Partilha de perspectivas... tanto quanto atualizadas.



quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Riqueza da nossa gastronomia... em maré de crise

Há cerca de um mês, por votação eletrónica de todo o país, foram escolhidas as sete maravilhas da gastronomia portuguesa. O resultado foi o seguinte: alheira de Mirandela, queijo da Serra da Estrela, caldo verde, arroz de marisco, sardinha assada, leitão da Bairrada e pastel de Belém. Os votantes superaram mais de um milhão de pronunciamentos.
O processo de seleção, que teve início com cerca de setenta pré-selecionados, reduziu-se, na fase final, a vinte e um concorrentes, segundo as várias etapas de uma refeição à portuguesa... desde as entradas até à sobremesa, passando pela sopa e pelo prato de peixe ou de carne.
Serve esta nossa abordagem à gastronomia para tentarmos perceber a nossa riqueza, feita de coisas simples e populares... quando tantos se deixam ludibriar com ingredientes de supeita qualidade.

1.Coisas simples e saudáveis
Partindo da grande variedade de sugestões do nosso cardápio gastronómico, podemos dizer que as ‘sete maravilhas’ mais votadas são das mais simples e (até) das mais saudáveis: um pouco de engenho e alguma subtileza fez das ‘comidas’ vencedoras o regalo do povo... nos nossos dias e no tempo dos nossos pais e avós. Com feito, a possibilidade de ter umas sardinhas assadas eram uma vitória nos anos setenta e agora tem honras de serem bem pagas na ementa de muitos restaurantes. Um caldo verde, feito com as coisas mais rudimentares da horta serve de promoção a festas e romarias... dando a crer que, por ser simples, é bem melhor do que certas sopas da ‘nouvelle cuisine’.
Talvez estas ‘sete maravilhas da gastronomia’ tenham vindo acordar certos peritos – diz-se agora ‘experts’ – do fast food (tanto de mercado como dalguns restaurantes da moda) que nada tem de genuíno nem de português, criando uma nova vaga de sensibilidade ao que é nosso, deixando cair a máscara dessa mescla europeia de comidas de plástico, sem sabor, com pouca qualidade e fazendo bem pior à saúde.
A consagração de ‘maravilhas’ deu àqueles pratos nova projeção, numa espécie de exorcismo contra alguns novos-ricos que se iam envergonhando daquilo que é nosso, vendendo-se à internacionalização de certas modas, que mais não são do que uma certa globalização da mediocridade a começar à mesa...

2. Saber comer com qualidade e moderação
Atendendo ao mais recente desenvolvimento da obesidade em Portugal, vai crescendo a consciencialização de que temos de cuidar da nossa alimentação (dita) mediterrânica e que as ‘sete maravilhas da gastronomia’ como que a vieram colocar no devido lugar e na importância correta da nossa forma de comer. De fato, foi quando deixamos que entrassem certos ingredientes de duvidosa qualidade na confeção dos nossos alimentos, que crianças, adolescentes e jovens, começaram a ganhar peso, correndo riscos na saúde... atual e futuramente.
Não deixa de ser inquietante que continuemos a comer em quantidade – como se fossemos todos trabalhar no campo em esforço – sem o correspondente desgaste físico... E depois têm/temos de ir queimar calorias com exercício físico a pagar os serviços prestados!
Ora, nesta época de crise, como que podemos/devemos viver numa aprendizagem crescente da nossa condição neste mundo, que tem tanto de exagerado pelo excesso na comida como pela sua contenção. Com efeito, viver de forma equilibrada – físico/biológica e psicológico/espiritual – é tarefa que terá de evoluir... pela moderação e na  temperança.
Efetiva e afetivamente é exigente viver de forma equilibrada... sabendo conhecer as nossas mais ou menos assumidas compensações (na comida, na bebida e noutros vetores mais subtis), sem desculpa, assumindo a verdade para connosco mesmos e para com os outros.
Verdade, a quanto obrigas!

 António Sílvio Couto

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Contra uma certa cultura... de fachada

Numa espécie de repulsa e duma incontida rejeição, ouso dizer – como português com alguma instrução, graças a Deus, com distanciamento de certos ‘cultos’ e ainda com alguma independência assumida e agradecida – que me enoja a petulância de alguns (pretensos) inteletuais que se nivelam pelas pretensões daqueles que os adulam e se curvam acintosamente a quem os promove e explora.
Sinto vergonha – não ‘em ser português’ como disse um certo purpurado com galões militares e outras tantas regalias de bem-falante – em ter de ficar calado – que não em silêncio nem a resmungar – ao tentarem reduzir a expressão ‘cultura’ aos fazedores dessa reinante mentalidade hedonista/materialista, marxista/maçónica e, sobretudo, em cruzada anti-cristã.
Tendo participado – ativa, consciente e atentamente – na manifestação cultural duma procissão católica, na Moita do Ribatejo – com milhares de pessoas, tanto participantes como assistentes – e sem qualquer referência noticiosa, que uns míseros fantoches – esse seria um bom epíteto para o número ‘artístico’ que serviu de boneco à notícia, no centro de Lisboa – tenham levado a dar-lhes tempo de antena como ‘indignados’, quando o termo mais correto deveria ser de ‘indignos’, apesar de tudo, nesta ‘nossa cultura’... medíocre, subsidiada e de fachada adulada e aduladora... dos patrocionadores e/ou abespinhada de quem não a promove ou aplaude... mesmo que tacitamente.  

1.Culturalmente laicista por conveniência ou tática?
Não deixa de ser preocupante que a tendência da noção de ´cultura’ seja, cada vez mais, uma espécie de luta contra tudo que possa manifestamente farejar-se como avesso às coisas de índole espiritual – incluímos aqui as várias leituras sob as diferentes tendências onde a perspetiva metafísica possa surgir! – combatendo, sobretudo, o mínimo afloramento cristão... como retrógrado, conservador ou (quase) anti-social. De fato, estamos a colher os resultados da sementeira de ignorância fora de Deus e/ou da ruptura com os valores evangélicos, tanto na dimensão social como na incidência política, educacional e, mais abragentemente, cultural... pois interessou explorar um certo preconceito obscurantista, afunilando os métodos e condicionando as leituras...
Os programas da maior parte dos estudos – nas escolas secundárias e/ou nas universidades – foram sendo concebidos em ordem a decapitar da noção de espiritualidade todo e qualquer desenvolvimento dos mais novos, tornando-os servidores da ideologia que faz de cada indivíduo uma espécie de ‘ser não-pensante’, desde que aplauda uns tantos autores progressistas... na linha anti-vida, contra a família e como mentores da regulação estatal dos comportamentos com os subsídios da pílula e do preservativo... a pataco ou de emergência.
Vivemos numa tendência progressiva a fazer de cada pessoa uma espécie de joguete nas coisas de valorização da dimensão psicológica e espiritual... promovendo jogos de dissimulação, de acontecimentos de boa aceitação popular, com convívios e comezainas ao desbarato, simulando espetáculos com artistas bem cotados... pois distrair o povo vai entretendo e alienando... fazendo, agora, dos jogos (de futebol ou afins) essoutra subtileza para distrair os mais incautos, os esfomeados, os desempregados...
Até onde poderá ir esta campanha? Quem ousará afrontar tais interesses? Poderemos contar com interessados nesta luta... do lado do não-materialismo?

2. Depois do atual ‘pão e jogos’, poderá surgir uma outra cultura... humanista?
Se atendermos à época de decadência do império romano do Ocidente poderemos encontrar idênticos sinais de crise de civilização com aquela que estamos a viver: imoralidade (mistura de amoralidade com comportamentos de imoralidade, cfr. Rm 1,26-27), descalabro económico e tensões sociais... afrontamento da nova cultura emergente do cristianismo, como desafio social e moral. De fato, a força do cristianismo cresceu do lodo (esterco ou descalabro) da cultura, cada vez menos humanista, do império romano do ocidente.
Hoje, sentimos as oscilações da nossa (dita) cultura ocidental, que, como que rejeitando os seus alicerces mais comuns e fundacionais, se vê confrontada com um colapso da razão de ser do (pretenso) projeto europeu, que poderá implodir, quando cada estado ou uma ou outra das tendências quiserem impor-se às outras... mesmo que vivendo num frágil equilíbrio das várias forças... ideológicas, financeiras e morais/espirituais.
- Não basta tentar encher estádios de futebol, se o povo vive na penúria.
- Não basta fazer festas e distribuir bebidas ao desbarato, se o povo continua ignorante.
- Não basta reclamar contra tudo e com alguns, se o povo estiver desempregado e ao sabor dos manipuladores.
- Não basta encher praças e avenidas com subsidiodependentes, se o povo ao chegar a casa tiver o prato cheio de nada.
- Não basta tentar enganar... porque a mentira, a exploração e o medo depressa desenganam, quem pensa.

Porque acreditamos na força do humanismo cristão, dizemos: podem contar connosco na valorização da cultura popular, servindo as pessoas, desinteressadamente.

António Sílvio Couto

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Ai, se eu fosse rico!

Num suspiro quase incontido muitas pessoas tentam concretizar este desejo: ‘ser rico’ e com isso conseguirem viver (talvez) sem trabalhar, usufruindo de certas mordomias, gozar de outras regalias... numa espécie de preguiça militante e (até) malévola... quanto baste.
Para tentar atingir tal desejo uns jogam nos mais díspares concursos e jogos de fortuna/azar, outros tentam conseguir algum sortilégio ou mesmo herança, mas muito poucos anseiam serem ricos trabalhando honesta e lealmente.


1.Breve diagnóstico
Acabado o tempo de férias – mais ou menos oficial – do Verão terminado, teremos de enfrentar (quase irremediavelmente) uma vaga de manifestações dos promotores da contestação, seja sindical e político/partidária, seja dos setores mais ou menos atingidos pela contenção económico/financeira.
- Daqueles que contribuíram – pela falsidade dos números e das opções políticas – vemos uma espécie de assobiar para o lado, não se sentindo corresponsáveis pelo descalabro do país nem pela vergonha da Nação, que vive, agora, de mão estendida à pedinchice europeia... pagando todos nós os erros de alguns.
- Daqueles que sempre vivem, sobretudo, da miséria alheia, vemos uma razoável pretensão em serem paladinos duma salvação, quando afinal, o que eles desejam é esse ‘quanto pior melhor’, pois sobrevivem dalguma desgraça alheia em ordem a crescerem na sua maledicência, seja ela sindicalista, seja autárquica ou mesmo interesseira de projetos internacionalistas de sabor (já) esgotado... noutras paragens e ideologias.
- Daqueles que fogem quando as coisas correm mal – sem quase nunca responderem nem serem responsabilizados pelos erros ou pelas más opções que deixaram o país na miséria – espreitam, novamente, alguma oportunidade de voltarem ao lugar da projeção, da promoção e mesmo da nova rentabilização dos conhecimentos – há quem lhe chame lóbi – tidos e havidos no desempenho da função... dita social.
Sem pretendermos fomentar qualquer ‘caça à bruxas’, não será conveniente vivermos para sempre embuchados... na convicção de que vale tudo e ninguém assume as suas responsabilidades, tanto pessoais como grupais e político-partidárias!

2. Alguns desafios
Talvez tenha chegado o tempo de sermos (minimamente) sérios para levantarmos o nosso país na prossecução de um projeto nacional – sem tentarmos esconder um certo teor mais ou menos nacionalista – onde cada um sente as necessidades alheias como intenções pessoais e faz das debilidades próprias um alavancar de força para vencer com a ajuda dos outros... em sintonia, em concordância e como imperativo de consciência comunitária, que é mais do que coletiva ou bem intencionada... consumista.
- Daqueles que têm a força económica precisamos que ponham os seus bens ao serviço dos outros, sem medo de serem vilipendiados por esses que empregam... tanto nas horas de sucesso, como nos momentos de (indesejável) insucesso. Certos empregados precisam de ser educados e uns tantos empregadores manifestam, por seu lado, uma urgente necessidade de reciclagem em ordem ao bem comum, profissionalizando-se e tornando-se empresários, que é muito mais do que serem (meros) patrões!
- Daqueles que vivem na esfera sindical precisamos que tenham visão de futuro, tanto nas reivindicações como nas manifestações de contestação, pois, se o direito lhes assiste a exigirem, o bom-senso deverá nortear os objetivos atuais e, particularmente, os futuros. Estamos a ser escrutinados por quem nos empresta o dinheiro e não podemos deitar tudo a perder com pruridos de poderzinhos interesseiros!
- Daqueles que têm o dinheiro – mesmo sem ser, totalmente, esmiuçado pelos impostos – esperamos que sejam capazes de criar condições para investirem, atendendo às razões e não às meras emoções... espevitando a criatividade e não enrolando-se na mera incapacidade de serem compreendidos pelos (ditos) trabalhadores.

Afinal, pretender ‘ser rico’ exige bom-senso e discernimento, pois nem sempre aqueles a quem se dá a mão e, por vezes, o pão têm consciência do esforço para tal continuarem dele a usufruírem. Deus nos livre de certos ‘pobres’ virem a ser ricos... tudo e todos esmagariam com a sua prosápia e inconsciente ambição!  

António Sílvio Couto

domingo, 11 de setembro de 2011

Numa tentativa de evangelização pela procissão


Por estes dias realizaram-se, em vários pontos do nosso país, procissões inseridas em programas de festas e de romarias: umas com mais sabor cristão, outras mais como desfiles etnográficos, algumas com muitas imagens de santos e de santas, outras com alguma palavra da Palavra de Deus e, muitas outras, infelizmente sem qualquer aproveitamento dessa oportunidade de evangelização.
Cremos que será um crime-de-lesa-majestade não aproveitar esses momentos das procissões para levar, tantos os que nelas participam como aqueles que as vêem, a refletir sobre a vida, a fé e mesma a condição humana...
Deixamos, seguidamente, uma intervenção (despretenciosa) na procissão de Nossa Senhora da Boa Viagem, que por estes dias se festeja – com momentos de convívio, de tauromaquia e de fé – na Moita do Ribatejo... É (tão somente) uma breve explicação dos santos/as que integram a dita procissão, pois dos muitos assistentes talvez nem os/as conheçam.

Diante de Vós, Nossa Senhora da Boa Viagem, eis o povo da Moita, em dia de festa.
Aqui, junto ao cais, estamos todos os que Vos reconhecemos -- mais ou menos conscientemente -- como nossa Mãe, nossa rainha e nossa protetora.
* Trazemos nesta procissão santos e santas que nos fortalecem na fé e nos fazem viver em comunhão com Jesus e em Igreja:
- São Pedro é o chefe da Igreja, escolhido de entre pescadores para ser o responsável da Igreja ontem como hoje;
- São Miguel, o vencedor de Satanás, continua, hoje, a defender a Igreja e o mundo das insídias do maligno;
- São José, casto esposo de Maria e protetor da Sagrada Família vela, ainda hoje, por nós;
- São João Baptista, o precursor de Jesus, aponta para Ele, dizendo-nos que Jesus é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo;
- Nossa Senhora da Conceição, Nossa Senhora da Atalaia e Nossa Senhora dos Prazeres completam e resumem, numa primeira etapa, a vitória sobre o pecado, a força de confiança e a glorificação pascal... em cada lugar e em cada tempo.
* Com os mártires -- Santa Luzia, São Sebastião e São Lourenço -- refontalizamos a nossa fé adormecida, revigorando e fortalecendo o nosso compromisso neste mundo e neste tempo.
* Diante dos confessores e religiosos, que trazemos connosco na caminhada desta procissão, tentamos valorizar a entrega de vida e a dinâmica do nosso compromisso que se quer mais consciente e atuante:
- São Marçal protege-nos das chamas e dos perigos... com a ajuda daqueles que combatem os fogos, hoje como ontem;
- Por Santo Amaro nos confiamos à proteção contra as dores dos ossos e das mazelas corporais e mesmo espirituais;
- Em Santo António vemos e reconhecemos a entrega aos outros e a recuperação dos objetos perdidos;
- Com Santa Rita de Cássia confiamos os casos perdidos... mesmo os mais difíceis pessoais e familiares;
- Através de São Luís Gonzaga tentamos envolver todos os jovens e particularmente os estudantes;
- Na figura do Menino Jesus Praga sentimos a fortaleza da fragilidade, tanto na vida tanto como na espiritualidade de abandono... em Deus;
- Com Santa Teresinha do Menino Jesus vivemos a infância espiritual... sempre nova e cada vez mais necessária na vida em Igreja;
* Pelas evocações de Nossa Senhora do Carmo, de Nossa Senhora de Lourdes e de Nossa Senhora de Fátima, tentamos perceber os convites e os desafios de Deus à conversão nas várias manifestações de Sua e nossa Mãe...
* Finalmente, nesta procissão, trazemos em manifestação de fé pela vida,
- a presença do Sagrado Coração de Jesus - n’Ele vemos e reconhecemos a bondade de Deus para connosco, que Se fez coração em amor e em misericórdia... ontem, hoje e para sempre.
- Contemplando, mais atentamente a Vossa imagem -- Nossa Senhora da Boa Viagem -- vemos o Vosso filho Jesus que Se irradia do Vosso coração e, na vossa mão direita, percebemos a caravela em saída para o trabalho... de ontem e de hoje.
. Que Vosso Filho nos acolha, hoje e sempre.
. Pelo nosso trabalho ensinai-nos a santificar a nossa vida em amor, com confiança e maior confiança...
Com efeito, cada dia aprendemos melhor o sentido indicado nos sinais de Deus, hoje, amadurecidos cada vez melhor!
Esperamos, com este breve texto localizado no tempo e no espaço, poder contribuir para uma certa evangelização através desta procissão, tentando conhecer o meio e reconhecer as dificuldades de anúncio de Jesus.
(Pregação do Padre Sílvio na Procissão de Nª Sª da Boa Viagem 2011 - Moita -)
António Sílvio Couto

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Perante certas irracionalidades do nosso tempo

Na componente de evolução da pessoa humana e dos povos, por vezes, somos confrontados com manifestações – de pessoas e/ou de grupos – onde a singularidade da dimensão racional – algo mais do meramente racionalista – como que se ofusca ou (até) obnubila diante de certos comportamentos a roçar alguma irracionalidade, onde o que seria normal nas reações se torna ‘esquisito’ nas emoções.
Há campos de atuação e de opinião onde essa irracionalidade como se torna ainda mais notória e quase incongruente. Veja-se o que acontece na vertente do futebol: pessoas de largo e consolidado gabarito perdem as estribeiras quando abordam questões do mundo do seu clube... dito do coração... sobretudo futebolístico.
Perante estas reações – quase irracionais – sentimos uma espécie de necessidade de enquadrar estas vivências, tentando discernir algo mais do que as incandescentes labaredas da paixão... irracional.

= ‘Pão e jogos’ – lema ou alienação?
Desde tempos suficientemente recuados os responsáveis do poder quiseram entreter o povo com algo que pudesse alienar as dificuldades, sobretudo em tempo de crise. Os romanos davam circo (com matanças e sangue) e pão (quanto bastasse) aos cidadãos que usufruiam dessas regalias em tempo de paz... talvez podre, mas, possivelmente, sem derramamento de sangue em guerras... com outros.
Nesse tempo a inquietação trazida pelos cristãos foi alibi para que os governantes se dessem à distração de criar perseguição, pois os malfadados ‘invasores’ vieram trazer preocupação a uma certa irracionalidade mais ou menos epicurista: foram, efetivamente, bodes expiatórios para certas consciências mais ou menos incomodadas.
Crê-se que, em épocas de crise, o recurso à alienação coletiva – onde o desporto de massas como que assume um papel preponderante – torna-se como que algo mais do que uma mera distração, podendo reverter em adiamento para as mazelas sociais pouco assumidas ou até mal disfarçadas.
- Não será que a compra e/ou venda dos atores do futebol (ditos jogadores pagos a peso de ouro e diamantes) é já um prenúncio da falência desta cultura alienatória?
- Até onde poderá ir a irracionalidade das pessoas, quando se vendem ao clubismo (mais ou menos emocional) e como que obnubilam a racionalidade... só porque está em causa a sua cor preferida?
- Será que os instruídos – o exemplo que nos serve de parâmetro (até) é médico de alto gabarito internacional – se diferenciam dos analfabetos em questões de paixão futebolística?
- Como poderemos compreender tais comportamentos: pela paixão ou na desculpa da irracionalidade?

= Discípulos humildes na escola da vida
Pela mais alta apreciação que temos pela sabedoria da vida – onde os graus de qualificação têm muitos anos de amadurecimento pelo discernimento – vamos aprendendo que a escola da vida nos pode tornar sagazes ou manhosos, dependendo do critério com que nos relacionamos com os outros:  pela confiança crescemos na sinceridade, pela esperteza vamo-nos atolando na dissimulação, tanto para connosco mesmos como no trato com os outros. Escolhemos a sinceridade, mesmo que isso nos possa trazer desilusão, pois ‘os filhos da luz’, embora menos espertos – isto não quer dizer que menos inteligentes, pelo contrário! – hão-de vencer a manha, que é sinal do ‘espírito das trevas’.

Terminámos com uma breve estória, possivelmente já conhecida e, sobretudo, refletida pelos nossos leitores.
Um pai, muito atarefado nas suas consultas na internet, era incomodado pelo filho, talvez, com quatro ou cinco anos. Farto de o aturar tentou distraí-lo com uma tarefa que ele considerava de larga ocupação. Pegou numa revista e, rasgando uma folha, onde estava o mapa do mundo, cortou em pedaços a folha, dizendo ao filho:
- Tenta recompor este mapa.
Ora a criança, muito atenta, viu que, no verso daquela página, estava a figura de um homem. Bem depressa descobriu que, mesmo não conhecendo o mapa-mundi, podia recompor a figura do homem... que ele já (minimamente) conhecia.
- Pai, já está!
- Como é que conseguiste?
- Eu não conheço bem como é o mapa do mundo, mas sei como é a figura do homem.
De fato, talvez não saberemos nem poderemos reconstituir o mundo... nas suas mais diversas situações e problemas, mas poderemos tentar recompor o homem... em nós e à nossa volta.
Racionalmente podemos tentar. Irracional, clubística e futebolisticamente... será muito mais difícil!

António Sílvio Couto

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Num Verão (aparentemente) sem crise

Festas e romarias, festivais de música e de gastronomia, incêndios e acidentes... têm estado a ser servidos neste Verão... como noutros do passado.
- Crise? – que é isso, afinal!
- Sim. Esse tal fantasma ainda por cá não passou... Parecem dizer muitos em surdina.
Tentemos esmiúçar certos impropérios – tão lusos, tão repetidos  e tão vazios – com que já nos vimos a enganar há uns tempos, dizendo que ‘este ano está pior’... quando ainda nem sabemos o que, de fato, virá a acontecer a curto ou a médio prazo.

= De algum desgraçadismo fatalista...
Em matéria de lamúria não há quem nos ganhe... por essa Europa fora: temos uma forte propensão para nos amesquinharmos diante das dificuldades ou, noutras situações, para nos impertigarmos de bazófia em maré de desilusão. Nós, portugueses, somos um povo muito especial: ora estamos nos cumes do sucesso, ora deambulamos pelas ruas da amargura do insucesso... mais ou menos relativo. Normalmente não somos ponderados na avaliação e nas reações às contrariedades da vida pessoal, familiar ou coletiva.
Desgraçadamente somos um povo que passa num ápice do estado de euforia para a ressaca de uma depressão. Se quisessemos usar uma imagem é como quem está no alto do promontório do Bom Jesus do Monte e cai abruptamente – sem contar as centenas de escadas – para o sopé do escadório... mais depressa do que a água a esvaziar-se do elevador...em fim de viagem.
O melhor retrato desta nossa condição coletiva de fatalismo tem sido, paradoxalmente, o futebol: ora somos invencíveis, ora não temos qualquer hipótese de ganhar ao mais ínfimo adversário! Por estes dias seremos postos à prova!...

= ... A um certo riquismo falido
Há dias alguém referia em jeito de sarcasmo: só quero o facebook para ficar a saber onde os meus vizinhos vão passar férias!
De fato, há muita gente que pretende vender uma imagem para que possa dar (mais boa do que má) imagem de quem até vive bem... nem que seja à custa da falsidade ou até da mentira.
Temos vivido acima das nossas possibilidades, criando expetativas que nem sempre correspondem à verdade daquilo que somos. Temos sido influenciados por propagandas indecentes, que foram gerando nas pessoas uma quase impunidade em não cumprirem as obrigações que têm umas para com as outros e mesmo para com o Estado. Temos andado a fugir da nossa realidade autêntica, refugiando-nos nos subsídios da União Europeia e até na sua (aparente) generosidade. Temos a assumir aquilo que somos ou andaremos iludidos... irresponsavelmente.
Quando vemos serem, sobretudo, promovidos os devedores, fazendo deles heróis da literatura cor-de-rosa. Quando vemos crescer a cultura da fachada, tornando os preguiçosos modelos de comportamento. Quando se tenta fazer passar uma exaltação dos direitos adquiridos – sabe-se lá a que preço e com que meios! – sem gerarmos uma cultura do trabalho honesto e comprometido com o bem comum.
Então, dizemos:
- A crise parece um pesadelos para alguns, embora atinja todos;
- A crise ainda não chegou verdadeiramente, pois uns tantos vivem sem dela se terem apercebido;
- A crise, neste Verão, ainda (só) foi miragem ou será que é, de verdade, alucinação de perdidos no deserto?

A.Sílvio Couto

sábado, 20 de agosto de 2011

Novos desafios filosóficos ao cristianismo... atual

Quais são as (possíveis) causas de um acentuado abandono da vivência da fé, particularmente, em condição de Igreja, sobretudo na dimensão católica? Que mudou tanto psicologicamente para que as pessoas se tenham afastado das propostas da Igreja? Terá havido algo que, filosófica e culturalmente, se alterou para que, no nosso tempo, vivamos segundo outros aspetos que, anteriormente, eram fatores de estabilidade? Como podemos viver em consonância com os valores do Evangelho, neste mundo secularizado e, sobretudo, laicizado, numa perspetiva quase anti-cristã?
Por ocasião do surgimento do cristianismo – há mais de dois mil anos – vigoravam, ‘grosso modo’, duas grandes correntes filosóficas, com razoávies incidências sociais e religiosas, denominadas estoicismo e epicurismo... como formas diametralmente opostas de ver a vida e de a viver... pessoal e socialmente.
Em resumo vejamos como se caraterizavam estas correntes filosóficas:
* O ‘estoicismo’ propõe-se viver de acordo com a lei racional da natureza e aconselha a indiferença (apathea) em relação a tudo que é externo ao ser. A escola estóica foi fundada no século III a.C. por Zenão de Cítio e que preconizava a indiferença à dor de ânimo oposta aos males e agruras da vida, devendo manter a serenidade perante as tragédias e as coisas boas. Diz-se estóico aquele que revela fortaleza de ânimo e austeridade, impassível, imperturbável, insensível.
* ‘Epicurismo’ é o sistema filosófico ensinado por Epicuro, que acreditava que o maior bem era a procura de prazeres moderados de forma a atingir um estado de tranquilidade (ataraxia) e de libertação do medo, assim como a ausência de sofrimento corporal (aponia) através do conhecimento do funcionamento do mundo e da limitação dos desejos. A combinação desses dois estados constituiria a felicidade na sua forma mais elevada.
A finalidade da filosofia de Epicuro não era teórica, mas prática e que buscava sobretudo encontrar o sossego necessário para uma vida feliz e aprazível, na qual os temores perante o destino, os deuses ou a morte estavam definitivamente eliminados.

= Como é que estas duas vivências filosóficas terão influenciado (mais ou menos) o cristianismo? Será que o pensamento cristão tomou partido por algumas destas filosofias? A práxis cristã gerou mais adesão ao estoicismo ou ao epicurismo?
Tentaremos, agora, esmiuçar alguns aspetos destas correntes ético/filosóficas em ordem a perceberemos como é que hoje vivemos – na Igreja como no mundo – mais sobre a condução de uma ou de outra.

# De uma certa referência ao estoicismo...
Segundo alguns autores, sobretudo com fundamentação na patrística, o cristianismo – sobretudo na hora da sua formulação ético-religiosa – como que teve uma escolha mais da vertente estóica em detrimento da vivência epicurista. A máxima de indiferença sobre o sofrimento deixou marcas na teologia cristã, criando mesmo – no contexto da paixão de Cristo – um exemplo máximo de imperturbabilidade... diante das agruras e dificuldades da vida.
Assim o ‘bom cristão’ será (ou seria) aquele que fosse capaz de viver em serenidade – ao menos exterior – perante as mais variadas dificuldades da vida, tanto pessoal como com os outros. Até a contemplação de Jesus no processo da Sua paixão se torna uma espécie de modelo extremo dessa ‘indiferença’ e mesmo de purificação nas dificuldades da vida (dita) normal.
De algum modo a espiritualidade (particularmente) católica – sobretudo após a etapa da Reforma – foi criando, na mentalidade latino/romana uma forte apetência pelo estóicismo – tanto pessoal como social – com atos de culto e de religiosidade, onde cada um tentava purificar-se pelo sacrifício assumido ou imposto pela penitência em desconto pelos pecados... mais pessoais do que sociais.
Mesmo que inconscientemente fomos – dizemo-lo sem pejo nem mágoa – formados na escola de um certo estoicismo cristianizado, onde cada momento de contrariedade era (ou é) como que visto na linha de sofrermos em desconto dos nossos pecados pessoais e até sociais. Ora, certos atos de penitência – sobretudo na época da Quaresma – como que soam a gestos coletivos de compensação pelo mal feito e que podem ter ofendido a santidade divina.  

# ... À escolha (atual) do epicurismo
Por outro lado, dada essa escolha preferencial pelo estoicismo, o epicurismo entrou numa linha de (quase) demonização, pois o prazer da vida – ‘carpe diem, sape vinem’ – como que se tornou uma espécie de ofensa à vitória sobre a nossa condição de tentados e (mesmo) de pecadores.
Se o sacrifício – da proposta estóica – era como que uma vitória sobre nós mesmos, o prazer – da mentalidade epicurista – revestiu-se de uma certa cedência ao pecado na carne e daquilo que ela significava...
Ora, tendo muitos dos nossos contemporâneos, de algum modo, sacudido o condicionamento da barreira ético/religiosa... cristã, o prazer – mesmo que desregrado de qualquer ética normativa – conquistou a práxis mais popular, sendo, hoje, confrontados com as razoáveis consequências em que cada um faz o que lhe apetece, desde que isso lhe dê prazer e até lhe possa criar pouca relutância moral... Com efeito, a norma moral passou do absoluto para o relativo, onde cada um é como que a bitola do seu próprio comportamento e já não se deixa guiar por um quadro de moralidade... exterior e mesmo coletiva.
Deste modo o epicurismo foi-se sobrepondo, progressivamente, ao estoicismo, gerando uma nova moral com as suas regras de conveniência... ao ritmo das consequências e não das causas: cada pessoa tornou-se ela mesma como que a regra de comportamento, mesmo que isso possa colidir com outros absolutos relativos... concorrenciais.

# Alguns desafios em tempo de mudança
Atendendo a alguma confusão que, entretanto, se foi criando – onde a máscara estóica foi substituída pela personagem hedonista – a vivência atual traz-nos alguns desafios:
- Somos mais do que sensações corporais. Temos de interagir com os outros sabendo respeitá-los nos seus valores... mesmo que não declarados, mas, ao menos, subentendidos.
- Somos seres de dádiva e não de mera sensação. Temos de promover a valorização da dimensão espiritual, respeitando e sendo respeitados... seja qual for o/a nosso/a interlocutor/a.
- Somos pessoas em relação e não meras figuras descartáveis. Temos de valorizar, conveniente e corretamente, a dimensão do prazer sem ofender a presença de Deus em nós mesmos e nos outros e de vermos os outros em Deus.
Numa palavra: o prazer – seja qual for a sua dimensão de intercomunhão – nem sempre é mau, desde que tenhamos todos bem clara e viva a dimensão divina como espaço de relação e de comunicação.   

A.Sílvio Couto