formos capazes de divinizar tudo e todos à nossa volta. Pelo verdadeiro sentido de pertença é que podemos evangelizar!

António Sílvio Couto

sábado, 29 de outubro de 2011

Aprender a educar em tempos de crise... rumo ao Natal

É gratificante ver o desenvolvimento de uma criança, sobretudo, se ela manifesta alguma ‘diferença’ no seu comportamento: como se torna importante ajudar a fazer crescer alguém na sua fragilidade -- muito mais do que em mera debilidade! -- assumindo a sua autonomia e identidade. Tendo em conta a personalidade de cada pessoa -- muito mais a de cada criança -- todos somos poucos para fazermos crescer a sua maturidade. Com efeito, cada gesto, cada palavra (mais ou menos serena ou até agressiva), cada sinal... tudo concorre para o crescimento de uma criança, sobretudo, em certas idades e circunstâncias.
Se atendermos às lições da psicologia poderemos considerar que os primeiros cinco anos de vida de uma pessoa -- logo na idade da primeira infância -- são marcantes para o seu desenvolvimento equilibrado. Sabemos que nem sempre é fácil nem se colhem resultados imediatos, mas é fundamental saber que, nas nossas mãos e, sobretudo, no nosso coração, estão depositados muitos desígnios de futuro e de nobre condição. 
Todos -- pais (mãe e pai), educadores, Igreja e comunidade social -- somos poucos para esta tarefa, mas temos de estar coordenados, para conseguirmos construir nos nossos mais pequenos homens e mulheres de amanhã com sentido de amor e com consciência de bem-fazer.

= Nas dificuldades (até) nos podemos transcender
Os tempos históricos e económicos, em Portugal, na Europa e no mundo, não são fáceis. Por isso, também na educação dos filhos algo está (ou pode estar) em crise.
- Como se pode educar, quando se aperta o cerco ao ter tudo e do melhor?
- Como se pode educar um filho/a a não ter, se antes, tudo era mais abundante?
- Como se poderá ensinar o não esbanjamento – desde a comida até ao custo da eletricidade -- quando os ordenados encolhem e os impostos apertam cada vez mais?
Somos, de fato, devedores de uma geração (ou até já duas!) que não teve de conviver com guerras e conflitos bélicos.  Com efeito, quem tiver, hoje, pelo menos, cinquenta anos, não passou fome, não teve de sofrer perseguição política e habituou-se a receber muito mais do que a dar.
Diante deste panorama muitos dos filhos -- e até netos -- foram criados sem as restrições que muitos dos avós sofreram. Por vezes, até os brinquedos perderam o fascínio da novidade, pois podem ter sido dados sem custo e oferecido sem serem recompensa por algo conseguido na escola ou na vida de esforço.
- Agora que muito se aperta o cerco ao esbanjamento de outrora, como poderão pais e avós educar na dificuldade e talvez na contenção do menos mau?
- Estaremos capazes de apresentar às nossas crianças sugestões de boa conduta sem pretendermos disfarçar que está tudo a correr sem dificuldade?
- Será possível gerar, para o futuro, uma educação sincera e onde se fale verdade, sem ter medo das consequências?
Antes de mais é preciso:
- responsabilizar os mais novos nas pequenas renúncias do dia a dia: antes podíamos, agora estamos sem certos meios de luxo;
- fazer participar na contenção de gastos, com pequenos gestos de poupança, desde a eletricidade até à conversa ao telefone, passando mesmo pelas guloseimas e brinquedos;
- tentar promover a dignificação do trabalho e não favorecendo a preguiça ou a reclamação constante;
- apresentar o esforço sincero dos mais velhos na recuperação de Portugal como cidadãos que amam o seu país e não como pessoas que dizem mal de tudo e de todos;
- fazer crer que já houve tempos de carência e que foi possível vencer essas dificuldades com trabalho, com unidade de todos e com harmonia social.

= Pelo testemunho se ganha... o filho/educando
Agora que se aproxima um tempo de exaltação do consumismo, pelo Natal, talvez seja importante apresentar às crianças algo mais do que um mal-estar por não ter ou ainda por desejar ter, ficando azedo e com raiva de quem tem ou possa comprar.
Pode ter chegado a ocasião:
- de ir gerando nas nossas crianças uma abertura ao essencial, que é mais do que coisas;
- aprendendo a valorizar aquilo que é simples e não aquilo que é da moda;
- ajudando a conhecer o esforço de quem nos presenteia e não quem nos tenta comprar com prendas de fachada;
- tentando olhar as pessoas pelo que elas valem e menos por aquilo que nos oferecem.

Temos de sacudir, já neste Natal, o papel de embrulho com que nos temos andado a enganar e, talvez, a querer ludibriar as nossas crianças. Tentemos dar-lhes mais amor, carinho e atenção e Jesus nascerá em nós e à nossa volta.

António Sílvio Couto

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Na provocação do «Último segredo»

Fé pessoal com implicações políticas

«Sucede, não poucas vezes, que os cristãos sintam maior preocupação com as consequências sociais, culturais e políticas da fé do que com a própria fé, considerando esta como um pressuposto óbvio da sua vida diária» - diz o motu próprio ‘Porta fidei’ do Papa Bento XVI de convocação do ‘Ano da fé’, que vai decorrer, na Igreja católica, de Outubro de 2012 a Outubro de 2013.
Sobre  aquele pressuposto de fé, que, na grande parte das pessoas, já não existe, o Papa refere: «Enquanto, no passado, era possível reconhecer um tecido cultural unitário, amplamente compartilhado no seu apelo aos conteúdos da fé e aos valores por ela inspirados, hoje, parece que já não é assim em grandes setores da sociedade, devido a uma profunda crise de fé que atingiu muitas pessoas».

= Provocações à fé... de encomenda para vendas
Sobre esta quase disfunção cultural cabe-nos salientar, no contexto sócio-cultural português, a publicação de um livro que tenta questionar a fé dos cristãos, partindo de críticas sensacionais e, nalguns casos, quase irracionais, embora fazendo algum barulho na comunicação social.
Trata-se do «Último segredo» de José Rodrigues dos Santos – jornalista e escritor – que, agora num afã de protagonismo, veio – nas suas palavras eloquentemente dogmáticas – denunciar ‘fraudes’ sobre Jesus e os escritos do Novo Testamento.
Embora ainda nos fiquemos pelo teor das entrevistas deste recente guru anti-cristão da saga lusitana – outros tem havido quase sempre em vésperas da celebração do Natal, em coincidência para as vendas! – o Secretariado nacional da pastoral da cultura (SNPC) emitiu uma nota sobre esta publicação onde se refere: «O romance de José Rodrigues dos Santos, intitulado “O último segredo”, é formalmente uma obra literária. Nesse sentido, a discussão sobre a sua qualidade literária cabe à crítica especializada e aos leitores. Mas como este romance do autor tem a pretensão de entrar, com um tom de intolerância desabrida, numa outra área, a história da formação da Bíblia por um lado, e a fiabilidade das verdades de Fé em que os católicos acreditam por outro, pensamos que pode ser útil aos leitores exigentes (sejam eles crentes ou não) esclarecer alguns pontos de arbitrariedade em que o dito romance incorre».
Tal como salienta esta nota do SNPC, o autor parece confundir a sua verdade romanceada com a fé na Pessoa de Jesus e mesmo a vivência dos cristãos. «É impensável, por exemplo, para qualquer estudioso da Bíblia atrever-se a falar dela, como José Rodrigues dos Santos o faz, recorrendo a uma simples tradução. A quantidade de incorrecções produzidas em apenas três linhas, que o autor dedica a falar da tradução que usa, são esclarecedoras quanto à indigência do seu estado de arte. Confunde datas e factos, promete o que não tem, fala do que não sabe».
No passado, já outros tentaram explorar este (pretenso) filão do ‘descrédito’ em questões que envolvem a fé na Pessoa de Jesus e nas posteriores elaborações teológicas das comunidades primitivas – no sentido de primeiras, tanto no ardor como no testemunho – e, desgraçadamente, acabaram por serem vítimas da sua própria auréola... rapidamente chamuscada.
Quem não se lembra de um outro José (de cognome erva amarga) que fez furor porque promovido pelos seus parceiros de ideologia! Quem não se lembra de tantos que vaticinaram o fim do cristianismo, na I República, e que foram engolidos pela peçonha da sua malícia! Por isso, ousamos perguntar: quem vai promover – comprando, talvez dizendo que leu, confundindo os mais iludidos – este outro José de sonhos? Será, assim, tão  difícil de identificar a ideologia transversal – preferencialmente anti-católica – que o vai apoiar?

= Implicações políticas da fé cristã
Na sequência da convocação do Papa para vivermos, em Igreja católica, um ‘Ano da fé’, torna-se urgente encontramos sinais de compromisso com a fé traduzida na vida e não simplesmente no reduto da liturgia. Esta deverá manifestar dignidade e beleza e não sendo uma mera rotina de gestos gastos, repetitivos  e vazios.
Na medida em que, no mundo, vivermos em atitude de missão, assim a Missa será força de fé viva e vivida com novos métodos, novo ardor e novas expressões, isto é, em atitude de nova evangelização.
Precisamos de incluir, no nosso roteiro da fé celebrada, novos apontamentos de fé culturalmente amadurecida, que não se deixa confundir com diatribes jornalísticas de baixo teor nem com romances de valor duvidoso, embora rentáveis para os seus autores e editores.
Numa época (dita) de crise seria de propor um novo imposto para recuperar da dívida pública nacional, se este livro agora publicado esgotasse ou fosse um sucesso de vendas, pois teríamaos de concluir que, afinal, ainda há quem gaste dinheiro com coisas supérfluas, embora resmungando por lhe ter sido retirado um montante do subsídio de Natal... em favor dos outros.
Fé cristã – esclarecida, amadurecida e comprometida – a quanto obrigas, agora e no futuro!

António Sílvio Couto

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Manifestações/greves não afundam o nosso futuro?

Foi nítido e objetivo, um espanhol a trabalhar em Portugal, participante nas manifestações dos ‘indignados’, denunciou a manipulação dos protestos mais recentes contra as medidas do governo: há muitos membros das esquerdas – conceito anacrónico em era de globalização, tendo em conta a história após 1989! – infiltrados nas pretensas ‘populares’ concentrações...  Seja qual for o número apresentado – há muitas pernas e poucas cabeças ou muitos braços levantados e poucos com desejo de trabalhar – nota-se um razoável aproveitamento do ‘estar contra...’, pois, ao menos, parece haver, momentaneamente, ocupação para desempregados e sindicalistas, para arregimentados e militantes, para oportunistas e outros/as ‘istas’ do faz-de-conta... com cobertura noticiosa e (aparentemente) informativa... do ‘quanto pior, melhor’.

= Medidas duras: necessárias, urgentes ou irremediáveis?
Depois de termos, sobretudo nos últimos dez anos, vivido – mesmo sob a batuta de governos de cores diferentes – numa espécie de mentalidade de gastanço, endividamento, consumismo sem olhar a meios nem às consequências a curto prazo, descobrimos, de repente, que estamos na falência e sem meios de continuarmos a viver nessa falsidade de vida e dum certo forrobodó... pessoal, familiar, social e coletivo.
Foi preciso que viessem do estrangeiro – a dita troika: FMI, BCE e UE – traçarem-nos um plano de austeridade, que tem tanto de simples, quanto de amesquinhador da nossa inteligência: somos incapazes de nos sabermos governar e de nos governarmos corretamente.
Àqueles que nos colocaram nesta situação de insustentabilidade, urge levá-los a tribunal para pagarem pelos erros e más opções. As eleições, de fato, foram juízos de avaliação, mas não serviram para momentos de criminalização. Não basta sacudir o capote, deixando a outros a responsabilidade das consequências das más opções e de funestas decisões... políticas e partidárias.
Até os que foram acicatando a vontade de consumo – o povo deixa-se manipular por habilidosos e bem-falantes! – devem ser culpabilizados, pois tanto é ladrão quem rouba como quem instrui para a usurpação da fraude mesmo que capciosa, subtil e encoberta.
Infelizmente, se não forem tomadas medidas de contenção, de correção dos erros e de moderação nos gastos, muito em breve, seremos um país sem credibilidade... mesmo para nos darem ajuda e dinheiro a crédito.
Desgraçadamente, em certas posições alguns sindicalistas, parece que estão desfasados da vida real, pois talvez nem conheçam os preços das coisas nos mercados e até continuem a viver na jaula dourada das suas regalias, fomentando azedume em vez de concórdia, reivindicação em vez de diálogo e preguiça em vez de trabalho... honesto, participativo e comprometido.

= Justiça e boa fé: condições ou exigências?
Neste momento conturbado da nossa identidade coletiva parece ter chegado a hora de unirmos esforços de todos e para tudo quanto nos possa recriar com identidade nacional. Falar de nacionalismo não pode continuar a ser uma espécie de heresia e muito menos num rótulo ideológico: em tempos era (quase) prerrogativa dos setores conotados com a direita, agora são outros (ditos) de esquerda que se tentam apropiar de tudo quanto possa acirrar os ânimos mais derrotados.
Certas manifestações e greves deixam-nos um tanto confusos sobre qual deve ser a leitura de tais ‘direitos’, pois estes podem colidir com os mais elementares deveres de boa fé na defesa dos fragilizados da nossa sociedade. Na medida em que formos inteligentes de forma suficiente saberemos quem nos fala verdade ou quem nos tenta usar em ordem a conseguirem os seus objetivos, andando na crista da onda em vez de navegarem com rumo e enfrentando as marés mais adversas.
Por vezes certo barulho tenta confundir os incautos e serve para disfarçar as mais tenebrosas intenções. É de justiça que nos esforcemos por contribuir para a boa harmonia entre todos, dando cada um de nós o nosso contributo mais sincero e audaz... começando pelo seu círculo de convivência e de trabalho.

António Sílvio Couto
(asilviocouto@gmail.com)