Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



terça-feira, 11 de outubro de 2011

Fim das ilusões... chegou a austeridade

“Acabaram os tempos de ilusões. Temos um longo e árduo caminho a percorrer, para o qual quero alertar os portugueses de uma forma muito directa: a disciplina orçamental será dura e inevitável, mas se não existirem, a curto prazo, sinais de recuperação económica, poder-se-á perder a oportunidade criada pelo programa de assistência financeira que subscrevemos”, afirmou Cavaco Silva nas comemorações do 101.º aniversário da implantação da República.
Vindo de quem vem e na data que lhe é apropriada, temos de levar muito a sério esta prevenção... não aconteça de ontem já ter sido tarde começarmos a viver na contenção e sob a regra da temperança pessoal, familiar, social e política.
Respigando alguns excertos do discurso presidencial, tentaremos abordar aspetos de provocação cristã à nossa quase inconsciência de gastadores sem crédito.

= Letargia do consumo fácil
 “Durante alguns anos foi possível iludir o que era óbvio... Perdemos muitos anos na letargia do consumo fácil e na ilusão do despesismo público e privado. Acomodámo-nos em excesso”, salientou o Presidente da República.
Agora é mais difícil aferirmos os nossos comportamentos, pois nos habituámos – depressa demais no tempo e excessivamente na mentalidade – a viver como se fôssemos ricos, embora só éramos subsidiados para que não invadissemos os países do norte da Europa. De fato, quisemos equiparar-nos na bastança com quem nos deu a mão para entrarmos na Comunidade Europeia, mas esquecemo-nos de viver na dinâmica de trabalho que esses países e culturas viviam e continuam a viver... para gerarem riqueza.
Ainda estamos a tempo de evitar a bagunça que vamos percebendo na Grécia. Por isso, precisamos que nos falem verdade e que vivamos na coerência sem falsos profetas da contestação a troco de maior miséria... a curto prazo. Nem a ditas ditas greves – a Grécia já vai em onze greves gerais só este ano! – ou as manifestações setoriais nos podem fazer esquecer do caminho a percorrer em ordem a sermos – novamente – um país de sucesso, de paz e de trabalho digno e dignificador.

= Austeridade digna
“A crise que atravessamos é uma oportunidade para que os portugueses abandonem hábitos instalados de despesa supérflua, para que redescubram o valor republicano da austeridade digna, para que cultivem estilos de vida baseados na poupança”, referiu ainda o chefe de Estado.
- Para quantos se reclamam do espírito republicano de igualdade e sem mordomias é chegada a hora de deixarem cair as máscaras de benesses e de regalias... de regime instalado.
- Para quantos se dizem cristãos – onde o espírito de pobreza, que é muito mais do que a pobreza de espírito! – é chegado o momento de procurarem viver em conformidade com o essencial e sem coisas supérfluas.
- Para quantos se tentam afirmar pelo ter, é chegada a ocasião propícia de centrarem a sua vida no ser... autêntico e verdadeiro.

Nós que já fomos pobres e honrados podemos e devemos ser honrados embora um tanto mais pobres, temos de saber interpretar a redução de coisas materiais, reaqualificando a nossa vida à luz do essencial, abrindo-nos à partilha e à (verdadeira) caridade.

António Sílvio Couto

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Festas religiosas como espaço do ‘átrio dos gentios’ (*)

Sem pretendermos dar quaisquer lições, importa situar as ‘festas populares’ na sua componente religiosa como atos de cultura, incluindo vários aspetos da nossa linguagem mais ou menos inteletualizada, com recurso a certos tiques de mito e/ou inseridas na vertente ritual.
Num tempo como este que estamos a viver, designado de ‘crise’, as épocas de festa tornam-se como que catalisadores ou escapes da nossa vida pessoal e mesmo coletiva. O recurso à descontração gera, em nós e à nossa volta, novos comportamentos, nem sempre perceptíveis na sua singularidade.
De fato, é na dificuldade que se reúnem todas as forças para que sejamos capazes de refontalizar a nossa ‘personalidade coletiva’… mais abrangente e profunda.

= Manifestações da religiosidade popular
Partindo daquilo que se diz no Catecismo da Igreja Católica (n.º 1674 a 1676) como que podemos alicerçar a nossa convicção de que as festas religiosas manifestam «o sentimento religioso do povo cristão», tendo várias expressões desse sentimento – note-se que não se diz da racionalidade nem da emotividade – desde as mais comuns, como as visitas aos santuários, as peregrinações e as procissões até às mais populares, como as danças religiosas – veja-se a expressão do folclore e das suas letras – incluindo-se mesmo os momentos de via-sacra e as recordações trazidas/levadas dos lugares visitados ou outros objetos religiosos… normalmente benzidos.
Citando o Concílio Vaticano II, na constituição sobre a Liturgia Sacrosantum Concilium (n.º 13), o Catecismo refere que as festas religiosas ou manifestações da religiosidade popular «são um prolongamento da vida litúrgica da Igreja, mas não a substituem. ‘Devem ser organizadas, tendo em conta os tempos litúrgicos e de modo a harmonizarem-se com a liturgia, a dimanarem dela de algum modo e a nela introduzirem o povo; porque, por sua natureza, a liturgia lhes é, de longe, superior’».
Por seu turno, no Directório sobre a Piedade popular e liturgia (n.os 245 a 247), falando das procissões, refere-se: «na procissão, expressão cultual de carácter universal e de múltiplos valores religiosos e sociais, a relação entre a liturgia e a piedade popular reveste-se de particular relevo».
Será que temos tido para com as várias manifestações da religiosidade popular uma atenção ou uma desculpa? Não será que, muitas vezes, deixamos correr as coisas para não termos problemas, embora saibamos que nem tudo está correto? Até onde poderá ir a nossa intervenção delicada, serena e cuidadosa para que, em particular, as procissões possam ser manifestações de fé e não de mero folclore com cobertura religiosa, mas não cristã?
Tal como se diz no Catecismo, «para manter e apoiar a religiosidade popular, é necessário um discernimento pastoral», seja para purificar ou para corrigir «o sentimento religioso subjacente a essas devoções e para fazer progredir no conhecimento do mistério de Cristo».
Por outro lado, o Directório diz: «Nas suas formas genuínas, as procissões são manifestações da fé do povo e têm frequentemente conotações culturais capazes de despertar o sentimento religioso dos fiéis. Porém, do ponto de vista da fé cristã, as ‘procissões votivas dos santos’ [levando processionalmente as relíquias ou uma estátua ou uma efégie dos santos pelas ruas da cidade], tal como outros exercícios de piedade, estão expostas a alguns riscos e perigos», tal como serem preteridas aos sacramentos, sobrepondo-as como manifestações exteriores e confundindo-as com um mero espectáculo ou num acto folclórico...
Não basta trazer para a rua as imagens e deixar correr, pois muitos dos que participam e, por maior razão daqueles que assistem, nem conhecem os santos ou santas em desfile!
Citando novamente o Directório é urgente reconhecer, aceitar e aprender, pois «para que a procissão conserve o seu carácter genuíno de manifestação de fé, é necessário que os fiéis sejam instruídos sobre a sua natureza, do ponto de vista teológico, litúrgico e antropológico».

= Saber ‘por que vêm’ ou perceber ‘como vão’?
Esta frase como que pode resumir, numa breve avaliação, sobre as razões que fazem tantas pessoas – mais ou menos conscientemente – irem à procissão. Neste ‘irem’ tanto pode estar a participação ativa como o simples ato de ficar a ver a procissão.
É digno de ser questionado quem compõe a procissão. De fato, muitas vezes os intervenientes pode ser do foro interno da Igreja, que a sair para a rua se faz exterior ou ainda da instância não estritamente religiosa. Aqui poderá começar-se um diálogo com os ‘gentios’. Com efeito, as (ditas) ‘forças vivas’ da terra podem e devem participar na procissão como expressão da vida humana, social, psicológica e espiritual de um povo... para além da expressão religiosa... católica.
Cremos que todos quantos representem associações de valor humano, desportivo, cultural, de setores sociais relevantes (reformados ou jovens)...deviam ser abordados para integrarem a procissão, como espaço de fé, consciente ou difusa, mais ou menos cristã.
Poderiam até vestir as suas roupas mais significativas e/ou seus estandartes…Bastará reparar nos ranchos etnográficos, folclóricos… que tinham as vestes de festa, normalmente para participarem na missa e nas procissões de festa.
Este diálogo é urgente ser feito para que não nos escapem para outras ‘procissões’ políticas, sindicais e/ou partidárias!

 = Desafios ao diálogo Igreja/mundo
O diálogo feito ou a fazer tem de primar pelo respeito mútuo e aberto. Ninguém gostará de ser chamado para servir de enfeite a uma iniciativa – seja da Igreja católica ou outra – só por deferência mais ou menos tolerada. Por outro lado, a presença num ato público de uma procissão não poderá ser como se pretendesse ir ou estar, mas antes tendo dignidade para o ato e para a função daquilo que é representado…
Apresentamos, seguidamente, breves propostas para um diálogo Igreja/mundo:
- Diálogo sincero – cada parte não deverá usar de subterfúgios para vencer o outro, pois quem for vencido fica inferiorizado e a perder... podendo, com isso, ser impedida a prossecução do diálogo e da proximidade encetados.
- Diálogo construtivo – cada um dá o que tem, esperando receber do outro em abertura e em simplicidade. Com efeito, há ‘sementes do Reino’ em tanta gente e em muitas associações… de bem-fazer, de benemerência e com valores cristãos… mais ou menos difusos.
- Diálogo evangelizador – ir ter com os outros, estendendo-lhes a mão há-de ser para anunciar, no tempo oportuno e sem medos, a Pessoa de Jesus. Não interessa fazer proselitismo, mas antes abrir caminhos de verdade. Com pouco se pode fazer muito e com muito menos se pode estragar o pouco iniciado. Talvez aqui se possa incluir essa atitude de São Paulo: ‘fiz tudo para todos para conquistar alguns a todo o custo’.
- Diálogo cultural – da conjugação entre contexto social, referências à tradição e dimensão espiritual (particularmente imbuída dos valores cristãos) há-de poder surgir a possibilidade de cada um respeitar o outro, fazendo de cada momento de festa uma etapa de crescimento à luz da Palavra do Evangelho.

Será, no ‘átrio dos gentios’, que se poderá perceber um tanto melhor quem está disponível para aprender, respeitando e para crescer, aprendendo... uns com os outros.

(*) Texto apresentado no ‘plenário do clero’ da diocese de Setúbal, no dia 4 de Outubro, no Seminário de Almada e num tempo de formação do ‘Apostolado do mar’, no dia 5 de Outubro, no Seminário do Verbo Divino, em Fátima.

António Sílvio Couto

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Riqueza da nossa gastronomia... em maré de crise

Há cerca de um mês, por votação eletrónica de todo o país, foram escolhidas as sete maravilhas da gastronomia portuguesa. O resultado foi o seguinte: alheira de Mirandela, queijo da Serra da Estrela, caldo verde, arroz de marisco, sardinha assada, leitão da Bairrada e pastel de Belém. Os votantes superaram mais de um milhão de pronunciamentos.
O processo de seleção, que teve início com cerca de setenta pré-selecionados, reduziu-se, na fase final, a vinte e um concorrentes, segundo as várias etapas de uma refeição à portuguesa... desde as entradas até à sobremesa, passando pela sopa e pelo prato de peixe ou de carne.
Serve esta nossa abordagem à gastronomia para tentarmos perceber a nossa riqueza, feita de coisas simples e populares... quando tantos se deixam ludibriar com ingredientes de supeita qualidade.

1.Coisas simples e saudáveis
Partindo da grande variedade de sugestões do nosso cardápio gastronómico, podemos dizer que as ‘sete maravilhas’ mais votadas são das mais simples e (até) das mais saudáveis: um pouco de engenho e alguma subtileza fez das ‘comidas’ vencedoras o regalo do povo... nos nossos dias e no tempo dos nossos pais e avós. Com feito, a possibilidade de ter umas sardinhas assadas eram uma vitória nos anos setenta e agora tem honras de serem bem pagas na ementa de muitos restaurantes. Um caldo verde, feito com as coisas mais rudimentares da horta serve de promoção a festas e romarias... dando a crer que, por ser simples, é bem melhor do que certas sopas da ‘nouvelle cuisine’.
Talvez estas ‘sete maravilhas da gastronomia’ tenham vindo acordar certos peritos – diz-se agora ‘experts’ – do fast food (tanto de mercado como dalguns restaurantes da moda) que nada tem de genuíno nem de português, criando uma nova vaga de sensibilidade ao que é nosso, deixando cair a máscara dessa mescla europeia de comidas de plástico, sem sabor, com pouca qualidade e fazendo bem pior à saúde.
A consagração de ‘maravilhas’ deu àqueles pratos nova projeção, numa espécie de exorcismo contra alguns novos-ricos que se iam envergonhando daquilo que é nosso, vendendo-se à internacionalização de certas modas, que mais não são do que uma certa globalização da mediocridade a começar à mesa...

2. Saber comer com qualidade e moderação
Atendendo ao mais recente desenvolvimento da obesidade em Portugal, vai crescendo a consciencialização de que temos de cuidar da nossa alimentação (dita) mediterrânica e que as ‘sete maravilhas da gastronomia’ como que a vieram colocar no devido lugar e na importância correta da nossa forma de comer. De fato, foi quando deixamos que entrassem certos ingredientes de duvidosa qualidade na confeção dos nossos alimentos, que crianças, adolescentes e jovens, começaram a ganhar peso, correndo riscos na saúde... atual e futuramente.
Não deixa de ser inquietante que continuemos a comer em quantidade – como se fossemos todos trabalhar no campo em esforço – sem o correspondente desgaste físico... E depois têm/temos de ir queimar calorias com exercício físico a pagar os serviços prestados!
Ora, nesta época de crise, como que podemos/devemos viver numa aprendizagem crescente da nossa condição neste mundo, que tem tanto de exagerado pelo excesso na comida como pela sua contenção. Com efeito, viver de forma equilibrada – físico/biológica e psicológico/espiritual – é tarefa que terá de evoluir... pela moderação e na  temperança.
Efetiva e afetivamente é exigente viver de forma equilibrada... sabendo conhecer as nossas mais ou menos assumidas compensações (na comida, na bebida e noutros vetores mais subtis), sem desculpa, assumindo a verdade para connosco mesmos e para com os outros.
Verdade, a quanto obrigas!

 António Sílvio Couto

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Contra uma certa cultura... de fachada

Numa espécie de repulsa e duma incontida rejeição, ouso dizer – como português com alguma instrução, graças a Deus, com distanciamento de certos ‘cultos’ e ainda com alguma independência assumida e agradecida – que me enoja a petulância de alguns (pretensos) inteletuais que se nivelam pelas pretensões daqueles que os adulam e se curvam acintosamente a quem os promove e explora.
Sinto vergonha – não ‘em ser português’ como disse um certo purpurado com galões militares e outras tantas regalias de bem-falante – em ter de ficar calado – que não em silêncio nem a resmungar – ao tentarem reduzir a expressão ‘cultura’ aos fazedores dessa reinante mentalidade hedonista/materialista, marxista/maçónica e, sobretudo, em cruzada anti-cristã.
Tendo participado – ativa, consciente e atentamente – na manifestação cultural duma procissão católica, na Moita do Ribatejo – com milhares de pessoas, tanto participantes como assistentes – e sem qualquer referência noticiosa, que uns míseros fantoches – esse seria um bom epíteto para o número ‘artístico’ que serviu de boneco à notícia, no centro de Lisboa – tenham levado a dar-lhes tempo de antena como ‘indignados’, quando o termo mais correto deveria ser de ‘indignos’, apesar de tudo, nesta ‘nossa cultura’... medíocre, subsidiada e de fachada adulada e aduladora... dos patrocionadores e/ou abespinhada de quem não a promove ou aplaude... mesmo que tacitamente.  

1.Culturalmente laicista por conveniência ou tática?
Não deixa de ser preocupante que a tendência da noção de ´cultura’ seja, cada vez mais, uma espécie de luta contra tudo que possa manifestamente farejar-se como avesso às coisas de índole espiritual – incluímos aqui as várias leituras sob as diferentes tendências onde a perspetiva metafísica possa surgir! – combatendo, sobretudo, o mínimo afloramento cristão... como retrógrado, conservador ou (quase) anti-social. De fato, estamos a colher os resultados da sementeira de ignorância fora de Deus e/ou da ruptura com os valores evangélicos, tanto na dimensão social como na incidência política, educacional e, mais abragentemente, cultural... pois interessou explorar um certo preconceito obscurantista, afunilando os métodos e condicionando as leituras...
Os programas da maior parte dos estudos – nas escolas secundárias e/ou nas universidades – foram sendo concebidos em ordem a decapitar da noção de espiritualidade todo e qualquer desenvolvimento dos mais novos, tornando-os servidores da ideologia que faz de cada indivíduo uma espécie de ‘ser não-pensante’, desde que aplauda uns tantos autores progressistas... na linha anti-vida, contra a família e como mentores da regulação estatal dos comportamentos com os subsídios da pílula e do preservativo... a pataco ou de emergência.
Vivemos numa tendência progressiva a fazer de cada pessoa uma espécie de joguete nas coisas de valorização da dimensão psicológica e espiritual... promovendo jogos de dissimulação, de acontecimentos de boa aceitação popular, com convívios e comezainas ao desbarato, simulando espetáculos com artistas bem cotados... pois distrair o povo vai entretendo e alienando... fazendo, agora, dos jogos (de futebol ou afins) essoutra subtileza para distrair os mais incautos, os esfomeados, os desempregados...
Até onde poderá ir esta campanha? Quem ousará afrontar tais interesses? Poderemos contar com interessados nesta luta... do lado do não-materialismo?

2. Depois do atual ‘pão e jogos’, poderá surgir uma outra cultura... humanista?
Se atendermos à época de decadência do império romano do Ocidente poderemos encontrar idênticos sinais de crise de civilização com aquela que estamos a viver: imoralidade (mistura de amoralidade com comportamentos de imoralidade, cfr. Rm 1,26-27), descalabro económico e tensões sociais... afrontamento da nova cultura emergente do cristianismo, como desafio social e moral. De fato, a força do cristianismo cresceu do lodo (esterco ou descalabro) da cultura, cada vez menos humanista, do império romano do ocidente.
Hoje, sentimos as oscilações da nossa (dita) cultura ocidental, que, como que rejeitando os seus alicerces mais comuns e fundacionais, se vê confrontada com um colapso da razão de ser do (pretenso) projeto europeu, que poderá implodir, quando cada estado ou uma ou outra das tendências quiserem impor-se às outras... mesmo que vivendo num frágil equilíbrio das várias forças... ideológicas, financeiras e morais/espirituais.
- Não basta tentar encher estádios de futebol, se o povo vive na penúria.
- Não basta fazer festas e distribuir bebidas ao desbarato, se o povo continua ignorante.
- Não basta reclamar contra tudo e com alguns, se o povo estiver desempregado e ao sabor dos manipuladores.
- Não basta encher praças e avenidas com subsidiodependentes, se o povo ao chegar a casa tiver o prato cheio de nada.
- Não basta tentar enganar... porque a mentira, a exploração e o medo depressa desenganam, quem pensa.

Porque acreditamos na força do humanismo cristão, dizemos: podem contar connosco na valorização da cultura popular, servindo as pessoas, desinteressadamente.

António Sílvio Couto

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Ai, se eu fosse rico!

Num suspiro quase incontido muitas pessoas tentam concretizar este desejo: ‘ser rico’ e com isso conseguirem viver (talvez) sem trabalhar, usufruindo de certas mordomias, gozar de outras regalias... numa espécie de preguiça militante e (até) malévola... quanto baste.
Para tentar atingir tal desejo uns jogam nos mais díspares concursos e jogos de fortuna/azar, outros tentam conseguir algum sortilégio ou mesmo herança, mas muito poucos anseiam serem ricos trabalhando honesta e lealmente.


1.Breve diagnóstico
Acabado o tempo de férias – mais ou menos oficial – do Verão terminado, teremos de enfrentar (quase irremediavelmente) uma vaga de manifestações dos promotores da contestação, seja sindical e político/partidária, seja dos setores mais ou menos atingidos pela contenção económico/financeira.
- Daqueles que contribuíram – pela falsidade dos números e das opções políticas – vemos uma espécie de assobiar para o lado, não se sentindo corresponsáveis pelo descalabro do país nem pela vergonha da Nação, que vive, agora, de mão estendida à pedinchice europeia... pagando todos nós os erros de alguns.
- Daqueles que sempre vivem, sobretudo, da miséria alheia, vemos uma razoável pretensão em serem paladinos duma salvação, quando afinal, o que eles desejam é esse ‘quanto pior melhor’, pois sobrevivem dalguma desgraça alheia em ordem a crescerem na sua maledicência, seja ela sindicalista, seja autárquica ou mesmo interesseira de projetos internacionalistas de sabor (já) esgotado... noutras paragens e ideologias.
- Daqueles que fogem quando as coisas correm mal – sem quase nunca responderem nem serem responsabilizados pelos erros ou pelas más opções que deixaram o país na miséria – espreitam, novamente, alguma oportunidade de voltarem ao lugar da projeção, da promoção e mesmo da nova rentabilização dos conhecimentos – há quem lhe chame lóbi – tidos e havidos no desempenho da função... dita social.
Sem pretendermos fomentar qualquer ‘caça à bruxas’, não será conveniente vivermos para sempre embuchados... na convicção de que vale tudo e ninguém assume as suas responsabilidades, tanto pessoais como grupais e político-partidárias!

2. Alguns desafios
Talvez tenha chegado o tempo de sermos (minimamente) sérios para levantarmos o nosso país na prossecução de um projeto nacional – sem tentarmos esconder um certo teor mais ou menos nacionalista – onde cada um sente as necessidades alheias como intenções pessoais e faz das debilidades próprias um alavancar de força para vencer com a ajuda dos outros... em sintonia, em concordância e como imperativo de consciência comunitária, que é mais do que coletiva ou bem intencionada... consumista.
- Daqueles que têm a força económica precisamos que ponham os seus bens ao serviço dos outros, sem medo de serem vilipendiados por esses que empregam... tanto nas horas de sucesso, como nos momentos de (indesejável) insucesso. Certos empregados precisam de ser educados e uns tantos empregadores manifestam, por seu lado, uma urgente necessidade de reciclagem em ordem ao bem comum, profissionalizando-se e tornando-se empresários, que é muito mais do que serem (meros) patrões!
- Daqueles que vivem na esfera sindical precisamos que tenham visão de futuro, tanto nas reivindicações como nas manifestações de contestação, pois, se o direito lhes assiste a exigirem, o bom-senso deverá nortear os objetivos atuais e, particularmente, os futuros. Estamos a ser escrutinados por quem nos empresta o dinheiro e não podemos deitar tudo a perder com pruridos de poderzinhos interesseiros!
- Daqueles que têm o dinheiro – mesmo sem ser, totalmente, esmiuçado pelos impostos – esperamos que sejam capazes de criar condições para investirem, atendendo às razões e não às meras emoções... espevitando a criatividade e não enrolando-se na mera incapacidade de serem compreendidos pelos (ditos) trabalhadores.

Afinal, pretender ‘ser rico’ exige bom-senso e discernimento, pois nem sempre aqueles a quem se dá a mão e, por vezes, o pão têm consciência do esforço para tal continuarem dele a usufruírem. Deus nos livre de certos ‘pobres’ virem a ser ricos... tudo e todos esmagariam com a sua prosápia e inconsciente ambição!  

António Sílvio Couto

domingo, 11 de setembro de 2011

Numa tentativa de evangelização pela procissão


Por estes dias realizaram-se, em vários pontos do nosso país, procissões inseridas em programas de festas e de romarias: umas com mais sabor cristão, outras mais como desfiles etnográficos, algumas com muitas imagens de santos e de santas, outras com alguma palavra da Palavra de Deus e, muitas outras, infelizmente sem qualquer aproveitamento dessa oportunidade de evangelização.
Cremos que será um crime-de-lesa-majestade não aproveitar esses momentos das procissões para levar, tantos os que nelas participam como aqueles que as vêem, a refletir sobre a vida, a fé e mesma a condição humana...
Deixamos, seguidamente, uma intervenção (despretenciosa) na procissão de Nossa Senhora da Boa Viagem, que por estes dias se festeja – com momentos de convívio, de tauromaquia e de fé – na Moita do Ribatejo... É (tão somente) uma breve explicação dos santos/as que integram a dita procissão, pois dos muitos assistentes talvez nem os/as conheçam.

Diante de Vós, Nossa Senhora da Boa Viagem, eis o povo da Moita, em dia de festa.
Aqui, junto ao cais, estamos todos os que Vos reconhecemos -- mais ou menos conscientemente -- como nossa Mãe, nossa rainha e nossa protetora.
* Trazemos nesta procissão santos e santas que nos fortalecem na fé e nos fazem viver em comunhão com Jesus e em Igreja:
- São Pedro é o chefe da Igreja, escolhido de entre pescadores para ser o responsável da Igreja ontem como hoje;
- São Miguel, o vencedor de Satanás, continua, hoje, a defender a Igreja e o mundo das insídias do maligno;
- São José, casto esposo de Maria e protetor da Sagrada Família vela, ainda hoje, por nós;
- São João Baptista, o precursor de Jesus, aponta para Ele, dizendo-nos que Jesus é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo;
- Nossa Senhora da Conceição, Nossa Senhora da Atalaia e Nossa Senhora dos Prazeres completam e resumem, numa primeira etapa, a vitória sobre o pecado, a força de confiança e a glorificação pascal... em cada lugar e em cada tempo.
* Com os mártires -- Santa Luzia, São Sebastião e São Lourenço -- refontalizamos a nossa fé adormecida, revigorando e fortalecendo o nosso compromisso neste mundo e neste tempo.
* Diante dos confessores e religiosos, que trazemos connosco na caminhada desta procissão, tentamos valorizar a entrega de vida e a dinâmica do nosso compromisso que se quer mais consciente e atuante:
- São Marçal protege-nos das chamas e dos perigos... com a ajuda daqueles que combatem os fogos, hoje como ontem;
- Por Santo Amaro nos confiamos à proteção contra as dores dos ossos e das mazelas corporais e mesmo espirituais;
- Em Santo António vemos e reconhecemos a entrega aos outros e a recuperação dos objetos perdidos;
- Com Santa Rita de Cássia confiamos os casos perdidos... mesmo os mais difíceis pessoais e familiares;
- Através de São Luís Gonzaga tentamos envolver todos os jovens e particularmente os estudantes;
- Na figura do Menino Jesus Praga sentimos a fortaleza da fragilidade, tanto na vida tanto como na espiritualidade de abandono... em Deus;
- Com Santa Teresinha do Menino Jesus vivemos a infância espiritual... sempre nova e cada vez mais necessária na vida em Igreja;
* Pelas evocações de Nossa Senhora do Carmo, de Nossa Senhora de Lourdes e de Nossa Senhora de Fátima, tentamos perceber os convites e os desafios de Deus à conversão nas várias manifestações de Sua e nossa Mãe...
* Finalmente, nesta procissão, trazemos em manifestação de fé pela vida,
- a presença do Sagrado Coração de Jesus - n’Ele vemos e reconhecemos a bondade de Deus para connosco, que Se fez coração em amor e em misericórdia... ontem, hoje e para sempre.
- Contemplando, mais atentamente a Vossa imagem -- Nossa Senhora da Boa Viagem -- vemos o Vosso filho Jesus que Se irradia do Vosso coração e, na vossa mão direita, percebemos a caravela em saída para o trabalho... de ontem e de hoje.
. Que Vosso Filho nos acolha, hoje e sempre.
. Pelo nosso trabalho ensinai-nos a santificar a nossa vida em amor, com confiança e maior confiança...
Com efeito, cada dia aprendemos melhor o sentido indicado nos sinais de Deus, hoje, amadurecidos cada vez melhor!
Esperamos, com este breve texto localizado no tempo e no espaço, poder contribuir para uma certa evangelização através desta procissão, tentando conhecer o meio e reconhecer as dificuldades de anúncio de Jesus.
(Pregação do Padre Sílvio na Procissão de Nª Sª da Boa Viagem 2011 - Moita -)
António Sílvio Couto

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Perante certas irracionalidades do nosso tempo

Na componente de evolução da pessoa humana e dos povos, por vezes, somos confrontados com manifestações – de pessoas e/ou de grupos – onde a singularidade da dimensão racional – algo mais do meramente racionalista – como que se ofusca ou (até) obnubila diante de certos comportamentos a roçar alguma irracionalidade, onde o que seria normal nas reações se torna ‘esquisito’ nas emoções.
Há campos de atuação e de opinião onde essa irracionalidade como se torna ainda mais notória e quase incongruente. Veja-se o que acontece na vertente do futebol: pessoas de largo e consolidado gabarito perdem as estribeiras quando abordam questões do mundo do seu clube... dito do coração... sobretudo futebolístico.
Perante estas reações – quase irracionais – sentimos uma espécie de necessidade de enquadrar estas vivências, tentando discernir algo mais do que as incandescentes labaredas da paixão... irracional.

= ‘Pão e jogos’ – lema ou alienação?
Desde tempos suficientemente recuados os responsáveis do poder quiseram entreter o povo com algo que pudesse alienar as dificuldades, sobretudo em tempo de crise. Os romanos davam circo (com matanças e sangue) e pão (quanto bastasse) aos cidadãos que usufruiam dessas regalias em tempo de paz... talvez podre, mas, possivelmente, sem derramamento de sangue em guerras... com outros.
Nesse tempo a inquietação trazida pelos cristãos foi alibi para que os governantes se dessem à distração de criar perseguição, pois os malfadados ‘invasores’ vieram trazer preocupação a uma certa irracionalidade mais ou menos epicurista: foram, efetivamente, bodes expiatórios para certas consciências mais ou menos incomodadas.
Crê-se que, em épocas de crise, o recurso à alienação coletiva – onde o desporto de massas como que assume um papel preponderante – torna-se como que algo mais do que uma mera distração, podendo reverter em adiamento para as mazelas sociais pouco assumidas ou até mal disfarçadas.
- Não será que a compra e/ou venda dos atores do futebol (ditos jogadores pagos a peso de ouro e diamantes) é já um prenúncio da falência desta cultura alienatória?
- Até onde poderá ir a irracionalidade das pessoas, quando se vendem ao clubismo (mais ou menos emocional) e como que obnubilam a racionalidade... só porque está em causa a sua cor preferida?
- Será que os instruídos – o exemplo que nos serve de parâmetro (até) é médico de alto gabarito internacional – se diferenciam dos analfabetos em questões de paixão futebolística?
- Como poderemos compreender tais comportamentos: pela paixão ou na desculpa da irracionalidade?

= Discípulos humildes na escola da vida
Pela mais alta apreciação que temos pela sabedoria da vida – onde os graus de qualificação têm muitos anos de amadurecimento pelo discernimento – vamos aprendendo que a escola da vida nos pode tornar sagazes ou manhosos, dependendo do critério com que nos relacionamos com os outros:  pela confiança crescemos na sinceridade, pela esperteza vamo-nos atolando na dissimulação, tanto para connosco mesmos como no trato com os outros. Escolhemos a sinceridade, mesmo que isso nos possa trazer desilusão, pois ‘os filhos da luz’, embora menos espertos – isto não quer dizer que menos inteligentes, pelo contrário! – hão-de vencer a manha, que é sinal do ‘espírito das trevas’.

Terminámos com uma breve estória, possivelmente já conhecida e, sobretudo, refletida pelos nossos leitores.
Um pai, muito atarefado nas suas consultas na internet, era incomodado pelo filho, talvez, com quatro ou cinco anos. Farto de o aturar tentou distraí-lo com uma tarefa que ele considerava de larga ocupação. Pegou numa revista e, rasgando uma folha, onde estava o mapa do mundo, cortou em pedaços a folha, dizendo ao filho:
- Tenta recompor este mapa.
Ora a criança, muito atenta, viu que, no verso daquela página, estava a figura de um homem. Bem depressa descobriu que, mesmo não conhecendo o mapa-mundi, podia recompor a figura do homem... que ele já (minimamente) conhecia.
- Pai, já está!
- Como é que conseguiste?
- Eu não conheço bem como é o mapa do mundo, mas sei como é a figura do homem.
De fato, talvez não saberemos nem poderemos reconstituir o mundo... nas suas mais diversas situações e problemas, mas poderemos tentar recompor o homem... em nós e à nossa volta.
Racionalmente podemos tentar. Irracional, clubística e futebolisticamente... será muito mais difícil!

António Sílvio Couto